2016-01-21

«O caminho fica longe»: a marca do título


O caminho fica longe: a marca do título

Em ano de centenário de nascimento, o bloco literário por Vergílio Ferreira deixado é cada vez mais um lugar com a durabilidade do bronze. O esplendor de reedições e reflexões acontece porque estamos perante um intelectual de raríssimo poder, de vigor irrepetível. Modernos, os caminhos propostos década a década são rigorosos e quase perfeitos, ficando a dissonância como estímulo para um escritor corajoso que combateu como poucos ou nenhuns.
Tomando o título de Leo Hoek, La marque du titre. Dispositifs sémiotiques d’une pratique textuelle (La Haye-Paris-New York, Vrije Universiteit te Amsterdam-Mouton Éditeur, 1980), eis que a titulação vergiliana, fazendo obliterar o texto, no sentido de Ricardou, esclarece, promove e cataforiza. Vejamos como, não a partir da novel 2ª edição, que também possuo, mas a partir da 1ª que é hoje objeto de bibliófilos: Amélia tinha «a sensação de que um caminho novo se lhe desdobrava dia a dia, como um tapete rolado» (p. 40) e pensava que Rui, seu par amoroso, não sabia o que era «um caminho encontrado» (p. 42), ela que tão bem sabia que cada «um tem no mundo um caminho só. E só esse caminho tem estrelas e lua e cores…» (p. 73); à frente, porém, Amélia concluiria: «Negros caminhos os da vida!» (p. 125). De «caminho outro» (p. 127), Amélia caminhava no desconhecido, «perante a distância do futuro» (p. 273).
É, no entanto, na parte derradeira «Um dia…» que a problemática titular mais se esclarece. Lembremos, por exemplo, a belíssima página inicial, de matiz neorrealista, onde um pedregulho «resistia aos caminhos fáceis» (p. 291) para, à frente, um arco-íris espetral ir «abarcando as árvores e o caminho» (p. 294), anunciando certamente o «Caminho perdido» (p. 308) de Rodrigues. No dilema, sobrevêm a interrogação («¿Mas porque custa tanto a encontrar o caminho?», p. 313) e a conclusão («Caminhos ásperos, difíceis, os deste mundo.» (p. 313), dois momentos indutores da resiliência de Rui, que, quando se descobriu, «reconheceu que só a própria razão lhe podia iluminar os caminhos apontados» (p. 316). E, assim, se resolve o enigma do título como sinal comunicativo que se cumpre e fecha em coerência: «Rui não se desviará daquele caminho reto que a sua razão traçou. Nem que estoire!» (p. 316)

Iluminante, o título O caminho fica longe fecha-se de sentido, não acham?  

Viseu, 21 de janeiro de 2016
Martim de Gouveia e Sousa

1 comentário:

hel-mar Helena disse...

Uma miríade de caminhos... haja vontade de os percorrer.