2007-02-18

"Destinos" - conto por António Rodrigues Gomes

DESTINOS

Quando poisou o pé no último de­grau das escadas de mármore frio e gasto (o pé esquerdo, lembro-me como se fosse hoje), libertou-se-lhe nas costas todo o receio de que tinha memória no corpo:

— A gente encontramo-nos lá fora. Lá fora é que a gente vamos ver como é que é. De homem para homem sem essa pasta de merda com mani­as de intelectual.

A orquestra cortou-me a recordação por ins­tantes breves. Admirei-lhe novamente a compos­tura engravatada, os pés a hesitar atrás do ritmo difícil que vinha do palco do ginásio, santuário das festas de Natal, construído na parte mais an­tiga, a mais bonita, da Escola. O rosto jovem, sensualmente selvagem, que alegrava a mesa que me fiz calhar em sorte (a única mulher, todos os demais, homens — e eu, o seu eleito sem que os demais adivinhassem porquê) também o conhe­cia, a julgar pelo sorriso com que respondeu a um leve inclinar da sua cabeça, já com apetências de calvície.

A vida tem destas partidas: constrói, destrói e reconstrói ao ritmo e ao acaso de (des)encon­tros — sumariara, estranhamente para os alu­nos, no dia em que ele (Arlindo, tinha a certeza de que era Arlindo, isso mesmo, Ar lindo no gra­cejar nem sempre piroso dos colegas) soltara sonora gargalhada (como é que é doutor importa-se de repetir), quando já estavam silenciados os corpos e sossegados os espíritos danados com a substituição. Tinham chegado em magote à boca da sala (cadeiras e mesas presas em anfiteatro e quadro vincado a sulcos de pauta de música sem clave) e o Arlindo chefiou o assalto: — Onde é que está o gajo? Apesar das suas vinte e poucas elegantes pri­maveras que frequentemente o confundiam com os alunos e obrigavam os funcionários a gaguejar (desculpe, doutor, pode passar; é que... Não faz mal eu percebo), não se lhe notou qualquer hesitação senão numa leve tremura de voz, imper­ceptível à desatenção dos alunos acabados de sentar:

— O gajo está aqui! Um humilde professor de Português, às vossas ordens! Como pelos vis­tos sabem, venho substituir a vossa professora anterior.

À distância de vinte e tal anos, desassossega-me a facilidade com que hoje as cordas vocais me atraiçoam e me desvelam o universo interior. Conservo, no entanto, o mesmo gosto pelo desa­fio, o espírito aventureiro com que ele aceitou a substituição, por dinheiro também — que três horas extraordinárias, afinal, não é coisa que em início de vida se desperdice — por altruísmo talvez — que senhora entregue a uma ("camba­da de matulões, todos homens de maior idade", avisou a colega quando pretendeu acabar com mês e meio de intolerável tormento) não era es­pectáculo que ele suportasse de boa mente. Mas essencialmente pelo desafio.

Consciente, reconheço. Como lhe escapari­am as alterações provocadas pela unificação do ensino, pela transformação de Escola Industrial e Comercial em Escola Secundária e o risco das reacções daqueles moços com corpo tão cresci­do quanto o seu e destino marcado para a Mecanotecnia? Acalmou a segunda aula com a declaração solene e sonora de que levara "muito peido de cigano" — expressão com que recor­dava para si os tempos em que na Faculdade afixava proibidos panfletos iludindo a vigilância dos olhares do chefe de Secretaria (informador da Pide, todos sabiam) e escondia que andara, em noites a que perdeu a conta, a colar cartazes (do MRPP, partido de que fora expulso por ex­cesso de reaccionarismo, sem nunca lhe ter pertencido — não obstante as quantidades do jor­nal oficial que vendera nas ruas e as discussões que nas mesmas vencera) de matraca segura no interior do velho sobretudo. Cenas muito recen­tes: tinham começado com as manifestações do dia seguinte ao da Revolução, que percorreram as ruas e arrancaram das empresas os trabalha­dores da cidade dos Arcebispos.

— Doutor, vai uma dança? Desculpei-me (não sei mesmo dançar, valsas então...), mas ela desarmou-me (não me diga que agora anda tocado a manias de intelectual). Chiça, que isto de se ser homem tem dos seus dissabores, como a impossibilidade de resistir a um corpo gracioso que se oferece para o prazer da partilha do movimento. Cedi.

Ela elevou as pupilas ao canto superior das sobrancelhas, que franziu — e o habitual sorri­so, aos lábios simultaneamente torcidos de con­sentimento e reprovação, protestando pelo pra­zer ilícito que o roçar leve dos dedos lhe desper­tava na união superior das nádegas e lhe inunda­va de seguida a flor da pele:

— Doutor... assim não brinco...

Senti-lhe no meu peito a rigidez dos seios e nos braços, a entrega desfalecida de todo o cor­po. Sorri-lhe também.

— Ouve lá... quem é aquele maricas que cumprimentaste há pouco?

Tinha a pele tão sensível que um ligeiro to­que de barba, crescida de algumas horas, facil­mente lha coloria de um vermelho irritado. Fenómeno incapaz de a dissuadir de um dos pra­zeres mutuamente consentidos: o contacto das faces.

— É um comerciante de sucesso. De pássa­ros, gaiolas e quejandos suficientes para uma for­tuna nada desprezável.

Venham cá agora dizer-me que a divina Pro­vidência existe! Como pode o Arlindo, ex-aluno medíocre (conhecido por ter aldrabado cente­nas de alunos e até professores solicitando assinaturas para um pretenso baixo-assinado de protesto, na realidade utilizadas para a legalização da FSP), ser homem de sucesso? E, acima disso, “nada desprezável” (sendo a fortuna, em boca de mulher há-de ser também o dono)...

Não é fácil a um cavalheiro (mesmo sem proclamação de macho latino) aceitar os seus próprios ciúmes (fraquezas, enfim, e sintoma social de inferioridades em relação à concorrên­cia, coisas de mulheres, portanto). Olhei-me na figura vestida de ganga, T-shirt e sapatilha descui­dada: só então me feriu a observação com que ela me recebera, num corpo sugerido pelo com­prido vestido preto:

— Ó doutor, eu compreendo-o, mas esses modos de vir a uma festa de ex-alunos pode ser entendido como afronta.

A orquestra fez breve pausa. Era exactamente isso: afronta (porra, uma afronta a mim, também e antes do mais, mesmo que não saiba bem por­quê, e isso que importa, merda para os porquês, vou-me pôr a andar).

No ombro uma mão venceu-me a firmeza dos passos. Um toque conhecido há mais de 20 anos, quando o Arlindo lhe narrara os pormeno­res do enforcamento simbólico de um professor numa árvore do recreio. Tocou-lhe as costas e concluiu:

— É assim que hão-de acabar todos esses gajos com manias de intelectual.

Desapertou o casaco, estendeu-me a mão num vigoroso aperto em dois destacados anda­mentos: — Ó doutor!... Há quantos anos!... Como é que vai isso?... Tudo bem?... A minha esposa, Marília... Gostava que um dia destes aparecesse lá em casa para a gente bebermos um copo... Que diacho é o que a gente levamos desta vida e afinal a gente temos que ser todos amigos, não é doutor?... A vida acaba por ser uma escola dos diabos e a gente acabamos por ver os erros que fizemos... Desculpe lá aquelas traquinices todas pá! A gente quando é novo não pensamos... Ímpetos da juventude... não é doutor?


AERREGÊ

5 comentários:

duke disse...

Conto musculado...

António disse...

Martim,

Abraço.

hfm disse...

Bem narrado e conduzido como deve ser um conto.

Jacinto Figueiredo disse...

Quantos são? Quantos são? Eu não tenho medo de ninguem!

isabel mendes ferreira disse...

"A vida tem destas partidas: constrói, destrói e reconstrói ao ritmo e ao acaso de (des)encon­tros —"

_________________mas aqui a vida tem este recomeço.



obrigada Martim.


beijo.