2014-03-24

LIMIARES DA ESCRITA - «Novilúnio» (1923) de João d’Almeida - «a régia flor de brancos braços»


 LIMIARES DA ESCRITA -
Novilúnio (1923) de João d’Almeida - «a régia flor de brancos braços»

É uma régia flor que cai da deslembrada poesia de João d’Almeida (1902-1935), escritor de um livro só e outras incisões, nascido ali por Sezures, Penalva do Castelo, no início do século vinte. Contra o bulício da espuma quotidiana, é de «Novilúnio» na mão que lanço estas palavras dentro da crónica. Adiando o tediário, palavra esta que tomo de Murilo Mendes, é com este livrinho, publicado em 1923 na cidade de Coimbra, que rompo, uma vez mais, um silêncio estrondoso – afinal, que hermenêutica literária esta que só trata dos admiráveis sucessos e facilmente esquece os atores menos evidentes?
João d’Almeida fez estudos superiores de Direito em Coimbra, entre 1920 e 1926, publicou no entremeio a coletânea de poemas acima mencionada, tendo integrado, no mesmo ano de 1923, a equipa diretiva da revista «Byzancio», publicação onde colaboraram, entre tantos outros, os reputados nomes de Fausto José, José Régio ou Vitorino Nemésio. Diga-se até, para simplificar, que esta revista coimbrã foi já um aquecimento para a deflagração do movimento presencista que ocorreria meia dúzia de anos à frente. Face ao descaso futuro, continuam a ser  as «Páginas do Diário Íntimo» de José Régio uma forte garantia de salvaguarda da memória de João d’Almeida.
Concluído o curso universitário, viria o poeta penalvense a exercer advocacia em Luanda, cidade onde viria a falecer, depois de ter chefiado a secretaria da câmara municipal local.
Decadentista epigonal, como se comprova, por exemplo, no poema «Ária do Poente»: «sinto-me decadente, e adoro o abismo / do Poente, num desmoronar completo.» Mas outras particularidades se podem destacar em «Novilúnio»: os pensamentos agónicos («E fico agonizando»), as taras psiconervosas e viciosas («Fico a delirar, irrequieto, / preso desta emoção toda histerismo…», as excentricidades e bizarrias multímodas («Ei-la que vem andando, a Grande Dama, / mãos em cálice aberto, sobre o seio…»), a musicalidade e a liberdade prosódica (o recensor Álvaro Maia viria a acusar João d’Almeida de não saber contar as sílabas), a imagética sensualista (rutilista, necrófila, nosológica…: «Templo de ágata», «tenho suores na fronte cadavérica»…) ou ainda os raros vocábulos («quimeral», «longevas», «vesperal», «latescentes»…).
Pintor de poentes rútilos e de desejos febris, outros encantos se desvelam ainda na limitada e estimulante obra de João d’Almeida. Converta-se este memorial em eco do tempo e em palavra perene. Noivável com o presente, a dignidade desta poesia é uma régia flor que assim abraçamos em lamentação profunda por um livro primeiro que não viu segundo. Desterrada como se promete na epígrafe camoniana, é tempo de ouvir a voz da poesia que do chão se levanta:

E na poalha,
a inundar a mortalha,
do sangue de mil feridos, pelo chão,
o Sol é um jovem rei, um rei sem par,
louco de dor, perdido na batalha…
O Sol é D. Sebastião
Morrendo devagar.                                                    [Correio Beirão, nº 9.]



2014-03-22

Farpinhas - dezasseis

FARPINHAS – DEZASSEIS

O português é um caso típico de coragem. Sem queixas que se ouçam, quando nos sítios de o fazer, mostra sempre a sua fibra na internet e nas redes sociais – que sim, que ele arde de despeito, que ele é um moinho de socos, que assim não poder ser, que da próxima é que será, que eles verão…
Ginasticado, muitas vezes o caso típico de coragem destila a sua oposição vestido com roupa desportiva e cachecol, acompanhando os seus bravos atos com os golos da sua equipa de eleição. O caso típico de coragem nacional é também conhecido por «se».
Os «ses» são assim, corajosos. Tudo aguentam, com força muita de velhos antepassados, alguns deles conquistadores – dizem. A revolução e a revolta faz-se todos os dias, na internet, nos blogues, nas redes sociais, com coragem. Não se mexendo, o se transpira coragem. Ainda ontem assistiu na televisão a um protesto de trabalhadores e conseguiu soltar uns ais e uns uis. Com tanta coragem, o «se», enredado na vertigem comunicativa, enfrenta, musculado e sem dar conta, todos os desafios. Morto, não dá conta de que a inação é terreno da morte.

Privatização da escola pública, desqualificação do serviço nacional de saúde, incapacidade da justiça, salvaguarda de poderosos, mentira, usura e roubo, eis alguns dos crimes de que estado se investiu. Na jogada, muitos assistem, nada fazendo, nada dizendo que não seja um malfadado se. Este «se» pensa que existe. Bem clama Maria Filomena Mónica dizendo que «Portugal é hoje um país de mortos». Mas o «se» vive e anda por aí.

2014-03-21

sexta ao poema - «A rua solitária» de William Carlos Williams


The Lonely Street
School is over.  It is too hot
to walk at ease.  At ease
in light frocks they walk the streets
to while the time away.
They have grown tall.  They hold
pink flames in their right hands.
In white from head to foot,
with sidelong, idle look—
in yellow, floating stuff,
black sash and stockings—
touching their avid mouths
with pink sugar on a stick—
like a carnation each holds in her hand—
they mount the lonely street.
Online text © 1998-2014 Poetry X. All rights reserved.
From 
Sour Grapeshttp://ir-na.amazon-adsystem.com/e/ir?t=jough-20&l=ur2&o=1 | The Four Seas Company, 1921

A Rua Solitária
A escola acabou. É muito o calor
para passear à vontade. À vontade
passeiam elas pelas ruas de roupa leve
para passar o tempo.
Como cresceram! Transportam
na mão direita róseas chamas.
Níveas dos pés à cabeça,
passam de olhar furtivo –
de amarelo, roupas leves,
pretos o cinto e as meias –
roçando as ávidas bocas
no pau de açúcar rosado –
como cravo que as mãos tocam –
elas avançam pela rua solitária.
[tradução de martim de gouveia e sousa]

2014-03-20

[no mundo]

[no mundo]

e sem milagre o avanço faz-se nas águas
caminhante cego o homem humidifica-se
na sociedade canibal rende-se ou não
e quando a dorsalidade impera os líquidos
tomam-no da medula à pele em coroa:
que serias se abraçado ao instante às veias
dos interesses e às clareiras do egoísmo?
o que és assim estrangulado na matéria
de que outrora fugiste que vinho novo és?
que veias enfim libertadas se pungentes
todas as partes veem o enredo das teias?
deixa de novo que a beleza te trabalhe
abandona a pungência do encordoamento
e árduo na memória permanece intacto.

cúmplice assiste agora ao que és no mundo. 

2014-03-19

«Beatriz Pinheiro deu vida à cultura de Viseu» - por Fátima Mariano


Artigo de Fátima Mariano sobre Beatriz Pinheiro publicado, em 8 de maio de 2010, no «Jornal de Notícias»...

2014-03-18

farpinhas - quinze

FARPINHAS – QUINZE

Foi Ricardo Paseyro quem me chamou a atenção para a proliferação destes seres tão adequadamente apodados de «filósofos saca-migas». Mas eu já os conhecia e sempre, sem grande acrimónia, contra eles vociferei. Coitados, se se alimentam de evidências e vulgares notícias quotidianas!
Como máquinas de recorte, os filósofos saca-migas estão sempre perto de nós. Amigos do mundo, mesmo que o conhecimento tenha segundos, estes filósofos nascentes nascem sábios. Por via de norma, estes amigos do saber falam sobre assuntos muito recentes e às vezes contam-nos a sua bulimia – para eles não há fronteiras, bebendo em grandes haustos televisão, internet, música, jornais, lançamentos, colóquios, casamentos, batizados, necrológios e, pasme-se, informação detalhada dos produtos das grandes superfícies.
Estes pinta-monos da moda, também ditos filósofos saca-migas, são muito bem apanhados, porque, de facto, tudo apanham. Presos no acúmulo dos acontecimentos, alguns destes espécimes andam a escrever umas inenarráveis «histórias de um átomo» há duas décadas. Outros, cumprem ainda o rigor da primeira década. Mas, em rigor, o mais normal é que o filósofo saca-migas nada diga. Na azáfama do sacar, o estranho filósofo de nada se apercebe. E nisso está toda uma filosofia que o saca-migas não divisa.

2014-03-15

LIMIARES DA ESCRITA Quadros de João Pedro Grabato Dias em «40 e tal sonetos de amor e circunstância e uma canção desesperada» (1970)


 LIMIARES DA ESCRITA 
Quadros de João Pedro Grabato Dias em 40 e tal sonetos de amor e circunstância e uma canção desesperada (1970)

Todos nos lembramos dele e do perfume diferente que a sua presença infundia. O poeta João Pedro Grabato Dias, noutras artes (na vida e na pintura), António Quadros, esteve junto de nós, mergulhando-nos na difícil capacidade da diferença. Mais alto que baixo, tisnado, de boina basca e muitas vezes de cachimbo, alinhava-se na sua impecável verticalidade dentro de um fato-macaco azul, o nosso escritor divisava-se desde logo, ao vento entregando os caracóis transbordantes dos longos e sobrantes cabelos. A bem dizer, a imagem do poeta nascia das originais patilhas. Vejo-o todos os dias cruzar a nossa cidade e ele já não está entre nós. Mas está.
António Augusto de Melo Lucena e Quadros nasceu em Santiago de Besteiros,  a 9 de julho de 1933, vindo a falecer, por início de julho de 1994, no lugar natal, com inconclusos sessenta e um anos de idade. Entre os pontos alfa e ómega, o artista diplomou-se em Pintura pela ESBAP (onde ainda lecionou, preparando-se para um sonhado doutoramento em Arquitetura), estudou Gravura em Paris, passando a viver em Lourenço Marques até 1985. Cantado por José Afonso e Amélia Muge, João Pedro Grabato Dias (também Frei Ioannes Garabatus e Mutimati Barnabé João) é detentor de uma obra literária desconcertante, vasta e quase sempre genial.
E tudo começou na velha Lourenço Marques, quando o poeta se viu premiado com o prémio Reinaldo Ferreira 1968 da câmara local. Eugénio Lisboa explica como tudo se passou: deparando-se com um poema excecional, o júri do concurso (de que faziam parte, para além de Lisboa, Rui Knopfli, Orlando Mendes, Eduardo Parreira e Maria de Lourdes Cortez) logo decidiu da superioridade de um poeta que nunca veio a reclamar o prémio, nem tão pouco se apresentou – até ao dia em que irrompeu perante si João Pedro Grabato Dias, agora com rosto social, com um punhado de sonetos que originariam os 40 e tal sonetos de amor e circunstância e uma canção desesperada.  Diz Eugénio Lisboa na segunda orelha do livro: «Os sonetos traziam de novo aquela voz singular ulcerada e mitológica, ensimesmada, onírica, ironicamente realista, brutal, descabelada, ardentemente bizarra, reveladora de um mundo fantasmagórico e quase demasiado verdadeiro, traduzido por uma extraordinária fauna léxica que a um tempo nos subjuga e desorienta…»
Sem hesitação, reabro o livro e leio e subjugo-me a um magnífico itinerário lírico que diz:
                               3

Percorro um itinerário de palavras
rumo ao estratificado. Pouso o metro
infantil e maquinal, o quase incesto
matinal do riso. Ó puras glabras

endechas transparentes, do canhestro
inquietante amor das velhas fadas!
Roçagante festim de sedas! Searas
ornadas de despojos do funesto

rir apocalíptico e dorida
ânsia! Fosse eu menino ainda, e a dor
só a antiga sensação carente,

grande avó de regaço permanente
acolheria o sono. Hoje, incolor
orfeu de luxo, a dor é preferida.


Espantosamente em nós, na raiz do granito das nossas ruas, as palavras dizem o que são, «desde Tomar a Viseu»… 

2014-03-14

[incêndio]

[incêndio]

a água cai copiosamente nestes ombros que me exaltam
é trabalho muito antigo que me faz cão sentado no mundo
limo todos os dias as arestas do vento e as más notícias
e  nu regresso ao labirinto da casa no estertor da noite…
lesto abro todas as janelas regressando ao excesso da cal
limpo mesmo as últimas humidades a sujidade das roupas
os terrores sagrados desaparecem na ilusão das alegrias
e os caminhos afundam-se dos telhados a chuva cantante
lavando a pele as rugas luminosas os esteios da carne…
no dia vindo nascente uma fonte ázima  traz a erva à boca
brancas as mãos fundem-se no chão no soalho ardem.

2014-03-12

[plenitude]

[plenitude]

é no corpo que o mundo se escreve
todas as memórias são assim líquidas
como sangue que o coração empurra.
olha-te dentro até ao fundo do poço
não esquecendo as velhas imagens
que o vão tornando buraco antigo.
o que vês e sabes passeia-se nos ossos
trilhando os sulcos da pele como gritos
e às vezes as mãos rebentam na boca.
escrito na pedra o corpo arde pleno…

2014-03-11

RANGEL OU O LUGAR COMUM

RANGEL OU O LUGAR COMUM

Achando codicioso despertar os 101 Dálmatas ao ritmo beat do twitter, Paulo Rangel banalizou-se em banalidade mais do que banal. Dizendo que a agenda europeia de Seguro é lírica Rangel nada diz que não passe pelo descuidado uso de uma palavra que deveria ser respeitada. Mas, claro, quem não sabe da arte lírica só poderá mostrar tacanhez e vulgaridade. E bordão é também dizer que «Durão tem mais apetência para cargo internacional». Não nos diga, senhor candidato!
Há, de facto, gente com muita apetência. Di-lo, por exemplo, um Arnaldo de Matos, por novembro de 1993: «Se um indivíduo como o Durão Barroso não hesita, contra instruções minhas, em sanear uma professora excelente como a Magalhães Colaço, não é de admirar que se torne depois ministro do Cavaco. Ele fez tão mal quando esteve na esquerda como quando está na direita.»

Veremos, em breve, para que servirá de novo a apetência de Durão. Até lá, em ritmo banal, ouviremos Rangel e, se calhar, Assis. Mas ouviremos? 

2014-03-10

LIMIARES DA ESCRITA A «Vida Bohemia (amor e satyra)»: José Branquinho & o descaso


LIMIARES DA ESCRITA 
A Vida Bohemia (amor e satyra): José Branquinho & o descaso
Sulcando os mares da poesia e o peso de mais de um século, resulta estranhíssimo que a mais do que produtiva lira de José Branquinho não seja exalçada pelos sabedores da coisa literária e antes seja praticamente sonegada. Não se entendendo, desde há muito e cada vez mais, a cultura como central energética, não espanta até que alguns dos nossos melhores nomes – e só os de cultura me interessam… - permaneçam pendurados numa qualquer rua, sem outras referências e mobilizadores enquadramentos. Afinal, os nomes mais não são do que meros usos utilitários ao sabor da usura política.
José Branquinho nasceu em Viseu, no ano de 1871, tendo estudado na cidade, por cá cumprindo algumas etapas liceais, antes de entrar na vida ativa como amanuense do Comissariado de Instrução Primária distrital. Dividindo-se a sua atividade profissional pelas cidades de Viseu, Porto e Lisboa, o legado de José Branquinho é todo ele poético e cultural – dispersa permanece ainda uma importante colaboração do poeta em publicações periódicas. Acometido por doença mental, Branquinho, que era revisor do Diário de Notícias, suicidar-se-á em 1916, engrossando um já caudaloso rio de «suicidados da sociedade» com indesmentível genialidade – lembrar Ângelo de Lima, António Gancho ou Sebastião Alba é aqui mero exercício…
Mas esqueçamos o condicionalismo que tantas vezes permeou autores maiores e deixemo-nos levar por esta Vida Bohemia (1901), uma edição da tipografia viseense Folha, que abre sob a alçada de homenagem do Autor a seu Pai, Francisco Gomes de Macedo Branquinho («Se alguma coisa vale ou significa este livro, sejam esse valor e significação testemunho de amor filial, e homenagem ao seu inquebrantável carácter.») e se alonga por rotas de dor e de confissão. Assim acontece com o esclarecido e ominoso primeiro poema, «Eu», que logo parece desvelar o futuro a haver do então poeta nascente:
Como tantos de vós, na minha infância encalma,
Percorri a cantar a estrada da loucura
              Em doce devaneio;
Simples de coração e de ilusões na alma,
              Feita de paz e anseio.
              De esse passado ardente,
De esperanças ideais numa ideal ventura,
Dos sonhos infantis que já não sonho agora,
              Sinto que no meu seio
              A saudade mora!

E segue o poeta por via lacrimosa lembrando o tempo das ilusões e das quimeras, rindo e chorando dos ritos da dor, fingindo como se não fingisse: «E finjo que não amo o que em verdade adoro! / E minto para mim, e rio de mim mesmo!» (explicit do poema «Eu»).
Sem grandes sinais de abismos extrapoéticos, mostra-nos ainda o poeta lugares da cidade de Viseu que todos conhecemos (o Fontelo, o Cemitério, o Rossio…) ou espaços culturais que se querem habitados (Victor Hugo, Augusto Hilário, João de Deus…). Hábil e certeiro, era temível a verve lírica e satírica de Branquinho, como acontece no poema «Sua Ex.ª (Tipos… de fora)», a lembrar, nalguns pontos, o grande Cesário Verde.
Lutando contra as mágoas persistentes, José Branquinho merecia um outro futuro e um outro modo de atenção. Mas quem quer olhar para esta existência que assim vai na levada? [Correio Beirão, nº 7]


2014-03-04

Pensamento assistido por Rui Nunes


«Aquilo que me perturba em Portugal é a mansidão.» [Rui Nunes, in Expresso / Atual, 30 de novembro de 2013].

Perante o pântano, tal diagnóstico merece meditação. E ação.

2014-03-01

LIMIARES DA ESCRITA: António Alves Martins, o poeta e a desgraça


LIMIARES DA ESCRITA
António Alves Martins, o poeta e a desgraça

É um lindíssimo objeto estético aquele com que António Alves Martins inicia a sua obra impressa em livro. Principalmente poeta, mas também jornalista e diretor editorial (da coimbrã A Galera), o sobrinho do bispo Alves Martins nasceu em Viseu, no dealbar de outubro de 1894, vindo a falecer, depois das vivências coimbrãs e lisboetas, nesta mesma cidade a 22 de fevereiro de 1929, vitimado pela tuberculose que o afetava desde há anos. Talvez o burgo mal o lembre, talvez não o conheça até. E, no entanto, estudou no então Liceu de Viseu, deambulou e sonhou nas esquinas agudas das ruas da cidade que é seu berço e influência, bem antes de ter cursado Direito em Coimbra e ter sido bancário em Lamego, redator do Diário de Lisboa e escrivão no espaço que o viu nascer.
A coletânea Anunciação, ilustrada na capa por António Soares e vinda a lume em agosto de 1921, espalhava desde logo, cataforicamente, o rito dolorido do curso vital – afinal, o que o poeta anunciava, em matriz neorromântica, era a lassidão e exaustão de tudo. Com motivos assinalados (ingratidão, saudade, ausência, ansiedade, destino, mágoa, evasão, inscrição, desengano… ), lugares de eleição (a Senhora da Lapa, Leomil e a zona do Távora…) e afinidades eletivas literárias (Camilo e Guedes Teixeira, por exemplo), destaca-se ainda do conjunto poético a injubilosa nota sobre o país: «ai, que Portugal / é o país da ausência!».
António Alves Martins será sempre um poeta com inscrição na literatura portuguesa. Multímoda, a atividade do escritor estendeu-se da tragédia ao mais depurado lirismo, do drama à entrevista (e Fernando Pessoa foi um dos seus entrevistados…), do academismo à colaboração crítica e literária, por exemplo. Perseguido pela desgraça da má sorte, um poeta como Alves Martins não se rende nunca, antes assume aquilo que é: «Enfim, / Desculpa, eu sou Poeta: / Só sei escrever assim!» (p. 15).  
E quem só sabe escrever assim aproxima-se, no sentido de Gamoneda, do território do frio onde a poesia conhece o revigoramento soprado pela morte. Assim nesta «Sina crepuscular» que transcrevo e o poeta dedicou ao seu irmão Adelino:


Erro, de incerto. Desconheço o norte.
Dentro de mim a luz do sol declina!
- Um cigano vai ler a minha sina:
Estendo a mão… vou entregar-me à sorte!...

No vagabundo olhar, como em transporte,
Sonho a Aventura, a Caravana, a Ruína…
- Diz-me que tem inspiração divina;
Que prende a Vida e tem poder na Morte!

Revejo-o bem: descende de alcateias;
Andou a monte; incendiou aldeias!...
- Aberta a mão, vai ler-me o desengano.

Depressa, a minha sina, oh peregrino!
- Meu Deus! Como será o meu destino,
Para viver na alma dum cigano?! (pp. 67-68)



E há um brilho nisto que me entra no olhar. Como não ouvir a voz do poeta na noite em que o escrevo? [Correio Beirão, nº 6.]

2014-02-25

[quase vida]

[quase vida]

junto à janela a água anuncia o rio
escorrente a vida indo nesse fio…

2014-02-23

LIMIARES DA ESCRITA - O escritor António de Albuquerque, o demolidor da Monarquia, também foi poeta



LIMIARES DA ESCRITA
O escritor António de Albuquerque, o demolidor da Monarquia, também foi poeta


Sempre que passo junto ao velho solar do Arco, e quotidianamente o faço, é de António de Albuquerque que me lembro. Afinal, foi aí que nasceu o escritor que Teófilo Braga viu como o principal demolidor da monarquia portuguesa, ele que nascera nobre de solar. Autor de um romance polémico intitulado O Marquez da Bacalhôa (sic, em 1908), que Rocha Martins admite poder ter sido despiorado por Aquilino Ribeiro, Albuquerque atingiu, através do escândalo, o êxito desejado – o escrito, falsamente publicado em Bruxelas, insinuava uma vida de devassidão de D. Carlos e aludia até a uns amores sáficos da Rainha Dona Amélia, o que era motivo suficiente para que a sociedade lisboeta procurasse avidamente a publicação cujo título terá sido proposto por Gualdino Gomes.
D. António de Albuquerque do Alardo de Amaral Cardoso e Barba de Meneses e Lencastre ou D. António de Albuquerque do Amaral Cardoso de Vilhegas e Guzman Barba Alardo de Lencastre e Barros de Menezes Pina e Lemos, fidalguíssimo, nasceu em Viseu, na casa do Arco, em 11 de Março de 1866. Os primeiros tempos da sua vida passou-os Miquéque (assim era conhecido na cidade) naturalmente, esgotando-se-lhe a juventude em viagens. Absorveu, nessa fase, uma educação e uma instrução tipicamente parisienses. Tendo vivido em Paris, não espanta que tenha sido penetrado pela influência da literatura francesa e do republicanismo. Em Portugal, a sua maneira mundana e convivial era censurada e incompreendida. Sedento de brilho, que o seu valor parecia merecer, deixou-se instigar pela moda republicana e pelo estrépito do papel principal. Por trás manobrariam, sem que António de Albuquerque muito bem entendesse, aqueles que o queriam assim, eco de ideias não amadurecidas. Parecia gostar de ser adulado e o seu reconhecido talento era explorado por muitos, que o alcunhavam de Lêndea – a tez, o cabelo cor de limão e o apegamento às mulheres assim o haviam fomentado.
Poeta, romancista, tradutor, prefaciador e ensaísta histórico, António de Albuquerque iniciou a sua carreira literária com Arco-Íris (1899), coletânea de poesias que o escritor fez publicar na Imprensa de Libânio da Silva, em cujos prelos, alguns anos volvidos, seria impressa alguma da obra da poetisa Judith Teixeira, um outro nome também nascido em Viseu.
As primícias poéticas de António de Albuquerque não são anunciadoras de um grande nome, anunciam, no entanto, um espírito audaz que a história haveria de conhecer. Referindo-se liricamente ao arco-íris, nome que é título e início da antologia, o sujeito poético larga a seguinte apreensão:
Eu quero decompor a tua luz audaz,
Penetrar em ti como num templo,
Desmontar uma a uma as tuas cores,
Impregnar-me delas:
E em versos – aguarelas
Com pincéis de pétalas de flores,
Cantar tuas formas, teus cambiantes,
Filhos d’ estranha luz, d’ estrelas e diamantes.

Neste caminho nascente estava o anúncio e a raiz de uma coragem indisputável e nem sempre desinfluenciada. Na biografia do escritor inscrevem-se-lhe as suas culpas e as alheias, que o homem, esse, tudo sofreou.  [Correio Beirão, nº 5] 




2014-02-21

[caminho]

[caminho]

de regresso falarás quando voltar a chuva
e dentro do lago encontrarás esta chave
que há muito sepultei dentro da noite…

acende a alma perscruta todos os ventos
lado a lado as estrelas anunciam o tempo
deitando-se brilhantes nas tuas águas…

derruba os muros nada cedendo de ti
afunda-te no lago em que te contemplas
como borboleta irisada sobre narciso…

deita-te agora ouvindo o tropel do coração
não mistures as cores e os ácidos dos dias
incendeia-te desde os ossos ardendo…

peregrina então a chuva virá ao caminho.

2014-02-20

[reconstrução]

[reconstrução]

reconstruo a casa desde as mais íntimas fundações
bloco a bloco subo da escuridão ao breve raio de luz
comigo arrastando as pedras sobre os músculos tensos.

não cedo à tentação dos rios nem espero o rigor da chuva
avançando sempre pelos labirintos abertos pelos dedos
em busca das últimas telhas que nem de longe vislumbro.

no patamar da terra neste horizonte de bruma eis o musgo
as fundantes barras dando os primeiros tetos e paredes
e o deslumbramento dos ferrolhos nos quartos nascentes.

em caracol ascendo do centro da terra ao alto elemento
percorrendo célere espessos corredores de tempo lento
declinando nos cotovelos nas arestas da inquietude vindo.

na abóbada do mundo estendo as mãos a última telha nelas.

2014-02-19

[exílio]

[exílio]

um sobre outro os dias passam
passam os dias sobre os dias
como lacrimejantes os olhos
vertem  lágrimas sobre lágrimas.

assim este sol  peregrino vem
e cai aqui neste fim de mundo
cimeiro como as belas aves
que te contemplam de altos ramos.

outro dia passa na tua prisão de fim de mundo.

2014-02-17

[reconstrução]

[reconstrução]

reconstruo a casa desde as mais íntimas fundações
bloco a bloco subo da escuridão ao breve raio de luz
comigo arrastando as pedras sobre os músculos tensos.

não cedo à tentação dos rios nem espero o rigor da chuva
avançando sempre pelos labirintos abertos pelos dedos
em busca das últimas telhas que nem de longe vislumbro.

no patamar da terra neste horizonte de bruma eis o musgo
as fundantes barras dando os primeiros tetos e paredes
e o deslumbramento dos ferrolhos nos quartos nascentes.

em caracol ascendo do centro da terra ao alto elemento
percorrendo célere espessos corredores de tempo lento
declinando nos cotovelos nas arestas da inquietude vindo.

na abóbada do mundo estendo as mãos a última telha nelas.

2014-02-16

As mãos de João de Araújo Correia


Tudo vem das mãos, de umas mãos assim, que ainda não há muito aqui foram exalçadas por familiar do escritor.
Tudo vem das mãos, repito. De umas mãos que, em fevereiro de 1974, diziam:

«Em Canelas do Douro, ainda há museu vivo em outras relíquias. O essencial é devassá-las antes que dêem o grito. A linguagem que ali se falou, se ainda subsiste em boca desdentada, é apanhá-la, que vale oiro em pó.» [10-2-74] (João de Araújo Correia, «Pontos finais», Régua, Imprensa do Douro Editora,1975, p. 126).

Umas mãos assim tudo resgatam do tempo escultor...

2014-02-14

LIMIARES DA ESCRITA «A barca segue avante a todo o pano» - os «Poemas» de João Fonseca Amaral


LIMIARES DA ESCRITA
«A barca segue avante a todo o pano» - os Poemas de João Fonseca Amaral

Em passeio por dentro do inverno, aqui, pela nossa cidade de Viseu, junto às pontes da zona da Ribeira, a chuva mais do que oblíqua segredou-me que a desmemória é pecado dos homens. Eu já o sabia desde há muito e não o pude negar. Aqui à minha beira, junto a esta água, que é barca que «segue avante a todo o pano», nascera, pelas sete horas e quinze minutos do dia seis de março de 1928, um indivíduo de nome João da Costa Fonseca Amaral. Talvez em Viseu poucos saibam quem é e talvez isso pouco importe a quem continua a pensar que o que não se sabe é culpa de outros ou simples minudência sem préstimo.
Este é mais um caso terrível de incúria. Eu explico dizendo que João Fonseca Amaral é, como o diz Rui Knopfli, «um dos nomes mais altos e representativos da Poesia em Moçambique», tendo influenciado o próprio Knopfli e nomes tão fortes como os de Noémia de Sousa, Rui Nogar e José Craveirinha, para só falar em quatro.
Poeta escassamente transbordante e muito menos operoso, Fonseca Amaral foi um escritor que disseminou a sua obra por publicações periódicas, cedendo, ocasionalmente, ao difícil trabalho de tradutor. Conhece-se-lhe produção lírica desde meados da década de quarenta do século passado e essa teia poética desaba sempre em nós como funda necessidade – uma poesia assim só pode ser lembrada e lida e meditada. Foi fundamental o trabalho de Eugénio Lisboa na organização destes Poemas publicados em 1999.
«Peguei  no cajado / E pus-me a caminho», dizia poeticamente Fonseca Amaral em 4 de março de 1945. Buscava o poeta um «castelo fantástico / Onde o mais ínfimo habitante / Tinha uma lágrima a chorar / Por um desgosto, uma mágoa, / Por tudo… nunca por nada.» E esse todo se, por um lado, segue por toada disfórica, por outro, o mesmo encantamento triste alarga-se por águas eróticas, musicais e subjetivamente alvoroçadas - a poesia de Fonseca Amaral é também «boca-estandarte / para gritar», até porque, como o diz o poeta em outro magnífico poema, a «luta é um cravo aberto»:

- Ai, amigo,
como é longa a estrada
semeada de perigo
- Não, companheiro! A luta é um cravo aberto
vertendo sangue
longe… mas sempre perto… [maio de 1949]


Impenitentemente lírico, assim se assume o poeta, é esta poesia que irrompe ainda destas águas que contemplo fustigadas pela chuva. Da antiga Viseu nascentes, estas palavras ressumam ainda na nossa cidade como poucas outras. Vejo-as aqui no rio que contemplo:

Num país de bruma e reposteiros,
vaga um vago fantasma sorridente,
esparzindo a água lustral da alegria
embrulhado numa tímida réstia de sol
e dos seus gestos solenes sobe a música
que descubro em tuas mãos.
Assim te quero humana e musical,
junto de  macias cores que em minhas mãos retenho.
                                              [30 de setembro de 1960]


João Fonseca Amaral faleceu em 12 de fevereiro de 1992, numa das freguesias de Lisboa. Mas a «barca segue avante a todo o pano»… [Correio Beirão, nº 4]


2014-02-13

[capivara]

[capivara]

no vento que sopra vem uma capivara de ouro breve
abre-lhe a porta e dessedenta-a com a água do poço
esse punhado de amor é o alvoroço da nova estação
ressoando na casa o brilho da primavera instalando-se.

não recuses a paixão que, repara, lentamente arde
regressa a ti a esse caminho que a andorinha ousa
tecer-te no emaranhado dos cabelos  e das ondas.

que flor é esta assim ténue de seda feita crescendo
sensatamente nesta manhã desde a fronte da capivara?

2014-02-06

Pensamento assistido com João de Araújo Correia


Apanágio das vozes fortes é a capacidade de permanência, de pregnância dirigente. Assim acontece com as palavras de João de Araújo Correia:

«O intolerante, que julga conivente com adversários o amigo de ontem, a quem incensava, cobre-o hoje de lama. Não compreende que esta incoerência o desonra. Elogiar hoje e colher amanhã as velas do elogio, numa leitura eivada de partidarismo, é mudar de cara de um dia para o outro. Mas, se é assim que se vive ou vegeta no mundo de hoje...» (João de Araújo Correia, «Pontos finais», Régua, Imprensa do Douro Editora, 1975, p. 94).

E é assim que se vegeta, e vegeta muito...

2014-02-05

[blanchot]

[blanchot]

no café de sempre o filósofo escritor perguntava
que fazer para poder desaparecer sem nada dizer
e no eco do café fortíssimo nem o fumo o ouvia
nem do bulício dentro uma resposta se consentia.

só umas barbas de urizen vindas de funda treva
da mesa saídas ditaram um antigo exílio de poeta.

aí regressado não mais o vi no estranho silêncio.

2014-02-04

[abismo-me]

[abismo-me]

dentro de todas as noites meros ritos estremecem
são mares de silêncio esticados no chão em usura
onde gelados os ossos crepitam no sangue escuro.

do céu ao cérebro um indócil relâmpago  romperá
cavalgando os ares e as purpurinas vísceras de cera
como amargo epíteto atirado para fundo abismo.

2014-02-03

[reflexão]

[reflexão]

silencioso chegarás aos dias que se estendem sobre a mesa
porque inevitáveis os corpos serão meras ruas torcicoladas
e noites declinadas nos murmúrios baratos e nas usuras…

nos vidros cansados os olhos clamarão pela agudeza da luz
e a língua percorrerá os trabalhos & os dias dentro da casa
assim aberta à limpidez das manhãs e às boas fórmulas…

nus os braços esticarão a corda solitária dentro da cal.