2007-10-11

"Maddie, o iPhone e Aquilino", por Pedro Boucherie Mendes ("NS'" de 29 de Setembro de 2007)


0 MUNDO AO CONTRÁRIO


Maddie, o iPhone e Aquilino



Afinal, a obra de Aquilino lê-se tão bem, com tanto interesse e acima de tudo com tanta frequência como as notícias sobre Maddie ou o iPhone




1. Para mim, muito (mas mesmo muito) mais incompreensível e irritante que o exagero mediático no caso Maddie são as abundantes notícias sobre o iPhone, o primeiro telemóvel lançado pela empresa americana Apple. De facto, e embora noutra escala, o iPhone está em todo o lado e, como no caso Maddie, tudo sobre o iPhone serve de notícia. Para se ter uma vaga ideia da histeria, num jornal português de referência de há uns dias havia quase uma página inteira dedicada ao facto de o iPhone vir a ser distribuído em Inglaterra (!) pela empresa O2 (!). No dia anterior, já tinha visto no Telejornal da RTP uma notí­cia similar sobre o preço do iPhone no Reino Unido! Sim, leram bem, uma notícia num telejornal português sobre quanto vai custar um telefone em Inglaterra! E no dia seguinte fiquei a saber por um 'site' também português que o iPhone chegaria à Alemanha através da Deustche Telekom. O cúmulo é que esta enxurrada de notícias e novidades sobre o iPhone é a terceira vaga. A primeira tinha sido quando o telefone foi anunciado, a segunda quando o telefone foi efectivamente posto à venda nos Estados Unidos, sendo que esta antecipa a sua chegada à Europa.


Muita gente disse (e disse bem) que Maddie não é mais do que as outras crianças desaparecidas inexplicavelmente. Pois bem, o iPhone também nada tem que o distinga de outros telefones. Nada. Zero. Nadinha. Na verdade, as suas funcionalidades e potencialidades existem noutros telefones de outras marcas e há até telefones muito melhores e muito mais baratos que este iPhone. Não sei se os Portugueses de uma forma geral estão ansiosos pelo iPhone, mas tenho a certeza de que os jornalistas não andam a conseguir dormir.



2. Alguns estúdios de Hollywood e alguns canais de televisão americanos já recorrem a sofisticados modelos matemáticos que tentam prever o sucesso de um determinado filme. Para se apurar se o filme resulta na bilheteira são introduzidas variáveis do tipo "actriz ruiva" ou "vilão latino" e então o 'software' recorre a uma gigantesca base de dados onde estão todos os filmes já feitos e já estreados e dos quais já se conhece a 'performance'. O veredicto sobre os projectos chega ao extremo de dizer aos produtores que se mudarem a cor do cabelo da actriz as probabilidades de sucesso podem ser maiores.


O caso McCann é assustadoramente próximo destas ficções estilizadas. Se fosse um filme, de certeza que um 'software' diria que a mãe deveria levar sempre consigo uma recordação da filha ou que seria mais dramático e intenso se a criança desaparecida tivesse sido concebida por inseminação artificial.


Talvez seja por preencher todas as gavetinhas das nossas expectativas que este caso esteja a sobreviver na primeira linha da actualidade e não porque os media possam estar a exagerar. Até agora, tudo parece decorrer segundo um qualquer plano, como se estivéssemos a assistir a uma novela da vida real.




3. Aquilino Ribeiro no Panteão deu pano para muitas mangas e para mais uma demonstração da tão portuguesa hipocrisia cultural. De repente, Aquilino, como muitos outros mortos ilustres, é um exemplo esmagador da superioridade das letras nacionais que toda a gente (menos eu) lê com assiduidade, gosto e entusiasmo. Afinal, a literatura portuguesa do cânone não é chata, circular, hermética e desnecessariamente complexa e por isso ignorada por todos, sobretudo pelos Portugueses. Afinal, e o que ouvi e li prova-o, a obra de Aquilino lê-se tão bem, com tanto interesse e acima de tudo com tanta fre­quência como as notícias sobre Maddie ou sobre o iPhone.

6 comentários:

Susana Barbosa disse...

obrigada Martim. bjs

duke disse...

Existe muita verdade no artigo. Aquilino não é propriamente fácil.

isabel mendes ferreira disse...

não será fácil o Aquilino...mas lá que é belíssimo é...


___________________


beijo. Ave.

veritas disse...

Bastante pertinente este artigo, deixa-nos a reflectir... sem hipocrisias...

Bjs. Boa semana.

isabel mendes ferreira disse...

pergunto:



não há mais Aves publicadas?


beijo.

Ai meu Deus disse...

Não concordo totalmente com o texto. Defendo mesmo que o Aquilino é mais conhecido (mais falado, mais lido, mais tudo) do que o ipod e os McCann juntos.

Veja-se: a filha dos McCann desapareceu há menos de 6 meses e já ninguém (nem rádio nem tv nem jornais) se lhe refere: esqueceram completamente o caso da miudita, coitada. E Aquilino? a gente passa na rua e é Aquilino p'raqui Aquilino p'rali, eu li Aquilino eu também mas eu li mais do que tu não eu é que li mais do que tu. E, note-se, isto acontece com um Aquilino que nasceu há mais de 100 anos, repito cem anos e não menos de 6 meses como é o caso da miudita.

Agora há uma coisa comum aos 2 casos, reconheço. E é isto que explico. Consta por aí que há uma proposta para levar os McCann, quando morrerem, para o pantilhão de lá, de lá de Londres. Porque, tal como o Aquilino, também os McCann são exemplares. Ao modo deles e não do Aquilino, é claro, mas são. E aqui declaro solenemente: se for preciso, eu serei dos primeiros a assinar qualquer petição online nesse sentido (digo, no sentido de levar os McCann para o pantilhão de lá, de lá de Londres). Prometo e cumprirei a promessa e esforçar-me-ei nesse sentido, mesmo não sendo compadre de qualquer confraria (ah! parece que está também em formação uma confraria McCann).