2006-02-14

O espírito livre de Agostinho da Silva (1906-1994)

George Agostinho Baptista da Silva, eis um nome diferente e supletivo. Passam exactos 100 anos sobre o seu nascimento (13 de Fevereiro) e o mundo da cultura, dentro e fora, parece agitar-se. Ainda bem, porque este é um caso verdadeiramente extraordinário de liberdade e personalidade.
Aprendendo a ler aos 4 anos por desvelo da mãe protectora, a sua inaptidão para o trabalho (segundo ele, o homem não fora criado para tal...) fará dele um mau aluno na Escola Industrial Mouzinho da Silveira, no Porto, onde se matriculara com 11 anos. Daí transferido, dois anos depois, para o Liceu Rodrigues de Freitas, concluirá o curso geral dos liceus com 20 valores, ingressando, logo a seguir, na Faculdade de Letras do Porto, onde se destacava a figura importante de Leonardo Coimbra. Desta presença, sempre vinculada à memória do intelectual, muito se revela do espírito incontrolável de Agostinho da Silva, que reconhece por lá se ter formado "não apenas em filologia clássica" mas também "em liberdade".
Cumprida a licenciatura, também com 20 valores, de imediato é encerrada a instituição de ensino, por decisão governamental de 1928. Bem mais tarde reconhecerá o filósofo que a acrimónia para com a Faculdade de Letras do Porto se devia ao facto de ela ser uma escola "em que se dava muito mais atenção a quem elaborava perguntas do que a quem fornecia as respostas que vinham nos manuais."
Colaborador da Seara Nova desde a década de 30, vindo de Paris, é colocado como professor em Aveiro, sendo demitido do ensino público, em 1935, por razões ideológicas. Vai para Espanha, regressa a Portugal e edita importantes cadernos de divulgação cultural. Em 1944, parte para o Brasil, conhece a Argentina e volta a terras de Vera Cruz, onde desenvolve importante acção cultural, fundando universidades ou dirigindo instituições.
Em 1969, regressa a Portugal, onde permanecerá até à sua morte. Com uma obra dispersa e multímoda, é de louvar o esforço de Paulo Alexandre Esteves Borges, que muito tem feito para o aclaramento positivo da figura cultural, coligindo os textos disseminados por várias publicações periódicas.
Professor, ensaísta, filósofo, investigador, novelista, poeta, orador e tradutor, pelo menos, este Doutor em Filosofia pela Sorbonne, com uma tese sobre Montaigne, é um homem admirável, que sempre cultivou a ideia de que deveremos ser sujeito sem sujeição. Em época de grades tão visíveis, este é um grande exemplo cívico.

5 comentários:

Mendes Ferreira disse...

está por vir ainda o tempo de se lhe reconhecer o futuro, ou seja, só depois de abatido o preconceito de elites que só o são na aparência,Ele Agostinho da utópica consciência do Outro como ser livre, será reconhecível....para isso não basta a "fotografia", tem de ser lido com os olhos da verdadeira inteligência....como tantos outros, conheci-o, a ele e aos s gatos, e não fiquei imune.à clara e intensa luz do que dizia e desdizia...

Bom dia Martim,,,,desculpe ter-me alongado...já estou de saída...tenho esta foto que pensava ilustrar com "toscas" palavras....agora já o não faço...porque está tudo aqui. obrigado.

beijo.

Francisca Manson disse...

saudações,
muito bom escritor

martim disse...

obrigado, Isabel, pelo importante contributo.

Mendes Ferreira disse...

eu....Martim....?



de todo.

boa noite. bijo.

porfirio disse...

boa noite!

...e Agostinho perfurou a pele do sistema, cuspiu-lhe no interior iluminando-lhe os defeitos sempre tomando-se tb parte do erro mas acreditando no antídoto global. mastiguemos a sua lição de grande humanismo despretensioso, relendo a sua «carne narrativa».

abraço