2006-03-11

Pedro Homem de Mello: à beleza da poesia



1. Tantos outros morreram na memória, enquanto Pedro Homem de Mello, deslembrado e marcado pelo estigma dos diferentes, mantém uma força indesmentível nos seus signos agudos e modernos. Espantou-se o mundo, principalmente o “mais literário”, por norma atento a celebrações e panegíricos, com o silêncio. Cem anos passaram já (101, para ser preciso) sobre o nascimento do Poeta que em 1934 deitou a sua “Caravela ao Mar”. O país e os factores costumeiros da institucionalização da literatura mal se ouviram. Também por isso, e adentro deste “hospital das letras” que vou construindo, lembro que Pedro Homem de Mello nasceu no Porto, em 1904, e aí faleceu, em 1984, depois de uma vida como poeta, advogado, professor e folclorista.
Aproximando-se do mais puro lirismo português pela musicalidade, a poesia de Pedro Homem de Mello ultrapassa essa marca da tradição pela deflagração das emoções e do erotismo desafiador. A par, opera ainda uma tensão produtiva que assenta no rigor das palavras e na audácia das sugestões. E assim pode dizer-se que a simplicidade poética se funde com a complexidade resultante da ultrapassagem controlada dos fundamentos lógicos e tradicionais. Tal ambivalência conecta-se no plano temático, por exemplo, na problematização do Bem e do Mal ou do Corpo e da Alma.
Habitante do dissídio e das tensões em si criadas, um tanto à maneira de Cesário Verde parece sempre que a cidade de nascimento traz o pecado e o remorso (“Cidade oblíqua. Sexo pesado. / Raio de cinza, lúgubre e lento… / Bandeira negra, barco parado. / Cidade minha, do meu pecado…”), enquanto a quinta-convento de Cabanas, em Afife, convoca desde as primícias o retemperamento e a alegria (“Meio-dia em Afife. As matas de Cabanas / dormem tranquilamente e dorme toda a quinta. / A luz, bacante, exala ondas mornas, profanas, / Põe beijos sensuais e mel no seu aroma. / Oh! Que profunda paz!”, in “Caravela ao Mar”, 1934).
Criador de um cenário habitual em que as “aves, as plantas, o ar / Fizeram romaria…”, deseja ainda o Poeta captar os mistérios da distância e das ideias, nos seus abismos e conclusões mais desiludidos: “Quero partir…¿ mas de que serve andar / Se a terra anda comigo, / Se os meus passos imóveis, sem abrigo / São náufragos no mar?...” (“Jardins Suspensos”, 1937). Essa nota de decepção é ainda mais evidente e interessante, nomeadamente pelo cariz programático e metaliterário, em poemas como “Passos Perdidos” e “Arte” (ibid.), que aludem não só ao desvelamento do sujeito lírico e do poeta, mas também à função do artista que é a de reter “suavemente / Na sua voz doirada a doirada emoção / Do canto da corrente…”.
No dizer ponderado de José Régio, Pedro Homem de Mello é “um dos nossos mais verdadeiros” líricos. O asserto regiano é para nós responsabilizante. Nunca o autor de “Fado” foi homem de palavra vã ou excessiva. Espantoso é o silêncio distraído (?) das academias e dos homens da cultura. Como estranho foi o abandono do Poeta num lar de idosos, donde, por vezes, saía com João Braga e José Pracana, como aconteceu no dia em que almoçaram, pouco antes da morte, no restaurante Tavares.
Pedro Homem de Mello é um poeta admirável. De simplicidade complexa, reitero, avulta nele o apodo de lírico tensional: a indenegável modernidade da sua poesia advém da simplicidade de processos (novos, porque velhos) e da inextrincável presença de um religiosismo-paganismo poucas vezes tão sincero na poesia portuguesa. Talvez por isso João Gaspar Simões tenha afirmado, em 1944, que lia Homem de Mello com inebriamento. E, de facto, vinda do mistério, o mistério se afirma em cada expressão. No entanto, pouca poesia mais luminosa e mais radiante. Sempre contrastante, a poesia de Pedro Homem de Mello vive da tensão que habita o homem: “Piso uma estrada curta, definida. / Numa ilha de carne tenho a cruz / Donde a volúpia dos meus braços nus / Escorre em gotas rubras porque é vida.” (“Calvário”, in “Príncipe Perfeito”, 1945). Pode o dizer poético abrir-se à confidência pagã (“Beija-me o sol. Morde-me o vento.”), para logo se entregar à vertigem da religião tradicional (“O que seria o mundo sem a Igreja?”).
Em “Profecia” (ibid.), o Poeta diz escrever “para de hoje a cem mil anos.” Como o tempo passou depressa!...

2. Não mero efeito de quaisquer actos de leitura, sabe-se, não só para o caso de Pedro Homem de Mello, como o texto literário habita um espaço pluridiscursivo que afecta a criação e os sentidos. Por exemplo, o discurso crítico literário (por mim visto, no sentido de Yves Chevrel, como uma poética) altera muitas vezes o objecto principal, antes mesmo do encontro com o leitor e da fusão de expectativas.
Por isso, afirmo entender a função judicativa literária como uma aproximação à obra e um “mostrar de si”, ou seja, o crítico revela e revela-se, aprofundando uma relação de objectos diferentes e, contudo, dependenciais. Da capacidade de inscrever a arte sacral do julgamento depende ainda a entrada na doxa corporativa.
Não é essa estrada de Damasco que procuro. Longe disso, afirmo-me com o texto dúplice. Lendo e mostrando-me a partir da urdidura dos signos originais. Nesta arte do restauro em que mergulho desde há muito, em hospital de letras continuado, existe muito de mim e muito mais dos outros. A sintagmática do epimítio fabular é por isso, persistente leitor, uma incisão reparadora. Contra o descaso ou a distracção, as palavras que liberto serão sempre dádiva recebida que assustadamente transmito. Com pudor, silenciosamente espantado pela cegueira.
Repito: Pedro Homem de Mello e a sua poesia derretem o gelo que da leitura desce. Pouca modernidade é tão profunda e caudalosa como aquela que se afirma elementar e natural em versos despretensiosos e agudos. Quem não admira aquele poema intitulado “Prefácio” (“De nada sei / Como as rosas. // De nada sei / Como as nuvens. // De nada sei / Como as pedras / Que nada sabem de mim.”) que é iluminação para a obra do Poeta e destino de mais de oito séculos de poesia? Alimentada nos “celeiros da poesia medieval” (João Gaspar Simões), o contacto com os textos de Homem de Mello rastreia um passado e mostra o futuro.
Como atrás disse, talvez de forma velada, a sorte de um poeta ou de um escritor não depende apenas do texto. Muita da ganga envolvente esconde e marginaliza sem piedade, rotulando maldosamente. No silêncio, texto e poeta morrem de asfixia e de “mesmidade”.
Abro ao acaso “Eu hei-de voltar um dia” e logo deparo com a força sugestiva do poema “Canção derradeira” que diz: “Minha Mãe deitou-se… / É noite!”. Esta secura produtiva de sentidos e esta estética da sugestão são modo recorrente e habitual em Homem de Mello e em cada sílaba sonante.
Assim, sem favor, direi, também no sentido de Walter Benjamin, que a obra de Pedro Homem de Mello é sintética e “central de energia”, pronta a ser usada e “gostada”. Enérgica e sensual, esta é uma poesia que se entrega ao leitor e se dá ao coração, como o diz exuberantemente a primeira quadra que fecha “Eu hei-de voltar um dia” (1966): “Versos, meus versos, ide a toda a gente / Levar este ciúme, oculto em brisa, / Se é que ainda estou – eterno adolescente - / No mundo que do amor ainda precisa!”.
Sem escola ou fronteira, Pedro Homem de Mello é um poeta forte da nossa literatura. Muito do descaso terá sido acaso da vida ou apressada desatenção. Afinal, ler pelos outros é trabalho ingrato e falacioso. Temível é, neste caso, o homem de um livro só ou mesmo de poucos.
Para dar passagem “à beleza e à poesia”, deve o leitor, se ainda “loiro e puro adolescente”, ouvir a prece das canções ardentes, porque a leitura e a diversidade dela será sempre uma questão de idade. Quem vem ser adolescente, com Pedro Homem de Mello, no sopro do vento?





15 comentários:

sonia r. disse...

Boa noite Martim. Bonita homenagem a um grande poeta.
Bom fim de semana.

Bjo.


PS- Qual fotografia, a do profile?

porfirio disse...

boa noite martim

esquecido sim entre muitos e por muitos... porém há muita gente que o canta sem se aperceber e exemplo disso é «povo que lavas no rio».


"...NUMA BANDA A ESPANHA MORTA,
NOUTRA PORTUGAL SOMBRIO
ENTR' AMBOS GALOPA UM RIO
QUE NÃO PÁRA À MINHA PORTA.
E GRITO, GRITO:ACUDI-ME,
GANHEI DOR. BUSQUEI PRAZER
E SINTO QUE VOU MORRER
NA PRÓPRIA PÁTRIA DO CRIME..."
[Pedro Homem de Mello
excerto de Gondarém]

abraço

martim disse...

Safo, era brincadeira e referia-me, claro, ao profile. bjos.

sonia r. disse...

O retrato é de Safo, achei que era mais apropriado.
Boa noite Martim.

Bjo.

martim disse...

também por isso. como pode safo assumir-se assim tão mimética? boa noite noite dentro. bjo.

martim disse...

obrigado, porfírio, por te juntares à homenagem a um grande poeta esquecido. não posto mais nada, caso não atinja os 10 comentários... ah! ah! ah!

konde disse...

Este também era monarquista! Viva Pedro Homem de Mello!

spartakus disse...

ai a família...porra. faz-se um apelo pró pessoal vir cá postar todo...lol! este merece, pois está claro...já num se pode ir lá e voltar, porra. b'noite Kamarada.

spartakus disse...

comentário 9.

spartakus disse...

comentário 10. uf...já está.

martim disse...

obrigado, spartakus, por me fazeres
obliterar o desígnio. sem 10, nada. komo vês, tudo fiz para atingir a dezena. e konseguimos! abraço.

Mendes Ferreira disse...

uma lírica iluminada...que mts desprezaram. que alguns bebem...

obrigado Martim
beijo.

martim disse...

obrigado, isabel, pela mesma sede que nos consome. bjos.

Francisca de susá disse...

Gosto de alguns poemas que já li.

Anónimo disse...

Poeta e etnógrafo de grande nível. Obrigado.