2006-04-04

aprender a ler: a provocação da leitura

Edouard Vuillard, La lectrice (1896)
A certeza tem limite e a intimidade dos textos faz-nos esquecer esse mal-estar. A utilidade gadameriana da pergunta sai do pulso e torna-se corpo, lançando ao mundo uma história da interpretação.
Avanço lendo para mim A Visita das Fontes. Apólogo Dialogal Terceiro de D. Francisco Manuel de Melo. Tento ler bem e ouço o teatro dos textos em volta.
Diz um George Steiner: "To read well is to take great risks. It is to make vulnerable our identity, our self-possession. (...) He who has Kafka's Metamorphosis and can look into his mirror unflinchingly may technically be able to read print, but is illiterate in the only sense that matters." Pestanejo.
Dissemino agora. Stendhal, no seu Le Rouge et le Noir (1830, II, cap. 19), escreve: "Un roman est un miroir qui se promène sur une grande route. Tantôt il reflète à vos yeux l'azur des cieux, tantôt la fange des bourbiers de la route." Ou seja, na tradução de Maria Manuel e Branquinho da Fonseca: "Um romance é um espelho que se passeia ao longo de uma estrada. Tão depressa reflecte aos nossos olhos o azul dos céus como a lama dos lamaçais da estrada."
Baralho e dou de novo. Walt Whitman, na "Song of Myself" (1855), confidencia: “ I do not give lectures or a little charity,/ When I give I give myself.” Um também poeta americano, Robert Frost, em entrevista de 1964, "define" assim poesia: “Poetry is what is lost in translation. It is also what is lost in interpretation.”
E, para que o fastio de citações não se cumpra, finalizo, dizendo: que Tennyson gritou para a noite dos séculos "And none can read the text, not even I; / And none can read the comment but myself." (Idylls of the King , 1859); e que Joyce gritou para todo o sempre "That ideal reader suffering an ideal insomnia." (Finnegans Wake , 1939).
Concluo de novo. Como judiciosamente o notou há dois séculos Isaac D'Israeli - pai do arquifamoso Benjamin Disraeli - existe uma arte de ler, como existe uma arte de pensar ou uma arte de escrever. (The Literary Character , 1795) Percebe-se?
Explico. Ler bem é ler por dentro. O espelho do texto mostra ao sagaz leitor os trabalhos de deuses. Ler bem é desvelarmo-nos por dentro. No reverso espelho, estamos nós. A urdi-dura textual é especular, para dentro do texto, ao divino, para dentro de nós, em devassa. Assim se mostra o criador, sem se dar. Aí começa o trabalho do leitor, insónia activa pela vida do texto dentro de si. O texto existe em mostração. Mas como exaurir-lhe a pureza, esse muito-dentro da criação, se a arte percutiva da leitura age sobre o criado num longe-perto da criação?
O texto é a cidade que a leitura quer habitar. O leitor toca o criador e a criação. Todos se agitam. O leitor-intérprete, através desse frémito sem sono, derruba a muralha e funde-se no dentro-fora do texto do autor-intérprete. E o fora do texto choca agora com a concepção de obra de arte do new criticism , desapensa de intenções, emoções e paráfrases, uma entidade autónoma, sem história. A intenção do autor é valorizada na hermenêutica recognitiva de Hirsch; a reacção do leitor é enfatizada na estilística afectiva de Stanley Fish; o "mundo" é valorado na crítica sociológica de Edward Said... E assim a arte da leitura se torna difícil, nesse dia sempre inacabado da perscrutação que nos modifica e nos torna diferentes. Se calhar, o pestanejar do depois-do-texto-para-lá-do-texto afirma também que o guardião textual, o autor e a sua fé, não consegue dizer o desejado; da mesma forma sabe-mos que do texto faz parte o que não foi lido pelo leitor. O texto, nesta luz especular e estratificada, não mera soma de subtextos e intertextos, será também o que se perde na crição e na leitura. E aqui chega o contexto, que ilumina e mostra e ajuda, porque o texto, esse, é palavra de homens-deuses e não de Deus.
Aqui o reverso provocatório." São estes os leitores da minha profunda afeição, porque falam pelo lado de dentro, onde os críticos normalmente não entram. Porque se ficam de fora a admirar o palácio, se acaso o admiram, mas não sabem e não sentem a alma que o habita, nos salões, nos corredores, nos recantos de um maior recolhimento."
E agora seria o tempo de voltar ao princípio, ou seja, a George Steiner, e mostrar de novo a minha ferida… Sem tempo, sigo a leitura dialogal.

5 comentários:

porfirio disse...

boa noite martim

:
leitura dialogal?
eu creio na leitura diagonal.
que o ler antes é sentir
como quem se atira ao veio de fruição do texto pra ir na corrente e regressar luminescente.

abraço

konde disse...

Fantástica pintura e interessante reflexão. Abraço.

Francisca Manson disse...

Que livro estará a senhora a ler? Boa-tarde.

alice disse...

"alívio do coração

foi então que as árvores respiraram
sustentando a queda dos astros
haviam pernas a pisar os ramos
indiferentes à dança das trevas
haviam faróis a bailar
por entre as sombras rasas
e cabelos humanos
nos troncos da inveja
*
como explicar o desprezo do espaço?
entender o terrorismo das feras diante dos teus braços?
perceber a ignorância dos patos a debicar cristal?
compreender a estância de zelo que a água empata?
decifrar a linguagem cega dos teus olhos parvos?
definir nas plantas a génese do teu abraço?"

um grande beijinho, tinha saudades de vir aqui,

alice

Su disse...

gostei de ler.te ... por dentro


jocas maradas de palavras