2005-12-28

VITRIOL


rosacrucianamente sopro, leitor atento, para dentro do poço as palavras aladas e digo do fundo peito, em murmúrio: "visita interiore terram, rectificando invenies ocultum lapidem."

2005-12-23

iniciação à lucidez

desce de olhos abertos os degraus e encontra os estádios que quiseres. junto ao paraíso, no rodar do punho, eis o inferno: no núcleo da pedra morres de novo e subtilmente te cristalizas. e só agora ascendes ao alentejano diabo que te fita do frontão e te diz com vómitos de fogo que assim és porque da terra vieste, iniciado.

2005-12-16

nascem os deuses

"É logo que o sangue se devora
que nascem os deuses."
(António de Navarro, Vigília Distante.)

2005-12-15

demonização

caillois transmuta o dito e o teatro continua aberto. expulso o demónio, rápido retorna e maligno. negro, o diabo está no ponto. quem ficará mais tempo neste lugar?

2005-12-11

do teu corpo nascem as florestas

do teu corpo nascem as florestas. e às florestas voltas depois de cada osso mandibular. nem o sangue coalha dentro do luar. dente por dente e dedo por dedo. a gordura do tempo és tu, pássaro comendo a asa e os dias por chegar.

esther

da escuridão a luz: o classicismo contemporâneo de kowalik. rompa-se o silêncio.

2005-12-10

the cross we choose to bear - release at last my love

em silêncio, leia-se mais este Piotr Kowalik adaptado.

2005-12-08

ode ao corpo

kowalik escreve o corpo assim.

2005-12-07

o voo ígneo da águia real

das turfeiras mais próximas a velha ave levanta voo. de coroa e nuca fulvas levanta a cabeça sem olhar o inimigo. alares as asas aguçam-se profundas. na arena o público respira fundo. agora é o voo picado e o mundo na tua mão. amarelo o bico engancha-se no corpo. sereno o olhar pendura-se no peito. em silêncio a pique cai o amigo inglês.

2005-12-06

língua de fogo

no branco nu da chávena uma língua roda. não tem pressa nem já tempo. viaja sábia e desliza no espelho do gelo. no cone do horizonte dois amigos espreitam. quem assim brinca com as palavras observa. na rasteira do medo o gume do raro vocábulo despede e volteia. uma vez mais o prazer vem do café. fundo do tempo doce e bolacha só para um. a conta não cresce como a língua fundo no peito. agora dizes o sopro sobre a voz. sei de um caso. e nós em volta disparados ao céu. a perícia está no corpo. uma vez mais volteia a mente contra o frio da sala de fim de almoçar. agora volteia a língua a sua dança, bailarina carne que ao café desce. não limbo nem castigo na volúpia. só esse brilho e o sabor do mel. o autocarro comprime o velho arco. o conhecimento chega depois das duas da tarde. passam duas na montra deste bar e a pequena pedra desce a pique. três se levantam contra a noite. brilha o sol em s. francisco e volta a água para dentro da fonte. um estrondo breve no granito do dia. da pedra à boca só um instante. mastigação funda cai ao estômago. quem dentro da língua de fogo?

uma fenda no nevoeiro

abre-se o silêncio ao fogo da paixão. um corpo destro está na mesa. alongado por mim dentro sobre o prato. longe são os gritos da infância. em volta a linfa cobre a linfa e o homem é de novo bicho do homem.

2005-12-01

chuva em azul



chove no dia azul fora de ti.

um pouco mais de verde



Ao Jerónimo, porque sim
é verde o grito do teu canto. ou azul a chama do teu corpo. nem sol nestas terras desnudadas. só estrelas plantadas no teu leito. é terra o sítio do teu sangue. é voz comprimida que se expande. há vida verde-azul em amar-te.

2005-11-27

Ruínas


um dia o sol dentro das cinzas. um brilho de azeite inundava o dia. um espaço uma casa um livro aberto contra a luz. e também morada da sombra. onde as letras na fonte, onde a música do corpo? o cérebro vem à cidade, talvez lembrando o vício. do pobre fogo das palavras só a inveja se alimenta. e no entanto este polvo intacto e esta mágoa cruzam o sangue e explodem nas gavetas do corpo. quando assim a ordem e a biblioteca? quando a ruína fora da noite? e a mesma cor dentro da língua?

2005-11-23

Branquinho da Fonseca em Aveiro



RESTAURAÇÃO

Se me vierem procurar: não estou. Quando me
fecho em casa é para ser só eu: delicado e bru-
tal, humilde e altivo, sacrificado e egoísta: o
bem e o mal! humano! Sem atitudes seguidas.

(Branquinho da Fonseca, presença 18 )

2005-11-22

A genialidade trágica de Rodrigo Emílio

volta a voz. dita assim "como carvão aceso numa urze em flor":
"(...Enquanto eu desço os teus braços
Numa sede de dedos inocentes...)"
(Rodrigo Emílio, As lágrimas ancoradas à sombra do amor)

2005-11-20

a mitologia do sangue em Luís Calheiros

à sombra dos dias um traço corta a folha breve. não há esgar que não seja tormento. os liames das parcas retesam os músculos e a carne. também em tempos fui provérbio. agora subo por este catre que é o abismo da criação. vou preso e talvez seguro. nem a pedra me trava o passo. de repente um breve lume. assim a pintura e o suplício.

2005-11-14

a água em cuja pele

coisas existem inominadas. junto ao flanco do pensamento o olhar directo corta o gelo. nem o mar do inverno arrefece o objecto. da única treva opressa um sopro esbarra na retina. nada importa já. nem mais estradas dentro da noite. o sol vem a pique dentro do cérebro. um relâmpago fende a espessura dos ossos. agora a mão no rosto, pensativa. as pedras rodam em volta. os gestos repousam na sombra. o porão do passado estende-se na varanda. rápida a chuva. por fim, a água em cuja pele.

2005-11-10

da memória e do esquecimento


esquecer para melhor dizer, eis um passo sempre irrecusável.

2005-11-08

olhar para dentro


«123 Não queiras saber tudo. Deixa um espaço livre para te saberes a ti.»
(Vergílio Ferreira, Pensar )

2005-11-07

Perfuração



à sombra da casa rói o tímpano. e nem asa ou chama dentro do corpo. assim a medida de meus dias:

casca encostada ao fogo e um dedo nos lábios. por ti esperando, pérfido abutre.

2005-11-05

alexandrino



"a língua submetida a meus caprichos"
(antónio franco alexandre, uma fábula)

2005-11-03

epitáfio


Impôs-me o tempo
um pacto
dia a dia renovado
Jamais a paz dos gestos
sempre a guerra
do silêncio envenenado
(António Manuel Ferreira, barca d'alva, 1995)

2005-11-01

no fio da navalha

cai no chão o corpo espacejado. nem lâmina ou gume o corrompe. pesado jaz no jardim. estátua morta desafia os céus e o voo ácido das pombas. no horizonte ondulam sinais de bronze. a morte eterna vem agora no volteio das folhas outoniças. súbito o vento empurra a folhagem e mostra o brilho frio. a pedra amolece contra a rajada. um pouco de morte ainda. dentro da noite.

2005-10-30

Adivinha de Tirésias


vem do desprezo o olhar que não vê. frio, glacial, o sangue enrijece- -lhe a pose. vindo à idade adulta, nada se sabe, nem eco. vindo o inverno, um dia, quando se olhar em vulgar charco, contra breve chuvisco, verá um rosto que o secará. aí, rasteiro gnomo tomar-lhe-á o corpo, privando-o da linfa. aí, nascerá um cacto azul mais belo do que um nenúfar. em cada verão, então, brotará do solo um líquido sanguíneo que irromperá dentro de ti...

proposta quase inicial de ave azul

Junto a Vergílio, o dia nasceu. ainda breve, quase nada faltou. nem desânimo. esta é a capa das costas do número 1 anunciando a incrível literatura. tomados de espanto, o tempo passa e a memória é mais longa. um dia, não será assim. então, colhe este sinal mudo no espaço íntimo de ti e abandona-te ao inverno que te confunde.

2005-10-29

a mesma ideia: FIDELIDADE OU LEALDADE


"Os grous são tão fiéis e leais ao seu rei que à noite, quando ele dorme, percorrem o prado para vigiar à distância; outros ficam ao pé dele, com uma pedra na pata para que se o sono os vencesse a pedra caísse fazendo tal ruído que os acordaria. Outros dormem todos juntos em volta do rei e fazem-no todas as noites em turnos para que nunca faltem ao seu rei." [H, 9 r]

2005-10-28

tesouras & alicates


é com a língua que corto o vento. a força dos alicates esmaga-me os ossos. novo e cego narciso, é com o corpo que dedilho os elementos. o lume desce à garganta e o mito ilumina-se nas paredes do estômago. na mala levo comigo os poemas dos outros. no espelho da água fito a imagem. a primeira, vinda sobre a pele dos dias. cada avanço é um som opaco, sem pegada. em ti me perco, já sem regresso. as lâminas da tesoura tombam e nem sequer um pouco da morte.

2005-10-26

cicatrizes

eis as cicatrizes do corpo da cidade. perto da memória, nem só fungos. há o gelo dos charcos e o fumo do esquecimento. quantas vozes e ecos debaixo das velhas tílias? perdeu-se um lenço desde a velha casa. nascendo o dia, ouve-se ainda o bulício da praça. o mundo envelheceu face à limpidez da imagem. e, no entanto, as formigas negras cresceram, incómodas. duas mulheres pisam o hálito quente da terra. uma festa, longínqua, declina. na velha estação, ao fundo do corpo, a chuva irrompe pela madrugada, queimando os dedos e as veias. o despertador acorda no espelho matando a alegria da revelação. dentro de mim, o comboio mata a cidade.

2005-10-24

Navarrianas


Na primeira figura punha o olhar,
a maligna voz do descontentamento,
vendo Gomes increpando o ser vulgar.
Que podia agora ela face aos tormentos,
que não fosse sua demissão logo exarar
e, debitando débeis uns lamentos,
logo correr para florido outeiro,
sempre fugindo à frente do Monteiro!

espantosa Christina Rossetti

"Not a word for you,
Not a lock or kiss,
Good bye.
We, one, must part in two;
Verily death is this:
I must die."

2005-10-23

LENI RIEFENSTAHL



eis o rosto das melhores visões. das anteriores, também...

2005-10-22



é tão difícil dizer o corpo. assim estas imagens, iguais, o tornam fácil.
quem deste modo, quem?

OUTUBRO VEM...


Outubro...
Ó ar de desfalecimento,
és uma lírica suspensa à volta!
A voz do vento,
triste, cansada, em tom cansado e lento,
não sei que frases de rimance solta.
António Sardinha, A Epopeia da Planície

rapsódia de outubro

de ideia em riste, vem a manhã. cobre o País um manto de esperança. que nevoeiros em volta? que dor ainda a do terreiro do paço? quanta casa em silêncio? quando esta ideia?...

2005-10-21

REAL! REAL!

A EL-REY

De capa e volta, de calção e vara,

hei-de ir, Procurador do meu Concelho,

falar ao Senhor-Rey com fala clara,

dizer-lhe uma oratória que aparelho!

António Sardinha, A Epopeia da Planície.


CHOVE EM VISEU


"NÓS OUVÍAMOS HORAS A FIO MÚSICA DE MOZART, MÚSICA DE BEETHOVEN, SEM PRONUNCIARMOS SEQUER UMA PALAVRA."


THOMAS BERNHARD, O sobrinho de Wittgenstein, 1982.


2005-10-20

AVE AZUL - nº 1 - Outono de 1999


"Um fio louro
Abre um riso na dor duma nuvem escura...
O Céu também esconde em risos a Amargura!"
FAUSTO GUEDES TEIXEIRA

http://www.elogiodapalavra.blogspot.com

canto luminoso

porque marginal, da margem sombria da sabedoria, releio "canto desabitado" de António Gil sob a luz da euforia:

"refaço-a a partir do vago compasso da ventania, do estalar da vaga, do solo ressumando a litania dos dias já completos..."
António Gil, Canto desabitado

2005-10-19

crash

não há tecla. o computador não fala. momentos de silêncio.

2005-10-18

DA INTENÇÃO

Intentions de Oscar Wilde (first edition)

intento cada dia nova página saída do fundo das intenções. nada me move nem orgulho até.
apenas fio vascular do centro de mim. e emoções controladas pela influência pacificadora. assim o fogo da palavra. martim disse.

2005-10-17

o mito de Narciso


estrofes e mitos; beijo-te, não é? nada estava escrito,
nenhuma verdade comum aos planetas,
éramos só nós sem nenhum segredo,
vivos e completos, serenos, mortais.
António Franco Alexandre, Uma fábula

2005-10-16

OASIS, uma questão de qualidade


para quem ainda duvide, eis os Oasis, vitoriosos, nos Q-awards...

2005-10-15

DEFINITIVAMENTE, JOEY


















"Stop thinking about it // Dwelling is driving me crazy / Obsessing don´t you know where that´s at / Yeh, you don't know what you want but you want it"

UMA IDEIA


a ideia chega, sábado após sábado, luminosa...

2005-10-14

ÁRDUA POESIA


Tahar Ben Jelloun, poeta e ensaísta marroquino, diz que a poesia não se pode explicar. estranha, portanto, é a sina dos hermeneutas...

2005-10-13

A HORA SOCRÁTICA


A CERCA DE DOIS ESTÁDIOS DO INFERNO, SÚBITO CHEGA UM GRITO DE GUERRA E O SOM DAS TROMBETAS. CORRENDO, IRROMPE UM CORPO DE TROPAS HOPLITAS. LÉPIDAS, GRITAM A CHEGADA DA SOCRÁTICA HORA. OS VALENTES DE MONTE EMÍDIO TOMBAM, DE PERNAS EM RISTE. A SEUS PÉS MURCHAM AS ROSAS. PODEREMOS DESEJAR MAIS?

2005-10-12

MANUEL DE FREITAS

A IMAGEM DIZ O DENTRO DA POESIA

o gume do olhar
lembra ao pobre mortal
que cada regresso
é o gelo da morte
e o início do canto

a Franco Alexandre, dentro da hora difícil

2005-05-09

sabes o olhar e o modo de pensar

avanças de dentro das plumas

sem que em mim dês recobro

cortas a vida e o fio de prumo...

em breve já não és...


2005-05-03

esfuma-se a força contra a vontade. dorme a inércia, agora, no banco do teu jardim. acorda e oblitera as vozes quotidianas. brilha como o sol dentro de ti. e diz: sou.

2005-04-27

regresso aqui do centro de mim. calei o vinagre e o ácido da usura. lustral, volta o sonho.

2004-07-21

mesmo do retiro mais íntimo irrompe o verão juntos aos dedos e à pele. 

2004-06-09

de António Franco Alexandre

António Franco Alexandre é um poeta sem adjectivos. este é um caso exemplificativo da por mim dita superioridade poética. colha- -se, pois, a amostra alexandrina:

poema simples



Assim como o tempo passa
já posso ser o que sou
breve chuvisco de tarde
nublado pela manhã
sol em neve declinado
seco mar fresca aridez
Não deixo nem testamento
nem memória do que vi
as vozes que me habitaram
os corpos que me queimaram
não sei que sorte tomaram
nem que levaram de mim
É certo, julgamos sempre
olhar de frente o futuro
mas o que vemos é só
um braço de rio parado
muro de gruta pintado
a fazer vez de presente
Na linha do horizonte
perdeu-se outrora um navio
em terra fiquei deixado
ferido de sangue frio
de mãos e pés amarrado
à lembrança, mas de quê?
Fiz de palavras caminho
altas palmas o meu céu
amassei o solo escuro
só sol e mar me criaram
fiéis ao simples acaso
de algum dia ter nascido
Finalmente o fim do mundo!
embora seja seguro
que outro mundo há-de seguir
enquanto rodem as rodas
em perpétuo movimento
do inexorável motor
Amor amado desejo
vontade de outro não eu
rumor do corpo habitado
pela confusa visão
no olhar do bem-amado
de um sonho que não é meu
Desde cedo habituado
a ser o eco calado
de cego narciso, sem
nunca encontrar na mensagem
mais do que a pálida imagem
do seu jeito de ninguém
Às vezes, sobre uma cama
terrestre, de lençóis nus,
na formosura de um rosto
seja seu ou seja de outro
vejo o mundo ilimitado
que a sua cegueira vê
(Outra estória é a de orfeu
pois rimador aqui estou:
depois do frívolo idílio
no inferno, aconteceu
a pequena audácia trácia,
que virgílio não notou)
Por isso pouco me importa
se só vejo simulacros
por trás de muros compactos
se a idade me trava o passo
e cada hora me traz
uma volta mais no laço
Se sou apenas banal
e às vezes vos desagrado
rimando com mau efeito
é defeito de querer
dizer o que o corpo diz
só no seu eco perfeito
Por cada dia que passa
fico mais jovem e sábio
tal qual a mulher barbada
arrasto gentes à praça
escarnecido, culpado
de desafinado lábio
Nenhum símbolo me ocorre
nem sinal ou signo extremo
só do medo me arrependo
que teve tudo o que quis
do resto do que aprendi
me serve saber quem temo
Serve saber que serviço
me talhou desde noviço
que palavra humana quis
tomar-me por aprendiz
e logo desde o começo
justo preço me cobrou
Este de ser sem juízo
sem cautela premiada
e dedilhar no meu verso
em prejuízo da fama
o reverso da canção
que me foi encomendada
Este de sonhar em mim
um infame pesadelo
e de estar perto do fim
cada vez que recomeço
ser o servente delfim
em ausência permanente
Sentir na boca o degredo
na tua boca beijado
abandonar-te em segredo
a uma esquina quebrado
no mais ser o bom atleta
que nunca cortou a meta
Ó campos feliz paisagem
ou cenário acidental
da minha verdade toda
fica o sumário brutal
ter este rosto de tinta
e nenhum outro real
Poucos conhecem a infâmia
do melhor do que há em nós
ou a vergonha cansada
de ter ainda outra voz
em rima pobre sem nexo
nem louvor na embaixada
Do nosso amor fica sempre
um gosto a coisa deixada
para os mistérios do sexo
como roupa desleixada
só eu sei como te deito
na minha mão debruçada
Só eu sei da tua boca
o orifício encantado
o sabor a vento fixo
no ombro de asa rasgado
e o rastro tenso que fica
dos joelhos nas axilas
E no entanto não sei
de noite como te chamas
parece-me bem ouvir
outro sempre diferente
nome, quando nas chamas
se arrasta a musa decente
Mudas de rosto, de idade
mudas o gesto da mente
se abrindo as mãos me devassas
e em mim resta de quem és
sem memória nem promessa
um oco vácuo demente
Sou-te fiel mude embora
nome corpo rosto e acto
sei-te na sombra o exacto
rumor do tempo previsto
assim é que nasces e
mal me encontro me perdi
Agora, em ilha extrema
nativo náufrago eu
pintado de sexta-feira
escavando em tronco duro
planeio fugir de mim
na folha do mar ou fundo
Confundir-me com as velas
em leve teia de espuma
ser a medusa que aterra
as redondezas da terra
ouvir sem mastro nem pejo
o desejo da sereia
Talho na rija madeira
da melhor árvore que havia
a que mais fruto nos dava
mais fresca sombra deitava
na sombra muito ligeira
que como um véu nos vestia
Com a foice da serpente
ó instrumento imperfeito
afeito a carne macia
mas que nos basta na estória
assim contada à maneira
de vaga memória pia
A esse tronco é preciso
agora vir a contar
doze anos estive preso
em inferno paraíso
no jardim de contos feito
e sem fruto proibido
Eu era, se é que era,
mais um aroma no ar
a voz ao longe que espanta
quando cessa de cantar
ou outra imagem qualquer
capaz de a ti te acordar
Aí à beira do mundo
com os teus dedos de veludo
a correr, a tropeçar
no sentido imaginado
dos teus sentidos já lassos
de tão pouco enlaçar
Telegrafa-me depressa
enquanto não cessa a obra
de talhar, de amanhecer
apenas para que peça
um pouco de barro ou dessa
matéria que faz querer
Tocá-la senti-la tê-la
entre as mãos a acontecer
mas sem peso e sem figura
só emoção de tecer
o resto humano da dobra
que o tempo leva a dobrar
Noite e dia escavo e corto
não sei bem que forma faço
a foice foi de presente
à medida do meu braço
e quando repouso sonho
com o meu barco na corrente
Bem pequeno pode ser
pois me basta um lugar
vou deixar na ilha toda
a minha corte vulgar
de ti levo o pensamento
do teu nome singular
Vou partir para oriente
tomo o rumo das estrelas
com versos farei as velas
para o vento dominar
vou ver se existe outra gente
outro lado do pensar
Desejo ventos, procelas
de antigamente rezar
altas ondas que ameacem
as nuvens até no céu
quero ver se me arreceio
se me ponho a babujar
Se vejo a dama mesquinha
cortês a vou a saudar
minha antiga companheira
tua carga é bem ligeira
podes levar-me, não trago
bagagem nenhuma, vê
Só uma flauta, um caminho
que nos mapas se não lê
um rosto de linho velho
sem razão e sem porquê
mas não te iludas eu quero
à outra margem passar
Subir ao monte que avista
muros de cego cristal
tectos de palmas abertas
ao céu azul mineral
e ver os degraus da casa
desde a terra até ao céu
E ver os degraus da casa
como uma corda entrançada
de corpos letras papel
deixar nos muros do templo
a marca da minha mão
em testemunho fiel
Outrora tinha receio
de me perder pelo meio
da invisível floresta
onde o inimigo espreita
com tigres olhos de lume
e face dura de cão
Hoje o que temo é ter feito
letras tortas no meu chão
ter hesitado no leme
ser duro de coração
ter errado o peso justo
e dito não, dito não
Por vão cuidado da rima
ter descuidado o legado
que devia fazer meu
e não ter usado a lima
dos versos para dizer
ao mundo imundo o seu fim
Vou ver os degraus da casa
cedo na luz de oriente
sem receio de outra gente
nem da garra do leão
de mim é que tinha medo
agora já sei quem sou
(esta só é a lição)
Na praia já se começa
a ver o verde do mar
e se levantou o grito
das aves relógio aflito
descido ao sono profundo
que a sonhar se detém
Ao ar claro se evapora
um resto vago da aurora
que só a noite contém
tu bem sabes quanto custa
o preço desta demora
na morada de ninguém
Vou partir deixar a vida
nos seus crivos entretida
riscar de todos os livros
as armas que o tempo tem
quero ir a esse tempo
onde renascem os vivos
Na boca me deitem terra
para não morrer no mar
cubram de seda esta água
tão pouca que me bastou
e deixem-me pronta a mesa
para quando regressar
De ti nunca me despeço
minha sede meu senhor
tu que vês o que não digo
e o que não faço prevês
trazes a graça contigo
e o sentido que me dês
Da tua cegueira sou
desastrado escriturário
para te servir nas artes
não me troquei nem vendi
e só por erro servi
outro mando do que o teu
Também agora não peço
a garantia de autor
(para que no editor
assírio e alvim se publique
peço ao franco antónio que
tudo a seu cuidado fique)
Nem a taça nem o busto
nem o atleta robusto
que me leve em sua mão
nem o tesouro da serra
e o horizonte de terra
à medida do meu chão
Na verdade nada peço
senão a palavra que
me liberte desta ilha
me tire do pulso a anilha
e me destape do poço
que me demora o embarque
Quero ver a cor que tem
a tela do outro lado
e a razão do teu louvor
quando na obra acabada
de tudo quanto fizeste
disseste a morte melhor
Será agora que vejo
nascer o sol verdadeiro
o terrestre, que me acorda
e me liberta da corda
do primeiro pesadelo?
será que agora desperto
Numa alfândega distante
diante do sábio mono
e sua dama mesquinha
a queimar lenha no forno
onde se cozinha o novo
modo de assar o vizinho
E me acusam de ser
avesso e pouco cortês
e permitir a nudez
sem nenhuma metafísica
mas com cem sentidos bem
fisicamente despertos
E de ter nascido com
extraterrestres avós
de usar amor ao contrário
e ter feito este sumário
dando sentidos à voz
sem talento e sem pudor
Não me defendo sequer
curioso do tormento
original que inventaram
enquanto o lume se acende
verter-me em sórdido inferno
em lugar do happy end
Mas por força do desejo
e seres demónio aprendiz
acontece desta vez
ao contrário de moisés
que tu estás onde te vejo
eu estou onde não vês
Vem-me levar, extranave
desde Sura a Pumbedita
os dois extremos da terra
que já me cansa bater
à porta fechada rente
de alheia casa qualquer
Agora seria a hora
de uma grande conclusão
uma razão que pusesse
todos os dados na mão
mas o meu poema simples
tem rima, não tem razão
Outra que a dura presença
do teu rosto contra o meu
no lume que nos mistura
e se transforma até ser
a chama móvel que move
as roldanas do destino
Servirá de hobby-horse
pois traz em código morse
as evidências do mito
verás como o indecifram
enquanto mordo nas veias
uma agulha de infinito
Meu terno e bom capitão
por ti tudo tenho escrito
e diz-se que é longo o tema
para tão curto poema
mas se me deixas a mão
vou ali e tenho dito.


2004-06-08

a lei do desejo

corro sobre a água já sem pressa.
a lei do desejo

corro sobre a água já sem pressa.

2004-05-17

Régio vive nos objectos e nas velhas casas que habitou. Eis a proposta de leitura que o Prof. Doutor António Ventura nos cedeu e que aqui deixo, a benefício de inventário.

José Régio Antiquário
 
António Ventura

José Régio foi, e continua a ser, não obstante os eclipses conjunturais com que alguns teimam em obscurecer a sua obra, um dos escritores mais importantes da literatura portuguesa de todos os tempos e, simultaneamente, uma referência obrigatória da nossa cultura contemporânea. O carácter polifacetado da sua obra escrita – cultivou a poesia, a novela, o romance, o ensaio, o teatro, a crónica, a crítica, a epistolografia... - é reforçado pelas incursões noutros domínios, como o das artes plásticas, ao mesmo tempo que nunca enjeitou a necessidade que considerava essencial, de ser livre, de agir livremente, contra ventos e marés, sem ceder a popularidades fáceis e a aplausos gratuitos.
Propomo-nos abordar, neste breve artigo, uma das vertentes menos conhecidas da sua actividade cultural, e, curiosamente, uma das que teve maiores consequências na sua relação com o grande público de hoje: a de coleccionador[1]. De facto, para além dos seus livros que estão disponíveis – agora nas Obras Completas a cargo da Imprensa Nacional - , é através das casas – museus de Vila do Conde e de Portalegre que esse grande público mais facilmente tem contactado com o mundo de José Régio.
 Consideramos aqui a palavra «antiquário» na acepção que lhe dá Rafael Bluteau, no Vocabulário Português e Latino (1712): «curioso investigador de coisas antigas, de costumes velhos, de escrituras, medalhas, imagens dos antigos»[2]. O recente Dicionário da Academia, refere o substantivo «antiquário» em três acepções: «pessoa que se dedica ao estudo de coisas antigas, à investigação de antiguidades», «aquele que colecciona objectos antigos, antiguidades», e «negociante de antiguidades»[3].
Como e quando nasceu em José Régio o gosto pelas antiguidades e pelo coleccionismo? O próprio Poeta esclarece: «o gosto das coisas antigas não me nasceu no Alentejo. Ainda gaiato, eu escapulia-me para um caminho subterrâneo que há em Vila do Conde, nas ruínas do claustro do antigo convento, a procurar caquinhos de louça velha. Estudante em Coimbra, e, como se poderá supor, mal preparado financeiramente para tais aquisições, lá conseguira adquir três ou quatro peças que haviam pertencido a Mestre António Augusto Gonçalves. Aliás, já meu avô paterno comprara, no meu tempo, móveis e imagens que tinham sido integrados no recheio da nossa casa e eu olhava com olhos de curiosidade e cobiça. A coisa estava-me na massa do sangue...»[4]. Numa entrevista publicada na revista Mundo, em 1958, José Régio comentava a influência exercida sobre si pelo seu avô, António Maria Pereira, o «Antoninho ourives», como era conhecido pela profissão que exercia, e que era, também, um amante das coisas antigas que ainda abundavam no Norte, numa época em que poucos lhes atribuíam valor[5].
Durante a sua permanência em Coimbra, como estudante universitário, a situação económica não lhe permitiu, certamente, adquirir um número significativo de peças – embora tenhamos notícia de que comprou algumas - mas a conclusão da licenciatura e o início da carreira docente, proporcionaram-lhe novos recursos, se bem que nunca muito folgados. De facto, se passarmos em revista a correspondência que manteve regularmente com os pais, os problemas financeiros são uma tónica sempre presente, que o andar do tempo não aliviou, recorrendo a malabarismos diversos para ultrapassar alguns meses mais penosos[6]. A modesta remuneração mensal impunha um apertado orçamento que por vezes era inopinadamente subvertido...
Foi, porém, em Portalegre que se ampliou e desenvolveu o gosto de José Régio pelo coleccionismo. Na cidade e na região encontrou um campo fértil para as suas aquisições. A nível local, os coleccionadores eram raros, com destaque para o Dr. Laureano Sardinha – tio de António Sardinha, médico militar e homem possuidor de vasta cultura no campo da arte e das antiguidades, em especial da cerâmica portuguesa – e de Emílio Castro, que reuniu um notável conjunto de pratos «ratinhos», hoje no Museu Municipal de Portalegre.
Para além do artigo de O Primeiro de Janeiro de 1 de Janeiro de 1962, José Régio publicou ainda um outro, ficcionado, mas com uma base certamente verídica, intitulado «As Historietas dum Rebuscador de Antiguidades»[7], posteriormente incluído no volume Há Mais Mundos, mas com o título de «As Historietas dum Coleccionador de Antiguidades»[8]. Aquilo que principiou por ser uma passatempo transformou-se numa actividade regular, talvez o escape que a criação literária necessitava para manter um salutar equilíbrio. José Régio foi estabelecendo contactos com alguns comerciantes de antiguidades da região e mesmo de Lisboa que regularmente demandavam o Alentejo em busca de boas oportunidades. Como sucede com qualquer coleccionador, a permuta e mesmo a venda de peças começou a ser uma prática usual. Um coleccionador principia por «juntar» em quantidade e por se dispersar, mas, à medida que o tempo corre, apura o gosto, fixa e consolida preferências, especializa a colecção e aprofunda o estudo. Foi o que aconteceu com José Régio. A preferência pela arte popular foi-se afirmando, mas não perdia uma boa oportunidade de adquirir um objecto, mesmo que não se destinasse à sua colecção. E, por vezes, essas oportunidades surgiam, tentadoras, e José Régio sabia – como qualquer coleccionador sabe... – que há momentos que não se repetem. E o salário mensal era gasto integralmente: «o diabo tece-as: (neste caso, nem sei se seria o Diabo!). Foi-me oferecida uma peça de mobiliário que eu há muito cobiçava, que vale o dobro do preço apesar de não já não ser barata, e... não pude resistir. São coisas como não aparecem muitas vezes na vida, e eu teria grande desgosto de a perder. Não faltaria quem logo a adquirisse, recusando-a eu. Anda muita necessidade por toda a parte (a minha actividade de antiquário bem mo demonstra) mas também há sempre quem compre»[9].
A procura de antiguidades foi subindo, entre comerciantes da região e de Lisboa que por ali se deslocavam cada vez em maior número. Mesmo coleccionadores particulares começavam a surgir e procuravam José Régio. O Poeta habitava, desde que viera para Portalegre, no anexo da Pensão 21, à Boa Vista. Mas, à medida que o tempo passava, ia alugando e ocupando os diversos compartimentos que vagavam de modo a conquistar espaço para as suas antiguidades. Mesmo assim, a casa mais parecia um depósito[10]. A casa da Boa Vista era, porém, o cenário ideal para as suas peças, que iam povoando um espaço aparentemente amplo, mas que o número cada vez maior de objectos tornar exíguo. Havia que tomar medias. Em Julho de 1954, o Poeta alugou uma casa em frente à sua, pertencente à família Silveira (nº 44 da Boa Vista). Por vezes, quando as necessidades financeiras apertavam, José Régio era obrigado a desfazer-se de uma ou outra peça da sua colecção, acabando por se arrepender de tal passo e procurando depois, quase sempre infrutiferamente, por tentar recuperá-la.
Ainda nos anos trinta, José Régio estabeleceu contactos com diversos antiquários de Portalegre e da região, que lhe forneciam informações e com ao quais negociava, comprando e trocando peças. Em Estremoz, tinha excelentes relações com Wenceslau Lobo, tal como ele um coleccionador de Cristos, e que reuniu um acervo de cerca de 1500 peças .
Uma figura central neste universo tão peculiar foi Joaquim Alberto Martinho, mais conhecido como Mestre Martinho. Depois de ter estudado na Escola Industrial e começou a interessar-se pela marcenaria. Foi para Lisboa, onde se tornou um especialista e um artista de primeira qualidade na difícil arte da marchetaria. De regresso a Portalegre, a sua oficina era um ponto de encontro de amantes da Arte, como os professores e pintores João Tavares e Renato Torres, e o próprio José Régio. Com alguma frequência, depois de terminar as aulas, aquele ia até à oficina de Mestre Martinho e ali se entretinha a cavaquear. O hábil artesão também se começou a interessar por antiguidades, estreitando-se as relações entre ambos. Muitas peças adquiridas por Mestre Martinho acabaram ser transferidas para José Régio, como sucedeu com um belo contador indo-português, uma das melhores peças de mobiliário da casa de Portalegre.
Foi essa amizade com Mestre Martinho e a necessidade de responder à crescente aquisição de peças que necessitavam, de restauro que levou o Poeta a solicitar-lhe que dispensasse um dos aprendizes, Manuel Bilé, que passou a trabalhar para José Régio a partir das 17 horas no armazém da Boa Vista. Algum tempo depois, Manuel Bilé ficou como empregado de José Régio, se bem que na maior parte do tempo fosse trabalhasse para amigos do Poeta quando necessitavam dos serviços de um carpinteiro. Passou também a acompanhar regularmente Régio nas suas deambulações pelos arredores da cidade e mesmo até Vila Viçosa, Elvas e Estremoz, convertendo-se numa espécie de seu adjunto. Como dizia, em 1970, numa entrevista, «percorri com ele praticamente todo o distrito de Portalegre, comprando antiguidades e assistindo a cenas que jamais poderei esquecer»[11]. O carro de aluguer era o meio de transporte privilegiado.
De entre o vasto acervo que reuniu, José Régio tinha preferências. Mestre Bilé sublinha o gosto do Poeta pela arte popular, nas suas mais diversas vertentes, do mobiliário à cerâmica, da arte pastoril às rendas. A arte sacra ocupou um lugar de relevo, como o atesta a impressionante colecção de imagens de Cristo Crucificado e de outras imagens, com destaque para os belíssimos barros de Portalegre, que ele estudou, e aos quais pensou dedicar um escrito mais aprofundado. Régio partilhou esse gosto pelos barros alentejanos como seu irmão Júlio, coleccionador de barros de Estremoz, podendo a sua esplêndida colecção ser vista no Museu Municipal daquele cidade alentejana. Ambos participaram na organização da uma exposição de barros alentejanos, em 1962, em Évora, assinando em conjunto o texto introdutório do respectivo catálogo. Depois de passar à situação de reforma, em 1962, como as permanências em Portalegre se tornassem raras, Manuel Bilé manteve um contacto epistolar frequente com o Poeta, não só referente às antiguidades mas também aos mais diversos assuntos.
A casa da Boa Vista converteu-se, assim, num verdadeiro museu, mas privado, sendo ao mesmo tempo a residência do Poeta e só podendo ser visitado quando e se ele quisesse. A ideia de a converter num verdadeiro museu começou a ser ventilada nos finais dos anos cinquenta, mas só em 1968 a Câmara Municipal de Portalegre, sob a presidência do Prof. Manuel de Jesus da Silva Mendes, e com o empenhamento do Dr. Francisco Fino, decidiu adquirir o recheio, por um preço quase simbólico. Só depois da morte de José Régio, a Casa Museu foi oficialmente aberta ao público, sendo inaugurada a 23 de maio de 1972, pelo então Presidente do Conselho Prof. Marcello Caetano. Ficava assim, para a posteridade, como uma espécie de espaço simultaneamente físico e mítico, povoado dos objectos que Régio coleccionou e com os quais se identificou. Nessa Casa, nesses objectos, nesse ambiente, o Poeta vive.
 


[1] Veja-se o excelente artigo de João Marques, «José Régio e a Paixão pelas Antiguidades – a sensibilidade de um artista e de um místico», in Boletim do Centro de Estudos Regianos, Vila do Conde, nº 6-7, Junho-Dezembro de 2000, pp. 40 a 56, e o nosso estudo «A Casa velha, Tosca e Bela», in José Régio e a Arte Popular, Edição das Câmaras Municipais de Portalegre e de Vila do Conde, 2001, pp. 11 a 29.
[2] D. Rafael Bluteau, Vocabulário Português e Latino, Lisboa, Colégio de Artes da Companhia de Jesus, 1712, Tomo I, p. 410.
[3] Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, Lisboa, Academia das Ciências / Verbo, 2001, Volume I, p. 269.
[4] José Régio, «A Minha Casa de Portalegre. Como principia uma Colecção de Velharias», in O Primeiro de Janeiro, 1 de Janeiro de 1962.
[5] V. José Régio, Confissão dum Homem Religioso, Porto, Brasília, 1971, pp. 40 e segs.
[6] José Régio. Correspondência familiar: Cartas a seus pais, Introdução e notas de António Ventura, Portalegre, Ed. do Centro de Estudos José Régio, 1997.
[7] Publicado em O Primeiro de Janeiro, Ano Bom de 1962.

2004-05-09

o melhor da cidade chega-me do fundo das madeiras.