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2017-12-23

Lembrar «Oblívio» de Daniel Jonas...


Lembrar «Oblívio» de Daniel Jonas...

É um dos livros do ano, claro! A toada sonetista de Daniel Jonas é surpreendente, numa medida quase saturada pelo uso. Como um epimítio, o uso sem abuso ensina que a surpresa nasce da surpresa e no estro. Permite este Oblívio sonetos como o que transcrevo:

AQUI NESTA TEBAIDA, OUÇO A PAZ.
Aceito a tua luz, o teu negrume,
Meus olhos são pastagens p'ra teu estrume,
Aceito o que me deres e o que não dás.
Eu ouço a metafísica das sarças,
As bruxas megalíticas das argas,
Reviro pedras, lágrimas amargas,
Procuro-te nos paus, nas rãs, nas esparsas.
Aceito que te busque e não me fales.
Onde estarás: na urze, na perpétua,
No verso mais perfeito, em rima incerta?
Aceito ouvir-te e tudo me cales.
À uma és e não; o tudo e o quase.
Em toda a parte estás, eclipse e fase. [p. 41]

2016-09-29

[guia de audição]

[guia de audição]

ouve-me agora neste rasto assim tão fundo
que cruza  todo o planeta e os longes mares
de espuma que transbordam no íntimo peito.

ouve o dia o insólito dos limiares o fogo breve
os leitos correndo contra as angústias do sangue
o súbito declinar dos dias os longos trabalhos.

encosta tudo à limpidez das horas às sombras
calmas das manhãs aos horizontes marinhos
entre tudo e nada fulgurando entre os dedos.

lê o poema e a agudeza: «Dá-me mais vinho,
porque a vida é nada.»  Conclui, conclui então
que, isso sendo, tudo é, porque o nada é tudo.

2016-08-18

[memória de fogo]


[memória de fogo]

ainda lembro a penumbra de tudo
um mar  vasto de  sons  e sonhos
a rebentação dos poros na manhã
a imensa luz como aracne na pele:
um grito fundo musical nas ondas
por mim fendendo os trabalhos
como se os dias isso não fossem...

ainda lembro o horizonte vasto
o brilho visceral dos olhares vivos
a macieza dos pomos os frutos
breves e dóceis na palma da mão:
a faca então cortante o doce disso
deflagrando dos pés ao coração
como um friso de mel  ardendo…

¿que de mim ouves mulher aérea
dos ramos vindo célere copiosa
de sede em mim sendo este fogo?

2016-07-28

[alexandria-1]


[alexandria-1]

na noite nua de cigarro em punho o homem dizia palavras e sonhos
sentava-se na brisa do tempo dilatava o tronco ao sabor da beladona
e nem a cidade ardida culpada de todo o transe encontrava punição
que não fosse aquele ardor dentro do ativo silêncio da escuridade...
e dentro de tudo sobre o tudo disso calmo esse humano sorvia arak
todos os perfumes sonoros do buezim vindo como o ar nas palmeiras
serpenteando no prismático dos olhos e nas junturas dos velhos lábios.]
e lia joyce com espanto diziam aqueles outros que nada liam e sabiam]
em lengalenga breve aperrada nas sílabas como se urbe não existisse...]
tudo em excesso era pecado coração na boca nas mãos nos olhos
sabendo que a teologia das palavras explodia no centro da paixão 
que dentro da cidade um só corpo neste corpo podia dentro estar
nada os rubros tarbushes podendo esconder deste fogo desta sede.   

2016-05-10

[história]

[história]

que exercícios e visões te restam, caminhante da história?
talvez uma ginástica do estilo, um modo impossível cerce,
um excesso de vontade ou um violento e pacífico grito…
como no poema escrito, todas as tradições são séculos,
todos os líquidos nos afogam nessa permanência indo-se.
assim irrompe um desejo de repartir a partida e permanecer.

2016-02-22

[anuário]

[anuário]

como um inconveniente nascimento e um texto de cioran
não sei ainda se os golpes do tempo trarão um vinho novo
ou se o esquisito tempo esbaterá a perda do voo terreno.
sei no entanto que a leveza do tempo é ponte suspensa
que separa os segredos  breves lumes de todas as tardes.
míopes turvam-se as noites de corpo estendido na cidade
e a vida pesada exibe-se nas ruas nas feridas da muralha.
digo-me no tempo sou mundo dentro das veias na espuma
tenho os mares o sangue os caudais as vibrações sombrias.
sou na terra os pés uma taça de silêncio estas raízes assim
fincadas na nudez da pele a fonte de tudo vertical no fogo.

2016-02-12

[¿erótica?]


[¿erótica?]
frutos de morder os lábios
teclas de tocar os dedos
sopro de dizer a língua
arrepio de sentir a pele
fogo de queimar os dias
letras de ser o AMOR
tempo de ser no corpo
líquidos nos olhos o vento
nesse olhar que é tormento.


martinus dixit.

2016-01-23

[VORAGEM]

[VORAGEM]

Ipsa quoque assiduo uoluuntur tempora motu,
Non secus ac flumen. Neque enim consistere flumen,
Nec leuis hora potest…
(Ovide, Les Métamorphoses, Paris, Garnier Frères, Libraires-Éditeurs, 1862, p. 580. Livro XV, vv. 179-181)


no tempo a seta rói indo contra o funil num só sentido
desliza dentro do rio e nada quer das doces margens
que a água que lhe é linfa tudo sabe do movimento…
como poderia o fluxo corrente abandonar esse cerne
se não há segundo ou minuto que o fado possa suster!
deslizemos pois na viagem que é enigma de ir e voar
dentro de mar de ruína que é tempo de escuro chegar.

2015-12-23

[natal por fazer]

[natal por fazer]

não há natal nas mãos
nem calor nas veias
antes um mar confuso
de baixas prisões
onde se dita velho fado
de matar a vida.

nas mãos não há natal
que possa render-se
às manhas da opressão
que sobre fracos cai
delindo o sonho
e a luz de cada dia.

faz o natal com as tuas mãos

e levanta os olhos nesse fogo.

2015-12-01

Sobre «O livro do Joaquim» de Daniel Faria


1. Quase nunca um livro é assim tão minudente, tão tenso, tão libertador. Sobre a existência dizendo, este golpe poético diarístico é ainda uma tábua de salvação - preso à dor, ao sofrimento, aos sentimentos mais quotidianos e infinitos, eis um fundo e tocante manual de aprendizagem.

2. Aqui não há gangas, excessos, gorduras. Só palavras sílaba a sílaba significantes, significando o rigor da linguagem, o rumor agudo da mensagem, a escorrência vital da dor. Sem isto, não há isto.

3. Apontando o perigo desde o pórtico («Joaquim // no fim deste livro / talvez seja o teu nome a única / palavra que deixemos por riscar»), é de vida que se fala, desse perigo, como o diria um também fulgurante Guimarães Rosa. 

4. Este livro mastiga-se: «Não acredito que cada um tenha o seu lugar. Acredito que cada um é um lugar para os outros.» Este livro não pode ser apenas do Joaquim, pois não?

2015-10-19

[cidade dentro]

[cidade dentro]

debruço-me da varanda de mim
 és uma angústia antiga cidade
donde todas as linhas partem
desassossegadamente até ti.

clandestinas no poema as vias
são ruas diretas até essa estação.

fora do lugar arrumas-me aí
na esquina quente da história
onde outrora de pedra as bocas
foram montanhas nessas águas.

ouve a última canção, amiga,
sorve o ar da janela a funda
beleza dos álamos o encanto
dos dedos caminhando fundo
a tensão branca dos corpos
a real cartografia no terraço
onde ser rio é ir ao fundo…

ouve esta música o sol na mesa.

2015-10-16

[tempo inverno]

[tempo inverno]

contra a janela o vento o inverno cai
dizendo que as estações são lugares
e as pontas dos dedos comboios indo
corpo dentro por veredas sombrias.
apeado no coração do joelho chegado
um rubor de tédio planta-se no chão
como um fruto em quintal balança
estende-se rumorosamente na pele
inversa. ainda há espaço em mim?
como teia o tempo tece lento e afunda.

2015-10-06

[moradas]

[moradas]

são pequenos passos aqueles que dás
breves incisões no tempo e no amor
talvez essas moradas devenham luz
talvez o caminho na raiz dos pulsos.

2015-08-31

[é nas mãos]

[é nas mãos]

era um quarto nas mãos
a cama na palma suave
e a fonte solícita nela.

doce a manhã estendia
os braços e as pernas
rebentando na língua.

em galope o tato a pele
caminhavam nos olhos
eram toda esta sombra.

nesta rua flui o desejo
janela e estação do corpo
nesta linha que me arde.

2015-08-24

[abismos]

[abismos]

uma súbita onda vem à montanha
crescendo como rebentação  do vale
sem anúncio do fundo ao alto o gume
atravessa historicamente as vísceras
cortando nos canais as pontes os nós.

gélidos os líquidos confrontam os ventos
e alojam-se no sangue e noutros mapas
que a anatomia não acha explicativos.

da casa última ágil a água sobe à janela
vertendo-se na mesa assim se escrevendo
no puído da folha na corrupção do dia.


de novo uma derradeira vaga o abismo de tudo.

2015-08-19

[bolor]

[bolor]

até ao absinto as ruas eram lisas
e nem os morcegos dos becos
adentrados na escuridão sabiam
que existiam caminhos negros.
no pulso na torre um relógio
vital ia decantando o tempo
contra as chuvas nas montras
o azebre das fábricas a usura
disso um rito o transido nos lábios
as imagens vindo à pele o sangue
fundo do poço a desfilada do corpo.
torcicolada a pele era um nítido inverno.

2015-08-07

[QUASE DIA]

[QUASE DIA]

era um longo canal que levava à minha cidade
percorria-o uma ténue luz do céu espelhada
como se um caminho fosse direção divina.
aos pés uma armadilha desafiava os calcanhares
e desse contacto restava o azebre nos lábios
o rigor ácido de fim de noite última jornada.
só então um breve pássaro rompia nos olhos
inundando de vida o rumor do dia que chegava
o geodésico sinal dos estilhaços o lugar de ti.

2015-08-04

[REPRESA] olho dentro da chuva a água presa ao ralo borbulhando fundo como corpo no abismo. no visor do telemóvel leio um grito o absurdo de olhar vários números que não mais tocarão. é esse o rol líquido que se afunda aos pés essa fuga para sempre para dentro da terra. quanta dor em nós quanto de vida assim perdida na memória e nesta chuva estival!

[REPRESA]

olho dentro da chuva
a água presa ao ralo
borbulhando fundo
como corpo no abismo.

no visor do telemóvel
leio um grito o absurdo
de olhar vários números
que não mais tocarão.

é esse o rol líquido
que se afunda aos pés
essa fuga para sempre
para dentro da terra.

quanta dor em nós
quanto de vida assim
perdida na memória
e nesta chuva estival!

2015-08-03

[uma ponte o vento]

[uma ponte o vento]

e o vento uma ponte
sob a bicicleta indo
pelo mundo aberto.
nem o sono antigo
a comissura do tempo
roendo dentro de mim.
apenas um corpo alado
no ar de pescoço aberto
rodando no friso pulmonar.
é nesse lugar a morada
aí no tempo roendo a casa
no fosso fundo da língua.

2015-07-31

[QUASE CELAN]

[QUASE CELAN]

ao dizeres um nome
tens o bem e o mal
nada mais podendo
contra esse abismo.
afunda-te no silêncio
ouve isto – o niilema.