2008-01-05

"Castriana-3"



Castriana -- Estudos sobre Ferreira de Castro e a sua Geração

Sumário do n.º 3:

Arquivo -- Ferreira de Castro: «Pequena história de "Emigrantes"»

José Alonso Tôrres Freire: «Uma voz dissidente em O Instinto Supremo»

Inédito: Carta de Ferreira de Castro a Orlando da Costa

Memória: Orlando da Costa. «Ao correr da pena... -- momentos soltos numa relação fraterna entre gerações: Ferreira de Castro e eu, ou, antes, eu e Ferreira de Castro?

Bernard Emery: «Do mito amazónico à reinvenção do luso-tropicalismo: o caso de José Maria Ferreira de Castro»

Leituras: recensões de Ricardo António Alves, Sérgio Duarte, Silas Granjo e Luís Garcia e Silva

Extratexto de Elena Muriel: Estrada antes do pontão nos Salgueiros, óleo s/tela, 1940


edição do Centro de Estudos Ferreira de Castro, Ossela

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[Conteúdo copiado de ferreiradecastro.blogspot.com]

2008-01-04

Poetria apresenta "Monique" de Luísa Coelho


A POETRIA tem o prazer de lhes endereçar o convite para a apresentação do livro "Monique" de Luisa Coelho, dia 8 de Janeiro de 2008, no Palácio dos Balsemão, na praça Carlos Alberto, Porto, às 21.30h, com a presença da escritora.

Nascida em Angola e de nacionalidade portuguesa, Luísa Coelho é Licenciada em Filologia Germânica, Mestre em Filosofia Política, e Doutorada em Semiótica pela Universidade de Utrecht. Ensinou língua e literatura portuguesas em vários países da Europa, nomeadamente nos Países Baixos, na Áustria, na Universidade de Innsbruck, e em França, na Universidade de
Amiens. Trabalhou durante cinco anos na Universidade de Brasília e, desde 2006, é professora na Universidade Agostinho Neto, Luanda.

É escritora e poeta e tem publicadas várias obras de ficção, entre as quais, "O canto de amor das baleias" (1992), "Cavalgar um raio de luz" (2000) e "Monique" (2004).

***Monique* é a aventura de uma resposta. Uma resposta íntima e tardia a um interlocutor para sempre ausente. É a carta de Monique a *Alexis*, o personagem-título da obra de Marguerite Yourcenar, publicado em 1929. A escritora francesa, nesta sua primeira obra, deixa-nos uma longa carta de adeus, um monólogo epistolar de um homem à sua jovem mulher, com quem esteve casado apenas três anos e que acaba de dar à luz a uma criança, para lhe explicar as razões da sua ruptura. Ele deseja começar uma vida nova, ser pianista, romper com a mentira e abandonar-se ao seu instinto que o atrai para os homens. De um grande pudor e de uma contenção admirável, a leitura desta carta suscita uma resposta. É do desafio da resposta a essa carta que este texto se ocupa.

*Monique *explora não somente uma simples resposta para a carta de Alexis, mas abre a porta para que conheçamos a percepção da mulher sobre o seu papel na sociedade em que vivia, mas também da sua vida pessoal, algo inimaginável para o marido e o restante da sociedade.

Com a leitura da carta-resposta de Monique, descortinam-se os limites finitos do conhecimento que Alexis tinha da esposa com quem viveu por três anos. Luísa Coelho, com essa carta-resposta, ajuda-nos a repensar um clássico da literatura mundial.

Esta apresentação insere-se na linha de qualidade cultural que a POETRIA se tem orgulhado de conferir aos eventos que promove. Porque estamos certos de que se trata de algo A NÃO PERDER, contamos com a sua presença.

POETRIA

Restauração: para breve, uma nova "Ave"


2008-01-03

Antes da pausa, para preparação da nova revista, "Restauração", de Branquinho da Fonseca



RESTAURAÇÃO




Se me vierem procurar: não estou. Quando me fecho em casa é para ser só eu: delicado e brutal, humilde e altivo, sacrificado e egoísta: o bem e o mal: humano! Sem atitudes seguidas. - Abaixo a Continuação!


Quero estar só diante de mim sem disfarces nem conveniências!


Ora todos sabem que para conviver é necessário ser alguma coisa aos outros.


Estou cansado! Deixem-me descansar! Deixem-me ser só eu durante um dia e depois vereis como hei-de agradar-vos, como de mãos nas mãos me beijareis o rosto e chamareis - Irmão!...


(Branquinho da Fonseca, presença, 18)

2008-01-02

Exposición en el prestigioso Restaurante del Club Náutico Los Arroyos, del 14 de diciembre de 2007 al 31 de enero de 2008

El dimensionalismo lumínico de Francisca Blázquez y el espacio mágico



EL TIEMPO DE LA LUZ
(FRANCISCA BLÁZQUEZ)

La artista multidisciplinar Francisca Blázquez expone diez obras pictóricas de la serie Dimensionalismo en el prestigioso restaurante del Club Náutico de los Arroyos, en el Escorial, Madrid, del 14 de diciembre de 2007 al 31 de enero de 2008. La inauguración tendrá lugar el próximo viernes día 14 de diciembre a partir de las 18.00 horas de la tarde.

El restaurante se halla ubicado en Calle, 33, s/n, 28280 El Escorial (Madrid), en la zona de Los Arroyos, su director es Fernando Ortiz y su teléfono: 91 853 20 68.
Francisca Blázquez, con más de 60 exposiciones individuales y 300 colectivas en 15 países de Europa, América y Asia, tiene obra en las más importantes colecciones y museos de todo el mundo.

Es autora del Dimensionalismo en 1998, teoría basada en la existencia de otras dimensiones tanto espirituales como físicas, además de las convencionales, es decir: el largo, ancho, alto, tiempo y espacio. Para lo cual elabora formas geométricas de gran cariz futurista, en obras realizadas en acrílico sobre tela, destacando las estructuras formales poliédricas, multipoliédricas, también las hexagonales, octogonales, rectangulares, cuadradas y triangulares. Asimismo exhibe la presencia de cilindros de luz, haces de luz, descargas energéticas, conformaciones geométricas luminiscentes que se abren a otros mundos ignotos, emplazados más allá del alcance circunstancial. Todo ello encuadrado en un contexto en el que destaca el espacio mágico, un lugar de encuentro fuera del tiempo, en el que las formas a nivel alegórico, simbólico y alquímico, se fundamentan en profundizar en la propia persistencia de la materia. Ésta se transforma de manera constante, siendo luz, materia y espíritu a la vez, porque los extremos se tocan dado que forman parte de un mismo mundo sincrónico.



LUZ ANGÉLICA
(FRANCISCA BLÁZQUEZ)

La armonía de cómo es arriba es abajo y como es dentro es afuera se cumple en la creación dimensional de Francisca Blázquez en todos los órdenes, dado que posee un planteamiento donde la belleza plástica predomina, emplazado en un camino donde se entrelazan la magia con la alquimia y el sendero del medio.
La luz es materia y esta se convierte en parte de la trascendencia, a partir de elaborar formas geométricas impensables, que nos sugirieren mundos que no están en este, pero que existen.


Su visión es alegórica, surge de la magia, también de la alquimia tanto interior como exterior, basándose en el proceso de iluminación personal, en la actitud que nos conduce a través de senderos que se suceden unos a otros, sin solución de continuidad. Unos senderos sutiles otros más angostos, los más elaborados pero, también, constituidos por una fenomenología que se fundamenta en el cambio de uno mismo, como parte de la magia contenida en la aplicación de la llama violeta.


El universo es mente, las dimensiones que podemos alcanzar es a través de la mente, que luego deja de tener importancia, para ser parte del todo. La mente crea nuevas puertas y aperturas hacia las dimensiones donde la materia es sutil o no existe, crecen y se desarrollan los espíritus, permitiéndose variaciones, sugerencias, fluctuaciones constantes, vehiculándose hacia mundos ignotos, que son parte de un todo, que se revela como infinito.



ESTRELLA DE LUZ
(FRANCISCA BLÁZQUEZ)

Joan Lluís Montané
De la Asociación Internacional de Críticos de Arte

Inícios luminosos

À Susana Garcês

2008-01-01

"Família humana, comunidade de paz", por Bento XVI


MENSAGEM DE SUA SANTIDADE BENTO XVI PARA A CELEBRAÇÃO DO DIA MUNDIAL DA PAZ
1 DE JANEIRO DE 2008

FAMÍLIA HUMANA, COMUNIDADE DE PAZ

1. NO INÍCIO DE UM ANO NOVO, desejo fazer chegar meus ardentes votos de paz, acompanhados duma calorosa mensagem de esperança, aos homens e mulheres do mundo inteiro; faço-o, propondo à reflexão comum o tema com que abri esta mensagem e que me está particularmente a peito: Família humana, comunidade de paz. Com efeito, a primeira forma de comunhão entre pessoas é a que o amor suscita entre um homem e uma mulher decididos a unir-se estavelmente para construírem juntos uma nova família. Entretanto, os povos da terra também são chamados a instaurar entre si relações de solidariedade e colaboração, como convém em membros da única família humana: « Os homens – sentenciou o Concílio <http://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/index_po.htm > Vaticano II – constituem todos uma só comunidade; todos têm a mesma origem, pois foi Deus quem fez habitar em toda a terra o inteiro género humano (Act 17, 26); têm também todos um só fim último, Deus ». (1 <http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/messages/peace/documents/hf_ ben-xvi_mes_20071208_xli-world-day-peace_po.html#_ftn1#_ftn1> ) Família, sociedade e paz
2. A família natural, enquanto comunhão íntima de vida e de amor fundada sobre o matrimónio entre um homem e uma mulher, (2 <http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/messages/peace/documents/hf_ ben-xvi_mes_20071208_xli-world-day-peace_po.html#_ftn2#_ftn2> ) constitui « o lugar primário da ‘‘humanização'' da pessoa e da sociedade »,(3 <http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/messages/peace/documents/hf_ ben-xvi_mes_20071208_xli-world-day-peace_po.html#_ftn3#_ftn3> ) o « berço da vida e do amor».(4 <http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/messages/peace/documents/hf_ ben-xvi_mes_20071208_xli-world-day-peace_po.html#_ftn4#_ftn4> ) Por isso, a família é justamente designada como a primeira sociedade natural, « uma instituição divina colocada como fundamento da vida das pessoas, como protótipo de todo o ordenamento social ».(5 <http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/messages/peace/documents/hf_ ben-xvi_mes_20071208_xli-world-day-peace_po.html#_ftn5#_ftn5> )
3. Com efeito, numa vida familiar « sã » experimentam-se algumas componentes fundamentais da paz: a justiça e o amor entre irmãos e irmãs, a função da autoridade manifestada pelos pais, o serviço carinhoso aos membros mais débeis porque pequenos, doentes ou idosos, a mútua ajuda nas necessidades da vida, a disponibilidade para acolher o outro e, se necessário, perdoar-lhe. Por isso, a família é a primeira e insubstituível educadora para a paz. Não admira, pois, que a violência, quando perpetrada em família, seja sentida como particularmente intolerável. Deste modo, quando se diz que a família é « a primeira célula vital da sociedade »,(6 <http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/messages/peace/documents/hf_ ben-xvi_mes_20071208_xli-world-day-peace_po.html#_ftn6#_ftn6> ) afirma-se algo de essencial. A família é fundamento da sociedade inclusivamente porque permite fazer decisivas experiências de paz. Devido a isso, a comunidade humana não pode prescindir do serviço que a família realiza. Onde poderá o ser humano em formação aprender melhor a apreciar o « sabor » genuíno da paz do que no « ninho » primordial que a natureza lhe prepara? A linguagem familiar usa um léxico de paz; aqui é necessário recorrer sempre para não perder o uso do vocabulário da paz. Na inflação das linguagens, a sociedade não pode perder a referência àquela « gramática » que cada criança aprende dos gestos e olhares da mãe e do pai, antes mesmo das suas palavras.
4. Uma vez que a família tem o dever de educar os seus membros, a mesma é titular de direitos específicos. A própria Declaração Universal dos Direitos Humanos, que constitui uma aquisição de civilização jurídica de valor verdadeiramente universal, afirma que « a família é o núcleo natural e fundamental da sociedade e tem direito a ser protegida pela sociedade e pelo Estado ».(7 <http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/messages/peace/documents/hf_ ben-xvi_mes_20071208_xli-world-day-peace_po.html#_ftn7#_ftn7> ) Por seu lado, a Santa Sé quis reconhecer uma especial dignidade jurídica à família, publicando a Carta dos Direitos da Família. Lê-se no Preâmbulo: « Os direitos da pessoa, ainda que expressos como direitos do indivíduo, têm uma dimensão social fundamental, que encontra na família a sua expressão originária e vital ».(8 <http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/messages/peace/documents/hf_ ben-xvi_mes_20071208_xli-world-day-peace_po.html#_ftn8#_ftn8> ) Os direitos enunciados na Carta são expressão e explicitação da lei natural, inscrita no coração do ser humano e que lhe é manifestada pela razão. A negação ou mesmo a restrição dos direitos da família, obscurecendo a verdade sobre o homem, ameaça os próprios alicerces da paz.
5. Deste modo quem, mesmo inconscientemente, combate o instituto familiar, debilita a paz na comunidade inteira, nacional e internacional, porque enfraquece aquela que é efectivamente a principal « agência » de paz. Este é um ponto que merece especial reflexão: tudo o que contribui para debilitar a família fundada sobre o matrimónio de um homem e uma mulher, aquilo que directa ou indirectamente refreia a sua abertura ao acolhimento responsável de uma nova vida, o que dificulta o seu direito de ser a primeira responsável pela educação dos filhos, constitui um impedimento objectivo no caminho da paz. A família tem necessidade da casa, do emprego ou do justo reconhecimento da actividade doméstica dos pais, da escola para os filhos, de assistência sanitária básica para todos. Quando a sociedade e a política não se empenham a ajudar a família nestes campos, privam-se de um recurso essencial ao serviço da paz. De forma particular os meios de comunicação social, pelas potencialidades educativas de que dispõem, têm uma responsabilidade especial de promover o respeito pela família, de ilustrar as suas expectativas e os seus direitos, de pôr em evidência a sua beleza.
A humanidade é uma grande família
6. A própria comunidade social, para viver em paz, é chamada a inspirar-se nos valores por que se rege a comunidade familiar. Isto vale tanto para as comunidades locais como nacionais; mais, vale para a própria comunidade dos povos, para a família humana que vive nesta casa comum que é a terra. Numa tal perspectiva, porém, não se pode esquecer que a família nasce do « sim » responsável e definitivo de um homem e de uma mulher e vive do « sim » consciente dos filhos que pouco a pouco entram a fazer parte dela. Para prosperar, a comunidade familiar tem necessidade do consenso generoso de todos os seus membros. É preciso que esta consciência se torne convicção partilhada também por quantos são chamados a formar a família humana comum. É necessário saber dizer o « sim » pessoal a esta vocação que Deus inscreveu na nossa própria natureza. Não vivemos uns ao lado dos outros por acaso; estamos percorrendo todos um mesmo caminho como homens e por isso como irmãos e irmãs. Desta forma, é essencial que cada um se empenhe por viver a própria vida em atitude de responsabilidade diante de Deus, reconhecendo n'Ele a fonte originária da existência própria e alheia. É subindo até este Princípio supremo que se pode perceber o valor incondicional de todo o ser humano, colocando as premissas para a edificação duma humanidade pacificada. Sem este Fundamento transcendente, a sociedade é apenas uma agregação de vizinhos, e não uma comunidade de irmãs e irmãos chamados a formar uma grande família.
Família, comunidade humana e ambiente
7. A família precisa duma casa, dum ambiente à sua medida onde tecer as próprias relações. No caso da família humana, esta casa é a terra, o ambiente que Deus criador nos deu para que o habitássemos com criatividade e responsabilidade. Devemos cuidar do ambiente: este foi confiado ao homem, para que o guarde e cultive com liberdade responsável, tendo sempre como critério orientador o bem de todos. Obviamente, o ser humano tem um primado de valor sobre toda a criação. Respeitar o ambiente não significa considerar a natureza material ou animal mais importante do que o homem; quer dizer antes não a considerar egoisticamente à completa disposição dos próprios interesses, porque as gerações futuras também têm o direito de beneficiar da criação, exprimindo nela a mesma liberdade responsável que reivindicamos para nós. Nem se hão-de esquecer os pobres, em muitos casos excluídos do destino universal dos bens da criação. Actualmente a humanidade teme pelo futuro equilíbrio ecológico. Será bom que as avaliações a este respeito se façam com prudência, no diálogo entre peritos e cientistas, sem acelerações ideológicas para conclusões apressadas e sobretudo pondo-se conjuntamente de acordo sobre um modelo de progresso sustentável, que garanta o bem-estar de todos no respeito dos equilíbrios ecológicos. Se a tutela do ambiente comporta os seus custos, estes devem ser distribuídos com justiça tendo em conta a disparidade de desenvolvimento dos vários países e a solidariedade com as futuras gerações. Prudência não significa deixar de assumir as próprias responsabilidades e adiar as decisões; significa antes assumir o empenho de decidir juntos depois de ter ponderado responsavelmente qual a estrada a percorrer, com o objectivo de reforçar aquela aliança entre ser humano e ambiente que deve ser espelho do amor criador de Deus, de Quem provimos e para Quem estamos a caminho.
8. A tal propósito, é fundamental « sentir » a terra como « nossa casa comum » e escolher, para uma gestão da mesma ao serviço de todos, a estrada do diálogo em vez de decisões unilaterais. Podem-se aumentar, se for necessário, os lugares institucionais a nível internacional, para se enfrentar conjuntamente o governo desta nossa « casa »; mas, o que mais conta é fazer maturar nas consciências a convicção da necessidade de colaborar responsavelmente. Os problemas que se desenham no horizonte são complexos e o tempo escasseia. Para fazer frente de maneira eficaz à situação, é preciso agir de comum acordo. Um âmbito onde seria particularmente necessário intensificar o diálogo entre as nações é o da gestão dos recursos energéticos do planeta. A tal respeito, uma dupla urgência preme sobre os países tecnologicamente avançados: é preciso, por um lado, rever os elevados níveis de consumo devido ao modelo actual de progresso e, por outro, providenciar adequados investimentos para a diferenciação das fontes de energia e o melhoramento da sua utilização. Os países emergentes sentem carência de energia, mas às vezes esta carência é remediada prejudicando os países pobres, que, pela insuficiência das suas infra-estruturas nomeadamente tecnológicas, se vêem obrigados a vender ao desbarato os recursos energéticos em seu poder. Às vezes a sua própria liberdade política é posta em discussão por formas de protectorado ou, em todo o caso, de condicionamento que resultam claramente humilhantes.
Família, comunidade humana e economia
9. Condição essencial para a paz nas famílias é que estas assentem sobre o alicerce firme de valores espirituais e éticos compartilhados. No entanto, é preciso acrescentar que a família experimenta autenticamente a paz quando a ninguém falta o necessário, e o património familiar – fruto do trabalho de alguns, da poupança de outros e da colaboração activa de todos – é bem gerido na solidariedade, sem excessos nem desperdício. Para a paz familiar, portanto, é necessária a abertura a um património transcendente de valores, mas, simultaneamente, há que não menosprezar a sapiente gestão quer dos bens materiais quer das relações entre as pessoas. O falimento desta componente tem como consequência a quebra da confiança recíproca devido às perspectivas incertas que passam a gravar sobre o futuro do núcleo familiar.
10. O mesmo se diga daquela grande família que é a humanidade no seu todo. De facto a família humana, que hoje aparece ainda mais interligada pelo fenómeno da globalização, além de um alicerce de valores compartilhados tem necessidade também de uma economia que corresponda verdadeiramente às exigências de um bem comum com dimensões planetárias. A referência à família natural revela-se, sob este ponto de vista também, singularmente sugestiva. Entre os indivíduos humanos e entre os povos, é preciso promover relações correctas e sinceras, que permitam a todos colaborarem num plano de paridade e justiça. Ao mesmo tempo, tem-se de trabalhar por uma sábia utilização dos recursos e uma equitativa distribuição da riqueza. De forma particular, as ajudas concedidas aos países pobres devem obedecer a critérios duma lógica económica sã, evitando desperdícios que no fim de contas resultam sobretudo do funcionamento de custosos aparelhos burocráticos. É preciso ter em devida conta também a exigência moral de fazer com que a organização económica não obedeça somente às duras leis do lucro imediato, que se podem revelar desumanas.
Família, comunidade humana e lei moral
11. Uma família vive em paz, se todos os seus componentes se sujeitam a uma norma comum: é esta que impede o individualismo egoísta e que mantém unidos os indivíduos, favorecendo a sua coexistência harmoniosa e laboriosidade para o fim comum. Tal critério, em si óbvio, vale também para as comunidades mais amplas: desde as locais passando pelas nacionais, até à própria comunidade internacional. Para se gozar de paz, há necessidade duma lei comum que ajude a liberdade a ser verdadeiramente tal, e não um arbítrio cego, e que proteja o fraco da prepotência do mais forte. Na família dos povos, verificam-se muitos comportamentos arbitrários, seja dentro dos diversos Estados seja nas relações destes entre si. Além disso, não faltam situações em que o fraco tem de inclinar a cabeça não frente às exigências da justiça mas à força nua e crua de quem possui mais meios do que ele. É preciso repeti-lo: a força há-de ser sempre disciplinada pela lei, e isto mesmo deve acontecer também nas relações entre Estados soberanos.
12. Sobre a natureza e a função da lei, já muitas vezes se pronunciou a Igreja: a norma jurídica que regula as relações das pessoas entre si, disciplinando os comportamentos externos e prevendo também sanções para os transgressores, tem como critério a norma moral assente na natureza das coisas. A razão humana, por sua vez, é capaz de discerni-la, pelo menos nas suas exigências fundamentais, subindo assim até à Razão criadora de Deus que está na origem de todas as coisas. Esta norma moral deve regular as opções das consciências e guiar todos os comportamentos dos seres humanos. Existirão normas jurídicas para as relações entre as nações que formam a família humana? E, se existem, serão operativas? Eis a resposta: sim, as normas existem, mas para fazer com que sejam verdadeiramente operativas é preciso subir até à norma moral natural como base da norma jurídica; de contrário, esta fica à mercê de frágeis e provisórios consensos.
13. O conhecimento da norma moral natural não está vedado ao homem que entre em si mesmo e, tendo diante dos olhos o próprio destino, se interrogue sobre a lógica interna das mais profundas inclinações presentes no seu ser. Embora com perplexidades e incertezas, ele pode chegar a descobrir, pelo menos nas suas linhas essenciais, esta lei moral comum que, independentemente das diferenças culturais, permite aos seres humanos entenderem-se entre si quanto aos aspectos mais importantes do bem e do mal, do justo e do injusto. É imprescindível subir até esta lei fundamental, empenhando nesta pesquisa as nossas melhores energias intelectuais sem deixar-se desanimar por equívocos nem confusões. Com efeito, valores radicados na lei natural estão presentes, ainda que de forma fragmentária e nem sempre coerente, nos acordos internacionais, nas formas de autoridade universalmente reconhecidas, nos princípios do direito humanitário recebido nas legislações dos diversos Estados ou nos estatutos dos organismos internacionais. A humanidade não está « sem lei ». É urgente, porém, prosseguir o diálogo sobre estes temas, favorecendo a convergência das próprias legislações dos diversos Estados sobre o reconhecimento dos direitos humanos fundamentais. O crescimento da cultura jurídica no mundo depende, para além do mais, do esforço de tornar as normas internacionais sempre substanciosas de conteúdo profundamente humano, para evitar a sua redução a procedimentos facilmente contornáveis por motivos egoístas ou ideológicos. Superação dos conflitos e desarmamento
14. A humanidade vive hoje, infelizmente, grandes divisões e fortes conflitos que lançam densas sombras sobre o seu futuro. Temos vastas áreas do planeta envolvidas em tensões crescentes, enquanto o perigo de se multiplicarem os países detentores de armas nucleares cria motivadas apreensões em toda a pessoa responsável. Há ainda muitas guerras civis no continente africano, embora também se tenham registado em vários dos seus países progressos na liberdade e na democracia. O Médio Oriente continua a ser teatro de conflitos e atentados, que não deixam de influenciar nações e regiões limítrofes com o risco de arrastá-las na espiral da violência. A nível mais geral, há que registar, com tristeza, um número maior de Estados envolvidos na corrida aos armamentos: temos até nações em vias de desenvolvimento que destinam uma quota importante do seu magro produto interno para a compra de armas. Neste funesto comércio, são muitas as responsabilidades: há os países do mundo industrialmente desenvolvido que arrecadam avultados lucros da venda de armas e temos as oligarquias reinantes em muitos países pobres que pretendem reforçar a sua posição com a aquisição de armas cada vez mais sofisticadas. Em tempos tão difíceis, é verdadeiramente necessária a mobilização de todas as pessoas de boa vontade para se encontrar acordos concretos que visem uma eficaz desmilitarização, sobretudo no campo das armas nucleares. Nesta fase em que o processo de não proliferação nuclear marca passo, sinto-me no dever de exortar as Autoridades a retomarem, com mais firme determinação, as conversações em ordem ao desmantelamento progressivo e concordado das armas nucleares existentes. Ao renovar este apelo, sei que dou voz a um desejo compartilhado por quantos têm a peito o futuro da humanidade. 15. Há sessenta anos, a Organização das Nações Unidas tornava pública, de maneira solene, a Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948-2008). Com tal documento, a família humana reagia aos horrores da II Guerra Mundial, reconhecendo a sua própria unidade assente na igual dignidade de todos os homens e pondo, no centro da convivência humana, o respeito pelos direitos fundamentais dos indivíduos e dos povos: tratou-se de um passo decisivo no árduo e empenhativo caminho da concórdia e da paz. Merece também menção especial a passagem do 25º aniversário da adopção pela Santa Sé da Carta dos Direitos da Família (1983-2008), bem como o 40º aniversário da celebração do primeiro Dia <http://www.vatican.va/holy_father/paul_vi/messages/peace/documents/hf_p-vi_ mes_19671208_i-world-day-for-peace_po.html> Mundial da Paz (1968-2008). Fruto duma providencial intuição do Papa Paulo VI, retomada com grande convicção pelo meu amado e venerado predecessor, Papa João Paulo II, a celebração deste Dia proporcionou ao longo dos anos a possibilidade de a Igreja desenvolver, através das Mensagens publicadas para tal circunstância, uma doutrina elucidativa em defesa deste bem humano fundamental. É precisamente à luz de tais significativas comemorações que convido todo o homem e toda a mulher a tomarem consciência mais lúcida da sua pertença comum à única família humana e a empenharem-se por que a convivência sobre a terra espelhe cada vez mais esta convicção da qual depende a instauração de uma paz verdadeira e duradoura. Em seguida, convido os crentes a implorarem de Deus, sem se cansar, o grande dom da paz. Os cristãos, por seu lado, sabem que podem confiar-se à intercessão d'Aquela que, sendo Mãe do Filho de Deus encarnado para a salvação da humanidade inteira, é Mãe comum.

A todos desejo um Ano Novo feliz!

Vaticano, 8 de Dezembro de 2007.

BENEDICTUS PP. XVI _____
(1 <http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/messages/peace/documents/hf_ ben-xvi_mes_20071208_xli-world-day-peace_po.html#_ftnref1#_ftnref1> ) Decl. sobre a Igreja e as religiões não-cristãs Nostra <http://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/va t-ii_decl_19651028_nostra-aetate_po.html> ætate, 1.
(2 <http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/messages/peace/documents/hf_ ben-xvi_mes_20071208_xli-world-day-peace_po.html#_ftnref2#_ftnref2> ) Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. past. sobre a Igreja no mundo contemporâneo Gaudium <http://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/va t-ii_const_19651207_gaudium-et-spes_po.html> et spes, 48.
(3 <http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/messages/peace/documents/hf_ ben-xvi_mes_20071208_xli-world-day-peace_po.html#_ftnref3#_ftnref3> ) João Paulo II, Exort. ap. pós-sinodal Christifideles <http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/apost_exhortations/documents /hf_jp-ii_exh_30121988_christifideles-laici_po.html> laici, 40: AAS 81 (1989), 469. ( <http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/messages/peace/documents/hf_ ben-xvi_mes_20071208_xli-world-day-peace_po.html#_ftnref4#_ftnref4>
4) Ibid., 40: o.c., 469. ( <http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/messages/peace/documents/hf_ ben-xvi_mes_20071208_xli-world-day-peace_po.html#_ftnref5#_ftnref5>
5) Pont. Cons. «Justiça e Paz», Compêndio <http://www.vatican.va/roman_curia/pontifical_councils/justpeace/documents/r c_pc_justpeace_doc_20060526_compendio-dott-soc_po.html> da Doutrina Social da Igreja, n. 211.
(6 <http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/messages/peace/documents/hf_ ben-xvi_mes_20071208_xli-world-day-peace_po.html#_ftnref6#_ftnref6> ) Conc. Ecum. Vat. II, Decr. sobre o apostolado dos leigos Apostolicam <http://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/va t-ii_decree_19651118_apostolicam-actuositatem_po.html> actuositatem, 11.
(7 <http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/messages/peace/documents/hf_ ben-xvi_mes_20071208_xli-world-day-peace_po.html#_ftnref7#_ftnref7> ) Art. 16/3.
(8 <http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/messages/peace/documents/hf_ ben-xvi_mes_20071208_xli-world-day-peace_po.html#_ftnref8#_ftnref8> ) Pont. Cons. para a Família, Carta dos Direitos da Família (24 de Novembro de 1983), Preâmbulo/A.
© Copyright 2007 - Libreria Editrice Vaticana

[Agradecimentos a Pedro Aguiar Pinto]

2007-12-31

"O desejo de futuro", por Manuel Gusmão ("Público")




"A cultura do blogue nacional", por J. Pacheco Pereira


A CULTURA DE BLOGUE NACIONAL

Os blogues, a blogosfera, são um facto cultural novo nos últimos cinco anos. Não abunda assim tanto a novidade no domínio lato da cultura, para que possa passar despercebida, ou melhor, notada mas não percebida, ou erradamente percebida. Muita coisa nos blogues vem em continuidade do passado, existia noutros meios e sob outras formas, mas mesmo a que apenas fez a transmutação dos media clássicos para os blogues como media mudou também com o meio. Mudou e continua a mudar.

Existe por isso uma nova "cultura de blogue", com traços comuns com idênticas culturas da Rede urbi et orbi, mas também com traços nacionais próprios. Não é por se usar a mesma ferramenta de software que os americanos, brasileiros, japoneses e chineses que deixamos de ser portugueses, de levar para lá o nosso mundo exterior. Não somos ricos na Rede se somos pobres cá fora, não somos sofisticados em linha, se somos trogloditas cá fora, não sabemos mais e pensamos melhor nas páginas do Blogger do que pensamos cá fora, nos cafés de província, ou no Bairro Alto ou no Lux ou nas páginas dos jornais, não se é cosmopolita lá dentro se se é provinciano cá fora, não se é subserviente cá fora e independente no ecrã diante do computador, não se é burro cá fora e inteligente lá dentro.

O que se passa é que esse verdadeiro mostruário em linha, feito de mil egos à solta, revela mesmo a nossa pobreza, a nossa rudeza, a falta de independência face aos poderosos, grandes, pequenos e médios, os péssimos hábitos de pensar a falta de estudos e trabalho, de leitura e de "mundo", que caracterizam o nosso "Portugalinho". Nem podia ser de outra maneira. Com a diferença que nos blogues o retrato é mais brutal porque mais arrogante e mais solto, ou pelo anonimato, ou pela completa falta de noção de si próprio de quem, por poder escrever sem edição para os milhões de leitores potenciais da Rede, acha que é crítico de cinema instantâneo, engraçadista brilhante, analista político, escritor genial de aforismos, herói único da denúncia dos males do mundo, e portador de todas as soluções que só não são aplicadas porque os outros, a começar pelo blogue do lado e a acabar no fim do mundo, são todos corruptos, vendidos e tristes. Como os blogues são viveiros de elogios mútuos e de complacência, estes traços alastram como um vírus e tornam-se comunitários, definidores do meio. Mas, até porque nos dá um retrato único da mesquinhez da vida intelectual e cultural nacional, o lado do não dito, do não enunciado no Jornal de Letras, no Ipsilon, nas notícias culturais do Diário de Notícias e no contínuo que vai das novas colunas sociais disfarçadas de sociologia do presente e no jornalismo light até às revistas do jetset, a blogosfera é interessante e única.

Eça, se fosse hoje, poderia escrever sobre os blogues o que escreveu sobre os jornais:

"A tua ideia de fundar um jornal é daninha e execrável. (...) tu vais concorrer para que no teu tempo e na tua terra se aligeirem mais os juízos ligeiros, se exacerbe mais a vaidade, e se endureça mais a intolerância. Juízos ligeiros, vaidade, intolerância - eis três negros pecados sociais que, moralmente, matam uma sociedade! (...) Foi incontestavelmente a Imprensa que, com a sua maneira superficial, leviana e atabalhoada de tudo afirmar, de tudo julgar, mais enraizou no nosso tempo o funesto hábito dos juízos ligeiros. (...) É com impressões fluidas que formamos as nossas maciças conclusões. Para julgar em política o facto mais complexo, largamente nos contentamos com um boato, mal escutado a uma esquina, numa manhã de vento. Para apreciar em literatura o livro mais profundo, (...) apenas nos basta folhear aqui e além uma página (...) . Principalmente para condenar, a nossa ligeireza é fulminante. Com que soberana facilidade declaramos "Este é uma besta! Aquele é um maroto!" Para proclamar "É um génio!" ou "É um santo!" oferecemos uma resistência mais considerada (...) Assim passamos o nosso bendito dia a estampar rótulos definitivos no dorso dos homens e das coisas. Não há acção individual ou colectiva, personalidade ou obra humana, sobre que não estejamos prontos a promulgar rotundamente uma opinião bojuda."

Tudo isto é certeiro, mas, se ficássemos por aqui, não percebíamos a novidade, a mesma, aliás, que Eça defrontava com o papel crescente da imprensa. Mesmo assim, e até por isso, os blogues são coisa nova, são um fenómeno de per si. Trazem a quantidade, a lei dos grandes números, trazem as "massas". É verdade que apenas uma escassíssima minoria escreve blogues que caibam nesta categoria para além do puro confessional, e que apenas uma minoria os lê, mas nunca na história tanta gente se revela assim no espaço público, acompanhando mutações de geração e de hábitos culturais que vai no mesmo sentido de, por exemplo, a desvalorização da privacidade, do tempo lento, do silêncio, da palavra escrita em relação às imagens em movimento. E isso é uma novidade que está para ficar e evoluir. Evoluirá a partir daqui, desta logomaquia, mas evoluirá acrescentando uma nova dimensão ao retrato das diferentes sociedades e mentalidades, incluindo Portugal.

Um dos rodriguinhos da escrita em Portugal é ter que sempre enunciar que há excepções. Há excepções? Claro que há, mas são mesmo excepções e não alteram a regra. A regra é esta. Eu estou a falar da regra.

É ainda cedo para medir o papel dos blogues em Portugal enquanto consumo cultural e mediático, como fonte quase única de conhecimentos "dinâmicos", envolventes, para as gerações que se estão a "educar" mais fora da escola do que dentro dela. Mas há indícios, principalmente nos mais jovens, do aparecimento de uma "cultura de blogue", de uma aproximação cultural ao mundo feita de pouco mais do que a leitura de blogues e de outras páginas da Rede, que têm mecanismos de social networking como as variantes nacionais do Facebook, ou o Hi5, o Second Life, e o mecanismo de trocas de "favoritos" que vai dar ao YouTube. Em Portugal, a absorção do mundo - política nacional, internacional, produtos culturais da moda, discursos e julgamentos, escolhas de podium e de agenda - pelos blogues difere da que se poderia obter através dos media tradicionais.

Para uma geração de jovens que só lê escassamente os jornais, para além dos desportivos e dos gratuitos, a "cultura de blogue" começa a deixar os seus traços próprios: redução da temática considerada "importante" ao que é discutido nos blogues, valorização do posicionamento comprometido, de "prós e contras", maior radicalismo político e opinativo, mecanismos de identidade grupais ou tribais, para além da absorção generalizada dos males que o Eça atribuía aos jornais: "juízos ligeiros, vaidade, intolerância", "impressões fluidas" e "maciças conclusões". Está longe de ser uma boa escola, mas é a escola, mais intolerante, mais a preto e branco, mais agressiva nas opiniões e menos ponderada, mas também mais democrática, no sentido em que envolve muito mais gente do que a que em qualquer altura teve sequer a veleidade de ter uma opinião, muito menos dá-la. Não é um fenómeno "mau" por si só, tem também aspectos "bons", na proporção desigual que é habitual para Portugal nestas coisas, mas caminha para ser um instrumento suplementar que reforça as duas tendências em curso nos nossos dias: a da substituição da democracia pela demagogia e a espectacularização da sociedade.

A blogosfera é tão avessa à crítica como os media tradicionais, com a agravante de que o envolvimento narcísico é tão forte que, mesmo dentro de blogues colectivos, a mais pequena fractura se torna explosiva. Os blogues não gostam de ser objecto de críticas e, como é obvio, tem uma alta noção de si próprios e estão tão cheios de autocomplacência e de elogios mútuos que consideram um anátema qualquer discurso que lhes pareça exterior e que os ponha em causa, a eles e às regras do jogo que estabeleceram. Desde o início da popularização da blogosfera o chamado "metabloguismo" era considerado um desvio da genuinidade do discurso em linha, mas, sem reflexão crítica sobre o próprio meio, sobre o meio em Portugal, que introduza critérios de qualidade e exigência que os blogues são lestos a exigir a outros mas não a aplicar a si próprios, os blogues serão apenas mais uma câmara de ressonância da pobreza da nossa vida cívica.

Como também tenho um blogue, deixo aos leitores o julgamento do que se me aplica do que aqui digo.

(versão do Público, 29 de Dezembro de 2007, recolhida em abrupto)

2007-12-30

2007-12-29

Dalila Rodrigues reactualiza vida e obra de Grão Vasco


Dalila Rodrigues reactualiza vida e obra de Grão Vasco
A historiadora de arte Dalila Rodrigues, ex-directora do Museu Nacional de Arte Antiga, reactualiza a vida e obra de Grão Vasco, o primeiro pintor português que assinou os seus quadros, num álbum a editar esta semana.

«Grão Vasco é um dos maiores pintores portugueses e foi o primeiro a assinar o seus quadros», disse à Lusa Dalila Rodrigues.

«Lamentação aos pés de Cristo» foi a primeira tela assinada por Grão Vasco, «por volta de 1520».

«Vasco Fernandes, assim era o seu nome de baptismo, assinou exactamente VFRD. A segunda tela está assinada em latim, Velacq e destinava-se ao mosteiro de Santa Cruz de Coimbra», explicou a investigadora.

O álbum, profusamente ilustrado com obras do pintor viseense, «reactualiza a vida e obra de Grão Vasco, sendo uma proposta de percurso artístico, com uma abordagem sistemática da primeira à sua última obra», disse.

Uma das questões para as quais Dalila Rodrigues encontrou fundamento documental foi o nascimento de Vasco Fernandes numa casa junto a um moinho.

«Na realidade há documentos que vão ao encontro da tradição oral que referem isso mesmo. Há de facto documentos que falam do moinho do pintor», disse.

Para Dalila Rodrigues esta «é uma obra para um público interessado e não especializado, ainda que as comunidades científica e académica possam ver nele um instrumento de trabalho».

Segundo a autora, das 80 obras atribuídas a Grão Vasco «apenas cerca de 40 serão seguramente de sua autoria, havendo muitas que, sendo-lhe atribuídas, pertencem ao seu discípulo Gaspar Vaz». Dalila Rodrigues está aliás a preparar uma monografia sobre este pintor.

O álbum, editado pela Alêtheia, além da reprodução de telas do pintor como «S. Pedro», o Tríptico da Sé de Lamego ou o retábulo da de Viseu, é dividido em quatro partes: a biografia, documentos históricos e aura mítica que se desenvolveu à sua volta, o percurso artístico, as parcerias e as experiências individuais, e a quarta, sobre a oficina de Viseu.

Dalila Rodrigues investiga desde há muito a obra do pintor, tendo comissariado a sua primeira exposição no estrangeiro, em Salamanca, em 2002.

Antiga directora dos museus Grão Vasco e Nacional de Arte Antiga, é actualmente professora dos institutos Politécnico de Viseu e Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa, e está a ultimar uma história da arte portuguesa que sairá em Abril.

Diário Digital / Lusa

20-12-2007 10:52:20

Vida e obra de Eça de Queirós em ciclo de conferências na Europa, Brasil e EUA


Durante o próximo ano
Vida e obra de Eça de Queirós em ciclo de conferências na Europa, Brasil e EUA
28.12.2007 - 13h48 Lusa
A vida e a obra do escritor Eça de Queirós são o tema de um ciclo de conferências internacionais que vai decorrer, em 2008, em diversos países europeus, nos Estados Unidos e no Brasil, foi hoje anunciado.

Este ciclo, liderado por Marie-Helene Piwnik, da Universidade de Sorbonne, em Paris, resulta de um protocolo assinado entre a Fundação Eça de Queirós e o Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior.

A primeira conferência será proferida, em Janeiro, na Universidade de Barcelona, Espanha, por Elena Losada Soler, estando prevista para Fevereiro uma outra de Marie-Helene Piwnik, na Universidade de Sorbonne. Já confirmada está também uma conferência de Lucette Petit, em Outubro, no Centro Cultural de Paris da Fundação Calouste Gulbenkian.

Ainda sem data, estão previstas iniciativas idênticas com Frank de Sousa, na Biblioteca Pública de New Beford, EUA, de Hélder Macedo, no King's College, em Londres, de Alan Freeland, em Southampton, e de Elza Miné, em S. Paulo, Brasil.

O protocolo assinado entre a Fundação Eça de Queirós e o Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior prevê ainda a colaboração das duas instituições na realização anual de cursos de Verão sobre o percurso biográfico e ficcional de Eça de Queirós. Estes cursos serão destinados a alunos do ensino superior nacional e estrangeiro, mas também a especialistas, estudantes estrangeiros graduados e a alunos com pós-graduação.

O protocolo determina ainda a realização de acções de formação sobre Eça de Queirós e a Geração de 70 para estudantes do ensino superior e investigadores, assim como a organização de visitas de estudo, concursos e estágios.

Nos termos deste acordo, o ministério, através da Direcção-Geral do Ensino Superior, vai financiar os cursos de Verão com um montante máximo de 20 mil euros, tendo em vista a atribuição pela Fundação Eça de Queirós de dez bolsas, de 600 euros cada, a estudantes portugueses do ensino superior para frequência do curso e outras dez bolsas para especialistas e estudantes estrangeiros, que também terão direito a um subsídio de viagem.

A Fundação Eça de Queirós, sedeada na Quinta de Vila Nova, em Tormes, Baião, foi criada em Setembro de 1990 com o objectivo de divulgar e promover a obra daquele que foi uma dos maiores nomes do romancismo português. É presidida por Maria da Graça Salema de Castro, sobrinha-neta de Eça de Queirós.

2007-12-27

benazir

benazir e o fogo dentro da boca
como ao terreiro as balas e o rei.

os cobardes são assim sem aviso
cruéis e bárbaros torpemente.

o inverno ao paço foi chamado
como o sol declinado pela pólvora.

um dia o negrume será arminho
como a neve sinal deste queixume.

"O divino Vasco", a propósito de "Grão Vasco" de Dalila Rodrigues



Agradecimentos ao Carlos Monteiro

2007-12-26

"Misérias domésticas", por António Barreto


Misérias domésticas

23.12.2007, António Barreto, "Retrato da semana" (Público)

A impunidade, a irresponsabilidade e o branqueamento parecem indispensáveis às obras e aos concursos públicos. Depois das glórias internacionais, chegou a vez das nacionais. Antes mesmo de acabar a presidência portuguesa, foram inauguradas as estações de metropolitano do Terreiro do Paço e de Santa Apolónia. Foi momento alto para a obra pública e para a vida do Governo. A luzidia comitiva fez o que tinha a fazer, accionou os sistemas, inaugurou e cumprimentou. Sócrates fez discurso. O melhoramento dos transportes que se anuncia é indiscutível. O conforto para os que fazem a trasfega todos os dias aumentou muito. Há décadas que estas obras deveriam estar feitas. A principal estação de caminho-de-ferro da capital não tinha metro, caso certamente único em metade do mundo, e a outra metade não tem metro! O mais importante ponto de passagem, durante décadas, entre as duas margens do Tejo não tinha ligação directa entre barcos, comboios, autocarros e metropolitano! Toda esta obra é discutível, pelo sítio, pela dimensão e pela solução adoptada. Com certeza. Mas os benefícios parecem, para já, inquestionáveis. Só que... A obra demorou dez anos a mais. E custou muitos milhões de euros a mais, pelo menos 140. A câmara e o Estado foram relapsos, as empresas construtoras não previram os graves acidentes ocorridos, nunca foram apuradas as responsabilidades pelos atrasos, pela imprevidência, pelos prejuízos e pelos custos exagerados. As inspecções não funcionaram, a fiscalização também não. Muito menos a justiça. A impunidade, a irresponsabilidade e o branqueamento parecem indispensáveis às obras e aos concursos públicos. Esta é apenas a última de uma longa e permanente série de obras públicas sem controlo nem planeamento. E, ao que parece, sem honestidade e rigor.
O julgamento da UGT e de mais de 30 dos seus dirigentes, entre os quais o antigo secretário- -geral Torres Couto, chegou ao fim. Com uma excepção (mas com crime prescrito), os arguidos foram todos absolvidos. Falta de provas. Acusações não fundamentadas. Ausência de documentação demonstrativa. Foram estas as conclusões do tribunal. Os factos alegados datam de 1990. O processo foi iniciado em 1995. Foram necessários 17 anos! Perderam-se vidas e carreiras. Não se fez justiça.
A ASAE decidiu responder aos seus críticos. Ou antes, o secretário de Estado do Comércio, Serviços e Defesa do Consumidor publicou um comunicado no qual investe contra os críticos da actuação daquela polícia da segurança alimentar. É, a todos os títulos, um comunicado notabilíssimo. Muito daquilo que a ASAE e o Governo são acusados é totalmente confirmado por este comunicado, que é uma verdadeira obra-prima! Num estilo de grande burocrata despótico e num exercício de puro cinismo técnico e jurídico, garante que nada é proibido, "desde que...". Bolas-de-berlim na praia, castanhas assadas, facas de cozinha, colheres de pau, açorda de pão velho e produtos artesanais, tudo é permitido, "desde que...". No "desde que..." está a chave. Os produtores têm de estar certificados, as facas descontaminadas, as colheres higienizadas, as gorduras medidas, os aromas calibrados, as licenças actualizadas, os géneros embalados, os procedimentos normalizados, as torneiras automatizadas, as mãos desinfectadas, as temperaturas aferidas, os queijos datados, o fiambre etiquetado, a ventilação assegurada, os transportes refrigerados, as licenças regulamentadas, as certificações validadas, as inscrições conferidas, os funcionários identificados, os géneros protegidos, os produtos separados e os operadores licenciados. Desde que tudo isto seja feito e esteja assegurado, há bola-de-berlim e croquete.
Com este mês de Dezembro, iniciou-se mais uma campanha de promoção de Portugal no mundo. São dezenas de cartazes, de enormes dimensões, nas cidades portugueses e centenas de inserções em revistas e jornais do mundo inteiro. Portugal foi transformado na "West coast of Europe". As imagens reproduzem as caras dos portugueses de sucesso, Mourinho, Ronaldo, Mariza e outros. É a mais vistosa de todas as saloiices em que este Governo (e outros antes dele...) se empenhou. É um velho hábito dos países do Terceiro Mundo e de algumas ditaduras que consiste em comprar páginas de jornal e minutos de televisão para se promover. Escolhem-se umas personalidades com hipóteses de serem reconhecidas e tenta-se convencer os putativos clientes de que este país é todo assim, feito de belas paisagens e de pessoas excepcionais. O dinheiro que se gasta com isto é colossal, mas talvez nada de muito grave. Apesar de inútil. O que mais choca, além da capacidade de influência no Governo que as agências de publicidade assim exibem, é a atitude de quem encomenda estas campanhas. Quem assim procede está a dizer aos outros que o país, sem campanha, é desconhecido e ninguém dá conta dele. São justamente os países que têm pouco a oferecer, que nem pela sua mediocridade se distinguem, que não pesam nas balanças da fama e da reputação, que são destituídos de interesse especial e que se revelam razoavelmente simplórios e longínquos, que sentem a necessidade de se promover e de repetir a sua excelência, a paz, o sossego, a beleza e os tesouros escondidos. Quem assim age está plenamente convencido de que o seu país não vale grande coisa e de que tem de fazer estas campanhas. Os responsáveis julgam que tudo se compra com publicidade, mesmo ridícula. O resultado é o previsível. Quem vir os cartazes e seja capaz de reconhecer aquelas individualidades de excepção pensará imediatamente que o país não tem mais nada a oferecer e pretende, com as excepções, convencer os estrangeiros. Portugal não precisava desta campanha para nada. Para absolutamente nada! Talvez o Governo precise, mas o país não.

"Firmado Mac. Carteles de cine de Macario Gómez" na Brontë



"Conto de Natal", por João César das Neves


Um dia olhei à volta e vi o mundo como nunca vira. A realidade é uma floresta. Eu parecia estar em cima de uma árvore, no meio de muitos ramos grossos e frondosos, folhas, rebentos e frutos. Toda a minha actividade desenrola-se por entre esta folhagem. O meu trabalho e azáfama, os meus desejos e frustrações, todas as minhas viagens, correrias, tarefas e divertimentos têm lugar nas copas de um denso bosque. Vi as ruas e casas, salas e corredores formados do material vegetal da selva. Reencontrei todos os meus colegas e conhecidos, amigos e familiares, cada um na sua labuta, todos fazendo tudo equilibrados nos troncos, ramos, folhas e caules daquele espesso arvoredo.
Tornou-se então clara a natureza da minha existência, que antes sempre me tinha perturbado. A permanente insegurança da realidade humana fica compreensível se soubermos que vivemos no topo ondulante de um bosque batido pelo vento. Os obstáculos que sentimos no quotidiano, a confusão e incerteza do nosso destino, ficam subitamente claros. É difícil ver através das hastes e folhas. É penoso mover-se por entre caules, lianas e trepadeiras. Vivendo no topo de uma floresta, é evidente a razão por que as coisas não andam como queremos.
Então, olhando para baixo, tive um sobressalto. Os ramos onde vivo estão suspensos muitos metros acima de um nevoeiro cerrado que parece cobrir um pântano. O cheiro nauseabundo, o chapinhar e os roncos medonhos que de lá sobem são apavorantes. Entrevêem-se cristas escamosas, focinhos monstruosos. A nossa vida precária baloiça-se por cima de um atoleiro repugnante e sangrento. A vida humana titubeia sobre o abismo. Ninguém parece dar-se conta da situação. Alguns filósofos meditam sobre isto, ouvem-se muitas histórias de incautos engolidos pelo lamaçal. Mas sente-se um esforço colectivo para ignorar a realidade e esquecer a ameaça. Todos se agarram com força aos ramos e contentam-se com a vidinha, intensa ou pacata, no meio das folhas. De olhos finalmente abertos, senti que não conseguia mais permanecer naquele lugar. Como podia deixar escoar a minha vida num matagal frágil por cima da catástrofe? Como achar isso normal, corrente, tolerável?
Foi então que reparei numa grande luz que vinha do Oriente. Por entre a folhagem entrevi um clarão que não parecia apagar-se. Corri pelo meio dos troncos e cheguei à margem do pântano onde, de uma enorme muralha dourada e brilhante, partia a luz. Não consegui ver o topo daquela parede imponente, feita de grandes blocos de pedra. De ambos os lados não se vislumbravam os extremos . Era imensa.
Vi então que entre a muralha e o arvoredo do pântano havia uma estreita faixa de areia onde se encontrava uma pequena multidão. Desci da árvore e perguntei o que era aquilo. Disseram-me que era o muro da cidade das delícias, onde se vive feliz para sempre. Julguei que a muralha era para manter longe os invasores, mas um velho explicou: "Não foram os habitantes da cidade que fizeram o muro. Fomos nós, forçados pelo dragão que vive no meio do pântano." Este paradoxo era o tema de conversa de toda aquela gente, que queria passar sobre a muralha luminosa. Alguns diziam ter recebido mensagens do Senhor da cidade e saber como fazer uma escada. Asseguravam que a subida viria do esforço e sacrifício. Outros falavam de meditação ou repetiam leis e cultos para saltar o obstáculo.
Eu perguntei: "Já se lembraram de procurar uma porta?" Olharam para mim com desprezo e um respondeu: "Se és dos que acreditam que há uma porta, vai para ali ter com os teus amigos." Então reparei que, um pouco mais adiante, havia na praia um grande grupo que parecia olhar todo para um mesmo local. Aproximei-me e notei uma outra multidão, semelhante à primeira. Mas esta estava a cantar. Naquela zona a base da muralha escurecia e parecia abrir uma espécie de caverna. Era para ali que toda aquela gente olhava. De dentro vinha uma luz ainda mais forte que a que saía das pedras do muro. Pareceu-me ouvir, vindo da gruta, o som de uma criança a chorar.

"A Abelha e o Natal", por Marcia Frazão


Quando o natal se aproximava, a cozinha de Virgínia misteriosamente ficava com cheiro de mel. E se você esticasse um pouquinho mais o olhar decerto avistaria uma abelha. "A rainha", como Virgínia dizia. Confesso que não era tarefa fácil encontrá-la. Havia muitas panelas, bules, xícaras, potes, tigelas, peneiras, coadores, paninhos e panões que anuviavam a vista e escondiam a danada sabe-se lá onde. Mas depois de transcorrido o tempo, entre os amassos na massa do pão , a modelagem dos biscoitos e a cascata de chocolate sobre os pães de mel, eis que surgia a fujona! Mas não pense você que a abelha era uma abelha comum. Não, a abelha da cozinha de Virgínia possuía "estranhas" propriedades. Era uma abelha mágica! Dadeira de dádivas, ouvideira de desejos. E como ela dava e ouvia! A abelha da cozinha de Virgínia gostava de ouvir as coisas que até Deus duvida e era mestra em realizar os desejos impossíveis. Aliás, quanto mais impossíveis eles fossem, mais ela se esmerava em torná-los fáceis e banais. Mas não pense você que ela dava tudo isso de mão beijada. Para tanto era preciso seguir algumas recomendações. A primeira, e talvez a mais importante, era imaginar coisas que corassem e dilacerassem as convicções. Ah, essa era tão difícil como encontrá-la em meio as tralhas da cozinha! Com um pouco de imaginação corava-se de pronto, mas dilacerar as convicções... era osso duro de roer! Mas quando a tarefa era cumprida, não havia jeito de voltar atrás. A danada cumpria a palavra! Depois, a danada sumia deixando no ar um zumbido e a impressão de que tudo não passara de um sonho. E era nessa hora que entrava em cena a magia: Virgínia retirava do forno um enorme pão de alecrim com formato de abelha."A Rainha", como ela mesma dizia! O comíamos à meia-noite do dia 24 de dezembro, regado com muito vinho e manteiga de nata. Virgínia nos pedia entâo para reservarmos o último naco e o guardássemos para a massa do pão do natal seguinte. "Coisas de Portugal", como ela mesma dizia. Não sei se pela magia da abelha ou pelo tempero de mel, o ano transcorria regado ao doce aroma de uma colméia escondida num pé de alecrim... Bem, essa é uma lembrança de natal que eu quis compartilhar com você. E também porque estou enviando a abelha de Virgínia para a sua cozinha. Ela certamente realizará todos os seus desejos e lhe trará muita alegria. Bizzzzzzzzzzzzz... Ouviu o zumbido dela? mil luas melíferas pra vc! Marcia Ops, já ía me esquecendo da receita! Segue ela abaixo:
Pão de Alecrim
Ingredientes: 1 colher de sopa de sal 1 colher de sopa de folhinhas (frescas) de alecrim 30 gramas de fermento fresco ou 2 colheres de sopa de fermento em pó cerca de 7 xícaras de farinha de trigo 2 1/2 xícaras de água 1 colher de sopa de manteiga amolecida 1 ovo ligeiramente amolecido 1 gema 1 colher de sopa de mel
Modo de Fazer: Numa tigela grande misture o sal, o alecrim, o fermento e 2 1/2 xícaras de farinha de trigo. Numa panela com capacidade para 2 litros, esquente a água e a manteiga em fogo baixo, até ficar bem quente. Adicione gradualmente os líquidos aos ingredientes secos, bata a mistura vigorosamente. Acrescente mais 3 1/2 xícaras de farinha e bata até obter uma massa macia e pegajosa. Coloque-a numa tigela e cubra; deixe crescer até dobrar de volume (uns 30 minutos). Abaixe a massa e transfira-a para uma superfície polvilhada e amasse até ficar lisa e elástica (leva uns 10 minutos). Como é difícil encontrar uma forma com o formato de abelha, sugiro transferir a massa para uma forma redonda (e pensar que a abelha deu uma engordada!), untada e enfarinhada e deixá-la crescer por uns 30 minutos. Antes de colocá-la no forno pincele com a gema batida com o mel e depois asse por 30 minutos. Ah, durante o processo, pense em coisas boas, criativas, doces como saúde, amor, trabalho, delicadeza, humanismo, ternura, compaixão... pois como já disse, o pão é mágico e a abelha; mais ainda!

"La vida judía en Sefarad"


"Bolo não cresce se você não agradece", por Marcia Frazão


Bolo não cresce se você não agradece -, Jaqueline costumava dizer quando me via batendo uma receita de bolo. Acostumada com suas esquisitices, eu fingia não ouvir e continuava o trabalho. Afinal, os meus bolos cresciam satisfatoriamente e havia tão poucas coisas a agradecer que se eu levasse o conselho a sério, estaria limitada a poucos bolos. Com Jaqueline, eu pensava, não era diferente; sua vida estava mais para um mar de espinhos que de rosas. Conhecera o sofrimento de perto, de tão perto que o danado tomou-se de amores por ela. Romance sofrido, velado pelas granadas nazistas que pipocavam nos quintais de sua infância, pelas infiltrações no quartinho úmido de sua juventude em Londres, por um casamento "desgostoso", como ela mesma dizia, e por uma velhice sustentada pelas aulas particulares de francês para alunos que aprendiam tão rápido (ela inventara um misterioso método) que em pouco tempo dispensavam as aulas. O engraçado é que com quase nada para agradecer, ela agradecia. E seus bolos cresciam bem mais que os meus. Eram enormes, fofos por dentro e involucrados por uma fina crosta dourada que dissolvia na boca e dourava o coração. Às vezes ela batia palmas no portão pela manhã, trazendo-me uma fatia embrulhada. Um cadeaux dourado, por vezes decorado e recheado. Chegava sempre exatamente no instante em que os obstáculos da vida ou a desilusão do viver enodoavam meu coração de ferrugem. - Você não agradece, mas agradeço por você e o bolo cresce -, ela me dizia indiferente ao meu olhar trotskista. Não, não seria eu que agradeceria por tudo aquilo que a vida me roubara, pelas humilhações, pelos bolsos sempre vazios, pelos ultrajes, pela má fé dos outros a interferir no sustento de minha família, e nem pelas noites insones à procura de soluções. Eu acreditava na revolução trotskista e, como Frida Kahlo, vislumbrava um mundo livre de opressões, onde não haveria espaço para a exploração do homem pelo próprio homem e para negociatas corruptas, injustiças sociais e empobrecimento da arte. Jaqueline sorria ao testemunhar meu coração rebelde e ,invariavelmente, dizia: - Coma o bolo porque existem dores que nenhuma revolução trotskista resolve. Sua amiga, Kahlo, soube muito bem disso. O tempo passou, a revolução não aconteceu, o esqueleto de Frida Kahlo virou pó e meus bolos continuaram a crescer satisfatoriamente, enquanto os de Jaqueline, agradecidos pelas dádivas que só ela via, agigantavam-se nas formas. Talvez pelo fracasso da revolução ou pela constatação de que somente a dor é socialista, deixei de perguntar a Jaqueline pelos motivos dos agradecimentos e me conformei com os bolos que eu fazia, sempre menores que os dela. Quando Jaqueline atendeu a solicitação de Deus e me vi só, sem nenhuma concorrência para os meus bolos, acrescentei um item a mais em minha lista de desilusões. Não, não seria eu a agradecer pela minha alma vazia, pelo buraco que sua partida cavara em meu coração, pelo portão mudo de palmas. Não, se Jaqueline pensava que sua falta me faria agradecer, ela que se contentasse com bolos satisfatoriamente crescidos! Algumas semanas se passaram até que pela saudade a dilacerar meu peito ou pela tênue esperança de que o aroma a trouxesse de volta, eu resolvi fazer o bolo que ela mais gostava, o bolo de chocolate com queijo. Logo que comecei a bater a massa, eu me vi inundada por uma avalanche de lembranças que estranhamente adocicavam o meu coração, retirando todo o amargor que nele condensava como um tumor. Já não havia espaço para reclamações, desgostos com Deus, ou para a incômoda sensação de ter sido esquecida por Ele; havia somente o desfile das boas lembranças dos instantes em que eu e Jaqueline trocávamos receitas e livros, tomávamos café, alimentávamos sonhos, confidenciávamos segredos, chorávamos pelos projetos não realizados, ríamos dos mesmos projetos alguns anos depois, ouvíamos música, criticávamos desafetos e exaltávamos amigos. Naquele instante em que a colher de pau formava as espirais na massa guardava-se a história de duas mulheres que sonhavam o mundo entre pitadas de sal e colheres de fermento. Agradeci do fundo do meu coração por esses momentos e pela dádiva de ter tido uma verdadeira amiga. O bolo cresceu de maneira espantosa e dentro de mim ouvi outra vez a voz de Jaqueline: - Eu não disse que o bolo cresce quando se agradece!. Desde então tenho reservado aos bolos os meus agradecimentos por tudo o que a vida tem me dado. E quando a desilusão e o amargor querem invadir minha alma, lembro de Che Guevara a dizer: "Há que endurecer, mas sem perder a ternura". Dentro de mim ecoa o riso franco de Jaqueline, enquanto ela me diz que descobriu na cozinha de Deus que Guevara é um grande cozinheiro!

Marcia Frazão

obs: este texto foi extraído de meu livro "A Cozinha Mágica de Marcia Frazão", editado pela Ediouro. A receita do Bolo de Chocolate está lá.

2007-12-25

"Natal", por João César das Neves


Natal 20 | 12 | 2007 09.00H

O Natal é uma canseira, uma despesa, uma trapalhada. Perder imenso tempo a fazer doces e decorações, gastar um dinheirão em presentes e jantares, suportar a confusão dos cartões de boas-festas e das refeições de família. Estes dias nem se consegue ler o Destak em paz, porque é Natal.
É assim desde o princípio. A canseira que não foi para a Senhora, grávida de mais de oito meses, fazer centenas de quilómetros até Belém! A despesa da viagem, do nascimento, da ida para o Egipto! A trapalhada do recenseamento, da falta de acolhimento, do estábulo! Para não falar na confusão das visitas dos pastores, dos magos e, pior, dos soldados de Herodes. Acima de tudo, canseira, despesa e trapalhada estão mesmo no centro do mistério supremo que nos leva ainda hoje a celebrar o Natal. Porque o Deus sublime quis vir através dos céus nascer como um bebé. Porque o Senhor do universo dissipou toda a sua glória, escondendo-a naquele estábulo. Porque Ele sabia que os homens não o reconheceriam e iriam desprezá-lo e tentar matá-lo, até conseguirem.
O Natal só existe porque o Verbo de Deus quis suportar uma enorme canseira, despesa e trapalhada pela nossa salvação. Por isso hoje, quando corremos, gastamos e sofremos por causa do Natal, ao menos lembremo-nos do que Ele e sua Mãe correram, gastaram sofreram. Por nós. Participar no Natal é amar o próximo, mudar de vida, entrar no amor. Mas se não o fizermos, mesmo que não o queiramos fazer, ao menos participamos no Natal repetindo a canseira, despesa e trapalhada que foi desde o princípio. Feliz Natal!
João César das Neves

Desejos de Natal (Confraria Aquiliniana)


Desejos de Natal (Nuno Rebocho)


No epicentro do sonho me concentro

com o sentimento sustentado

de quem parte por querer partir

mesmo não chegando a nenhum lado.


Não há aventura

sem loucura e sem ternura

- é a viagem que importa

o resto é letra morta.


Praia, Cabo Verde, Dezembro 2007


Nuno Rebocho


Com desejos de bom Natal e melhor 2008

Desejos de Natal


À Kernel e à equipa

Desejos de Natal


"Vaguear pelas ruas, durante o Natal, é muito especial . As montras, os sítios, as janelas e as casas já estão enfeitadas e as luzes piscam ao seu ritmo na noite prematura. O piscar das luzes lembra a Felicidade... que aparece sempre aos bocados, em momentos, intermitentes... aparece e vai... volta e desaparece como as luzes de Natal. Quando se apagam por segundos, esperamos que acendam e ficamos naquela expectativa ingénua de as ver acender outra vez... como os momentos de Felicidade. É assim a nossa Felicidade, uma gambiarra de vida em cadeia que pisca, que vai e vem, que acende e apaga, que ofusca e escurece, mas que quando está, é linda, é admirável e só podemos aproveitá-la sem limites..."

Que o vosso Natal seja um momento de especial Felicidade são os meus desejos e de toda a minha família.
J J J J J J FELIZ NATAL ! ! ! J J J J J J

Ao Carlos Almeida

2007-12-23

Desejos de Natal



Feliz Natal
Mário

AO MILAGRE DA NOITE

Aqui e agora, que noite canora,
que lúcida aurora, celeste coral!

Além, acolá (em Belém de Judá)
que estrela sonora,
abóbada fora,
designada não sei que estrada real?!

Que flauta aflora
o santo curral?

É d'ouro esta hora:
- É Noite de Natal!

Rodrigo Emílio

in, PEQUENO PRESÉPIO DE NATAL, p.159
Antília Editora
Ao Mário J. Casa Nova Martins e a todos

Desejos de Natal


Ao Pedro Aguiar Pinto