2017-03-21

Carlos de Oliveira, "E vida seja".


XXII

E vida seja,
ela que morde e rasteja
os sonhos que desdobra.
E vida seja
a baba do beijo,
quando beija
- a Cobra.

[Carlos de Oliveira, Turismo. 1. Amazónia. 2. Gândara, "Novo Cancioneiro- 7", Coimbra, 1942, p. 73, 2.XXII.]

2017-03-20

Pensamento assistido por João Guimarães Rosa


"Mas minha língua brasileira é a língua do homem de amanhã, depois de sua purificação. Por isso devo purificar minha língua. Minha língua, espero que por este sermão você tenha notado, é a arma com a qual defendo a dignidade do homem." [João Guimarães Rosa, "Diálogo com a América Latina", p. 344.)  

2017-02-20

Pensamento assistido por António Mora


É isto, é até a vontade de ter escrito isto:

«Por mim (para falar de mim) se às vezes adoeço com este mal de cansaço, que é um dos tédios da vida contemporânea, basta que abra o livro de Caeiro, e recupero a fé no meu corpo, e a quietude da decisão antes de agir. Tudo se me torna um ar das montanhas, e a visão salubre de extensão ao sol. Na pressa, no ruído, e na turbação da vida de hoje, apraz abrir este livro e encontrar, outra vez a face amiga da natureza primeva, os campos como são quando só os gozamos sem pensar neles e as flores como parecem quando a alegria mal as contempla. [Lisboa, Assírio & Alvim, 2013, pp. 108-109.]

2017-02-12

Pensamento assistido por Giorgio Manganelli


Do infinito do finito livro, assim diz Manganelli:

«Nenhum livro acaba: os livros não são longos, são largos. A página, como a sua forma bem revela, não é senão uma porta para a subjacente presença do livro, ou melhor, para outra porta, que leva a uma outra.»
[Giorgio Manganelli, Pinóquio: um livro paralelo, Lisboa, cavalo de ferro, 2005, p. 183.]

E como não concordar?

2017-02-05

O cónego Martins, o Bossuet de Viseu

 
O cónego Martins, o Bossuet de Viseu

Sob a epígrafe "Vir bonus bene dicendi peritus..." inscreve Beatriz Pinheiro o formidável lugar do cónego Martins: «Tinha a figura e tinha a paixão.» Acaba a nossa poetisa por o dizer "um Bossuet". Estes e outros mimos de análise poderemos colher nós entre as páginas 32 e 33 da publicação que A. Campos e José de Almeida Silva, os promotores da homenagem, fizeram publicar em 1900.

2017-02-02

Pensamento assistido por Al-Mu'tamid: sobre a aceitação e a recordação...


Aceitar e recordar, eis mais uma fulgurante lição poética do "poeta do destino" Al-Mu'tamid que podemos ler no explicit da composição lírica "A Al-Mu'tadid / II":

aceita este jardim dos pensamentos meus
e que, em vez da chuva e do orvalho,
o regue antes a tua generosa mão direita.
nesse jardim há uma planta: a tua recordação,
que em cada estação floresce para o jardineiro.
[Tradução de Adalberto Alves. Al-mu'tamid poeta do destino, Lisboa, Assírio & Alvim, 2004, p. 70.]