2006-07-20

O chão e o lume


Capítulo V
Martim de Gouveia e Sousa


assim a conversa no marulhar do tímpano. voltar a mim, à condição una – este é o desejo. dentro da noite, sei que não mais os sentimentos e as memórias afectarão o sonho. não durmo, afogo-me nos lençóis. lisa, a língua vibra nos dentes. é hoje o dia de acender a cidade, tirá-la da escuridão. no peito o coração parte em desfilada rápida, compassada.

assim eu na noite, encostado ao quarto de hotel, esperando a hora de acordar da morte o velho casario e as novas cavernas – gente sobre gente nada sabendo, pouco conhecendo. fito o relógio. os ponteiros parecem colados, não avançam. tal a vontade, o desígnio, em reverso.

assim a noite parou. tudo dentro do hotel parou. os duches eternizaram em estátua os corpos nus, suados, usados. a perda da memória instalou-se em Viseu como o vazio absoluto no livro de miller. à entrada, um automóvel estacou debaixo da guarda luminosa. em mim, uma descarga desceu no corpo, atirando-me ao abismo, dele me trazendo penosamente. um dedo mexe, a ossatura estremece. num estilhaço de tempo a vida corre-me de novo nas veias.

assim a água corre. assim tudo está suspenso. devastado, como que vindo da morte, suspendo-me em água fria, escorrente. descanso agora. o fluxo da memória voltou, os movimentos voltam ao quotidiano. sei que estou pronto então.

assim. no corredor, um garçon lembra a tragédia de pompeia, interceptado pelo gelo a meio do transporte de uma ceia noite dentro. um silêncio assustador levanta-se da sola dos sapatos. viro ao fundo e assusto-me com o esgar de uma conversa a meio, apatetada pela paragem. não olho e avanço escadas abaixo, pelo corrimão descendo a mão peregrina. em frente, na curva dele, uma senhora de olhar vítreo, bela mulher de membros bem lançados, permanece. olho e desvio-me, perseguindo ainda a escultura do corpo plantado a meio. ultrapasso já o grande átrio, também estranho, amarelento. cá fora, um automóvel não ultrapassa a entrada e a guarda lembra a velha espada de damocles.

assim decidido avanço. sei o que fazer. e vou. um relâmpago ilumina a cidade e rebenta-me nos ombros. pela memória o tímpano vem à pele e o coração arde na boca. e vou.

9 comentários:

konde disse...

Vamos então... Abraço!

Franceska disse...

Muito interessante! Beijos!

mj disse...

Tudo em Azul, a Escrita, o Mar, as Férias!

'said, or not said', Viva o Konde!

porfirio disse...

boa-noite amigo

:
brilhante capítulo
e lê-se
num relâmpago

abraço

Mendes Ferreira disse...

beijo....








bom...tão bom...Martim.

Anónimo disse...

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Anónimo disse...

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