2007-10-10

Regicídio no último "Expresso" - texto de José Pedro Castanheira

Regicídio /Centenário. Um livro sobre o assassínio do rei D. Carlos permite estabelecer as ligações familiares entre os conjurados de há cem anos e algumas figuras públicas da actualidade. A começar pela própria família real... Trisavô de Herédia armou os regicidas

Envolvidos antepassados de Carlos Barbosa e de Sáragga Leal

As armas utilizadas pelos assassinos do rei D. Carlos e do príncipe Luís Filipe foram compradas e guardadas pelo visconde da Ribeira Brava, Francisco Correia de Herédia. O trajecto das armas, desde que foram encomendadas, até aos seus disparos mortais, constam do livro ‘Regicídio. A Contagem Decrescente’. O autor, o jornalista Jorge Morais, não diz, mas Francisco Herédia é trisavô paterno de Isabel Herédia, actual duquesa de Bragança. Sem dúvida uma ironia da História...
O título de visconde da Ribeira Brava foi criado em 1871 pelo rei D. Luís, para agraciar António Correia de Herédia (1822-1899) pelo trabalho humanitário desenvolvido na ilha da Madeira; par do reino, fora deputado, presidente da câmara e governador civil do Funchal. António Herédia, no entanto, sugeriu que o título fosse atribuído ao seu único filho varão, Francisco. Este, porém, revelar-se-ia um activo conspirador contra a monarquia. Notável do Partido Progressista, em 1905 acompanhou o seu chefe de fila e ministro da Justiça, José Maria de Alpoim, na ruptura com o partido. Nasceu então a Dissidência Progressista, que cedo se aproximou do Partido Republicano. No combate sem tréguas contra a monarquia, republicanos e ‘dissidentes’ criaram um comité revolucionário: Afonso Costa e Alexandre Braga de um lado, Alpoim e Herédia do outro.
A primeira reunião do comité realizou-se a 11 de Julho de 1907 em casa do próprio Ribeira Brava. Diz-se que aí nasceu o movimento revolucionário de 28 de Janeiro, destinado a depor o chefe do Governo e ditador, João Franco. Baseado em algumas das obras clássicas sobre o regicídio, Jorge Morais sustenta que o armamento adquirido foi financiado, entre outros, por Egas Moniz, Alfredo Leal, João Baptista de Macedo, José de Alpoim e os viscondes da Ribeira Brava e do Ameal, além de ilustres figuras republicanas, como José Relvas. Era gente quase toda pertencente à Maçonaria e mesmo à secreta Carbonária.
Parte substancial do armamento foi encomendado a Gonçalo Heitor Ferreira, ele próprio um carbonário, com loja vizinha da estação do Rossio. O pedido foi feito à Casa Monkt, de Hamburgo: nove carabinas Winchester, de calibre 351, e um lote de pistolas FN-Browning, 7,65. Reservadas em nome de Francisco de Herédia, foi o próprio quem as pagou e levantou já em Janeiro de 1908. As armas foram guardadas nos Armazéns Leal, na Rua de Santo Antão, sede da actual Casa do Alentejo. A polícia, no entanto, desconfiou e a 20 de Janeiro realizou uma busca ao imóvel. Informado a partir da própria polícia, Afonso Costa telefonou ao proprietário, Alfredo Leal, que logo montou com o amigo visconde um esquema para retirar as armas pelas traseiras. Enroladas em tapetes, foram transportadas pelo próprio Alfredo e pelo filho José Sáragga Leal até à Calçada de Santana, onde Herédia os esperava, numa viatura. Dali, as armas foram para casa do visconde, onde ficaram a recato. Mais tarde, transitaram para casa de Luís Grandela, na rua do Desterro, onde Alfredo Costa, o líder do comando regicida, as terá levantado. Com a família real em Vila Viçosa, o dirigente republicano João Chagas reuniu-se, a 10 de Janeiro, com o visconde, para ultimar a revolta. A polícia, porém, estava atenta e uma vaga de prisões quase decapitou a liderança republicana. Afonso Costa passou a dirigir as operações, apoiado nos dissidentes monárquicos Alpoim e Herédia. A 27 de Janeiro, o plano foi ultimado, num encontro na já citada casa de Luís Grandela. Acossados, mas simultaneamente confiantes, Afonso Costa e o visconde optaram pelo assassínio do ditador João Franco, a ser consumado no dia imediato, 28. O golpe - também conhecido por ‘intentona da biblioteca’ -, viria, no entanto, a fracassar redondamente. Seguiram-se novas prisões - incluindo Afonso Costa e o visconde. Quanto a Alpoim, fugiu do país, ao que consta com o beneplácito do próprio rei D. Carlos.
Falhado o movimento de 28 de Janeiro e decapitada a respectiva liderança, um comando carbonário passou a actuar por sua conta e risco. O desfecho foi o regicídio, a 1 de Fevereiro. Os seus contornos exactos não são completamente conhecidos. Com efeito, o processo judicial aberto pelo I Governo de D. Manuel, e prosseguido pelas autoridades da República, desapareceu. Sabe-se, porém, que as armas do crime pertenciam ao lote comprado pelo trisavô da duquesa de Bragança. A Winchester n.º 2137 foi a carabina com que Manuel Buíça matou o rei D. Carlos; e a pistola Browning nº 349-432 foi utilizada por Alfredo Costa contra o príncipe Luís Filipe.
Com a República, o visconde da Ribeira Brava foi nomeado governador civil de Lisboa. Morreu assassinado em Outubro de 1918, numa das disputas em que a República foi fértil. José Maria de Alpoim, por seu turno, foi adjunto do Procurador Geral da República.
Como se viu, o visconde é trisavô de Isabel Herédia. Quanto a Alpoim, é tio-bisavô do actual presidente do Automóvel Clube de Portugal, Carlos Alpoim Barbosa. A família, a avaliar pelas declarações de Tomás Alpoim, desconhecia a sua participação na conjura. “Ninguém da família ouviu falar dessa história”. Outro descendente ‘ilustre’ dos conjurados de há cem anos é Luís Sáragga Leal, sócio fundador da PLMJ (uma das maiores sociedades de advogados) e bisneto do dono dos Armazéns Leal. “Sabia-se que o meu bisavô Alfredo era um rapaz com ideias republicanas muito avançadas, mas ignorava essa história das armas”.
Entre os financiadores da conjura, há outros nomes conhecidos. Egas Moniz, por exemplo: é o próprio Nobel da Medicina. E o ‘africanista’ João Baptista de Macedo é um antepassado dos actuais duques de Lafões, que constituem uma outra linhagem dos Braganças...


infografia de Sofia Miguel Rosa

fotos de João Carlos Santos

2 comentários:

isabel mendes ferreira disse...

sabe Martim, quanto mais o leio mais me convenço de que está tudo dito/escrito.


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por isso tardo (tardarei empre) em re.iniciar qualquer novo livro.

a sua "Escrita" devolve-me ao silêncio.

ou seja...
prefiro ler a sua poesia a ver a minha onde quer que seja.

P.S.
digo isto aqui porque não sei se vê o seu mail frequentemente.
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o seu ultimo "poema" é um hino à escrita.

beijo Martim.

e Obrigada.

isabel victor disse...

O filme,mais propriamente a série televisiva sobre o Regicídio está para breve. Vamos ver ...

___________
Segui o voo da AVE ao som do PIANO ...

belíssimo sítio !

Abraço

i