2017-09-16

Aquilino e Luandino - um encontro sem distância

[Fotografia do jornal Público]


Quando Aquilino Ribeiro, correndo o ano para 1951, fixava no capítulo XV da sua magnífica Geografia sentimental (História, paisagem, folclore) uma fulgurante síntese vivencial na última titulação capitular - refiro-me à legenda "O regresso à condição" ( Op. cit., Lisboa, Livraria Bertrand, 1951, p. 275.) - não sabia ainda da glória desse conjunto, nem tão pouco que alguns anos à frente, cerca de dez, Luandino Vieira glosaria tal referência naquele «esse regresso à sua gente» (José Luandino Vieira, Nosso musseque, Lisboa, Caminho, 2003, p. 18.), em texto que o escritor angolano (e português) escreveu na prisão da pide (assim, com letra pequena), em Luanda, entre dezembro de 1961 e abril de 1962, com publicação volvidos quarenta anos.
A benefício de inventário, diga-se ainda que ali por 2001 voltou esse bloco significativo a uma publicação de título  O regresso à condição.Viseu, ut pictura poesis, sendo a ideia titular de Ricardo Pais, tendo eu parte colaborativa na organização da antologia poética e plástica.

2017-09-13

Aquilino e a língua de autor


Em asserto que só pode ser definitivo, Urbano Tavares Rodrigues defende:

«Nas literaturas de língua portuguesa, as que de momento nos importam, é ainda maior a distância entre o caudal vocabular e sintáctico dos grandes clássicos, à excepção de Camões, que rompeu a barreira de vários códigos limitativos, e as línguas de autor, prodigiosamente amplas e fecundas, de um Aquilino Ribeiro, de um Guimarães Rosa, de um Luandino Vieira.» (A natureza do acto criador, Lisboa, INCM, 2011, pp. 10-11.)
É bom ouvir isto hoje em dia de celebração e de exemplar trabalho criativo. Aquilino nasceu hoje e sempre será futuro.

2017-08-29

Pensamento assistido por Teixeira de Pascoaes


Recito Pascoaes porque não sei dizer assim:

«Amo os anarquistas porque a minha índole é maldosa, como a de todos os seres que não têm vergonha de viver, pois viver é persistir na prática dum crime. Saiba isto o senhor santo da montanha, e o senhor anacoreta do deserto, e outros lobos e camelos, que o lobo é santo e montanha, como o camelo é anacoreta e deserto, e a baleia é nauta e oceano, e a cotovia é ave e céu.» (O Homem Universal, Lisboa, Edições Europa, 1937, pp. 58-59.)

Santo, santo Pascoaes...

2017-08-24

Pensamento assistido por André Breton

Subscrevo, claro:

«A beleza convulsiva terá de ser erótica-velada, explodente fixa, mágico-circunstancial, ou não será beleza.» (André Breton, O amor louco, Lisboa, RBA Editores, 1995, p. 20. Tradução de Luiza Neto Jorge.)

2017-08-09

SOBRE O LEITOR DE AQUILINO – O CASO DE JOSÉ MANUEL MENDES




SOBRE O LEITOR DE AQUILINO – O CASO DE JOSÉ MANUEL MENDES

Não pode haver fé nisto: um leitor é um leitor, não é uma “carroça” de interesses. Dos afeitos aquilinianos, leitores dele, do Mestre, sem exclusivo, não valerá a pena falar – os textos críticos aí estão desde há décadas sem interesse de nomeação.
Serve este intróito para dizer que Aquilino, como mão escrevente de obra canónica e incontornável, interessa aos leitores que lêem, não às facções e interesses, que nesse produtivo jogo se esgotam, com toda o êxito temporal que nisso se encerra.
Citarei, no entanto, um desses leitores que, porque o é, lê Aquilino, tanto mais que o nosso escritor, que José Manuel Mendes também é, ´permanecerá indisputável – um leitor lê Aquilino, sem discussão.
Diz Mendes e eu subscrevo, com um arrepio na pele, face ao carácter certeiro do asserto:
«Daí que recordar hoje Aquilino Ribeiro, um dos indómitos construtores dos estuários de abril (em que não mergulhou a sua euforia pelo conjugar de energias para um porvir mais justo), seja honrar o aceso passado da nossa esperança transformadora. Aquela que prossegue em nós, qualitativamente fertilizada pelos sinais e experiências de uma certeira visão da história, por sobre todos os incidentes, até cumprir-se a humanizadora jornada que é o húmus que nos aviventa,» (Mastros na areia, Viana do Castelo, Centro Cultural do Alto Minho, 1987, p. 36.)
Assim Aquilino, assim o poder de uma profunda transmissão…

Viseu, 9 de agosto de 2017
Martim de Gouveia e Sousa

2017-07-24

A BIBLIOTECA ILUMINADA – sobre «A biblioteca à noite» de Alberto Manguel




A BIBLIOTECA ILUMINADA – sobre A biblioteca à noite de Alberto Manguel

É um caso raro de fascínio este de haver um objecto literário de cerca de 300 páginas que nos obriga (obriga mesmo!) a uma prisão de fim-de-semana. Partindo de si, da sua biblioteca “desordenada”, é de fulgurações e de desvelos e de incêndios bibliográficos que Manguel fala. Sendo mito, ordem, espaço, poder, sombra, forma, acaso, oficina, mente, ilha, sobrevivência, esquecimento, imaginação, identidade e lar, a biblioteca é tudo e é nada, e é mais do que a própria vida.
Não mais do que consolação buscando, Alberto Manguel constrói a sua biblioteca nocturna, nascida com a forma de “um celeiro alcandorado numa pequena colina a sul do Loire”, como quem erige um farol no tempo, historiando, relacionando, escrevendo e interpretando. E o que ressuma desse labor é a conclusão de estarmos perante um fabuloso leitor de livros com uma incisiva capacidade mostrativa.
Para a nossa glória de portugueses são mencionados os nomes de Eça de Queirós, Camões, Padre António Vieira e Fernão Mendes Pinto, bem como o seminário israelita português. E parte disto é um glorioso cânone assim reconhecido por um leitor comum e profundo…