2006-06-27

O chão e o lume (IV)

AUTORIA: MATA-HARI

HELENA DESCOBRE VOLTAIRE

Marta tinha os cabelos castanhos, às vezes dourados pintados cor de sol, um pequeno sinal sobre o lábio fino superior, cantava ópera e comia sushi. Durante as manhãs sentava-se na esplanada, pedia croissants, morangos verdes, espumante Moet e café. Adorava gastronomia asiática e cozinhava todas as semanas só para si. Quando tinha visitas comiam fora. Naqueles dias ela costumava acordar cedo. Nos outros quase não se levantava. Ficava por ali meio parada a ver o mundo passar-lhe. Devagar.

Depois a cidade em frente de nós. Depois nós a chegar. Deslocar. Sabíamos que tudo seria diferente, das coisas diferentes. Das coisas de antes. A diferença é uma coisa de natureza diversa, mesmo para nós criaturas dulcíssimas. Açúcar. Na cidade as pessoas iam construindo pequenas histórias. As suas. Narrativas.

- Quando te começo a ouvir deixas logo de falar.
- Com o silêncio tudo acaba por ser dito. Trago-te perdido em mim.
- Descobri que esse é o lado que escondo. As coisas mais estranhas fazem-me feliz e o silêncio para mim é de um ruído estridente.

Chegámos a este lugar à procura de algo que nenhum de nós sabe ou pode explicar. Talvez ele nos traga uma parte de nós, ou do nosso passado, que ainda não sabemos explicar. Lugares de infância que um dia quisemos voltar a lembrar. Relembrar. De repente tudo se precipitou. Veio-me tudo à cabeça. Trago-te à flor da pele. Desesperado, procuro um canto onde te posso esconder. Agarra-me.

- O Bruno regressa hoje de Praga. Disse-me que chegava cedo. Eu disse-lhe que o esperava. Desesperava. Ele disse-me que tinha saudades. Eu disse-lhe que não sabia o que isso significava. Era uma questão de semântica talvez gramática até. Concordância.

- Porque estamos aqui neste lugar ? Porque viemos aqui ?
- Talvez porque ambos sabemos que tudo seria igual ao que queríamos que fosse. Uma realidade mais próxima da ficção. No que quer que isso pudesse significar. Insignificante.
- Já aqui estivemos antes. É um erro envolvermo-nos emocionalmente com um deles. Somos manipulados.
- O sonho das marionetas é serem humanos.
- Não há respostas. Apenas escolhas.
- A nossa existência é uma inevitabilidade. Não compreendo o que se está a passar à minha volta. Acho que não sou eu. Estou assustada. Não sou capaz de viver com isto. Não me lembro de lá ter estado. Nunca pensei reagir assim. Sem ti não consigo.
- Encontraste-me?
- Vim para te encontrar. Desculpa. Foge-me.

Continuei sempre à espera que pudesses voltar. Regressar. Tudo poderia ser afinal como antes era. Terias de ser tu a dar esse sinal. O que querias para nós. Ambos sabíamos que quando a nossa história fosse publicada pouco ficaria no final. Afinal. Tu e eu morreríamos de nada, desapareceríamos tal como aparecemos e as nuvens dariam lugar a um céu limpo sem nada.

- Como foi a tua infância ?
- Não sei muito bem. Esqueci a maior parte. Tenho andado a juntar algumas partes, relembrar destroços, pequenos nadas. Na maior parte das imagens existem sempre paisagens. Paisagens de lugares vazios, por vezes outras crianças que nunca mais vi e o meu avô a contar histórias. Contava histórias de pessoas que nunca conheci ou conhecerei. Descrevia-me um mundo com sonhos. Ilusões. Algumas pessoas nunca falavam só ouviam. Outras só falavam nunca ouviam. Outras nunca existiram.

Helena sempre quis conhecer a mãe que nunca teve. Queria perdoar-lhe, o que ela nunca lhe perdoou. No mundo dela, a mãe era-lhe estranha. Desconhecida. Tudo lhe era vazio. Todo o homem é culpado de todo o bem que não faz.

- O amor tem sinais que não podem ser confundidos.
- Sabes Helena, por mais que te queira esquecer há sempre alguma coisa que não me deixa avançar e me prende ao chão e aos lugares que antes, tu e eu ocupávamos. Povoar.
- A razão consiste em ver as coisas como elas são.

Helena tinha voltado para casa. Disse-me que tinha voltado, eu disse-lhe que sabia. Ela queria muito voltar. Aceitei. A mulher que me matou do coração, mesmo eu que não tenho coração. You kill me dear!

- É sempre bom voltarmos aos lugares de onde partimos, mesmo que isso possa significar um regresso ao passado que já não existe. Estamos sempre a construir algo de novo, por muito que tudo pareça igual ao que sempre foi.
- Não vale a pena lamentar o que não tem lamento. Se não encontramos nada de agradável pelo menos encontramos alguma coisa de novo.
_ Passa-me a tua mão pela minha testa. Não sentes calor?
_ Um dia destes ainda nos apaixonamos e depois ?
- Não sei o que isso possa significar. Talvez seja uma questão de oportunidade e do lugar. Ou uma questão de tempo sem lugar nenhum. Diferente. Alguma mudança comportamental, calor, falta de ar, suspirar. Respire fundo !
- Um dia destes ainda caímos os dois num buraco negro, que nos sugará para o seu interior. Calor.
- Os buracos negros não perdoam. The dark side of the force!

Ás vezes visitava Joana. As raparigas têm coisas para dizer. Onde há mulheres há problemas. Dizia-me. Outras vezes era ela que me visitava. Gostava de gelados em bocados pequenos. Pequenas partes. Passava cremes oleosos com sabores a frutas no seu corpo, quase gordo, untava-se com vegetais e cheiros orientais. Despia-se, acariciava-se, nutria-se, comia-se. Por vezes vestia-se de vermelho. Sorria devagar. Back to basic forms !

- Já falaste hoje com o teu anjo da guarda ?
- Acabei de ordenhar as vacas. As fogueiras representam o despertar da natureza é o regresso da Primavera aqui a este lugar.

Por aqui já não havia ninguém. Foram todos à procura dos outros que antes foram. Trazias um casaco castanho escuro de cabedal, uma boina preta agarrada ao cabelo e fugias. Fugias de tudo que andava à volta. Vivíamos numa carruagem de comboio que estava sempre em movimento.

_ Sabes Joana, ainda não te conheço o suficiente par te poder beijar. Matar. Ambos somos assassinos profissionais, contratados do crime organizado, sempre à procura da nossa próxima vítima. A soldo. Mãos ao ar ! Jogamos jogos perigosos, sangue, lágrimas, violência. Com isso sobrevivemos às crises dos nossos tristes corações. Sometimes there are things we can´t explain!

- Ainda não encontrei o significado para aquilo que sinto por ti. O lugar em que agora te abandono será o mesmo em que te encontrei em tempos. Uma enorme paisagem de flores que os meus olhos colheram para te oferecer em histórias que te quis contar e muitas que te contei, nos beijos que te quis dar e dei, nas lágrimas por que me fiz lembrar e em tudo que no final deixei ficar. As coisas dispostas como tinha encontrado, os mesmos lugares lindos dos sonhos, as nuvens que não traziam chuva nem mau tempo mas apenas a sombra dos dias quentes de Verão que nunca soube suportar. Valeu a pena os dias que te perdi ao lado das coisas. Todos os dias que abandonei para te ter, ao largo, ao lado na cama do quarto, da roupa interior e das festas que te fiz dar sem querer. Ainda te lembras do Outono? Abandonei-o.

7 comentários:

Mendes Ferreira disse...

e de tanto incêndio perdi as palavras....



aliás....o que se diz a quem como aqui escreve assim????


apenas um simples beijo....rumor do que não sei dizer.


Martim.

konde disse...

Bonito texto de Mata-Hari (?)... Abraço.

hfm disse...

Gostei muito de ler, uma tocante sequência ritmica!

pintoribeiro disse...

Bonito, bonito, bonito...boa tarde Martim, abraços.

martim disse...

Esclarecimento do webmaster de "Ave-Azul":

Mata-Hari não é pseudónimo de Martim de Gouveia e Sousa, mas de...

As melhores saudações a todos...

porfirio disse...

continuemos adentro

-..._

abraço

marakoka disse...

gosteiiiiiiiiii
jocas maradas