2007-04-16

"o rosto dentro da boca": "Na memória dos pássaros" de Graça Magalhães


Lembrando as reflexões de Walter Benjamin sobre a obra de Nikolai Lesskov e adaptando-as a este acto hermenêutico, direi que a nova colectânea poética de Graça Magalhães, intitulada “Na memória dos pássaros” (Viseu, Palimage Editores, 2006), convoca cenários dominados por forças opostas e explosivas, não esquecendo, na mostragem, o fundante “minúsculo e frágil corpo humano”, que é, aliás, um exercício persistente na poesia da autora, agora claramente melhorada de rumo e carisma.
Como mnemónica de liberdade e fruição, “Na memória dos pássaros”, inscrito “ab initio” em linhagem herbertiana, rasga e suplanta o anterior dizer, prolongando, como atrás se disse, um mesmo rasto do corpo, suturante e estruturante. Explico, por exemplo, com o primeiro poema, que, deflagrando a “metáfora intensa”, constrói e urde um corpo poético abrasante e completo, com olhos e lábios, boca e peito (“depois acendo a boca e o adeus perfeito / onde nascem laranjas do peito aves inquietas”), e demais geodesia corpórea inscrita em grande parte dos poemas.
Ganha ainda laivos de moderador flutuante um título que é ressonante em vários poemas, assim parecendo conduzir o leitor através dos ritos memoriais e oníricos, não esquecendo a autora um atento modo escutador do fogo da criação – as palavras serão água e fogo dentro da forja.
Cada incisão na memória liberta um quadro poético pouco oscilante, rente aos sentidos, sabiamente imbricando o equilíbrio e o alarme, como acontece, v.g., no poema 21, onde a inocência infantil é fendida pelos gritos: “O exílio da tortura / é sempre branco // cada infância inocente / evoca a amálgama dos gritos / onde tudo começou” Tal acontece em muitos dos poemas.
Reveste-se ainda a colectânea de uma interessante linha desalentada não facilmente lobrigada em “Corpo de Rio” (2005), as mais das vezes promanando das tais palavras alarmadas e desestruturantes instituidoras de uma clara tensão entre o passado e o presente: “Apagam-se fósforos nos lugares ermos / os filhos não abraçam as mães / como antes / quando eram tudo // e ainda são / qualquer coisa branca” (poema 35).
Tem este livro uma vasta memória que deve ser percorrida. Di-lo o belíssimo último e biográfico poema com admonição certeira: “onde não há noite onde não durma / o rosto dentro da boca”. Siga o leitor com os olhos dentro do texto.
[artigo publicado no jornal do Centro de 13 de Abril de 2007)


4 comentários:

Susana Barbosa disse...

obrigada pela sugestão. bjs

Anónimo disse...

MARTIM......



até doeu.


belíssimo o rosto...


belíssimo o "verso".


_________________obrigada.


beijo.






(piano)

duque disse...

Parece interessante... Se encontrar, lerei...

isabel mendes ferreira disse...

um dia....


se um escrevesse um livro gostaria que de mim se dissesse metade...




dito pelo Martim.


:))))))

bom dia. de novo aqui.