2017-06-22

Um dos mais belos "explicit" da literatura em Vergílio Ferreira


Um dos mais belos "explicit" da literatura em Vergílio Ferreira

Não espantando o caráter superior da escrita vergiliana para quaisquer leitores comuns, importa, nessa supletividade, destacar, ainda assim, os momentos altíssimos que o romancista nos legou. Em Até ao fim (1987), encontramos um dos mais belos explicit literários:

«Tenho uma bebida na pequena mesa ao lado da cadeira de lona, quase a esqueci. Beber devagar com a noite que desce. Uma serenidade invulnerável alastra pelo universo. os rapazes da piscina cá do alto recolhem a casa. A piscina deserta. O mar deserto até ao limite do poente. A vida inteira dentro de mim.»

2017-06-13

«Livros do Brasil» homenageiam Aquilino


«Livros do Brasil» homenageiam Aquilino

Das importantes e saudosas colecções trazidas a lume pela editora «Livros do Brasil", algumas agora redivivas mas sempre com diferente e inferior sabor, destaco aquela que aparece na fotografia: «O Jardim das Tormentas». Trata-se, como o confirma a badana, de uma clara homenagem a Aquilino Ribeiro, de uma homenagem à "sensualíssima prosa do mestre Aquilino Ribeiro". Abre a colecção o erótico «Isabel e as águas do diabo" de Mircea Eliade.

2017-06-09

Vasco Graça Moura e Aquilino Ribeiro – o acorde literário


Vasco Graça Moura e Aquilino Ribeiro – o acorde literário

Na sempre estimulante e certamente esquecida crónica que Vasco Graça Moura subscrevia na revista Sábado da década de 80 – e refiro-me a “Semana inglesa” -, não esquecia o escritor e cronista o fulgor canónico de Aquilino Ribeiro ao aludir ao matizado descaso de Mau tempo no canal, de Vitorino Nemésio, que, em 44 anos, conhecera apenas sete edições correntes (estávamos em 1988) e que era, no entendimento graçamouriano, um caso de um romance dotado de todas as qualidades do género.
Tal texto, intitulado “Mau tempo”, integra escassas menções de obras-primas do mais de meio século português até então vivido pela literatura portuguesa. Moura fala apenas de Nemésio, Torga e Aquilino. E de Aquilino apresenta dois títulos que são casos de “um acorde perfeito e iluminante entre a escrita, a matéria e a realidade”: O Malhadinhas e A Casa Grande de Romarigães.
Viseu, 8 de junho de 2017

Martim de Gouveia e Sousa

2017-04-27

Arco de palavras sobre: Carlos de Oliveira com Aquilino Ribeiro


Arco de palavras sobre: Carlos de Oliveira com Aquilino Ribeiro

Aquilino Ribeiro morreu hoje, isto é, nesta data de dois séculos já. E não deixa de ser um fulgurante indício do grande primado de influência que o Mestre da Nave exerce sobre muitos a convocação que Carlos de Oliveira, um escritor que profundamente aprecio e admiro, dele faz, por exemplo, nessa obra maior que é O aprendiz de feiticeiro (1971), título que reúne e remodela muitos dos textos disseminados pelo autor, entre 1945 e 1970, por jornais e revistas.
Abre o interessantíssimo título com o texto “A viagem”. E logo aí se desprende a presença de Aquilino, a propósito do mágico, eufónico e estranhizante verso de Adriano “Animula vagula blandula.” Assumindo o carácter perturbante de tais palavras, não lembra o poeta (Carlos de Oliveira, leia-se) onde terá descoberto tal verso, sabendo sim tê-lo vindo a reencontrar em várias leituras, sempre com um renovado sobressalto. Ouça-se e leia-se o primeiro exemplo:
“Recordo-me por exemplo dele numa página de Aquilino. E agora, localizá-lo na obra enorme? Folheei volumes e volumes: nada. Contudo, está lá. Numa dessas páginas maiores que põem no frémito da vida o toque do que é precário, passageiro e, simultaneamente, consciência disso.”[1]  
Não é pouco o que aqui se diz – haver memória de Aquilino a propósito de tão sugestivo verso, referir a obra do Mestre como “enorme” (de “volumes e volumes”) e dizê-lo detentor de páginas maiores, tudo isto nunca pode ser pouco. Para complementar a informação de Carlos de Oliveira diga-se que o verso de Adriano se encontra, por exemplo, no prefácio de o livro de Marianinha. Lendalengas e toadilhas em prosa rimada (1967):
“Tenho esperança, Marianinha, que, algum dia, já eu longe do mundo, as leias e te façam sorrir. E, no ocaso como estou, consolo-me à ideia de que nesse sorriso perpasse a vibração da animula vagula blandula do que fui, e se vai diluindo e afundindo no golfo do tempo como as estrelinhas que abrem e fecham a pálpebra sonolenta na praia areada duma noite de verão.” [2]
E segue Carlos de Oliveira depós o Mestre quando, ao defender que o livro não é comprado pelos que mais facilmente o poderiam comprar, escreve o seguinte:
“Aquilino Ribeiro diz num livro publicado há pouco, a propósito dos fidalgos no tempo de Camões: ‘Eram ignaros como seus cavalos de raça e disso faziam gala.’” (p. 77)
Di-lo ainda Oliveira um mestre proverbial da prosa (p. 87), um escritor canónico (p. 167), ouum camonianista (p. 192), não deixando, por último, de aludir a um povo “malhadinhas (no sentido aquiliniano do termo)” (p. 232).
Criador de obras “ das que não morrem nunca”[3], como o diz Nelly Novaes Coelho, Aquilino Ribeiro nasce hoje e todos os dias, no ritual que é morte e logo vida, continuando a produzir como se o penetrasse “um ardente e fecundo verão”.  Que vemos, que claramente vemos!

Viseu, 27 de maio de 2017
Martim de Gouveia e Sousa



[1] Carlos de Oliveira, O aprendiz de feiticeiro, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1971, p. 9.
[2] Aquilino Ribeiro, o livro de Marianinha. Lendalengas e toadilhas em prosa rimada, Venda Nova, Livraria Bertrand, 1967, p. 7. Ilustrações de Maria Keil.
[3] Nelly Novaes Coelho, Escritores portugueses do século XX, Lisboa, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 2007, p. 102.

2017-04-16

Pensamento assistido por Salvador Espriu


Salvador Espriu é um poeta avassalador. São versos e versos de poesia maior. Colho ao acaso e suspiro com a profundidade e o assombro do milagre das origens:

Però ja no volem plorar
més el temple, 
ni sofrir per l' infinit enyor 
de la nostra ciutat. [VII, 27-30.]

Mas já não queremos chorar
mais o templo,
nem sofrer pela saudade infinita
da nossa cidade. [VII, 27-30, tradução de Manuel de Seabra, 1975.]

É uma poesia que dói como a palavra que o é...

2017-04-13

Pensamento assistido por António Osório


A poesia usa-se e abusa-se, não parecendo lícito o deslize da melhor linguagem por vias tão sinistras. Serve ainda para certas épocas do fluvial do tempo, como este grande lugar de António Osório que é o 2º dos "Doze fragmentos de sabedoria oriental" de O espectador divino (1996):

« O adulador cansa-se mais que um camponês durante o verão.» (p. 4.)

Use-se o dito. Abuse-se até.

2017-04-03

Uma história inesquecível: Augusto Ferreira Gomes e Aquilino Ribeiro


Uma história inesquecível: Augusto Ferreira Gomes e Aquilino Ribeiro

Tocando-se, influenciando-se ou dando-se à amizade e camaradagem, as pessoas comunicam e são sutura. Há histórias de atores fluviais do tempo que, de deslembradas, permanecem esquecidas, adormecidas. Talvez não haja outro escritor português assim, como Aquilino, imerso em bordões e epítetos nada significativos, porque os apodos vulgares são mesmo isso, vulgares e insignificantes.
Sem espoletar que não seja em afloramento a classificação regionalista ou a tal impresença da digladiação modernista, lembro, ao correr da pena, que em matéria aquiliniana não há grilhetas, barreiras ou muros – pelo contrário, nele, bloco criativo multímodo, radica o fogo criativo da descoberta e do risco.
Vem este arrazoado a propósito do livro No claro-escuro das profecias (Lisboa, Portugália Editora, s.d. [1941].), de Augusto Ferreira Gomes, com a dedicatória alta “À memória do astrólogo Fernando Pessoa”. Ferreira Gomes foi, a partir da morte de Mário de Sá-Carneiro, o principal amigo de Pessoa (Bréchon di-lo “o melhor amigo de Pessoa”, p. 570.) e, como o defende o mesmo Robert Bréchon, o seu guia da astrologia (Robert Bréchon, Estranho estrangeiro. Uma biografia de Fernando Pessoa, Lisboa, Círculo de Leitores, 1997, p. 315.).
E é já meio do livro que se dá o encontro de dádiva, de parceria, entre Ferreira Gomes e Aquilino – a fim de provar que a gravura do século XVII não é, como Fontbrune defendia, Paris, sendo antes, como o comprovaria uma gravura do século seguinte, Londres. O nó, que á laço também, surge na nota da p. 89: “A gravura de Londres do século XVIII foi-nos cedida pelo escritor Aquilino Ribeiro e já serviu para a capa do seu livro O Cavaleiro de Oliveira.” Mas deixemos o incêndio de Londres, que Ferreira Gomes vê em edição holandesa de 1668 das Profecias de Nostradamus, e perguntemos apenas – estará nisto uma sugestão de Aquilino?
Mar vasto é a obra de Aquilino, que todos os dias se adenda e complementa – não cessem trabalhos, nem dias.
Viseu, 3 de abril de 2017

Martim de Gouveia e Sousa