2007-12-22

Ilustrações do conto "Iruchi-Ko", de Celestino Gomes, por João Carlos, no blogue "presença"


Para ver as ilustrações, carregue aqui.

"Auto-estrada: percurso de um homem livre", de Júlio Allen Vidal, na Poetria (Porto)


Caros clientes e amigos, pedimos a vossa especial ATENÇÃO:

Vai ser lançado em breve o livro de poemas "Auto-estrada: percurso de um
homem livre", de Júlio Alberto Allen Vidal. Nascido em 1955, oriundo de uma
família da alta burguesia, começou a escrever em 1970, fez vindimas em
França, foi pastor de cabras na Galiza, servente de trolha e de pedreiro em
Luanda, vendeu livros, electrodomésticos e enciclopédias, para sobreviver
ao flagelo da toxico-dependência e sem qualquer apoio da família.

O mais importante nesta poesia foi o que o seu autor conseguiu fazer com ela
a nível pessoal: escapar a um destino ainda mais trágico, salvar o corpo de
uma morte anunciada e o espírito de um abismo sem retorno.

O que sentimos neste livro é antes de mais uma grande e pura autenticidade.
Mas também reflecte a sua força interior com que, ao longo de uma vida
marcada por muitos desesperos e solidões, e apoiado por uma inabalável fé
divina, soube preservar valores fundamentais como a capacidade de perdoar, o
respeito pelo próximo e o repúdio por todas as injustiças.

Pouco importa que alguns não lhe chamem poesia, se o Júlio Alberto Allen
Vidal a interpretou como tal e sobretudo dela se serviu para resistir à
auto-destruição, à dor e ao sofrimento.

Tem mais de cinquenta livros na prateleira e é o seu primeiro livro editado.
É o sonho de uma vida que a editora "Literatura em movimento" ajudou
corajosamente a realizar e a quem o autor agradece por "não esperar pela
minha morte para lhe dar actualidade".
Tem uma tiragem de 1000 exemplares, 195 páginas e custa 20,00 € dos quais
3,00 revertem para o autor.

Os livros encontram-se na Livraria Poetria, e se pretenderem adquiri-lo
poderão fazer desde já a sua reserva por esta via. Também poderemos enviá-lo
à cobrança para o endereço que nos for indicado.

Aproveitamos para formular os nossos sinceros votos de um Natal cheio de
felicidade e poesia e que 2008 seja o ano da concretização de todos os
vossos sonhos e projectos.


POETRIA

2007-12-20

"São Bernardo", com João César das Neves


Paróquia de Nossa Senhora do Carmo

e Centro Cultural de Lisboa Pedro Hispano

Os Grandes Santos
____________________________________

Dia 20 de Dezembro, Quinta-feira, 21.30

São Bernardo

com
João César das Neves

No Salão Paroquial

(esquina da Av. Maria Helena Vieira da Silva com a R. Raul Mesnier du Ponsard)
Metro da "Quinta das Conchas"

São Bernardo tem uma história impressionante e de enorme actualidade. Um jovem que descobriu que acreditar em Deus implicava um "tudo ou nada", entrou no Mosteiro de Cister com mais de 30 amigos e parentes que ele conseguiu atrair, tornou-se o grande impulsionador da difusão da Reforma de Cister, de onde vieram dezenas de Mosteiros (por ex. Alcobaça). Grande Místico, com meditações de uma profundidade ímpar, mas muito realista e consciente da importância duma organização social e política cristã, e da existência duma Europa chamada a defender a fé Católica.

Nestes dias antes do Natal conhecer este Santo é escolher a sua companhia para viver bem estes dias

:____________________

Ouviste, ó Virgem, que vais conceber e dar à luz um filho, não por obra de homem – tu ouviste – mas do Espírito Santo. O Anjo espera a tua resposta: já é tempo de voltar para Deus que o enviou. Também nós, Senhora, miseravelmente esmagados por uma sentença de condenação, esperamos a tua palavra de misericórdia.


Eis que te é oferecido o preço de nossa salvação; se consentes, seremos livres. Todos fomos criados pelo Verbo eterno, mas caímos na morte; com uma breve resposta tua seremos recriados e novamente chamados à vida.


Ó Virgem cheia de bondade, o pobre Adão, expulso do paraíso com a sua mísera descendência, implora a tua resposta; Abraão a implora, David a implora. Os outros patriarcas, teus antepassados, que também habitam a região da sombra da morte, suplicam esta resposta. O mundo inteiro a espera, prostrado a teus pés.


E não é sem razão, pois de tua palavra depende o alívio dos infelizes, a redenção dos cativos, a liberdade dos condenados, enfim, a salvação de todos os filhos de Adão, de toda a tua raça.


Apressa-te, ó Virgem, em dar a tua resposta; responde sem demora ao Anjo, ou melhor, responde ao Senhor por meio do Anjo. Pronuncia uma palavra e recebe a Palavra; profere a tua palavra e concebe a Palavra de Deus; diz uma palavra passageira e abraça a Palavra eterna.

Por que demoras? Por que hesitas? Crê, consente, recebe. Que tua humildade se encha de coragem, tua modéstia, de confiança. De modo algum convém que tua simplicidade virginal esqueça a prudência. Neste encontro único, porém, Virgem prudente, não temas a presunção. Pois, se tua modéstia no silêncio foi agradável a Deus, mais necessário é agora mostrar tua piedade pela palavra.


Abre, ó Virgem santa, o teu coração à fé, os teus lábios ao consentimento, o teu seio ao Criador. Eis que o Desejado de todas as nações bate à tua porta. Ah! Se tardas e Ele passa, começarás novamente a procurar com lágrimas Aquele que teu coração ama! Levanta-te, corre, abre. Levanta-te pela fé, corre pela entrega a Deus, abre pelo consentimento. Eis aqui, diz a Virgem, a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra (Lc 1,38).


(Das Homilias em louvor da Virgem Mãe, Hom. 4,8-9: Opera omnia, Edit. Cisterc. 4, [1966], 53-54)

São Bernardo
Abade e doutor da Igreja, séc. XII



--
Padre Duarte da Cunha
Igreja de Nossa Senhora do Carmo
Av. Maria Helena Vieira da Silva 12 Ig

Sim! Amen! Aleluia! Vem Senhor Jesus

2007-12-19

"Traços de distorção na poesia de José Régio", de António Manuel Ferreira, no blogue "presença"


Para ler o artigo, prima aqui.

de repente

de repente uma estrela vem-te à mão
e do fogo larvar só matéria purulenta
inundando o verde frasco a gaveta
afundada no fundo estômago. eis-te,
pouco mais que fungo pesando longe
fora do tempo como inexistência breve.

de repente nem de ti uma imagem
ou sopro injectado no fígado acossado.

2007-12-17

" A fraude - carta de Natal escolar", in "Público", de 16 de Dezembro de 2007

Sem muitas palavras, eis um texto deliciosamente claro, que subscrevo. Agradeço ao JCosta o lembrete.

O ensino não vai bem e dele não se esperam melhorias. Dos resultados, o melhor é dizer que, se, em geral, não são francamente baixos, é porque são confeccionados. Um pequeno grão de uma longa fraude. A mentira é o sintoma do sistema. E começa na cúpula.
Para chegar a esta conclusão, não tomei muitas notas nem delineei a estrutura de qualquer tratado: constata-se. Todos o sabem, embora não esteja nos livros. O espectáculo, bem montado, vincula-nos (quando não nos premeia) a todos, professores, pais, alunos: celebramos, é certo, o mais infeliz dos papéis, que é o de bobos estultos.
Actualmente, um estabelecimento de ensino - em geral, público - é um lugar desconfortável. Os docentes, à falta de melhor, destilam fel; os alunos, feita a ressalva devida, são rudes; os auxiliares vivem o ingrato dilema de vigiar professores e ser desautorizados por alunos. E o caos só não escandaliza porque é tacitamente aceite. Ninguém leva a mão à boca de espanto, pois já ninguém estranha.
Acresce que domínios curriculares como Formação Cívica (a bem dizer, uma obrigação de família), Estudo Acompanhado (na verdade, um pressuposto do estudo, que é nem mais do que verificar uma matéria) ou Área de Projecto (entenda-se trabalhos em grupo sob mote), cujo sentido talvez fosse possível admitir numa fase inicial da escolaridade (e, ainda assim, diluídos nas disciplinas vigentes de 1.º Ciclo - ler, escrever e contar continuam a ser objectivos - e tanto faz que se leia competências - essenciais), não passam de folclore dessa farsa a que se convencionou chamar reorganização curricular e gestão flexível do currículo. Não será preciso ter dois dedos de testa para perceber que as turmas de 1.º, 2.º e 3.º ciclos do Ensino Básico não comportam mais de 15 alunos (número arbitrário, mas razoável, a atender ao perfil do modelo actual de aluno).
A destituição do poder a que os professores têm sido sujeitos gerou um paradigma comportamental profundamente enraizado nos discentes, a transcender a ética humana: banalização do estudo, privando-o de importância e solenidade; incumprimento de tarefas; transformação da aprendizagem em divertimento ou entretenimento fútil; infantilização; boicote do sistema de ensino; desvalorização do esforço e sacrifício; iliteracia; desregramento, desrespeito e imbecilidade.
Recordo duas gratas figuras a quem ouvi chamar algumas coisas pelos nomes: Marçal Grilo e Lobo Antunes. Este último, se bem me lembro, aconselhava a que se tratasse os alunos como cães (entenda-se a metáfora, sem precipitações). Não acredito num ensino em que um professor não tenha, muitas vezes, de ser austero, e um aluno, não raro, de ser espartano. Por isso me espanta que o que dimana do Ministério da Educação contrarie tudo isto: erradicação da importância da Filosofia, rasura da literatura, despenalização das faltas, elaboração de planos redentores (Plano de Recuperação, de Acompanhamento, da Matemática, etc.), criação de inúmeras fraldas pedagógicas, elaboração de exames manifestamente caricaturais, invenção de "aulas" substitutas, e tanto mais. Os fautores do ministério não são incompetentes: são, antes, irreais. E irracionais.
Na sua nefasta acção, ajudam o aluno a ser esmoler e a pedinchar notas, convencem os encarregados de Educação a reivindicar o irrazoável e a encarnar um largo espectro de qualidades diabólicas e boçais e obrigam os professores a capitular na sua missão - se é ainda possível imaginar que o ensino assim tenha sido alguma vez considerado.
Nem tudo é deste modo, mas muito do que sabemos é-o. Vemos, ouvimos e lemos: não podemos ignorar. Contudo, este silêncio é de ouro, e nem sequer os sindicatos perturbam as boas consciências (as greves de sexta sucedem-se como a expressão de um mundo sinistramente repetitivo). (...) Não nos rebelando contra o sistema - o que exigiria, no mínimo, uma paralisação de todos os sectores de ensino por tempo indeterminado -, só nos resta sermos as chocas da arena morna em que pactuamos. E a haver desculpa, só a de não darmos por nada.
Para coroar o fracasso deste modelo de ensino, a recente alteração no estatuto, que prevê a "titularidade" dos docentes, e a proposta de modificação na gestão, que antevê a figura do "director", têm um duplo imperativo: fazer dos professores galos de combate e amplificar a divisão no seio da docência. Nada mais hábil, vindo da parte da classe política, a quem só resta limpar as mãos, já lavadas por inúmeros Pilatos. O que se adivinha, contudo, não se revela muito animador para o futuro da Educação em Portugal.
A actual ministra, entretanto, balanceia-se entre uma rigorosa verve e uma logorreia falsa. Não é dela a culpa: muitos outros vieram antes e indicaram-lhe o caminho. Ela só teve de caminhar.
Nota - Ficou a jeito esta minha cabeça. Se ela rolasse, não seria sinal de ser incómoda. Seria antes a prova de que o Big Brother não é ficção literária.
António Jacinto Pascoal (professor)
Escola Secundária Fernando Assis Pacheco, Lisboa

"Planeta Terror" de Robert Rodriguez


2007-12-16

"Saramago - Eu-próprio, o Outro?" de Francisco Maciel Silveira

Eis o "Suplemento 1" da revista forma breve. A coordenação da colecção é de António Manuel Ferreira, Professor Associado com Agregação na Universidade de Aveiro, e o presente título, que inaugura a colecção, é da responsabilidade de Francisco Manuel Silveira, Professor Catedrático de Literatura Portuguesa na Universidade de São Paulo.

2007-12-15

"A outra arca de Pessoa", por Luís Miguel Queirós ("Público")






Agradecimentos ao Carlos Monteiro, por pdefar comigo...

2007-12-13

Representações de Portugal na Literatura Portuguesa (7 décadas de história)



“A imagem era um enigma que sorria”
(Fiama Hasse Pais Brandão, “Peregrinação e catábase”, in Obra Breve)


Recriando a literatura mundos através da modelização de uma semiótica denotati-va, isto é, de uma língua natural, não espanta que esse trabalho sobre o sistema modelizante primário estruture as “coisas do mundo circundante” (Miguel Serras Pereira), instalando uma particular ligação entre nós e o fora-de-nós. A palavra literária é, assim, imagem, representação e “aparição”.
Recuperando os ecos do inframundo e a conexão com a ave da poesia, a editora Averno acaba de editar (Agosto de 2007) Novas Memórias de Ansiães, um pequeno e arrebatador objecto literário de A. M. Pires Cabral, Manuel de Freitas, Vítor Nogueira e Rui Pires Cabral, complementado com magníficas ilustrações de Luís Manuel Gaspar. Antes do texto, é uma desfilada de imagens que se desvela e uma história acontecida que mais ou menos assim se conta, por ter havido uma antiga vila de Ansiães, sede de concelho e com foral desde 1075, no alto de uma colina plantada, perto da aldeia de Lavadeira, que hoje lamenta, na frieza das suas ruínas, a perda da glória, depois de ter visto confirmado o estatuto de vila, por alvará de D. João V, datado de 6 de Abril de 1734, e assistido, já no século XIX, à deslocalização da sede concelhia de Ansiães para Carrazeda, abrindo-se o lugar a uma letárgica epidemia de silêncio que a literatura aborda poliedricamente, reflectindo na sua pluricodificação uma “informação” altamente concentrada e privilegiada, revelando-se, no caso, o vigor das “línguas literárias” como fundante “instrumento de cognição do homem, da sociedade e do mundo” (Aguiar e Silva). Acontece neste caso e em todas as lacerações.
Assim, o poema “No castelo de Ansiães” de A. M. Pires Cabral, ao defender que “a história não é uma serpente / que se refaz em cada primavera, / mas quando muito morde a própria cauda”, revela um velho Portugal “dissolvido no ácido dos dias” e escondido “por silvas e aveia brava”. Conformado e anticonformista, a um tempo, diz o Poeta que os horizontes “permanecem os mesmos” e, em fecho vital e actuante sobre o leitor, lança a interrogação que importa a respeito do país que temos: “porquê esta água insubmissa / que devagar me molha o reverso dos olhos?”
Em linha paralela segue Manuel de Freitas, em “Ruínas de Ansiães e Carrazeda”, resultando do cotejo poético uma importante conclusão medial:

Mas são esses – os de Carrazeda, a nova –
os túmulos vivos que nos restam:
cafés apinhados, lojas que se esqueceram de fechar,
a vasta e inacreditável quinquilharia que
faz da Papelaria Horizonte um exemplo de sucesso.
Penhores, dispersos, de algo que nunca existiu.

Um país, garantem-nos. Mas Ansiães, a velha,
nasceu antes da nacionalidade, embora
a tenha acompanhado o melhor que pôde.
Parecem demasiado perfeitas, estas ruínas,
demasiado diferentes daquela que será um dia
a nossa.

Inferidos os dois “diferentes” países, há um belo desencanto poético nisso, porque as “cidades, já se sabe, também morrem”, como, afinal, jaz um Portugal “enkitschado” e acedioso, longe mesmo da histórica perfeição inscrita nas ruínas.
Vítor Nogueira, no poema “Comércio tradicional”, festeja a posse da velha Ansiães, permitindo-se o óbvio translato metonímico de um Portugal desapossado, desesperadamente em queda: “A tarde / em que, lutando com abelhas, tomámos posse / do improvável Castelo de Ansiães.”
Por último, deixam-nos estas Novas Memórias de Ansiães com uma composição poética de Rui Pires Cabral, intitulada “Outro castelo”. Nela, o escritor expressa a dor da revisitação e espanta-se “que aquela beleza inteira / pudesse ter persistido / na sua alterada solidão”. Tal inquietação pela permanência e pela mesmidade dimana da desordem e do tumulto em que o sujeito caiu, longe que o meio o pôs da segurança pacificadora. Resta agora o “espectro de outro castelo / ao qual não é possível regressar.”
Em 2006, na contiguidade de uma poesia acontecendo “ao correr do tempo todo”, Fiama Hasse Pais Brandão, num dos vários inéditos apostos a Obra Breve, de título “Foz do Tejo, um País” e incluído na divisória “as Poéticas”, alude ao carácter marítimo de “um país que fala dentro da fronte, / olhando as naus, navios, barcos pesqueiros / e os trilhos das famintas aves pintoras”, criando no explicit poemático, em estrofe de fulminante beleza, uma das mais certeiras representações literárias de Portugal:
É uma nação única de memórias do mar,
que não responde senão em nós. Glórias, misérias,
que guardámos por detrás do olhar lírico
e da língua, a silabar dentro da boca.
Nunca chamámos o mar nem ele nos chama
mas está-nos no plano como estigma.


Como o afirma Gastão Cruz a Jorge Maffei, Rua de Portugal, obra do poeta algarvio publicada em 2002, é uma colectânea poética na qual o escritor tentou “encontrar uma espécie de disciplina realista”, tentando “fazer poemas sobre coisas, sobre lugares, coisas mais concretas, menos abstractas”. Aumentando avidamente o tempo, lendo os lábios “o texto acendido”, eis que “Já não existe a casa / vinte o / número / da trémula muralha térrea / defensora / duma pátria começando / quase sem luz”. Do ninho do poeta à pátria do artista é a mudança e a decepção pela fantástica perda que tomam o espaço biográfico individual e o fazem analogia de um país agónico, soçobrante.
Integrando realidades culturais e históricas planetárias através de incisões emocionais muito próprias, António Franco Alexandre, ao manifestar-se assim sem prioridade portuguesa, não descura tal situação, permitindo-se algumas “evidências” impressionantes, como a que acontece no poema 17 das “Terceiras Moradas”, um inédito de 1994, que viria a fazer parte de Poemas (1996): “somos um país pequeno, andamos / amarfanhados com a dimensão da boca, aonde não cabe / um peixe.” Já antes, em Oásis de 1992, deixara Franco Alexandre uma singularidade apreciativa sobre a sua terra, imagem do seu país: “para que a voz se deite no lençol e olhando // veja a pequena terra em que nasci / o sossego das grandes chuvas desabando no pátio e o respirar da casa / o rosto de minha mãe”.
Em 1982, faz publicar Mário Cláudio Terra Sigillata, livro poético fabuloso, com um poema de abertura, de título “Primeiras Escavações”, com uma alusão inicial ao país rural que é antológica imagem de um certo Portugal:
Um zumbido, este país te enlouquece.
Penetras pelos muros de pedra solta, atravessas a
aldeia de casas quase todas
brancas, uma só vermelha,
extensíssima.
As velhas apartam as espigas, com duas pombas a
seus pés. As mães fazem
tinir as agulhas da malha ra-
pidíssima. As crianças cor-
rem trigueiras e em gritos,
minúsculas bruxas.

Aliás, a breve admonição logo subsequente (“Descobrir esta terra, descrevê-la, será usar a cama de / novo”) mostra que as imagens irrompidas da forja criadora são iluminações sobre os “sinais da terra”. Escavando, o Poeta inscreve nestas “Primeiras Escavações” lápide não negligenciável sobre o Porto, um certo Porto com uma auréola de “camélias maceradas”, terno e espectral, pertença de uma “sigillata terra” decifrada pelo peso das “nossas rugas”.
Espantosamente perto da perfeição, também Al Berto (e recupero o atrás dito sobre Fiama), uns anos antes, em 1977, deixa no “atrium” de Á Procura do Vento num Jardim d’ Agosto uma interessante nota do dissídio íntimo vivenciado pelo sujeito poético associada a uma certa imagem do país construída por traço unitivo marítimo: “hoje abri novamente a janela onde sempre me debruço e escrevi: aqui está a imobilidade aquática do meu país, o oceânico abismo com cheiro a cidades por sonhar. Invade-me a vontade de permanecer aqui, para sempre, à janela, ou partir com as marés e jamais voltar…”. Sem euforia no caso, antes se notando o oposto, uma nota mais alarmada, desesperada mesmo, se colhe em Uma Existência de Papel, de 1985, facilmente se intuindo haver um país adverso para os poetas: “escuta / a partir de hoje abandono-te para sempre / ao silêncio de quem escreve versos / em Portugal / tens trinta e sete anos como Rimbaud / talvez seja tempo de começares a morrer”.
Eugénio de Andrade, ao publicar, em 1974, Escrita da Terra, trouxe para o palco da literatura uma colectânea poética onde pontuam inúmeros espaços de eleição do poeta, com claras ligações ao país espacejado – títulos como “Rua Duque de Palmela, 111”, “Monfortinho”, “Peniche” (“há só vento no meu país”), “Tavira 1944”, “Jardim de S. Lázaro”, “Castelo Branco”, “Cabedelo”, “Dunas de Fão”, “Foz do Douro”, “Sul”, “Povoa de Atalaia”, “Campos de Atalaia”, “Lisboa”, “Sesimbra”, “Arredores de Beja”, “Alentejo”, “Moledo do Minho”, “Amanhecer em Estremoz”, “Nordeste”, “Vale do Ceira”, “Fão”, “No Cemitério da Lapa”, “Os Girassóis do Alvor” e “Cacela” permitem uma construção subjectiva de Portugal e a leitura integral dos poemas, aqui desnecessária, faculta encontro com o país reflectido por um “olhar trabalhado pelo lume”. Ainda nesse mesmo ano, vem a lume Homenagens e Outros Epitáfios, livro em que Eugénio de Andrade celebra um conjunto de figuras gradas da cultura nacional e internacional. Não se exime aí o poeta, na composição “A Jorge de Sena, no chão da Califórnia”, a lançar curta e contundente seta sobre a pequenez moral do país, bem diferente da representação do Portugal simples de “A Pequena Pátria” de Os Lugares do Lume (1998): “Escreveste como o sangue canta: / de-ses-pe-ra-da-men-te, / e mostraste como não é fácil / neste país exíguo ser-se breve.” Quase duas décadas depois, em “Mulheres de Preto” de Rente ao Dizer (1992), fixará Eugénio de Andrade uma interessantíssima representação da mulher rural portuguesa, que é ainda claro emblema de um certo país resistente e empírico:
Há muito que são velhas, vestidas
de preto até à alma.
Contra o muro
defendem-se do sol de pedra;
ao lume
furtam-se ao frio do mundo.
Ainda têm nome? Ninguém
pergunta, ninguém responde.
A língua, pedra também.

Acresce ainda que Eugénio de Andrade é um dos mais laboriosos conformadores da canónica representação literária do país ao elaborar competentes antologias sobre espaços territoriais assinalados. Lembrem-se, por exemplo, títulos como Daqui Houve Nome Portugal (1968), Memórias de Alegria (1971), Alentejo não tem Sombra (1982) A Cidade de Garrett (1993) ou Alentejo (1993).
Ruy Belo, em Boca Bilingue (1966), inicia a titulação “Portugal Sacroprofano”, que se continua em Homem de Palavra[s] (1970), permitindo-nos representações do Mercado dos Santos, em Nisa, e de Vila do Conde, por exemplo, bem como importantes confidências poéticas sobre a percepção do tempo (“O tempo é outro tempo nas terras pequenas / e quem de si mesmo afinal foge encontra aqui o coração em festa”) e directas denúncias sobre o estado da nação (“Neste país sem olhos e sem boca // Neste país do espaço raso do silêncio e solidão / solidão da vidraça solidão da chuva” e “O lugar onde o coração se esconde”). Esperançado, no entanto, projecta-se o poeta para o futuro, em “O Portugal futuro”, dizendo o sujeito poético que “O Portugal futuro é um país / aonde o puro pássaro é possível”. Ou então, em exílio produtivo, pode o escritor, como o vai dizendo em País Possível (1973), fugir ao desgaste do país castrador através do arejamento espacial (“Enche-se o peito de ar noutros países / onde fora de nós em nós buscamos Portugal / longe do desgastante dia-a-dia português”), não denegando mesmo um certo e gratulatório desenraizamento longe da Heimat, até porque o poeta assume em “Peregrino e hóspede sobre a terra”: “Meu único país é sempre onde estou bem // Sou donde estou e só sou português / por ter em portugal olhado a luz pela primeira vez”. Mais tarde, em Toda a Terra (1976), exclamará um desalentado poeta: “Aqui neste país nesta rosa divina que me elimina pétala a pétala / ninguém já me julga eu já sou somente quem fui / e sou este país onde eu era já antes mesmo de ser”.
Há, na mesma década de 60 do século XX, uma Feira Cabisbaixa (1965) de Alexandre O’Neill que é não apenas um grande conseguimento poético como é, em simultâneo, um objecto artístico denunciante e multímodo de imagens e sugestões sobre o Portugal de então. Mas, pensando melhor, esta “feira cabisbaixa” não cessa de acabar. Poemas como “Portugal” (“Ó Portugal, se fosses só três sílabas, / linda vista para o mar, // se fosses só o sal, o sol, o sul, // Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo, / golpe até ao osso, fome sem entretém, / perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes, / rocim engraxado, / feira cabisbaixa, / meu remorso, / meu remorso de todos nós”), “O País Relativo” (“País por conhecer, por escrever, por ler… // País do cibinho mastigado / devagarinho. // País amador do rapapé, / do meter butes e do parlapié, / que se espaneja, cobertas as miúdas, / e as desleixa quando já ventrudas. // País pobrete e nada alegrete, baú fechado com um aloquete”) ou “Made in Portugal” (“Peixe sem solução, / máquina a parar, / circular e vítrea aflição / a olhar.”) são criações que riem, “num Portugal a entristecer que era o do Estado Novo”, como o diz Maria Antónia Oliveira.
Um pouco antes, o mesmo O’ Neill, por 1958, no livro No Reino da Dinamarca, já se despedira da pátria no poema “Um Adeus Português”, vituperando a falta de futuro e o incrível pântano que era o país: “à roda a que apodreço / apodrecemos / a esta pata ensanguentada que vacila / quase medita / e avança mugindo pelo túnel / de uma velha dor // esta roda de náusea em que giramos / até à idiotia / esta pequena morte / e o seu minucioso e porco ritual / esta nossa razão absurda de ser”.
Voltando a 1965, lembre-se a reconhecida Praça da Canção de Manuel Alegre, onde se colhem, por exemplo, uns “ventos tristes” e um “país amado”, bem como o desânimo pelo não achamento do país (“só mau país não achei”). Um outro poema do mesmo livro, “País de Abril”, permite mesmo uma representação de um país devastado e cinzento: “ – minha pátria vestida de viúva / entre as grades e a chuva das cidades”, “- minha pátria perfil de mágoas e tabernas”, “- minha pátria bordada de farrapos / capa de trapos remendada a verdes folhas”, “- minha pátria a rir como quem chora / (A festa da tristeza é tudo o que lhe resta)”… Um pouco à frente, o poeta falará de “uma pátria parada / à beira de um rio triste”. Em O Canto e as Armas, de 1967, Alegre mostrará ainda um país triste (“Minha pátria sem nada / sem nada / despejada nas ruas de Paris”), um “país de lágrimas e aldeias”, “pátria sem pão / de país em país”. Definindo poeticamente o país no poema “Portugal”, em Chegar Aqui de 1984, Manuel Alegre, sem atingir possivelmente a fulgurância de Fiama e Al Berto, dá uma imagem afim ao dizer: “O teu destino é nunca haver chegada / O teu destino é outra índia e outro mar / E a nova nau lusíada apontada / A um país que só há no verbo achar”.
É o artefacto literário um específico objecto que, fundindo em si, para lá da óbvia dimensão estética, vertentes socioculturais e históricas, facilmente dissemina ilusões e imagens que se constituem em detalhes importantes, de acordo com a subjectividade criativa. É um esquecidíssimo José de Esaguy, nos seus Versos de 1953, quem vem a manifestar, em reacção amorosa e referindo-se à nossa capital, um dos lugares desalentados mais fulgurantes da literatura portuguesa da segunda metade do século XX: “Lisboa / … / Já não me atrai / E não me chama”.
Em 1947, publica a Seara Nova o título Ossadas de Afonso Duarte, aí se recolhendo poemas publicadas em revistas entre as décadas de 20 e de 40 do século XX. E é precisamente do poema “Estepa”, que se levanta um grito, dentro de uma tópica desolada que percorre muitas das imagens do país criadas pelos autores portugueses, que diz: “Desterro dos desterrados, / Meu coração é estepa delicada: / E meu cabelo neva / Sem Pátria, minha amada, / Minha Amada.” Adensando mesmo este desolamento, a “Canção da Vida” esclarece “Ah, meu eterno Portugal, meu peito, / Esta é a dor, sim a dor, de que sou feito.”, para logo à frente surgir, em tirada final, um questionamento directo ao coração: “Toda a minha mensagem, Pátria, foi contigo! / E, na terra da Pátria, sem vislumbre de erro, / Onde está, pergunto, o ancoradouro, / O meu porto de abrigo?” Resta ao Poeta uma outra via mais simbólica, que é, como acontece em “Epigrama”, identificar-se com o mar: “Há só mar no meu País. / Não há terra que dê pão: // Há só mar no meu País: / E é ele quem diz, / É ele quem sou.”
Os dez livros de poesia do “Novo Cancioneiro”, publicados entre 1940 e 1944, fornecem fulgurantes retratos de um país sofredor e estéril: lembro o poema 21 de Terra (1941) de Fernando Namora (“António, é preciso partir! / o moleiro não fia, / a terra é estéril, / a arca vazia, / o gado minga e se fina! (…) Árida, árida a vida! / António, é preciso partir! / António partiu. / E em casa, ficou tudo medonho, desamparado, vazio.”); lembro um trecho de um dos “Poemas do Cão Danado” dos Poemas (1941) de Mário Dionísio (“Eis-nos boiando, aflitos, / só as narinas e os braços fora de água, / prestes a sucumbir”); e lembro, por último, pequena parte do “Poema do Dóri” de Os Poemas de Álvaro Feijó ( “Neste país de luz e Sol, / o nevoeiro anda cá dentro / e não nos deixa olhar…”).
Não deixa de ser interessante notar que o último texto da derradeira presença, de Fevereiro de 1940, encerre a magnífica publicação com uma polémica entre Manuel Anselmo e Adolfo Casais Monteiro, afinal, acabadas imagens de diferentes representações do país digladiando-se.
“Uma poucas de palavras”, como diria Tomaz de Figueiredo, para dizer que esta abordagem é apenas seminal: de fora fica a poesia combatente de Rodrigo Emílio (“Era este um lugar / de raiz duradoura. / Mas soou a hora / de deitar país / fora…”), a poética reconfigurativa do país de José Valle de Figueiredo (“Portugal é grande, / (…) Cai, co´a alma dorida, / mas cresce e avança, sentida, / a perdida esperança.”) e toda a fecunda prosa portuguesa, não fosse eu aqui lembrar a construção de um país racista por alguns tresleitores de Vergílio Ferreira (bem como de uma pátria submersa), o país gregário de José Saramago ou o fim da utopia revolucionária político-social e a instauração da antiutopia, caracterizada pelo "desencantamento do mundo e pela desrazão", no Esplendor de Portugal de António Lobo Antunes.
Em artigo publicado na revista Ultramar, em 1941, sob o título “Uma mitologia portuguesa”, Pedro de Moura e Sá, ao referir-se mais à literatura do passado, conclui: “O homem buscou sempre nos livros uma representação, digamos, mitológica da vida, e era como criadora de mitos que a literatura atingia maior grandeza. Dos homens extraía-se qualquer coisa de essencial, que dava aos heróis dos livros um aspecto característico e exemplar.”
Poderemos nós, décadas volvidas, desejar outro tempo e melhor lugar?
(Variações, poucas, sobre a comunicação apresentada às "10ªs Jornadas Históricas de Seia" de Novembro último)


2007-12-10

Veinte ilustradores españoles (1898 - 1936)





Catálogo de la exposición, en la que se presenta un conjunto de piezas de la que es calificada como edad de oro de la ilustración gráfica en nuestro país.


Índice Introducción Apel.les Mestres Ramón Casas Méndez Bringa Sancha Gaspar Camps Medina Vera Apa Máximo Ramos Opisso Junceda Bartolozzi Echea Penagos K-Hito Ribas Lola Anglada Sáenz de Tejada Freixas Emilio Ferrer Bosch


Listado de obras expuestas no reproducidas en el catálogo
Edita: Ministerio de Educación. Cultura y Deportes 2004 Encuadernación en rústica 26x21 cm 200 páginas
25.0 euros

2007-12-08

if

como no poema de kipling, amiga, serás capaz
de olhar em volta crendo em ti sem desmesura
não perdendo a calma que te assiste. o olhar se
nasce sem dominação racional ou impostura é
brilho de lei que estilhaça vulgar usura, falsos
raios declinando-te nos dedos com que crias.
secreta alma, se apelo ouves, sê assim pacífica,
que demolindo gelo ouvirás voz que persiste,
indómita vontade que não cede outro sorriso.
se assim és, amiga, descansa nestas palavras.

2007-12-04

"Ser Cristão na Universidade de Hoje - O Caminho de Xavier", por Jesús Tanco Lerga



Conferência:

SER CRISTÃO NA UNIVERSIDADE DE HOJE
– O Caminho de Xavier

por Jesús Tanco Lerga
Professor da Universidade de Navarra

Sexta-feira, dia 7 de Dezembro,às 14H30
Universidade Católica
Campus Palma de Cima,
no bar de Gestão

Organização

Capelania da Universidade Católica Portuguesa

Associação FIDES ET CVLTVRA

2007-12-01

Cine-Teatro S. Pedro

"Grândolas", hoje, no Teatro Viriato

1 de dezembro



é dezembro e azul me faço
dentro do clarão e do ouro
do dia que traz a liberdade
e os ombros rasgados vivos
sangrando dentro da memória.