2006-05-05

O chão e o lume (romance)


CAPÍTULO I

Martim de Gouveia e Sousa

Se calhar o sono invade o comboio e fende a noite. Dentro, uma amálgama de corpos balança na linha do Vouga dormindo descansadamente. O abandono cinzento de tudo convida à leitura. Nada comigo trouxe, apenas a disponibilidade para tudo sorver, sem perguntas. No chão da carruagem, quase roto, o cabeçalho do jornal “O Tópico” dá-se à curiosidade. Sem alternativa, tomo-o nas mãos e distraio os olhos, cansados já do torpor em volta. Passo a primeira página cheia de bulício académico – “Semana da Ciência e Tecnologia para a Juventude em Viseu – Foi um sucesso só e apenas!” – e rejubilo com a página seguinte. Um arrebatador poema fala de “200 anos / de um jogo de prazer”. Quase estranhamente, o texto seguinte recua os mesmos anos. E leio:

MARIMORTE


«Marimorte, a mais doce de todas as mortes conhecidas do homem".
(James Joyce, Ulisses)


15 de Outubro de 1808 -
Preciso preservar a minha identidade. Abomino o dever de devorar catarpácios. Sempre que a obrigação me assalta, fico assolado por um langor que me anestesia a vontade. Há um tédio em volta que aterroriza. Não sei se as sombras que me povoam os sonhos prenunciam algo. Tudo tem sido pensado e repensado, e só encontro refrigério no bom Lucrécio, esse visionário da letargia. Admiro-o quando, como eu, se deu conta de que a felicidade emana da Natureza; admiro-o por acreditar, ao contrário de mim, que tudo evolui para melhor. Eu confio mais nas involuções. Menti há pouco ao dizer que só o autor do De rerum natura me dava ânimo. É verdade, sem dúvida, que o romance que trago em mãos me tem dado momentos inesquecíveis. No entanto, esse gozo é passageiro. Há em mim uma profunda insatisfação - desejo dizer a novidade, e nunca dela pareço aproximar-me. Afinal, sou como as águas que desenfreadamente correm e nunca encontram o seu pousio.
As águas vão e vêm, puros influxos também de sangue.

9 de Dezembro de 1811 –
Quando pensei que iria escrever um diário, ainda não pensava que lhe haveria de chamar anuário. As ideias têm-se-me amontoado e prometi-me lançá-las ao papel só depois de sedimentadas. Não é fácil escrever-se o que se pensa. Escrever é penoso - às vezes há um enorme bloco lítico que necessita ser polido gradualmente. Mas acredito no génio criador, com os seus defeitos. Irritam-me aqueles cuja forma de afirmação é a força. Eu e o meu amigo T.... fomos vítimas de expulsão ideológica, por um panfleto. A universidade não é exemplo, é força, é castigo... Reparo de novo que passaram três anos. O que não se passou entretanto!... Escrevi, casei-me e conheci G..... .G..... ensinou-se a agir, enquanto o amor ia desaparecendo. O quantum sentimental esboroou-se e passei-me a corresponder com E……
Em casa, quando olho para H….. (é certo o nome da minha mulher), vejo a solidão a instalar-se. Pensei abandoná-la, mas nos seus olhos há sempre um lago que me repreende. E eu estaco no desígnio, porque a água me atrai.

15 de Janeiro de 1812 -
Quando H..... me olha, deixo de ser eu. Como dizer-lhe que na vida tudo passa, até os afectos? Revejo aquele olhar sibilino que me mira pausadamente, à espera de uma palavra. Nesses momentos, abandono o corpo e esqueço que existo. Um dia deixarei de me preocupar com o que H..... pensa. Por que raio me inspirará ela um misto de terror e culpa?
Deixei de me corresponder com E….. D. Descobri que a velhice me acabrunha e ela tinha mais dez anos do que eu. Angustia-me a descoberta de uma ruga, bem como a rápida sucessão dos dias. Junto dela, descobri-me em processo e abandonei-a sem um aviso, para sempre. Foi por essa altura que cumpri um desejo que há muito tinha em mim: pegar nos meus poemas e lançá-los pelos ares e pelos mares. Que felicidade ver os balões subir e as garrafas sulcando as águas! Tenho dado comigo a pensar no paradeiro das mensagens e apenas descortino um poço sem fundo. A água atrai.

19 de Julho de 1813 –
Como a vida é fingimento! H.... deu-me um filho. Quero-o tanto quanto a não quero a ela. E como esse tanto é muito!... Revejo-me no rosto da criança, ao mesmo tempo que procuro abandonar H.... . Por que será que a chuva não cessa de cair?

16 de Novembro de 1813-
Sinto-me livre. As grilhetas desapareceram. Agora posso de novo olhar o céu, as nuvens, o vento ou a chuva. H.... e eu separámo-nos, amigavelmente, in aeternum. Não há em mim uma réstia de saudade, e pensar nisso põe-me feliz. A minha felicidade, porém, é transitória. É que não pode haver felicidade sem liberdade. Um sentimento, renovado, vai-se apossando de mim.
Ontem vi M...., hoje sinto-a em mim. Como Anacreonte, também eu, ébrio de amor, me lanço do rochedo da Leucádia e penetro as cinzentas águas do mar.

2 de Fevereiro de 1816 –
Sinto-me culpado H....suicidou-se. Lembro claramente a forma amistosa como decidimos a separação. Ela até sorrira e pela primeira vez me parecera bela. Não houve um choro, um reparo ou uma agressão - tudo foi transparente. Onde estará. pois, esta culpa que me cerca e acusa? Que terei eu a ver com esse acto extremo, fruto certamente de uma situação limite?
Nunca o saberei, eu sei. E por isso mesmo esta permanente incerteza que me invade e impede contemplar o mundo com esperança. A morte não é esquecimento - a de H.... traz-me a memória do desencontro, onda solitária contra o molhe. A culpa atrai o castigo. Estou pronto. A ti voltarei na dor.

13 de Maio de 1818 –
O meu filho morreu. O destino foi implacável na atribuição da culpa. Culpado duplamente: das mortes dela e dele - caladas águas do destino.
15 de Setembro de 1821 -
Enquanto ouço o trabalhar do relógio, penso no que tenho feito e concluo devagar: que o buscado é inatingível; que a vida é uma armadilha; que o amor é um sonorífero; que a dor sobrepuja a felicidade; que eu já não existo. Existir é sentir o ser e eu sinto-me ausente. Por mim passaram mulheres às miríades, e eu sempre só. Procurar não é encontrar. Quando a pena me dita o poema a mão já não obedece. Memoro, sequioso, o tempo de tudo em flor - o riso azul da manhã, a sinfonia dos pássaros, o bulício das pressas dos outros, a calma da noite que chega. Aos 28 anos, sinto a embarcação insegura e sem rumo.

22 de Janeiro de 1821-
Sinto que lentamente vou perdendo os contornos da memória. Sobre mim sustento um mundo de dúvidas. leio Catulo e adoro as suas nugae. Impressiona-me a sua sinceridade: nele se documenta a oposição sentimental do homem; nele se aprecia o eterno calcorreio entre o fogo e as cinzas, entre a felicidade e a tristeza profunda, entre o ódio e o amor mais delicado.

19 de Dezembro de 1821-
Contemplo o rio que avisto da janela do meu quarto e desejo explodir. As águas correm e quem passa sou eu. E não sei o que fazer. Remotamente me apercebo que refugi ao propósito de escrever as ideias já decantadas. A corrente seguindo o destino; eu, sua vítima, relembrando as memórias do passado, aqui, por sobre as águas que vão. Água é passagem, é travessia, eternidade não consentida, é pureza essenciadora dos caracteres: a água é vida, porque a vida é morte. Dou-me conta que detesto a beleza, ou melhor, que ela me oferta. em baixela de prata cravejada de rara pedraria, a fórmula de caducidade. E eu não sei o que pensar. Quantas vezes, chegada a manhã, sinto o calor da noite, a sua languidez, a sua dança lenta, enquanto em mim perpassa o desencanto?!... A noite afoga os pensamentos num enleio acridoce, e tudo se torna nebuloso e distante. Mas, estranho sortilégio, como o charco oferece ao colhedor risonhos nenúfares, assim a noite oferta àqueles que a desfrutam uma maravilhosa recompensa - o dia-luz. Luz, trevas, pulsão para o poço infinito.

5 de Março de 1822 –
O ópio inebria-me as forças, mas proporciona-me jorros de luz. Este perfume que se levanta incensa-me a alma. Mal distingo o passado do presente. Tudo me parece igual e definitivo. Não tenho subido ao convés. A viagem tem decorrido sem pausas, inexorável. Os momentos são intensos, porque são finais. Uma inominável força prende-me ao quarto, último berço, e aponta-me o destino. Apercebo-me do balancear das ondas e do fascínio a que não poderei resistir. O ruído das vozes dos marinheiros e das gaivotas debicando o peixe na proa chama-me ao mundo e eu respondo ausente. Águas, ágatas, joalharia, espelho final, para todos o meu adeus...

Chamo-me V.... e recolhi estas impressões de uma pequena caixa engastada de pérolas que encontrei nas areias da praia fronteira à minha casa. A custo consegui abri-la e decifrar as puídas letras.
O resultado aqui fica, com um único comentário - quão ternas se tornam as vozes amarguradas!

L...., 25 de Fevereiro de 1823
Paulo Pontes


Absorto ainda, os freios do comboio irrompem da página, anunciando a chegada à estação de Viseu. Pressuroso, levanto-me, deixando o jornal por cima do banco.











7 comentários:

Francisca Manson disse...

Bela imagem em 3D... Beijos!...

Mendes Ferreira disse...

(por estas/"isto" é que desisti)



belissimo arredondar do circulo. MArtim.


beijo.

konde disse...

Bela rosácea literária. Boa-noite!

Mendes Ferreira disse...

e bem preciso Martim...têm sido dias "complicado".

obrgado. beijo.

aveazul disse...

então, redobro as palavras, isabel...

harpa disse...

Martim até os meus dedos andam disléxicos...:(...

ao ir publicar o seu comentário, que agradeço...pela constância, apaguei...
ando mesmo "desafinada"...desculpe-me...

se puder.

beijo.

Mendes Ferreira disse...

bom dia....Pai.



sorriso.