2017-08-24

Pensamento assistido por André Breton

Subscrevo, claro:

«A beleza convulsiva terá de ser erótica-velada, explodente fixa, mágico-circunstancial, ou não será beleza.» (André Breton, O amor louco, Lisboa, RBA Editores, 1995, p. 20. Tradução de Luiza Neto Jorge.)

2017-08-09

SOBRE O LEITOR DE AQUILINO – O CASO DE JOSÉ MANUEL MENDES




SOBRE O LEITOR DE AQUILINO – O CASO DE JOSÉ MANUEL MENDES

Não pode haver fé nisto: um leitor é um leitor, não é uma “carroça” de interesses. Dos afeitos aquilinianos, leitores dele, do Mestre, sem exclusivo, não valerá a pena falar – os textos críticos aí estão desde há décadas sem interesse de nomeação.
Serve este intróito para dizer que Aquilino, como mão escrevente de obra canónica e incontornável, interessa aos leitores que lêem, não às facções e interesses, que nesse produtivo jogo se esgotam, com toda o êxito temporal que nisso se encerra.
Citarei, no entanto, um desses leitores que, porque o é, lê Aquilino, tanto mais que o nosso escritor, que José Manuel Mendes também é, ´permanecerá indisputável – um leitor lê Aquilino, sem discussão.
Diz Mendes e eu subscrevo, com um arrepio na pele, face ao carácter certeiro do asserto:
«Daí que recordar hoje Aquilino Ribeiro, um dos indómitos construtores dos estuários de abril (em que não mergulhou a sua euforia pelo conjugar de energias para um porvir mais justo), seja honrar o aceso passado da nossa esperança transformadora. Aquela que prossegue em nós, qualitativamente fertilizada pelos sinais e experiências de uma certeira visão da história, por sobre todos os incidentes, até cumprir-se a humanizadora jornada que é o húmus que nos aviventa,» (Mastros na areia, Viana do Castelo, Centro Cultural do Alto Minho, 1987, p. 36.)
Assim Aquilino, assim o poder de uma profunda transmissão…

Viseu, 9 de agosto de 2017
Martim de Gouveia e Sousa

2017-07-24

A BIBLIOTECA ILUMINADA – sobre «A biblioteca à noite» de Alberto Manguel




A BIBLIOTECA ILUMINADA – sobre A biblioteca à noite de Alberto Manguel

É um caso raro de fascínio este de haver um objecto literário de cerca de 300 páginas que nos obriga (obriga mesmo!) a uma prisão de fim-de-semana. Partindo de si, da sua biblioteca “desordenada”, é de fulgurações e de desvelos e de incêndios bibliográficos que Manguel fala. Sendo mito, ordem, espaço, poder, sombra, forma, acaso, oficina, mente, ilha, sobrevivência, esquecimento, imaginação, identidade e lar, a biblioteca é tudo e é nada, e é mais do que a própria vida.
Não mais do que consolação buscando, Alberto Manguel constrói a sua biblioteca nocturna, nascida com a forma de “um celeiro alcandorado numa pequena colina a sul do Loire”, como quem erige um farol no tempo, historiando, relacionando, escrevendo e interpretando. E o que ressuma desse labor é a conclusão de estarmos perante um fabuloso leitor de livros com uma incisiva capacidade mostrativa.
Para a nossa glória de portugueses são mencionados os nomes de Eça de Queirós, Camões, Padre António Vieira e Fernão Mendes Pinto, bem como o seminário israelita português. E parte disto é um glorioso cânone assim reconhecido por um leitor comum e profundo…

2017-07-17

Pensamento assistido por George Steiner


«A maior parte das pessoas não lê livros. Porém, canta e dança.» (Lisboa, 2007, p. 9) Eis uma steineriana, mais uma, fulgurante e cirúrgica. A leitura é uma arma, pois. Ou uma arte não menor que é pormenor maior. Isto é, cantas e danças. Muito bem. Mas lerás? Assim não sendo, por que cantas e por que danças?

2017-06-27

Pensamento assistido por José Saramago


«Tudo é biografia, digo eu. Tudo é autobiografia, digo com mais razão ainda, eu que a procuro (a autobiografia? a razão?). Em tudo ela se introduz (qual?), como uma delgadíssima lâmina metida na fenda da porta e que faz saltar o trinco, devassando a casa.» 
(José Saramago, Manual de pintura e caligrafia, Lisboa, editorial Caminho, 2ª, 1983, p. 207.)

2017-06-22

Um dos mais belos "explicit" da literatura em Vergílio Ferreira


Um dos mais belos "explicit" da literatura em Vergílio Ferreira

Não espantando o caráter superior da escrita vergiliana para quaisquer leitores comuns, importa, nessa supletividade, destacar, ainda assim, os momentos altíssimos que o romancista nos legou. Em Até ao fim (1987), encontramos um dos mais belos explicit literários:

«Tenho uma bebida na pequena mesa ao lado da cadeira de lona, quase a esqueci. Beber devagar com a noite que desce. Uma serenidade invulnerável alastra pelo universo. os rapazes da piscina cá do alto recolhem a casa. A piscina deserta. O mar deserto até ao limite do poente. A vida inteira dentro de mim.»

2017-06-13

«Livros do Brasil» homenageiam Aquilino


«Livros do Brasil» homenageiam Aquilino

Das importantes e saudosas colecções trazidas a lume pela editora «Livros do Brasil", algumas agora redivivas mas sempre com diferente e inferior sabor, destaco aquela que aparece na fotografia: «O Jardim das Tormentas». Trata-se, como o confirma a badana, de uma clara homenagem a Aquilino Ribeiro, de uma homenagem à "sensualíssima prosa do mestre Aquilino Ribeiro". Abre a colecção o erótico «Isabel e as águas do diabo" de Mircea Eliade.