2006-06-01

Inscrição: Victor de Moigénie em Viseu




É do silêncio das pedras que levanto esta coluna agora criada, sabendo que dessa paisagem primeira trarei, doravante, a 'conversa murmurada' de que fala Foucault. Da aparente confusão da combinatória inaudível encostada ao muro de Magritte, destaco esta nova voz na Beira, que é um sopro fresco do fundo do tempo, que ajudará, penso, a que melhor nos conheçamos.
Pense-se no nome de Moigénie e leia-se a sua carta de estrangeiro datada de Viseu, 18 de Outubro de 1906. Na ficção que o escritor consente, é, no entanto, toda uma cidade exactamente secular que se desnuda, em província que o autor apoda de "trecho da Suissa". Mas não só. Também uma ambiência intelectual quase sempre deslembrada em tempo de instantes e de consumos rápidos.
Viseu era assim e deixo ao critério do codicioso leitor o cotejo com a dita evolução que à modernidade dizem assistir.
Louva Moigénie os arrabaldes esplêndidos da cidade, os monumentos notáveis, a velha Cava com as sombras e os canteiros, o belo Hospital, a sobranceira Sé e o equilíbrio do Seminário. Agradaram-lhe ainda os poucos cafés, os clubes frequentadíssimos e os jardins envolventes. Comparando Viseu com Coimbra, achou a nossa cidade mais triste e menos poética. Porém. que alegria a alimentação beiroa e as características psicossomáticas dos beirões! Vivacidade. generosidade e força são qualidades irresistíveis!
Nem muito estranhamente, no meio de Tartarins e de maníacos D. Juans, divisou Victor de Moigénie uma outra gente, muita culta, troçando sempre da sua terra. Logo perto, viu os entediados e os nostálgicos. Também muitos jornais e uns tantos de indenegável excelência. E viu senhoras belas, de toque cesarino, "elegantes, sociáveis, aristocratas, às vezes, primorosas." E viu homens de nomeada e gente de Viseu soltando homéricas e sadias risadas. Divisou também um teatro sofrível e elegantes clubes, ávidos de perfídia, como sói em pequenas cidades. Ainda boa crítica literária e artística, com avanços ousados na combinatória hermenêutica.
A conversas e a pleitos se entregou Victor de Moigénie, salientando eu aquele encontro do viajante com Beatriz Pinheiro e Carlos de Lemos, antigos directores da brilhante revista viseense "Ave-Azul” (1899-1901). Exalça-lhes o visitante a simpatia e a "lhaneza adorável". Deve-lhes para sempre Viseu a evidência tantas vezes denegada: eis na nossa circunscrição uma "presença real" que interessa reavaliar e fruir no silêncio produtivo dos exegetas literários e dos interessados na qualidade que não espera favor.
E destaco ainda, nesta repetição que o tempo sempre arrasta, um passo que é mistério e desígnio. Claramente visto na nossa cidade foi ainda, nesse ano de 1906, um brilho que subsumo em "sinceridade e até generosidade, bastante estudo e muito talento ignorado.”
Cem anos passados sobre este minudente "estudo sociológico” sobre a idiossincrasia do viseense, muito haveria para dizer. Duvido é que esse muito substancialmente pudesse divergir desse olhar "estrangeiro” centenário. Aqui, nem sempre o tempo muda.
Segue agora o caprichoso viajante para S. Pedro do Sul, a Sintra da Beira-Alta. Fica, no entanto, este olhar. Intenso olhar, quase certeiro, de hoje. Transporta consigo um segredo que agora desvelo: Victor de Moigénie é José Agostinho (Lamego, 1866-Lisboa, 1938), o cé1ebre professor, crítico e historiador literário, autor, por exemplo, da obra “A Chave dos Lusíadas”.
Assim cada visão é aparência. Assim se afirma, com Sophia de Mello Breyner, que “há em todas as coisas o agoiro / De uma fantástica vinda.”



8 comentários:

Mendes Ferreira disse...

e aqui vir é a certeza de encontrar o fantástico. renovado. sempre.

certeiro. visão que não é aparência.

É.

beijo Martim. bom dia.

porfirio disse...

boa tarde amigo

:
eu
no
pêndulo
.

abraço

konde disse...

Ai o francês é o célebre José Agostinho? Obrigado e abraços.

francisca manson disse...

A estátua de Camões ficava espectacular naquele sítio. Boa-tarde!

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