2017-04-16

Pensamento assistido por Salvador Espriu


Salvador Espriu é um poeta avassalador. São versos e versos de poesia maior. Colho ao acaso e suspiro com a profundidade e o assombro do milagre das origens:

Però ja no volem plorar
més el temple, 
ni sofrir per l' infinit enyor 
de la nostra ciutat. [VII, 27-30.]

Mas já não queremos chorar
mais o templo,
nem sofrer pela saudade infinita
da nossa cidade. [VII, 27-30, tradução de Manuel de Seabra, 1975.]

É uma poesia que dói como a palavra que o é...

2017-04-13

Pensamento assistido por António Osório


A poesia usa-se e abusa-se, não parecendo lícito o deslize da melhor linguagem por vias tão sinistras. Serve ainda para certas épocas do fluvial do tempo, como este grande lugar de António Osório que é o 2º dos "Doze fragmentos de sabedoria oriental" de O espectador divino (1996):

« O adulador cansa-se mais que um camponês durante o verão.» (p. 4.)

Use-se o dito. Abuse-se até.

2017-04-03

Uma história inesquecível: Augusto Ferreira Gomes e Aquilino Ribeiro


Uma história inesquecível: Augusto Ferreira Gomes e Aquilino Ribeiro

Tocando-se, influenciando-se ou dando-se à amizade e camaradagem, as pessoas comunicam e são sutura. Há histórias de atores fluviais do tempo que, de deslembradas, permanecem esquecidas, adormecidas. Talvez não haja outro escritor português assim, como Aquilino, imerso em bordões e epítetos nada significativos, porque os apodos vulgares são mesmo isso, vulgares e insignificantes.
Sem espoletar que não seja em afloramento a classificação regionalista ou a tal impresença da digladiação modernista, lembro, ao correr da pena, que em matéria aquiliniana não há grilhetas, barreiras ou muros – pelo contrário, nele, bloco criativo multímodo, radica o fogo criativo da descoberta e do risco.
Vem este arrazoado a propósito do livro No claro-escuro das profecias (Lisboa, Portugália Editora, s.d. [1941].), de Augusto Ferreira Gomes, com a dedicatória alta “À memória do astrólogo Fernando Pessoa”. Ferreira Gomes foi, a partir da morte de Mário de Sá-Carneiro, o principal amigo de Pessoa (Bréchon di-lo “o melhor amigo de Pessoa”, p. 570.) e, como o defende o mesmo Robert Bréchon, o seu guia da astrologia (Robert Bréchon, Estranho estrangeiro. Uma biografia de Fernando Pessoa, Lisboa, Círculo de Leitores, 1997, p. 315.).
E é já meio do livro que se dá o encontro de dádiva, de parceria, entre Ferreira Gomes e Aquilino – a fim de provar que a gravura do século XVII não é, como Fontbrune defendia, Paris, sendo antes, como o comprovaria uma gravura do século seguinte, Londres. O nó, que á laço também, surge na nota da p. 89: “A gravura de Londres do século XVIII foi-nos cedida pelo escritor Aquilino Ribeiro e já serviu para a capa do seu livro O Cavaleiro de Oliveira.” Mas deixemos o incêndio de Londres, que Ferreira Gomes vê em edição holandesa de 1668 das Profecias de Nostradamus, e perguntemos apenas – estará nisto uma sugestão de Aquilino?
Mar vasto é a obra de Aquilino, que todos os dias se adenda e complementa – não cessem trabalhos, nem dias.
Viseu, 3 de abril de 2017

Martim de Gouveia e Sousa 

2017-03-21

Carlos de Oliveira, "E vida seja".


XXII

E vida seja,
ela que morde e rasteja
os sonhos que desdobra.
E vida seja
a baba do beijo,
quando beija
- a Cobra.

[Carlos de Oliveira, Turismo. 1. Amazónia. 2. Gândara, "Novo Cancioneiro- 7", Coimbra, 1942, p. 73, 2.XXII.]

2017-03-20

Pensamento assistido por João Guimarães Rosa


"Mas minha língua brasileira é a língua do homem de amanhã, depois de sua purificação. Por isso devo purificar minha língua. Minha língua, espero que por este sermão você tenha notado, é a arma com a qual defendo a dignidade do homem." [João Guimarães Rosa, "Diálogo com a América Latina", p. 344.)  

2017-02-20

Pensamento assistido por António Mora


É isto, é até a vontade de ter escrito isto:

«Por mim (para falar de mim) se às vezes adoeço com este mal de cansaço, que é um dos tédios da vida contemporânea, basta que abra o livro de Caeiro, e recupero a fé no meu corpo, e a quietude da decisão antes de agir. Tudo se me torna um ar das montanhas, e a visão salubre de extensão ao sol. Na pressa, no ruído, e na turbação da vida de hoje, apraz abrir este livro e encontrar, outra vez a face amiga da natureza primeva, os campos como são quando só os gozamos sem pensar neles e as flores como parecem quando a alegria mal as contempla. [Lisboa, Assírio & Alvim, 2013, pp. 108-109.]