2006-05-08

"Matando a sede nas fontes de Fátima": outro póstumo de Rodrigo Emílio




Escritor que o é não morre nunca, mesmo que a arca, já enxuta, seque ao vento. Escritores há, como Rodrigo Emílio, que de tão visceralmente poetas não cessam nunca de nos alarmar. Assim acontece com a natural misteriologia religiosa que se desprende deste altar poético de título Matando a sede nas fontes de Fátima (2006).
Deslargando a constante querela, quase dissídio opositivo, entre escritor católico e católico escritor, temática, aliás, fulgurantemente demarcada e debatida por Álvaro Ribeiro e José Carlos Seabra Pereira, avanço dizendo que a colectânea poética que apresento se inscreve no “cursus” mariano inscrito na matriz mais perene da literatura portuguesa, para logo romper, em sutura, com o modo celebrativo comum, arriscando todas as potencialidades de uma língua que é tradição e superação. A arte de Rodrigo Emílio assim se mostra, transmissiva e vigilante.
Estes “Poemas de Fé” abrem com uma informada “Tábua Bibliográfica” do Autor, seguindo-se-lhe um importante “Elóquio” de António Manuel Couto Viana que, não desdizendo do vezo religiosista da obra, antes exalça o valor poético da arte emiliana. Referindo-se às loas à Virgem, Couto Viana, em passo final, conclui: “Qualquer que as leia dispensa a intervenção do divino prodígio para se arrebatar.”
Poesia com família, isto é, integrantemente transmissora de ideologia e valores, é à família mais íntima que as “Dedicatórias” se destinam, antepostas que estão ao início dos “Poemas de Fé”. Aqui então o início do deslumbrado caminho fideísta depós um mistério de alumbração que é efusão lírica, admonição conselheira (“Se já / ninguém, aqui, / te seca / a lágrima, / pega / - pega / em ti / e vai a Fátima!”), fulgurante reaparição, sentida litania e nomeação (“Fátima: alto-mar / e altar-mor!”).
De “Outras Misteriologias” promanam momentos poéticos singulares. Respigo, como exemplo, o poema “Último Reduto” (p. 105), que não deixou ainda de ressoar em mim uma força inefável: “Fixei morada / dentro de mim: / residência vigiada / da saída à entrada, da sacada ao jardim… // Torre blindada. // Torre de marfim!”.
Com “Posfácio” de Silva Resende, este novo livro de Rodrigo Emílio é mais uma pegada importante de um escritor nodal. Quem ficará, pois, indiferente a este valioso “reduto” poético?

5 comentários:

porfirio disse...

;
da fé.

abraço

konde disse...

Intessante proposta de leitura necessária. Abraços...

harpa disse...

eu não. seguramente. porque sempre o achei genial.

doído. imenso.


beijo Martim.

Francisca Manson disse...

Lindos textos de um grande poeta. Viva a poesia!

Ai meu Deus disse...

com muito respeito pelo autor (e muito também pela Senhora de Fátima), hoje 13 de Maio recomende-ssse a leitura de um textículo sobre a segunda visada pelo meu respeito: Nossa Senhora de Fátima. Perdoe-ssse-me a publicidade, mas a causa é santa: veja-ssse (ou antes, leia-ssse), com muito proveito, em http://aijesus.blogspot.com/2006/05/do-contra-2.html