2006-05-15

Singularidades: Tomaz de Figueiredo & o rigor das palavras




Tomaz de Figueiredo pertence a uma linhagem de autores que se impõe ao primeiro contacto empenhado, restando, desse encontro muitas vezes fortuito, um sentimento de desconforto face à glória das letras. Afinal, nesse mundo madraço e subterrâneo, muito êxito não vai além do estrépito e muitos escritores de qualidade ficam longe da memória.
Vem esta reflexão a propósito de um escritor fulgurante que pouco se lê e com quem muito se pode aprender. Deslembrado do leitor comum, há nele um exemplo ético e artístico que é modelar. Por exemplo, um não mais lembrado José Osório de Oliveira, filho da mangualdense Ana de Castro Osório, em livro de opinião de título “O Sonho Inútil” (1957), reconhece o carácter do escritor em apreço, referindo-se-lhe do seguinte modo: “Deus seja louvado, ainda existe, neste país de gente envilecida pela mesquinhez da vida, um homem de Letras com a nobreza necessária para proclamar a sua gratidão para com um confrade sem editor, sem público, sem tribuna na Imprensa – um franco-atirador inofensivo, que não dispõe de armas”. São actos desta dimensão, coonestados assim por vozes de escrita, que provam que vale sempre a pena o trabalho literário, contra todos os desgostos e desilusões. José Osório de Oliveira, autor de mais de cinquenta títulos, não se poderia ter enganado.
Contra a urgência do dizer, ritmo apressado a que muitos “escritores” se sujeitam, ergue-se súbita a figura e a estatura de um Tomaz de Figueiredo (1902-1970), que, pela sua inquestionável qualidade, merece novas leituras neste ano pós-celebrativo. É a hora? Nunca é a hora para uma leitura já atrasada. Sirva o desejo para que se festeje sempre uma figura grada da literatura portuguesa e um dos mais exímios cultores da língua portuguesa, a par de Vieira, de um Camilo ou de um Aquilino. Vigilante como muito poucos ao decantamento dos signos, as palavras tomazinas erguem-se lentas e lustrais, sujeitas a um oficinal rigor de despioramento textual que conforma uma sintaxe irrepreensível que tem origem em Padre António Vieira. E também por aí, como em poucos, o dizer literário de Tomaz de Figueiredo ganha um sortilégio sugestivo e análogo ao de artistas como Guimarães Rosa ou Luandino Vieira, para citar apenas dois dos mais poderosos logotetas da literatura de expressão portuguesa. E, depois, há toda uma pregnância de estilemas e temas que o aproximam de um Raul Brandão ou de um Vergílio Ferreira.
Não sendo o dito panorama de pouca monta, diga-se que Tomaz Xavier de Azevedo Cardoso de Figueiredo nasceu em Julho de 1902, em Braga, vindo a falecer, em Lisboa, aos 68 anos, legando à posteridade cerca de duas dezenas de obras. Escritor tradicionalista no que de mais positivo tal palavra encerra, mantém laços perenes com Arcos de Valdevez, terra do seu coração e do seu pensar-sentir.
Julgado por muitos um auctor unius libri, devido à justa fama do romance A Toca do Lobo (1947) que um David Mourão-Ferreira coloca entre as obras-primas do nosso século XX, muito resta para aprender com o escritor minhoto. Mas comecemos pelo início da cultuada Toca, que encerra as particularidades de todo o primeiro parágrafo desta “fábula” e que é o mais conseguido “romance estático” da literatura portuguesa, um misto de alarme brandoniano e de problematização vergiliana. Não cessam por aí as virtudes da obra, avançando por delírios emotivo-verbais próprios do surrealismo, num espaço concentrado que é a velha casa e os seus silêncios, encostados ambos à memória por onde perpassam os afectos e desafectos de uma vida.
“Rio da memória em carne viva”, A Toca do Lobo é a expressão plena do rigor criativo que nos conta a história de uma velha casa habitada por uma família tradicional de que resta um último representante, D. Diogo Coutinho, que se entrega ao “mundo esmagador das recordações”. Obra intimista de monólogo interior, nela avulta ainda um halo fantasmático de vozes da sombra ou de um ladrar fugitivo. Atento ao misterioso de tudo, este romance diferente e estático nada esquece, tudo lembra, até o metal íntimo das vozes redivivas. Nuno de Sampayo diz que esta criação tomazina é o romance da “voz ‘reouvida’”. Assim é. E é desse eco fundo e original, dessa pureza linguística e artística densa de ressonâncias lustrais e fundadoras, que se constrói uma das mais arrebatadoras obras da literatura portuguesa e se afirma uma voz original que afecta a recepção de quaisquer obras posteriores. A partir da publicação do primeiro romance de Tomaz de Figueiredo, a “coisa literária” não mais seria a mesma, agitada por essa íntima convulsão provocada por uma voz que obrigava a um encaixe próximo do centro canónico. E, no entanto, quanto descaso e desconhecimento...
Se o início assim prometia, a obra seguinte, Nó Cego (1950), transborda de qualidades simples e intimistas, ao jeito presencista, que, aliás, serão evocados no próprio romance de que participa ainda o autor subsumido no nome de Francisco de Sá. Diverso do anterior, este roman à clef abandona a contingência localista e recria a atmosfera coimbrã estudantil da década de vinte do século passado. À semelhança do que acontece em romances de autores como José Régio, Branquinho da Fonseca ou Vergílio Ferreira, a obra de Tomaz de Figueiredo dedica muito de si à intensa luta dos estudantes da mais velha academia universitária contra os exageros anedóticos dos lentes, espelhando ainda, com minúcia, as vivências dos jovens intelectuais imersos em projectos, invejas e disputas amorosas.
Em Nó Cego, João Bravo de Noronha, limitado desde sempre pelo rigor familiar da mãe e do tio “protector”, consegue sonhar com a libertação nessa cidade mítica. Porém, o aperto de dinheiro, que lhe chegava doseadíssimo, mal chegando para as primeiras necessidades, bem como o dissentimento amoroso sentido visceralmente pelo jovem que, por defeito educacional, pouco ousava, tudo, em conjunto com as desilusões literárias num mundo, então o sabia, invejoso e e sinuoso, contribuía para a emergência de um nó cego só ultrapassável pelo voluntarismo da morte. Livre à clef, repito, pela distinção clara de gente famosa, nomeadamente de elementos da revista presença e de si próprio, Autor, é este exemplar tomazino um fulgurante caso de Bildungsroman que que desenvolve o trajecto de uma criança que cresce e aprende uma lição trágica de desfuturo.
Não avanço mais pela obra de Tomaz de Figueiredo. Cada leitor haverá de completar o seu desconhecimento com a força da pulsão interior. Não falo, é certo, do leitor à força, que pouco lê e menos diz. Falo mais para o leitor genético, sedento de fender as páginas esquecidas, omnívoro de casas de escritas diferentes e iguais, certo de pouco saber e ávido de conhecer mais do que títulos e entrechos ridiculamente recitados por boquinhas apertadas.
Baralho e dou de novo. Mostro a minha carta: A Toca do Lobo. Volto a jogar contigo, atento leitor. Trata-se de um surpreendente romance de qualidade indesmentível, mais ainda meandroso e infindável, labiríntico mesmo, junto às coisas simples do vivente, universo desmesurado adentro do monólogo interior, oficina do artefacto verbal que ousa e avança com a segurança das forjas maiores, convite directo ao conhecimento competente das virtualidades da nossa língua. Abundam por lá novos matizes semânticos vocabulares e outras revitalizações merecedoras de outros olhares, de um novo olhar, sobre uma estória mágica e poética, rente ao encanto da força das palavras e próxima do alarme metafísico através do abismo da memória.
Eis a última frase desta Toca: “Amarelava laranja por laranja e o fumo da casa subia.” É o tempo do regresso a casa, como o diria um Rainer Maria Rilke, a esta “velha toca” tomazina e degustar as palavras vivas nas veredas memoriais de Diogo Coutinho, voz percutida no nosso cérebro, voz em nós vinda do centro do íntimo.
António Manuel Couto Viana, em homenagem sentida que só os poetas sabem fazer, fala de Tomaz de Figueiredo como uma voz directa ao coração, imensa, de um escritor como “gostaria de ser, se tivesse qualidades de ficcionista.”
São estas as palavras de dentro da arte que ouço, que devemos ouvir, desencartadas e convidativas a que ouçamos o verdadeiro sopro do que interessa, contra a vulgaridade de modas e de famas quotidianas que sempre se dissolvem na areia de cada praia...







10 comentários:

konde disse...

De facto, Tomaz de Figueiredo é um grande escritor! Abraço.

Mendes Ferreira disse...

o meu querido amigo DM-F tinha razão...e o Martim tb. e eu pobre mortal leitora....amo.


gosto de saber que temos alguns gostos em comum....:)


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e gostou dos contos??? :)

beijo de bons dias. Martim.

Eu disse...

Mais do que as palavras, importantes sem dúvida, deveriam contar cada vez mais os actos. Boa tarde Martim. Um abraço.

aveazul disse...

ainda bem,isabel, que essa comunhão existe. quanto aos contos, nem todos li. gostei do carácter enxuto de alguns - vertente lírica. bjos.

aveazul disse...

eu, tu sabes como gosto das relações éticas, sem farsa. obrigado pelo surgimento. o abraço de sempre.

sonia r. disse...

É sempre bom haver quem relembre palavras esquecidas...bjo de boa noite Martim.

porfirio disse...

:
«Amarelava laranja por laranja e o fumo da casa subia»

pra quê comentar?

boa noite amigo
e
um
abraço

Anónimo disse...

OBRIGADA.

(e por estranho que pareça eu tb. não...foram "zumbidos"...de algum modo assustadores.só isso)

beijo. Martim.

Anónimo disse...

A propósito de Tomaz de Figueiredo lembro aos interessados a disponibilização de um site a ele dedicado:www.tomazdefigueiredo.net
E para mais informações:santos.lourreiro@iol.com

Anónimo disse...

Há um movimento que está no seu início visando "ressuscitar" Tomaz de Figueiredo.Como fortalecer este movimento? Quer dar sugestões, independentemente do que está a ser programado? Em caso afirmativo serão bem-vindas.
santos.lourreiro@iol.pt