2006-09-25

a mais loura de lisboa (conto lírico de Isabel Mendes Ferreira)


"é tudo um sonho vago de luar."
Teixeira de Pascoaes

uma estrada longa. povoada de fantasmas. sebes altas como a memória dos ingloriosos dias de fome e encantamentos. uma vontade de ser mais que um estivador do trigo ressequido. uma sede de letras e sílabas. o medo do quarto escuro onde o pão era luz escassa e lunar, as algibeiras cheias de recados de água. cartas de recomendação para a cidade. para um balcão de perfumes e vernizes.

o Diogo lá ia. pés apressados rumo a sorte vencida no entanto mais verde que um carro de bois a ilharga. longa e suavemente despedia-se da montanha. da neve e das papoilas. um olhar de musgo incendiava as pedras que agora Ihe apeteciam mais que nunca. mas tinha de ir.
condenado ao futuro vestira o melhor. o primeiro. o único fato. como se a ironia da vida fosse um corte de fazenda grosseira e cinzenta. parda como a alma dos que sonham com a lua.

aproximava-se da estação como um bandido do pri­meiro assalto. a mãe era uma saia escura ao canto da cozinha. os irmãos mondavam a esperança de terem a sorte do Diogo. e entretanto iam jogando à cabra-cega com as ovelhas magras e melancólicas. o pai era uma sombra na esquina e um trago de aguardente na taberna do tio palmito.

ah aquele filho ia longe. era mesmo a carne da sua carne. e se não fosse doutor havia de casar com a loura mais loura de lisboa. sim que lá na capital as mulheres eram todas louras e perfumadas e tinham pernas brancas como a neve da serra.
ah aquele seu filho era mesmo igual a ele ditoso pai de quem parte para a cidade. e enquanto estes sonhos se bebiam na taberna do tio palmito o Diogo bebia o último cálice da terra à procura duma razão qualquer para ir mugir as vacas tristes e estéreis. de súbito para acabar com o desespero que só os escravos conhecem. um apito diabólico encheu o ar de desafio e como um touro selvagem o comboio irrompeu no silêncio das ervas.

o Diogo espantado e cansado de tanto medo e simultâneo desejo tomou de galope a terceira classe daquele monstro a arder Como um vulcão prestes a inundar a aldeia. não espreitou sequer o verde nem o alto das escarpas. Não disse adeus às camélias e esqueceu as rugas que envelheciam o rosto torturado da mãe. sentou-se ao contrário. no sentido inverso de lisboa num repentino receio de todas as mulheres louras e perfumadas. não chorou sequer. os Diogos não choram quando têm de fingir de vencedores.
e o comboio corria. voava. dir-se-ia comandado pelo de­sejo do pai que na taberna do tio palmito pedia mais um copo pela viagem triunfal do filho igual a ele.

Diogo chega a lisboa. gente. tanta gente. não sabia que o mundo e aquilo era com certeza o mundo. era tão cheio de gente. de carros que não eram de bois. de rapazes elegantes, de malas. muitas malas. seriam tesouros. cebolas ou cadeados? e sobretudo mu­lheres. mulheres de olhos verdes. lá na aldeia todas tinham olhos de sofrimento e por isso castanhos ou negros de desencanto.
parado como um polícia de sentinela Diogo duvidava do que lhe parecia ser o céu descido à terra, mar. era o mar. ninguém lhe tinha falado do mar. nem a tia Amélia que era tão sua amiga e sabia coisas insuspeitadas na terra da neve e das azedas em flor.

lisboa tinha o mar mesmo ali. soberbo e submisso em ondas de volúpia. em carradas de peixes luminosos e traineiras brancas e azuis com nomes em letras grandes e vermelhas. lembrou-se da fogueira dos ciganos. do mistério rubro que andava à solta pelas noites de agosto.

Diogo estava apaixonado. siderado. em êxtase. o mar era a sua primeira mulher. loura e perfumada. entregue sem reservas como um corpo sobre a erva. a erva que ele trazia guardada nos rins em noites de adolescente ansioso.
lenta e muito seguramente dirige-se ao cais. embriagado de limos e tainhas. o peito solto nas mãos apelativas. o corpo djlacerado de desejo chega devagar à boca das ondas. às ancas do céu. toca-lhes. atinge os lábios da água sôfrego e altivo. mancebo de veludo e cítaras. Diogo sente que dentro dele o vulcão vai explodir e lembra o comboio invadindo a estação. sabe que aquela mulher e a única mulher da sua vida. acesa. livre. pouca demais para tanto desejo. comove-se com a ternura que ela derrama no seu corpo. ternura de mulher primeira que se lhe oferece exigindo apenas o corpo que ele arde por lhe oferecer.
e Diogo nao aguentando mais aquele ardor na pele eriçada de antecipação do prazer. abate-se másculo e gigante sobre aquela mulher loura. perfumada. mulher de pernas brancas e cabelos de corais e con­chas e seixos e diamantes e carpas.

uma semana depois o pai de Diogo bebe na taberna do tio palmito pela alma daquele filho tão igual a ele. assim que chegou a lisboa casou-se com a mu­lher mais linda que lisboa inteira namorava. mas tinha sido o seu Diogo que a tinha cativado.

e a mãe ao canto da cozinha bordava lençóis de linho que pelo entardecer adentro ia depositar na arca inundada de limos e búzios de todas as cores.
(a mais loura de lisboa, Lisboa, Difel, 1984. O código óptico-grafemático foi alterado.)

14 comentários:

Su disse...

siderada..fiquei eu
amei ler..pricipalmente o paragrafo do mar/mulher loura

jocas maradas de ondas

konde disse...

É um conto muito bonito, aquático. Obrigado!

porfirio disse...

boa-noite martim
bonjour isa

não sei porquê
mas quando te leio isa
dá-me sempre a impressão de que
«o vulcão vai explodir»

bjo pra ti
e aquele abraço pró martim

a rasar o ceu disse...

Porfírio.....:)))))não. não explodiu....foi apenas a leve promessa. como tantas e tantas outras....que se abriram no nada...
______________________

Martim...primeiro a enorme surpresa.(as coisas que descobre...) depois...depois o tempo come tudo...:(((.
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conto des.conto de uma idade em que escrever talvez fosse mais importante do que o saber fazer.
obrigada.
pela memória. mas mais pela ternura. que é tanta e só ela justifica o que não é.
______________________

beijo.
:)

duque disse...

Gostei mesmo! Parabéns à autora e a ti...

Franceska disse...

Li de uma assentada... Beijos!

hfm disse...

Obrigada Martim por teres colocado aqui este conto da Isabel.

Como é costume com as suas palavras - fiquei sem fôlego!

PiresF disse...

Excelente!

Sei das qualidades da Isabel para a escrita, mas este conto, sendo uma novidade por só agora o conhecer, merece um prolongado aplauso e uma vénia rendida.

Para si Martim, que em tão boa hora proporcionou este maravilhoso encontro, um enorme obrigado.

Anónimo disse...

Martim, tirei um grande prazer nesta leitura. Para quando mais?

abílio disse...

O anónimo atrás sou eu, Abílio aveirense!

nnannarella disse...

Ternura tanta, sim, desvelada por uma ou outra gralha, delatora de que o texto foi aqui escrito a dedos...:)
E terno é o tempo que se dá assim.

Tive oportunidade de ler o livro citado e também não partilho da ideia da Autora quando diz que não passa de "uma promessa". É um livro acabado. Escrito com as fragilidades de um quarto de século, mas com rasgos belíssimos. Com uma revisão menos boa, mas tremendamente inovador, pelo menos em três ousadias mais visíveis: a metáfora e a associação semântica libertárias; a cinematografia; e a temática homoerótica feminina, ainda hoje praticamente inexistente na ficção portuguesa.
Obrigada pela oportunidade da releitura.

Bill disse...

E cada vez Isa me encanta mais, palavras sempre feitas de sonho...
Agradeço de coração a oportunidade de tão bela leitura.

[s]s

martim disse...

nnannarella, obrigado. prometo, para breve, uma edição "ne varietur".

nnannarella disse...

ah ah

se o conseguires, estaremos perante um milagre ecdótico!
boa sorte.