2006-09-07

Álvaro Júlio da Costa Pimpão (1902-1984): o 26º Reitor do Liceu de Viseu

Há trajectos assinalados que não podem ser esquecidos, como há, do mesmo modo, percursos que estranhamente se cruzam, em tempos diferentes e descontínuos, provando-se assim da sabedoria do tempo que tudo organiza.
Álvaro Júlio da Costa Pimpão foi, entre 1935 e 1937, o 26° Reitor do então Liceu Central de Alves Martins, sito provisoriamente, desde 1922, no Colégio do Sacré-Coeur, que, por pressões políticas dessecularizantes, deixara de receber as religiosas da Ordem. E, no entanto, este edifício gerido por Costa Pimpão haveria de confinar, por desígnio dos homens e do seu reconhecimento àqueles "que por obras valerosas...", com uma rua de nome Maximiano Aragão, figura que fora, afinal, de 1906 a 1910, o 13º Reitor do então dito Liceu Central de Viseu e o último do regime monárquico. O tempo, esse grande escultor, como o disse uma Yourcenar, preparou ainda essa feliz coincidência.
Costa Pimpão sobraçou a cidade e conheceu-lhe os encantos. Nem por isso perduram memórias visíveis nos anais viseenses sobre essa presença forte e dinâmica. Permite a memória. talvez. intuir o seu vulto esquivo cruzando o Rossio debaixo das frondosas tílias, imerso em pensamentos literários e pedagógicos, em direcção ao arborizado e atractivo Liceu, onde terá privado, nesses dois anos lectivos, com cerca de 1300 alunos e 50 professores.
Álvaro Júlio da Costa Pimpão nasceu em Coimbra, no ano de 1902, vindo a licenciar-se em Filologia Românica na Universidade da mesma cidade, em 1927. Cumprido o reitorado liceal nas cidades da Figueira da Foz e de Viseu, foi leitor de Português na Faculdade de Letras de Bordéus ( 1937-1939), vindo a ser nomeado professor auxiliar da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, em 1939, aí se doutorando, em 1943, com uma tese sobre Fialho de Almeida, acabando por ascender a professor catedrático em 1949. Homem de acção e de empreendimentos intelectuais, foi ainda Professor Visitante nas Universidades da Baía e de S. Paulo (1954-1957), Director da Faculdade de Letras de Coimbra de 1963 a 1970 (cargo em que, segundo Aguiar e Silva, "realizou uma obra notável " ), Secretário da revista “Biblos”, Director da revista “Brasília” e fundador da “Revista de História Literária de Portugal”. Foi também procurador à Câmara Corporativa na IX Legislatura e vogal do Conselho Superior do Instituto de Alta Cultura.
Reputado medievalista e atento estudioso da literatura renascentista (como o comprovam, aliás, edições de obras de Gil Vicente. Camões ou Fernão Mendes Pinto ), deixa o Doutor Costa Pimpão uma obra sólida e criteriosa que convalida para todo o sempre um percurso ímpar e modelar. Sem exaustão, cito “Fialho. Introdução ao Estudo da sua Estética” (1943), “História da Literatura Portuguesa (Séculos XII a XV)” ( 1947), “Gente Grada” (1952) e “Escritos Diversos” (1972). Foi ainda distinto colaborador de inúmeras revistas e publicações literárias, lembrando eu, em exemplo, titulações como “Arquivo de Bibliografia Portuguesa”, “Arquivos da Universidade da Bahia”, “Biblos”, “Bicórnio”, “Boletim Cultural da Câmara Municipal do Porto”, “Boletim do Instituto de Estudos Franceses”, “Brasília”, “Brisa”, “Brotéria”, “Cidade Nova”, “Dom Quixote”, “Estudos”, “Ocidente”, “Revista de História Literária de Portugal”, “Revista da Universidade de Coimbra”, “Serões”, “Via Latina” ou "Letras e Artes", o suplemento do lisboeta jornal “Novidades”.
Em época de facilitismos, desmesurados deslumbramentos e "índias" sem utopia, com chegada no curto raio de um olhar, é este mais um exemplo de que não existe fábula sem epimítio. Todas as actividades perfunctórias, envoltas hoje em festividades sumptuosas, esbarram com homens assim. E, depois, nada existe para dizer, nada interessa comparar , restando apenas um inquietante silêncio.
Costa Pimpão encerra no seu trajecto de simplicidade investigativa um corte exicial com a banalidade. Soprado também da nossa circunstância e do calor fundo do nosso granito secular, o ilustre professor coimbrão é, na percuciência silenciosa que aos melhores assiste, um dos mais notáveis exemplos de acribia literária. Sirva-nos estoutro exemplo de marca identificativa...
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A f otografia resulta de uma viagem efectuada à Índia Portuguesa, em Novembro de 1960, pela Associação dos Antigos Estudantes de Coimbra.

3 comentários:

A VOZ disse...

Intelectual de grande valor.

konde disse...

Boa homenagem a alguém bem do seu tempo e, parece, com os desvios próprios do tempo. Um abraço sempre agradecido!

elgoog2 disse...

Isto é ruído e que não pretendo corroído. É só deixar apreço porqu apenas conheci a obra de Pimpão pela edição dele de As Lusíadas (IAC) que li ontem.
Senti uma alegria (excessiva e megalómana) instantânea ao ler "calor fundo do nosso granito secular". Nem conheço Viseu!
E foi deligentemente ao net dicionárop ver epitímio, perfunctória, exicial, acribia...e depois de familiarizado noto que o seu emprego me parece adequadíssimo. A percuciência vence, num átomo de tempo, a inquietude na esfera do silêncio.

elgoog2