2007-05-05

"arcas da memória" de Alberto Correia - uma central de energia

Desmemoriado, o homem perde a seiva geodésica e não mais ousa enfrentar a algaravia da cidade, nos seus signos agudos. Sem rosto ou identidade, o viandante segue um caminho surdo, desnorteado de sentido, permeável à agressão dos volumes. Talvez muitos dos “melhores” cidadãos nada saibam já dos códigos decifratórios ou acerca da marcha do homens por tempos e sítios fundos bem perto de nós. Nesta babel de enigmas, fingimentos e importâncias, quem como Alberto Correia sabe despiorar a vida e entregá-la assim, liricamente, como dádiva e central de energia?
A vida não acaba aqui. Abre-se para a frente, vinda de dentro de uma arca memorial, para inscrever um tempo outro, por mim dito, na toada poética que a escrita do autor deflagra, “tempo inacabado” ou “sangue mnemónico”. E tal tonalidade é verdadeiramente espantosa, porque, do olhar para dentro do tempo, ressuma uma ternura e uma “aquilírica” só presentes em grandes narrautores de emoção.
E é assim que dos campos e cantos da memória se suspende um tempo inexistente já e tão vivamente inscrito na sintagmática das palavras, como se esse acto de caldear a fluidescência aperfeiçoasse e purificasse o momento em quadro perfeito e redentor.
Abrir estas “arcas da memória” é conhecer a mais funda tradição beiroa, é privar com um património existente e sonhado, com a emocionante saga das profissões desaparecidas, com as crenças mais espantosas, tudo acontecendo em fôlego quase bíblico, da “poética do tempo” surgindo instantes únicos finamente lavrados em “incipit” e “explicit” como, por exemplo: “No princípio eram apenas três oleiros.” (p. 7) e “Para sempre em Viseu.” (p. 13)
Surgindo estas “arcas da memória” como um repositório das melhores crónicas de Alberto Correia publicadas semanalmente no “Jornal do Centro” (e todas elas, escolhidas ou não, têm uma qualidade mais do que estimável), deve todo o leitor interessado na sua circunstância ler este livrinho, saído em Dezembro de 2006 com chancela da Imagens & Letras, e inteirar-se da força da escrita albertiana, bem como dos “caminhos em cruz” da cidade de Viseu, das castanhas da Sarzeda cravadas na memória (“são as melhores castanhas do mundo.”), das encantadoras terras da Lapa, do Carnaval de Lazarim e dos seus homens que esquecem “haver o dia seguinte”, das labirínticas e aquilinianas Terras do Demo, enfim, de todo um mundo ptolomaico em que o Autor se desfibra, assim mostrando um universo literário de inquestionável intensidade lírica.
Não explico, nem concluo – convido apenas cada amador da “coisa literária” à fruição.
[também no Jornal do Centro, de ontem]

4 comentários:

isabel mendes ferreira disse...

...dos labirintos líricos que o Martim nos descobre e envolve....












beijo.

duke disse...

Parece-me ser autor interessante. A descobrir...

Susana Barbosa disse...

Obrigada pela partilha, Martim.
Bom domingo
Bjs

Mié disse...

Obrigada por partilhar estes tesouros.
Eu que tantas vezes vou a Viseu porque tenho familiares muito próximos, ali radicados...conheço muito pouco da cultura Beirã, daquelas terras daquelas gentes.

Mais uma vez obrigada