2006-01-10

OFICINA

o nível e a bolha sobre o muro
e a página aberta dentro de mim
presa ao ouvido mal a ouço
súbita a sílaba enterra-se no cimento
como o azulejo se deita no lugar.

na ponta da língua o pincel despede
e em ondas caminho para lá das veias
sabendo que a desordem do teu fim
é a certeza da estrada que tenteio
rente ao musgo ao sussurro de um corpo.

seis caminhos abro nos pulmões
sangrando a terra morta na cidade
encontro larga avenida íntima fenda
que cruza a cúpula do entendimento
perto de ti, nuvem branca, sobre o muro.

elevo de ti o paraíso para que do poço saias
fumo longínquo no ocre dos telhados
vem comigo, "erosion", debelar o vento
inaudível na folhagem dos plátanos magros
e nas palavras escritas em muros de água.

da argila avanço dentro encostado à esquerda
sem rota exacta cálculo sabido ou desencanto
rompendo agora frágil telha dentro da casa
dentro do corpo dentro do sangue longe da pele
percorrendo com os dedos branco papel.

os ossos silenciosos demoram-se então
na rotina lenta do abismo aéreo de yerka
sede e sinal da voz de sinceras catedrais
que do suor da pedra lançam o grito fundo
acima dos caminhos para além do verde
musgo dos seis caminhos de além-terra.

vultos de barro telhas a pique pequena face
que ao fundo vejo no metal dos relâmpagos
na escuridão das janelas afundadas na cidade
vazios silenciosos comerciantes jazem nas caves
e matam a indústria que mata os homens.

um dia a palavra vai salvar o homem no ouro do muro.

5 comentários:

spartakus disse...

pode ser...

Mendes Ferreira disse...

vultos de barro ...ficam abandonados às portas da cidade...palavras de mal estacionam nos muros. salvam-se as faces ocultas...
beijo Martim.


Gostei. especialmente. como não gostar???

spartakus disse...

Começa a feder Kamarada. Passa no Kombate e dá-me uma ajuda. Ainda tenho de largar a velha artilharia grunha que tenho em armazém. Tristezas. Um abraço.

porfirio disse...

matar a indústria? hum... inerente ao egoismo humano com propensão à ambição nas rodas da evolução tecnológica... acho muito difícil para não dizer impossível. indústria é conceito já absoluto e não artificiosismo de elite globalizada.

... mas acredito que uma só palavra pode salvar um homem mesmo que seja por um segundo... e isso faz a diferença.

abraços kamarada

martim disse...

postaste com indústria, kamarada kom 1abraço.