2026-09-06

FICHAS (QUATRO): Silviano Santiago, "Mil rosas roubadas" (2014). São Paulo, Companhia das Letras.



FICHAS (QUATRO): Silviano Santiago, "Mil rosas roubadas" (2014). São Paulo, Companhia das Letras.

É uma longa e exaltante reflexão sobre a vida e a amizade. Romance lírico de portas adentro, muito se passou entre aquele ano de 1952 em que os dois se encontraram numa paragem de autocarro e o ano de 2010, quase sessenta anos passados, em que o tu narrativo agoniza numa cama do Hospital São Vicente, no Rio de Janeiro. Lavrantes, no entremeio, avultam reflexões de grande quilate como, por exemplo, esta: “De que adiantam os dois volumes do "Dicionário de Cândido de Figueiredo", que tronam em casa e na escola, se não trazem os vocábulos cujos significados não registram e intrigam? De que adiantam os vários volumes do "Tesouro da juventude", dispostos em percalina azul na estante do escritório paterno, se eles não respondem à questão mais importante da vida, que nos move?” (p. 41).
Questionando géneros e fronteiras, o texto de Silviano Santiago é a voz do biógrafo e do autobiógrafo e o culto intemporal do memorialismo e da malha cultural. Sim, para ler e chorar por mais.    

2026-06-08

FICHAS (UM): Luiz Ruffato (2019). O verão tardio.

 



FICHAS (UM): Luiz Ruffato (2019). O verão tardio. São Paulo: Companhia das Letras.

 

Na sequência epigráfica de um verso de Drummond de Andrade (“E sempre no meu sempre a mesma ausência”), mas não só, eis um notável fresco, que é uma subtil e tocante nota sobre o Brasil dos nossos dias. Na senda diarística e memorial, a matéria estende-se em tensão temporal entre os dias 3 e 8 de Março e o início diegético é magnífico e sedutor: “Os pés arrastam-me através de um imenso deserto”.

Por sortilégio de vida, conheci Ruffato em Brno, sem nada haver lido de sua autoria, embora tendo na minha biblioteca um dos seus livros – este, de que gostei muito e que li no regresso, já por finais do último Novembro.

É um livro sobre cada um de nós, sobre a inapelável condição humana, os nossos modismos e formas de ser, os pequenos prazeres, as tragédias, e muito sobre mim, o que foi mais um incindível encontro com o escritor que a mim chegou, uma vez mais, através desta leitura realizada em finais de Novembro de 2025 que me desvelou um autor ágil, denso e inadiável. Afinal, mais um para a minha necessidade de escritores fundamentais e originais, de estilo marcante e forte.

São poucos dias, é um só dia sempre igual e absurdo como tantas vezes a vida.


2024-03-03

Para Teresa Veiga...


 

Teresa Veiga na ficção portuguesa...

2023-07-09

 poema para almada - 5


ardo na mesa, de ânsia ardo,
sonho tricorne que em mim corre,
fulgor de páginas e ventos,
desejo nos dedos, pálpebras
cantantes de voos, lâminas,
destroços, disso a fogueira,
o sangue, na mesa que engulo.


2023-05-23

 


MISTÉRIO PASCAL 

As juras de amor primeiro,
a abrir caminho a um beijo
como Judas traiçoeiro,
para convencer o meu bem
do meu divino desejo.

E tu, abrindo os braços
em cruz, dizes-me: Vem!
Joguemos o banido jogo
até à consumação do pecado!
Toma amor, a proibida fruta...

E eu, num incontido amplexo,
cravo-te o corpo ao madeiro,
altar sacrificial da paixão,
no doce martírio de suor e fogo
que espoleta a combustão do sexo.

Extenuado pela explosão abrupta,
jazendo nu e a ti abraçado, 
qual sudário de Cristo no calvário, 
creio na "pequena morte" e na ressurreição,
no mistério do amor e nos milagres da luta!

Viseu, 9.04.2023 (Domingo de Páscoa)

Carlos Vieira e Castro

2018-10-08

Reedição do romance de Aquilino Ribeiro «O homem que matou o Diabo»


Eis mais um belo incipit aquiliniano:

«Pareceu-lhe reconhecer a voz que chamava no Largo, à porta da oficina. A dela era assim bonita, destas vozes de sereia, como apenas se ouvem nos sonhos, e que pelo módulo, entre infantil e veludoso, lhe ficara errante no ouvido. Não fora engano?...»