2016-09-15

Pensamento assistido por Lawrence Durrell


«Creio que os artistas se compõem de vaidade, indolência e amor-próprio. É o inflar do ego, o seu transbordar para alguma daquelas frentes o que paralisa o trabalho.» 
(Lawrence Durrell, O quarteto de Alexandria: Clea, Lisboa, D. Quixote, 2012, p. 759.)  

Tolerável num artista, sê-lo-á num não-artista? - pergunto eu.

2016-09-13

Aquilino é um lugar literário

Aquilino é um lugar literário

Um escritor só o é verdadeiramente quando não cessa de nascer. De um lugar vindo, desse lugar sendo, é ao mundo que pertence, nascendo quotidianamente na mão dos leitores. Óscar Lopes, um dos grandes municiadores da aura aquiliniano, plantou-o, desde há décadas, no centro canónico literário, aludindo a esse lugar de nome Aquilino.
Dizia um outro Mestre, João de Araújo Correia, por agosto de 1971, não haver “devoção nenhuma com lugares literários”, porque, quando a houvesse, iriam à serra da Lapa os admiradores de Aquilino.
Que descansem os Mestres! Os admiradores de Aquilino irão a todo o lado e não esquecerão que o melhor Aquilino vai nascendo sempre na flor dos dedos. Admirável Aquilino, nascendo sempre e em cada dia. E foi hoje…

Viseu, 13 de setembro de 2016

2016-08-18

[memória de fogo]


[memória de fogo]

ainda lembro a penumbra de tudo
um mar  vasto de  sons  e sonhos
a rebentação dos poros na manhã
a imensa luz como aracne na pele:
um grito fundo musical nas ondas
por mim fendendo os trabalhos
como se os dias isso não fossem...

ainda lembro o horizonte vasto
o brilho visceral dos olhares vivos
a macieza dos pomos os frutos
breves e dóceis na palma da mão:
a faca então cortante o doce disso
deflagrando dos pés ao coração
como um friso de mel  ardendo…

¿que de mim ouves mulher aérea
dos ramos vindo célere copiosa
de sede em mim sendo este fogo?

2016-08-16

Carlos de Lemos prefaciador



Conhecedor de Poe e Wilde, o Carlos de Lemos prefaciador mostra-se sempre um monumento de cultural. Leia-se e aprecie-se a ginástica do intelecto lemiano.

2016-08-06

[“ouves eu”, sinestesia & pontuação: «Nave de Âmbar» de Porfírio Al Brandão]


[“ouves eu”, sinestesia & pontuação: Nave de Âmbar de Porfírio Al Brandão]



Integrando-se em tautologia na coleção “prazeres poéticos”, esta Nave de Âmbar avança no espaço e distende-se no tempo, sendo, no passo, lugar sagrado, poético, iniciático.  Afirmando-se navio residual, é de estilhaços vitais que a viagem se faz, perscrutando-se espelhos, vitrais e estrelas. É de um tempo antigo que o Poeta fala, de um espaço contíguo, habitável, quotidianamente interior, restaurando raízes e frutos memoriais.
Do silêncio vindo, dele sendo, é desse ruído o “navio de espelhos” de Al Brandão. Repito, do silêncio, dos “cristais da respiração”, do nome, da nomeação. [poema da p. 7.]
Navegando desde há anos, esta poesia brandoniana mantém-se visceral, do coração, cordial, funcionando o músculo como o ouriço de Derrida, abrindo-se e fechando-se, mostrando o dentro e o fora. Na pele e no reverso, na pele permanece o vulcão de palavras [poema da p. 10], declinando órgãos, biologias, geografias, bocas e falhas, encontros e desencontros… Rompendo, o fundo material decapita-se em raros golpes de agramaticalidade – de pontuação, v.g., em boa parte da Nave.
Do corpo sendo a poesia, eis que ele armazena, engaveta e dissemina como um formidável armário de transcendências simples colhidas na pétala nox.
Cheio, pleno de trabalhos do olhar e do coração, esta coletânea é um livro bem e malpassado, com agradáveis ecos al bertianos, plathianos e cesarianos. Não há morte para este livro [poema da p. 44], que é uma ardência e fogo admonitório a que aplico, neste fim, o transfigurado passo do esgar à Cesário Verde: “milady poesia, realmente é perigoso contemplá-la.” A poesia, um risco, um fogo – esta, a de Porfírio Al Brandão.
Viseu, 6 de agosto de 2016
Martim de Gouveia e Sousa