2018-10-08

Reedição do romance de Aquilino Ribeiro «O homem que matou o Diabo»


Eis mais um belo incipit aquiliniano:

«Pareceu-lhe reconhecer a voz que chamava no Largo, à porta da oficina. A dela era assim bonita, destas vozes de sereia, como apenas se ouvem nos sonhos, e que pelo módulo, entre infantil e veludoso, lhe ficara errante no ouvido. Não fora engano?...»

2018-03-14

Para o CD «Doença» dos Basalto



Para o CD «Doença» dos Basalto escrevi o que se segue.

DA DOENÇA

Em chamas, o corpo não dorme, nem vive – jaz. Declina-se na agonia dos líquidos, afunda-se na voragem do sangue, entrega-se ao tropel dos órgãos desafinados. Como numa velha metrópole, é nos bairros mais conhecidos que a doença ataca. Vieram as chuvas e dentro de mim há uma queimada imensa, uma cicatriz vulcânica que me fere concisa como aguda lâmina na pele.
Em chamas, à tona, o suor encobre as labaredas, o lento bocejo das artérias, o rigor dos vinhos e demais ardências. Arde o coração nessa voragem, os líquidos à pele trazem a exorbitância dos odores, o acre da doença em volta roendo os orifícios dérmicos, as frestas certas das feridas, o carvão dos ritos dos caules à raiz do cérebro, todos os solos por arar na levitação dos sonhos, as constelações nas unhas sangrantes.
Uma bicada súbita adormece-te a pálpebra, a dormência irrompe e lavra-te os lábios, cascos velhos apodrecidos no acridoce do hálito, sem flores os olhos estacam na distância. Será o último tempo assim, uma rede sem rede no meio do fogo? Nesse trilho ardente rebento-me de angústia, qual morte sem semente expludo na noite e nos órgãos indendiados, bebo do sangue ardente o inferno de mim, esta faca que me murmura a dor e o labirinto.
Em explosão, és pó e noite, cercado de abismos e chamas. Guarda-te de ti, encosta-te às vedações e abandona-te à barca que se afunda. Dentro, os redemoinhos de sangue exultam no bulício das foices, nos golpes fundos da dor. Da pele um vómito enjoa na noite o teu olhar ferido e os remos dos teus braços esboroam-se aflitos. Uma dor incerta percorre milimetricamente a amplitude do teu corpo, desgaça-lhe a inteireza e é um torvelinho de gume, um zumbido de moscas, uma veia vasando-se no chão.
O carrossel das chamas avança como um cadáver ao acaso nos olhos. O rasto da pólvora escreve DOENÇA e os cavalos das trevas implodem no centro da cabeça, onde esgares de lume iluminam as sombras maiores. Fechado, enclausurado de mim neste breve leito, assisto - os líquenes apodrecem de cansaço, um tempo branco exala de matérias purulentas e todos os muros são mais do que quaisquer pântanos. Dói este ruído fundo, este modo poído de naufrágio. Vazio, que espaço para este corpo, que lugar para esta ferida, que água para este fogo?
E agora há um incêndio nas vísceras, ceguez e impuridade, descamações e fantasmas, um poço de cimento na garganta, um cardume de setas no fígado. Expludo de nada, de usura pútrida, de narinas ensanguentadas pelos vidros da doença. Estico os músculos, distendo os membros de barro na enxerga, debruço-me para dentro até ao limiar do coração onde uma tímida agulha se acolhe. Dói, rói em mim um mal que me rasga as veias e me sufoca os pulmões. Em poço assim fundo, como posso dentro de água respirar com uma faca contundente nos lábios, nos dentes, em mim.
Abandono-me nesta ilha de lázaro. Vou trincando o tempo voraz quebrando o vidro das esquinas, os átrios dos momentos por abrir, parado dentro, ouvindo o crepitar das vidraças contra o anzol dos dentes. A prumo, a acédia cavalga nos rios do corpo, avança pelos fanais íntimos, trazendo o nevoeiro do fim. Comidos os olhos no seu reverso, pouco resta de luz neste holocausto. Nem a pedra sobre o peito é já muro, antes espada cravada no dorso como trabalho da morte. O coração em chamas fala de cinzas e de sombras. De abismos. Dos olhos brotam as águas, os líquidos do corpo em falência transbordam na cama, inundam o leito de odores e de muros.
E a fuga agora? Deserto, atiro-me na voragem, fico-me nas roupas onde a pequenez de mim mais se afunda. Ninguém quer ser mártir, falir no chão como todos os animais, marcar assim a morada sem memória. É neste chão de lume que ardo, na pretidão de tudo, no peso devastador dos olhos, nas pedras abertas sobre os pulsos. Entreolho pelas fendas da pele e os frutos de mim caem nas sombras como asas pesadas de cansaço. E nem o vómito súbito e pressentido aligeiram a vacuidade do mundo. Falo em chamas do que sinto e sinto-me um fóssil incrustado neste silêncio. Voraz, voraz silêncio que ouço.
Ruína sobre ruína, apodreço vivo, miséria sobre miséria, jazo morto e sinto-o, porque adormecido vivo nesta terra derruída. Neste fundo chão olho-me, grito-me para dentro em agonia, sentindo um grande seixo sobre mim. E ardo, continuo em chamas, seco de tanto arder, sou já um corpo comburente com uma âncora aos pés. Sem força, corpo seco de incorpóreo, enjoo sobre o chão com um ácido dissolvente nas maxilas.
Quase ardo como Elias em chamas. Ao céu ascendo e no chão caio. Peso mais que o aço, os braços afundam-se como guindastes adulterados. Os dedos agudizam-se em lâminas e o suor é orvalho sobre chamas. Como uma pinha na infância o crânio estala, abre-se ao dia, ao fulgor da estiolação, e nas artérias fluem pinhões esmagados, gumes penetrantes. Duas chagas nos olhos a morte dizem. Que fazer agora?
Agonizo a um canto de mim, a um canto da vida apodreço dentro da casa, caído ao soalho como a fundo poço. Sem asas e águas, atravesso a língua dormente com a fina agulha do tempo, rebento dentro da febre das veias, nos interstícios dos órgãos sou bolor e açoite, dor anoitecida, breu exangue sem cinzel de luz. A casa no chão, o coração na boca, os dedos no inverno. Nunca tão grande incêndio se viu…
Nesta noite convulsa, sinto a geada nos dedos, as crateras da doença escavam nas províncias do corpo, um vinho se sangue ferve-me nas veias, uma lava incisa escorre-me da boca e vai queimando a flor dos lábios. Corrupto agora, o nariz purulento corrompe-se nos braços da esteira, um rumor líquido rebenta nas crateras tumorais e só a monção da fadiga aplaca a imóvel cicatriz. Percutem nas têmporas os venenos aziagos, dissolve-se a consistência dos ossos, aceito o suicídio como pena branda.
Preparo-me neste quarto em silêncio, acendo nas minhas chamas a chama da solidão, febre e peste são a minha sina. Como cansa esta cinza, como dói este gume, como rebenta este coração! Nesta cama celular afundo preso aos solutos e cicutas reparadoras, acero as forças do fundo de mim, intuo a poluição do sangue, a escassez de tudo e a impossível rotação até aos vidros do alto prédio. Frágil como vidro ergo o cálice, a última vontade de um cérebro em chagas. Talvez a aflição turva que me assola permite afastar a poeira da morte por breves instantes, talvez tenha força ainda para imitar o poema grego e o fabuloso salto para o mar descomedido, talvez assim a espuma do sossego, o fundo de tudo, este cão dentro de mim em dezembro. Devastado, arrasto-me até à janela, os destroços da cidade ao fundo, o abismo da altura em mim, a neve a prumo no peito. Talvez este fogo e um rio de sangue. Talvez agora. Talvez a morta cinza…
em dezembro de 2017
Martim de Gouveia e Sousa


2017-12-23

Lembrar «Oblívio» de Daniel Jonas...


Lembrar «Oblívio» de Daniel Jonas...

É um dos livros do ano, claro! A toada sonetista de Daniel Jonas é surpreendente, numa medida quase saturada pelo uso. Como um epimítio, o uso sem abuso ensina que a surpresa nasce da surpresa e no estro. Permite este Oblívio sonetos como o que transcrevo:

AQUI NESTA TEBAIDA, OUÇO A PAZ.
Aceito a tua luz, o teu negrume,
Meus olhos são pastagens p'ra teu estrume,
Aceito o que me deres e o que não dás.
Eu ouço a metafísica das sarças,
As bruxas megalíticas das argas,
Reviro pedras, lágrimas amargas,
Procuro-te nos paus, nas rãs, nas esparsas.
Aceito que te busque e não me fales.
Onde estarás: na urze, na perpétua,
No verso mais perfeito, em rima incerta?
Aceito ouvir-te e tudo me cales.
À uma és e não; o tudo e o quase.
Em toda a parte estás, eclipse e fase. [p. 41]

2017-10-29

Pensamento assistido por Margery Allingham


Assim diz a escritora: «O principal numa autobiografia, sempre o pensei, é não deixar que a modéstia se intrometa e estrague a história.» [Margery Allingham, Homicídio no campo, Lisboa, Círculo de Leitores, 1990, p. 7.] 

2017-09-28

poema para fernando mouga: viseu, 1949




poema para fernando mouga: viseu, 1949

nas margens do tempo, dentro da luz,
há gavetas, arquivos, cintilações, assombros.
talvez uma flauta imaginante, de alados dedos,
pudesse ferir esta memória, torná-la jardim
e chão de terra perante os olhos levantado.
vibrante o mundo parado espera. na coroa
opaca do dia há um encontro em julho,
uma pétala de missão na sombra do sangue:
álvaro cunhal caminha para fernando mouga
neste  viseu de 1949 em busca de uma imagem,
de uma fotografia sua para escrever um rumo.
mas antes houve um abraço, um mar alto…
era necessário encontrar na cidade um fotógrafo
e mouga à rua saiu neste dia assim como breve rosa
procurando o lugar, com cunhal no clube de viseu
e as vimeiro com salsaparrilha no hálito de ambos…
da conversa com o fotógrafo germano o assombro,
uma rosa vermelha nesta terra antiga: fazer era fazer.
mouga e cunhal reencontram-se e vertiginoso farão,
nos abismos do dia, um caminho de uns quantos metros,
distanciados ambos, pela rua dita formosa e principal.
esta rosa, esta memória deflagrante escreve-se no fogo.