2006-06-15

uma história de família: a minha prima Teresa Veiga















Este é um objecto principal na literatura portuguesa e uma voz nodal do nosso conto. Digo-o e mostro. Assim.
Nem memória, nem saudade, nem infância, nesta prenda que muito esconde. Que vinda da literatura, do seu centro, pouco se mostra, longe do falatar inchado dos “Doutores”, que não lêem, nem sabem ou são. O desconforto dos encartados e dos apaniguados é normal, como corrente é a dor dos que amam a literatura: encalço do não-sabido, desdouração dos mitos, corrida perdida e ganha no deslumbramento das páginas por saber, impotência fecunda pelo abarcamento do muito que interessa, lucidez selectiva para cheirar e logo fugir, sagacidade rápida e rente ao olfacto...
A devastação da pós-modernidade afecta o gosto e o “tempo e o modo” do dizer. Digo pós, logo pós-pós-modernidade e sinto, contra as muitas armadilhas “literárias” que infectam as superfícies comerciais ditas grandes (do jogador que escreve, do jovem concursante que literata, da modista que confecciona a epopeia da agulha...), sinto, repito, o sopro da biblioteca de Alexandria, a modulação de Petrarca, a centralidade de Shakesperare, a ironia de António Franco Alexandre e o misticismo de Daniel Faria. Simplifico, caro leitor: em literatura, há o fora e há o dentro.
Teresa Veiga é um nome nodal na literatura portuguesa e habita o lado de dentro da “coisa literária”. Sem festa ou convivialidade estéril, no domínio de uma “marginalidade” desejada que só aos eleitos assiste. Esse apagamento é um risco que muitas vezes colide com a canonização literária. Insisto, Teresa Veiga é um dos grandes nomes do conto português e a narrativa breve não prescinde da sua forma original de o dizer.
Há escassos meses, num conceituado suplemento literário da nossa praça, nada se dizia sobre os dados biográficos da escritora e não se acertava sequer com a bibliografia completa da notável contista. Afectado como Fernão Lopes pelo complexo do véu (sigo João Mendes, S.J., no asserto lopiano), complemento e alargo as informações vulgares.
Teresa Veiga é o nome literário de Maria Teresa Lobo Vilela de Gouveia e Sousa, que nasceu na capital, em 1945. Licenciada em Direito, viveu por pouco tempo no Alentejo e no Algarve, logo regressando a Lisboa, onde reside. Até ao momento, publicou, em: livro “Jacobo e Outras Histórias” (1981), obra recomendada pelo júri do prémio literário “Círculo de Leitores”; “O Último Amante. Novelas.” (1990); “História da Bela Fria” (1992), que foi “Grande Prémio de Conto”; “A Paz Doméstica. Romance.” (1999); e “As enganadas. Contos.” (2003), que considero um dos melhores livros da literatura portuguesa do ano transacto, pese embora o silêncio de boa parte da crítica. Acrescento ainda que a autora publica na Cotovia e que esta indicação está de acordo com o preceito que defende que a literatura se lê e não propriamente se ensina.
As histórias de Teresa Veiga, como acontece muito com os melhores autores, obedecem a um preconceito: o de que a educação feminina, quase sempre esta, se deforma por uma educação cínica e doméstica. E, assim, tiranias e brutalidades, frustrações e aborrecimentos, abalos e abjecções ganham o centro da narrativa e expandem tentacularmente as suas forças. Os oponentes masculinos, recorrentemente presentes, encontram a morte de muitos modos ou de ictus apoplético. Mas não só. Há desde o primeiro livro uma deflagração irónica que é de assinalar. Corrosivo e fortíssimo, o complexo da ironia transmuta-se em sarcasmo, como o divisamos no conto “Culinária 3” (de Jacobo) e nos seus “Conselhos às jovens que querem abortar” que se concluem epimiticamente com o desejo de que as jovens grávidas possam “extrair alguns conhecimentos úteis para a eventualidade de um dia, a contragosto, se encontrarem de barriga cheia.”
Mal saí da primeira palavra, do livro primicial. Vou para “As enganadas”, de 2003. Releio. E de novo o declínio das vidas e a glória da literatura. Que é a vida e não é a vida, como o avisa o narrador do último conto “Confidência Barreirense” em admonição final. Não ter lido este conto é grave, porque o riso amarelo da melancolia fere. Avance, caro leitor, até à felicidade das coisas...

8 comentários:

porfirio disse...

bom dia martim!

«Deram uma volta pelo pomar, apreciando a delicadeza dos ramos das cerejeiras e macieiras em flor, sorvendo o ar perfumado e atrasando cada vez mais o passo à medida que avançavam pelo túnel de arbustos que ia ter às escadas e já pouco faltava para se enfrentarem sozinhos, com as suas frases pertinentes que pareciam comida mastigada, sem calor e sem sabor.»

Teresa Veiga in «as enganadas»

aquele abraço

Mendes Ferreira disse...

eleito. quem assim por dentro descose o principal.

obrigado Martim.


beijo.

pintoribeiro disse...

Bom dia Martim. Esta descobri-a contigo, lembras-te?...abraço.

konde disse...

Excelente contista! Abraço!

feniana disse...

cheguei aqui através daquela deusa que toca piano o coração de quem a lê.
e adorei conhecer. obrigada

martim disse...

lembro, lembro, grhiba... abraço.

duque disse...

POIS...pois,que las hay..hay.

Su disse...

gostei de saber..vou ver tudinho
jocas maradas