2006-04-30

Aquilino Ribeiro e o cânone literário


Um escritor pode nascer no dia 13 de Setembro de 1885 e não saber ainda que o destino o virá a tornar em figura importante. Pode mesmo começar a escrever na década de 10 ou de 20 e para sempre ficar esquecido, injustamente à margem, como aconteceu, por exemplo, com António de Sèves, esse escritor que anunciou algum do melhor Aquilino, sem que para si sobrasse uma mera nota de rodapé ou uma menção honrosa em final de capítulo.
No espaço consagrativo nem sempre cabem nomes principais de uma época, nem tão pouco encontram guarida muitos dos nomeados por figuras maiores. Os fautores do gosto, críticos-criadores ou criadores-críticos já entronizados e canonizados, estabelecem as magníficas qualidades de um sem-número de autores, que logo abraçam o silêncio e a simpatia das margens. No interim, alarga-se o espaço do provisório e o dito canónico é palavra ao vento pronunciada por um nome central que não domina a estranha forja das boas nomeações e das fundantes diferenças. Nesta massa confusa, compósita de intersecções, vaidades e suspeições, viaja o vício da perpetuação e da indústria conserveira. O perigo da literatura ilustrativa e patrimonial é evidente: permite o contacto com o esperado, o que, de facto, é um angustiante passo, que é ainda sinal de que o vezo conservadorista em literatura pode ser improdutivo e estéril. Contra o dito, ajuda à ginástica do intelecto a aposição aquiliniana, também certeira, que respigo em Abóboras no Telhado e que conduz também à perplexidade que atrás plasmei. Cito:

“Em literatura não há tropos nem pamplinas que valham. Quando se diz dum escritor: cristalizou, embora o fenómeno de cristalização seja privativo dos corpos nobres e revele uma forma superior física, significa: não o leiam que é sempre o mesmo. Ser sempre o mesmo neste mundo volúvel, versátil, esfomeado de novidades, é ocupar um grau de beleza moral que honra a espécie. Em arte, é um jubileu. Mas para o público proteico, é a sonolência.”

E emendo o dito. Porque, de facto,e entendendo com José Saramago e Alberto Correia que o mundo aquiliniano é arqueologia, entendo de imediato que o grau de beleza moral que dessa arqueologia se levanta é moderno e urgente. A cisão com o modo “caseirinho” e suspenso desse jeito único de procrastinar um “mundo já outro“ é ainda uma forma única de cristalizar a substância do momento. Como o diz, aliás, o consistente aquilianista Alberto Correia na última Beira Alta, cavando o abismo, para melhor evidenciar a nobreza do que não mais existe. Como estar-se, pois, fora da literatura?
Miguel de Sá e Melo, em 1936, dizia que o mais importante escritor português era José Régio. Cerca de duas décadas antes, por 1913, Carlos Malheiro Dias dizia Aquilino o príncipe das letras portuguesas. Dois anos depois, em 1915, no Inquérito Literário de Boavida Portugal, realizado em 1912, todos desconhecem o ainda nascente Aquilino: esquecem-no Júlio de Matos, Lopes Mendonça, Teixeira de Pascoais, Augusto de Castro, Gomes Leal, João Grave, Gonçalves Viana, Adolfo Coelho, Veiga Simões, Júlio Brandão, Visconde de Vila Moura e tantos outros, não entrevendo nas colaborações periódicas o gérmen de um escritor de eleição. Em 1934, em entrevista concedida ao “Suplemento Literário” do Diário de Lisboa, Aquilino Ribeiro, antes de expender importantes actos judicativos sobre os processos de canonização literária, é apresentado como “um dos grandes e raros casos da literatura portuguesa”. Em simultâneo, ontem como hoje, as palavras aquilinianas trazem uma visão ácida e desconfiada sobre a “shared culture”:

“À tona desta sociedade, cada vez mais mecânica e febril, manter-se-á como peixe em água o escritor oficial. Este que é um baluarte da boa ética, fiche em matéria da pátria, de religião, de política, que decanta as virtudes ambientes do burguês, do banqueiro, do comerciante, que detesta Caliban; apenas porque veste de Cândido, este resiste à avalanche. Constituir-se-á uma geração de novos Tolentinos, à mesa posta do poder. Os salões, as academias, os cenáculos distribuir-lhes-ão as migalhas do açafate como alpista aos canários. E salvar-se-á desta forma a honra literária do século.”

Também de alpista se alimenta o fóssil. O texto de Aquilino é admonitório dos perigos da estabilidade podre e de todas as relações de dependência ou de marginalização. Fender o centro e repartir para dar de novo é um imperativo saudável e estimulante. Em 1934, Aquilino convoca para a “mesa do poder” os nomes de Rocha Martins, Augusto de Castro, Gaspar Simões, Tomás Ribeiro Colaço, Ferreira de Castro e António Sérgio. Nem paz, nem harmonia na literatura, pois.
Contemplável no silêncio dos eleitos, haverá sempre um lugar à sirga para Mestre Aquilino no curso de Minerva. E os outros, que lugar para as suas vozes também definitivas?



5 comentários:

Mendes Ferreira disse...

(só se for uma pégada nabatina,,,destas recentes Martim, duvido....desculpe-me)
__________________________________e depois só mesmo o silêncio. e nele inscrever o nome. de alguns eleitos.

boa noite.Martim. beijo.

martim disse...

claro, claro... das recentes,nem todas despiciendas,só poucas se vão inscrevendo, parece-me... poucas e nem tão eleitas. porém, nem todas negligenciáveis. beijos e boa-noite, isabel!

Mendes Ferreira disse...

e claro Martim que me referia a pégadas mas fúteis...as que se pousam (nem todas...) na Net....


Obrigada. por me entender!

P.S. chegou a ler o E.?

beijO.

aveazul disse...

quanto ao E., vou lendo e maturando... em breve, mesmo, darei notícias do acto. aquele bjo.

porfirio disse...

boa noite martim

:
ao espaço
de
1
segundo
tudo é
arqueológico.

abraço