2006-07-06

Emídio Navarro: memória & desígnio

Em memória de Daniel Faria (1971-1999), poeta do lume mais íntimo


Diz Eça de Queirós que o homem só vale pela Vontade. Este é um caso exemplar dessa necessidade.

Às vezes, um nome traz a vida e a acção. Outras, o nome esmaga os objectos nomeados e é apenas isso, pura nomeação sem miolo. A força do uso é, feliz ou infelizmente, o primeiro passo para a desvitalização do nomeado, oferecendo de bandeja o que deslegitimador tem um hábito, acrático e lerdo, que nada promove, que não nos promove.

Dizer hoje Emídio Navarro deveria convocar, em cada nomeação, em cada unidade mínima distintiva da estrutura onomástica, uma imagem de conhecimento, de reconhecimento. Assim deveria ser. E, não sendo, é este, caro leitor, o momento salvífico da revisitação. Vem daí.

Digo alfa, nomeando o passado. Emídio Júlio Navarro nasceu em Viseu, bem encostado a nós, aqui na Rua do Arco, a 19 de Abril de 1844. Era filho do espanhol André Navarro e de Carlota Joaquina do Carmo Machado. Aprendeu as primeiras letras na nossa cidade, dela debandando dez anos passados, por via da colocação de seu pai, como chefe da banda militar de Bragança. Na cidade transmontana virá a cursar o Seminário até ao 2º ano de Teologia, não resistindo, a partir daí, ao apelo do “mundo” e de Coimbra, onde concluirá com brilho, em 1869, o Curso de Direito.

Paro e ilumino o primeiro quartel de vida de Emídio Navarro, desvelando a sua faceta de apaniguado do jornalismo, que, em propriedade, se iniciara por Bragança, se confirmara por Coimbra e ganhara foros de instituição por Lisboa, ao lado de nomes reconhecidos como Rodrigues Sampaio ou Pinheiro Chagas. Jornalista combativo e demolidor, ficaram famosas as suas posições nos jornais “Progresso”, “Primeiro de Janeiro” ou “Correio da Noite”. Refazendo a sua velha actuação, que sempre “soava como clarim de guerra” (José Júlio César), funda o jornal “Novidades” e para aí transporta um modo irónico e subtil de acção. As suas posições políticas começam a ser vistas como espelho patriótico e, sem espanto, é o Estado que, em breve, se abre a si.

Embaixador avisado (em Paris, de 1892 a 1895) , sem nada dever a quaisquer diplomatas, é sempre o patriotismo (puro e verdadeiro, como o não é hoje…) que dos seus actos ressuma, ficando celebérrimas as suas intervenções parlamentares e a sua acção como Ministro das Obras Públicas. Intuitivo e codicioso, activo e inconformado, Emídio Navarro cientifizou a agricultura (em 1887, foi criada, entre outras, a Escola Prática de Agricultura de Viseu), promoveu a defesa florestal, planeou e abriu estradas, organizou a rede de caminhos de ferro (por nós, infelizmente, perdida), delineou a Direcção Geral dos Correios e Telégrafos e criou, entre outras possibilidades, o Instituto Industrial e Comercial, nossa matriz e circunstância fundante, que, estranhamente ou talvez não, os dirigentes educativos de hoje parecem querer incrustar como um fado institucional. O orgulho vive aqui, crentes de sempre na igualdade de oportunidades. Da sombra dos dias saída, há, no entanto, uma nova rede e diferente peixe que nos fazem acreditar que “eles andam por aí”. De novo, trinta anos passados…

Volto a Emídio Navarro. Acrescento que, contra a ideia hodierna de que todas as reformas e mudanças levam anos, há no nosso conterrâneo um fulgor retórico que o impedia de dizer o impossível. Há quem diga mesmo que em três anos de ministro das Obras Públicas (de 20 de Fevereiro de 1886 a 23 de Fevereiro de 1889) conseguiu o nosso estadista fazer com que o nosso país avançasse cinquenta anos. Tal salto qualitativo, no país e em Viseu, é clara ruptura paradigmática com o passado, a ponto de José Júlio César fazer dele “o maior viseense do século XIX”.

Digo ómega. Emídio Navarro, vilipendiado por uns e deslembrado por outros, faleceu no dia 16 de Agosto de 1905. Interprete-se o breve trajecto sem interpretação total, passo esse que, aliás, condenaria a interpretação que eu não fiz. Aristotelicamente, direi ter falado de “certas coisas verdadeiras”, existentes, que podem, caro leitor, ser de outra maneira. Contigo, amigo atento, construí esta memória e o teu desígnio: desenvolve agora a sensibilidade, ouvindo-me, em ti. Assim, como se.

4 comentários:

francisco manson disse...

Bom dia

Texto notável

konde disse...

Belo texto e importante memória... Abraços...

Anónimo disse...

assim como se.......




bom dia Martim.



obrigada.



(não vale a pena investigar....não é nada....:)))


outro. beijo.



isabel.

Franceska disse...

Muito bom! Beijos!