2007-11-06

Fractura e artifício na carreira docente

Artificial, desnecessário e seco, eis que um golpe é desferido sobre os professores, dividindo-os e acantonando-os em lugares sem prestígio: do ano passado para este, quem olha não vê que a eventual investidura resulte de importantes actos validativos, antes percebendo que tudo é mera soma de pontuações arbitrárias que não coonestam, sequer, os preceitos regulamentares da experiência e da excelência.
Pela primeira vez, fez-se tábua rasa do passado dos professores. Ninguém no Ministério quis saber de médias de licenciatura ou de profissionalização, de escalões ou de tempo de serviço, de currículos ou de valorizações pessoais. Em época de crise nas instituições de ensino de que os políticos também têm brotado, nomeadamente nas tidas por “facilitadoras”, não deveria o Ministério, se queria fracturar, ter criado comissões científicas que avaliassem com rigor o trajecto dos docentes?
A mais nobre missão do professor é permanecer nas salas de aula. Respeitando-se todas as outras missões dentro e fora das escolas, nunca seria justo castigar quem mais lições deu e quem menos ganhou: não podemos esquecer, sem qualquer acrimónia, que os cargos, alguns deles, implicam menos aulas e mais dinheiro.
Esta cisão artificial e desnecessária tem muito para contar: desde professores de 10º escalão, com currículos valiosos, a serem preteridos por colegas de escalões inferiores, com menos pontos e dentro das mesmas escolas até professores destacados em estabelecimentos a suplantarem docentes dos quadros são aqui mero exemplo. Mas não só: a perversão das regras ministeriais, mostrativa de desconhecimento sobre o funcionamento efectivo das escolas, inscreveu (pelo menos, até ver) que a titularidade estava dependente de mais ou menos cargos desempenhados, como se uma direcção de turma, uma assessoria ou uma passagem pela biblioteca não fossem muitas vezes fruto da necessidade de preencher um horário. Em rigor, não há nisto rigor nenhum e nem um professor se mede aos pontos.
Em texto codicioso há pouco publicado no “Público”, Maria Filomena Mónica, olhando para dentro do Ministério e para parte dele claramente identificada, alerta para a destruição causada por todos aqueles que “não têm uma ideia do que sejam as humanidades”. Bastaria conhecer um conto de António Botto para que a fractura não existisse assim, até porque ela não é verdadeira, nem benevolente e nem sequer necessária.
Artificial, desnecessário e seco, o golpe fere ainda sobre um mesmo corpo. Nunca é tarde para chegar à verdade. Deve quem pode dar outros passos…
[RCI, nº 155, ano 21, Outubro 2007]

1 comentário:

Jacinto Figueiredo disse...

Já faltou mais... para voltar atrás, salvo seja.