2007-06-03

"Letras Aquilinianas"


Há já meses, "Ave-Azul" destacava a mais do que louvável ideia da Confraria Aquiliniana de promover a edição de uma publicação, de feição pedagógico-didáctica, que divulgasse e perenizasse a obra do Mestre da Nave.
O dia chegou. Faz uma semana que as "Letras Aquilinianas", dirigidas por João Silva de Sousa, foram apresentadas na Lapa. As 220 páginas da publicação, se, por um lado, derivam para um academismo não esperado, por outro, desvelam pequenos e não menos interessantes aspectos que fazem desta publicação, órgão oficial da "Confraria Aquiliniana", um projecto promissor que pode ser fruído, no seu conjunto, por público diverso.

Monárquico e subscritor da petição contra a trasladação de Aquilino, nada me move contra Aquilino, escritor que admiro e, em não poucos momentos, venero. Há, no meio, razões de ideário e a tragédia no Terreiro do Paço. Sempre me encontrei com Aquilino, dele discordando em muito aspectos, lembrando, em voo de mais de um quartel, a mostração oral do estranho sortilégio de um dos mais belos "incipit" da literatura portuguesa a mim chegada pela especiosa voz do Dr. e Padre Custódio Lopes dos Santos, que aproveito para homenagear:

"O vento, que é um pincha-no-crivo devasso e curioso, penetrou na camarata, bufou, deu um abanão. O estarim parecia deserto. Não senhor, alguém dormia meio encurvado , cabeça para fora no seu decúbito, que se agitou molemente. Volveu a soprar. Buliu-lhe a veste, deu mesmo um estalido em sua tela semi-rígida e imobilizou-se. Outro sopro. Desta vez o pinhão, como um pretinho da Guiné de tanga a esvoaçar, liberou-se da cela e pulou no espaço. Que pára-quedista!"
Sim, vamos ler Aquilino. Tirá-lo do "Canto dos Escritores", em que repousa, é outra coisa. À sombra de um nome, haverá sempre anões em bicos-de-pés. O evento não me incomoda, emociona-me. Quem quer tirar Aquilino da companhia dos escritores?

______________________________________________
Revista “Letras Aquilinianas” apresentada em Sernancelhe
Texto de Ana Filipa Rodrigues
A confraria Aquiliniana apresentou, durante a IV Feira Aquiliniana, em Sernancelhe, o primeiro número da revista “Letras Aquilinianas”.

O novo órgão de informação surgiu, segundo a Nota Editorial do director da revista, João Silva de Sousa, “com o propósito de fazer justiça a um dos maiores autores de sempre da Literatura Portuguesa: Aquilino Ribeiro”. Para o regedor da confraria, Jerónimo Costa, a revista irá permitir novamente a “elevação da figura do escritor no panorama literário”“Letras Aquilinianas” servirá também para “dar a conhecer um pouco da confraria, o que está a fazer e pretende vir a fazer”.

O primeiro número da revista é composto por 25 artigos, redigidos por colaboradores de diversas áreas que se “interessam pela obra de Aquilino Ribeiro” e que com “a sua opinião irão contribuir para iludir a problemática em torno do esquecimento do escritor”.

A publicação, para já, tem uma periocidade anual, mas a confraria está a equacionar a hipótese de a revista ser editada semestralmente. “O número de artigos que recebemos superou as nossas expectativas. Era suposto a revista ter cerca de 100 páginas, mas o primeiro número foi publicado com 200 páginas. Neste momento, temos artigos que fariam um novo volume”, refere Jerónimo Costa.

“Letras Aquilinianas” irá “complementar” e não competir com outras iniciativas ligadas ao escritor. O regedor da confraria afirma que tem “admiração” pelos Cadernos Aquilinianos, trabalho que tem vindo a ser publicado desde 1992 pelo Centro de Estudos Aquilino Ribeiro, sedeado no pólo de Viseu, da Universidade Católica. Porém, Jerónimo Costa reconhece que “a obra de Aquilino Ribeiro é muito rica e tem matéria que ainda não foi explorada”.

Os 500 exemplares serão distribuídos pelos colaboradores, sócios, elementos da confraria, pela rede de bibliotecas e serão entregues nas escolas e Câmaras Municipais associadas.

A confraria foi criada a 13 de Setembro de 2004, tendo no ano seguinte enviado um pedido ao Presidente da Assembleia de República, Jaime Gama, para que se efectuasse a transladação dos restos mortais do escritor para o Panteão Nacional. O pedido foi aceite e, em princípio, a transladação irá decorrer em Setembro de 2007. "
[ed. 272 do Jornal do Centro, 01 de Junho de 2007 ]
_______
___________________________________________________

Aquilino e os regicidas



Após a aprovação no Parlamento do projecto que concede honras de Panteão Nacional a Aquilino Ribeiro, foi posta a circular uma petição com vista a contrariar tal deliberação. No documento, subscrito pelo designado Fórum Democracia Real, discorda-se da trasladação dos seus restos mortais, por, alegadamente, o escritor ter participado na conspiração para o assassinato do rei D. Carlos e de seu filho Luís Filipe. Os signatários admitem, contudo, nunca se ter provado “que o romancista tenha estado no local a 1 de Fevereiro de 1908.”

Vinda de quem vem, não se estranha a rejeição das honras a alguém supostamente implicado em acções de conjura revolucionária. Descontado o excesso de zelo, tendencialmente faccioso, respeite-se a seriedade da investigação histórica. E neste campo, as fronteiras ideológicas não devem afastar os investigadores.

Não é coerente a colagem do epíteto de “terrorista” a quem foi perseguido pelo regime monárquico, por se ter batido frontalmente pelos direitos do povo e pela liberdade de expressão. No início do séc. XX, o discurso pró-republicano identificava-se com a defesa desses interesses. Em muitas das crónicas publicadas na altura (vide Cadernos Aquilinianos), o escritor defende com convicção a emancipação popular através da formação de uma opinião pública esclarecida e critica de forma demolidora o regime que então agonizava. Na conjuntura deste período (1906-1908), abundavam os motivos de contradição interna do regime e a crise do liberalismo monárquico era acentuada pela ditadura franquista. De resto, o contributo de publicista dado pela efervescente militância de Aquilino não deverá ser esquecido nas comemorações do centenário da implantação da República.

Também não é coerente a argumentação que associa o seu encarceramento com a ligação, muito estreita de facto, a Alfredo Costa e Manuel Buíça, na altura do assassinato. A prisão do escritor ocorre dois meses e meio antes do regicídio, quando se engendravam bombas artesanais no seu quarto, a pedido de Gonçalves Lopes, vítima da explosão. O seu envolvimento em acções destinadas a abalar o poder institucional manifestava-se sobretudo na escrita militante de escândalo, visando a subversão política. Basta ler os corajosos artigos então publicados (por exemplo n’A Vanguarda e no semanário republicano A Beira, de Viseu) e os folhetins A Filha do Jardineiro e Os Bandidos da Serra da Gardunha. As reacções de sarcástica ironia e de incontida ira derivam das circunstâncias de agudização política. Os próprios regeneradores e progressistas reagem contra o rei D. Carlos face ao apoio por este conferido ao governo franquista. João Franco seria assim o alvo a abater e o grande culpado do regicídio, sendo este um acto isolado de dois exaltados, visto os republicanos não estarem preparados para responder à crise provocada pelo desaparecimento do rei. Tem interesse para a história do princípio do século cruzar os documentos existentes (outros terão desaparecido) com as revelações pessoais do livro Um Escritor Confessa-se e o registo ficcional de Lápides Partidas.

Admita-se algum excesso de militância revolucionária de Aquilino. Mas homens de acção foram também os militares de Abril que, felizmente sem mancha de sangue, tenazmente se opuseram ao Estado Novo e possibilitaram a instauração do regime democrático. Ora, usar a arma da escrita para lutar pelas suas convicções não é forma de terrorismo; é, até prova em contrário, lição de cidadania. Essa lição e o lugar cimeiro da sua obra literária conferem a Aquilino as honras de Estado que em breve lhe serão prestadas.
[ed. 272 do Jornal do Centro, 01 de Junho de 2007]

__________________________________________________________

PETIÇÃO "TERRORISMO NÃO DEVE TER HONRAS DE ESTADO"

To: Presidente da Assembleia da República

A Sua Excelência o
Senhor Presidente
da Assembleia da República

Excelência,

Verificado o cumprimento dos pressupostos legais para o exercício do direito de petição colectiva, no caso uma representação, vêm todos os signatários manifestar a sua discordância com a trasladação dos restos mortais de Aquilino Ribeiro para o Panteão Nacional, por deliberação da Assembleia a que Vossa Excelência preside.
Mais vêm manifestar esta discordância de uma forma determinada e expectante. Determinada e expectante, Senhor Presidente, porque a Assembleia da República, independentemente de considerações de natureza cultural, deve atender ao facto, historicamente provado, de Aquilino Ribeiro ter participado na conspiração para o assassinato do Chefe de Estado de Portugal, em 1 de Fevereiro de 1908, Sua Majestade El-Rei D. Carlos, e Seu Filho, Sua Alteza Real o Príncipe Dom Luis Filipe.
A contradição, Excelência, parece-nos díficil de ultrapassar: considerar herói nacional, propor como exemplo às gerações vindouras, alguém que participou na preparação de atentados terroristas e que foi preso por isso mesmo; alguém cujo processo por participação em atentados bombistas foi levado a tribunal em 13 de Fevereiro de 1908, juntamente com mais dois arguidos; alguém que depois veio branquear o seu passado e sacudir as mãos à varanda de Pilatos, confunde-nos o espírito de portugueses e de ocidentais, defensores da democracia e dos direitos humanos. Com esta trasladação, a instauração da República fica equiparada ao acto do regícidio!
Mas, Senhor Presidente, Herói e Assassino são antónimos. A sua conjunção é uma impossibilidade ética. E, se não se confirmar a impossiblidade legal daí decorrente, são um conceito apenas: um equívoco no coração da própria República! Vossa Excelência, personalidade de elevadíssima idoneidade e dimensão humana, constitui motivo de certeza para todos estes portugueses, em número de e de todos os outros que dentro e fora do território nacional têm o espírito em sobressalto, de que esta ignomínia ficará pela mera tentativa.
É o País inteiro que atento e grato pela procedência desta representação, vem assinar e dirigir a Vossa Excelência este grito muito forte e muito português: Deixem em paz as cinzas de Aquilino Ribeiro! Deixem que a Posteridade lhe teça os elogios literários que merecer! Mas não ergam em símbolo de cidadania quem deu provas de aceitar que os métodos terroristas e o assassinato de um Chefe de Estado são meios procedentes e legítimos para instaurar ideais políticos.


Não o coloquem no Panteão Nacional!

Sincerely,

The Undersigned


11 comentários:

duke disse...

Obrigado pela proposta de Aquilino, que viveu cá também pelas minhas zonas.
Abraço!

PintoRibeiro disse...

Abraço Martim.

Susana Barbosa disse...

Boas lembranças Martim! Obrigada
Bjs

hfm disse...

Belo post, Martim, com a serenidade de quem sabe apreciar, discordar mas que, acima de tudo, gosta dos que não podemos deixar apagar. Um abraço.

konde disse...

Bela intervenção... Aquilino está vivo...

morffina disse...

Da minha parte, há muita coisa Aquiliniana ainda para ler.
Este teu post aguçou-me mais o apetite.

Abraço
MF

veritas disse...

Que carinho pelas terras do demo, que carinho por Aquilino, guardo tanto dessa terra na minha alma. Faz parte da minha alma.

Bjs. Boa semana.

jcosta disse...

Ventos monárquicos, ainda que respeitáveis (se fossem), não menorizam a figura literária que Aquilino acolhe. A petição que mais não representa do que um lídimo exercício da liberdade, acaba por erigir-se, pela polémica, num curioso motivo de pesquisa que acalenta a esperança de um maior rejuvenescimento do escritor. O fervor revolucionário do Mestre é uma minúcia colhida nas terras que o 'demo' amassou e que, na pena célere, procurou, tantas vezes, descrever como denúncia. A sua trasladação é apenas uma viagem contra o apagamento da sua obra; um valor acrescentado contra os roteiros do esquecimento. Tão-só!

Panteão à parte, duas pequenas notas.
(i) O apreço que devoto à tua – sempre límpida e poética – relação com a escrita;
(ii) A transposição para o “Ave-Azul” (se a linha editorial o permitir…), por questões de contraditório (e de debate), do texto de Henrique Almeida “Aquilino e os regicidas”, ‘Jornal do Centro’, p.5, 1 de Junho de 2007.
Um abraço,
jcosta

martim de gouveia e sousa disse...

seja feita a tua vontade, amigo jcosta. com toda a boa vontade publico o texto e a ele reagirei. abraço.

jcosta disse...

Caro Martim!

O teu gesto não me surpreendeu pela magnanimidade que te reconheço. Já agora, posso pedir outro favor? A ‘capita’ das ‘Letras Aquilinianas’ pode voltar a ver a luz do dia, que é como quem diz, a luz da blogosfera?

Abraço.

martim de gouveia e sousa disse...

luminosa a repus. reabraço.