2006-06-17

Paulo Medeiros em Vouzela


poema em prosa para vergílio ferreira

artsandscience.concordia.ca
A palavra liberta-se e avisa da porosidade da vida. Os seus fungos mesmo. O frio corta a montanha. Quase nada para dizer. A última palavra, a mais perfeita, do centro se levanta, inchando das veias cavernosas do corpo que já não sinto. Agora, em imagem, a babugem das ondas ilustra o corpo longe de mim, tempo inexacto, já distante, fugidio. Amanhece. De súbito, o sol cai a pique na seara. É tempo de te dizer aparição. Ouve, escuta: dentro de mim estás tu, eu contigo, eu já sem mim. Anoitece. Chuva breve, um cão que uiva, um irmão que sofre. Vou-te dizer: caminho longe, que tudo morre, neste vagão, quase mutante, face sangrenta, em manhã submersa, aparece, quase cântico final, ou estrela polar, na noite, a chamar-me, alegria breve, nítida, quase nula, que apenas homens te tomem, rápidos, na sombra, como um signo-sinal que para sempre, da esplanada do mundo, até ao fim, em nome da terra, te olhem na face, dizendo e escrevendo esta carta de palavras: Hoje a obsessão foi mais forte. Uma imensa vontade de escrever-te. Pudesse ao menos na minha memória doente recuperar o que tant... disse sem que o pensasse ter dito. E agora eu fora de mim no outro que não sou. A aldeia e a brisa do mar e os ecos transfigurados das gentes. Contra a montanha, um universo. O vento, a chuva, as casas gastas e esboroadas, a neve lustral no palco das danças espectrais por sob o céu recoberto de estrelas e embalado pela presença tutelar da lua. A palavra, o silêncio comunicante dentro do corpo. Coa-se a palavra vinda da força planetária e da explosão no éter. Do turbilhão das origens. Do por dizer ao que dizer, o emblema habita-nos e diz-nos a literatura que sempre interessa. O mar paira, a onda semelha a vida e enrola, mar deserto, voz que sobe lá dos confins da aldeia-universo, força constante que não fenece e que avança, frio na alma e na memória, sopro que acontece nesta música que não esmorece na casa deserta donde escrevo estas palavras alarmadas que para vós recupero. Entre mim e a fronteira da pele.

2006-06-16

David (24 Fev. 1927 - 16 de Junho 1996)

mário cabrita gil
PELE
Quem foi que à tua pele conferiu esse papel
de mais que tua pele ser pele da minha pele
(David Mourão-Ferreira, Do Tempo ao Coração)

amar Olivença


Divulgação 06-2006
205.º Aniversário da Ocupação de Olivença
Recordando ao representante do país vizinho a desonrosa ocupação deOlivença, o GAO entregou hoje na Embaixada de Espanha em Lisboa uma carta em que diz:
_______
Excelentíssimo Senhor Embaixador do Reino de Espanha
No dia 20 de Maio de 1801, há exactamente 205 anos, os exércitos deEspanha, conluiada com a França napoleónica, invadiram Portugal e ocuparama vila portuguesa de Olivença.Manifesta ofensa ao Direito das Gentes, assim foi entendido pelas Potências de então que, no Congresso de Viena de 1815, onde Espanha também teve assento, reconheceram absolutamente a justiça das reclamações de Portugal sobre Olivença. Por isso ficou consignado no Tratado de Viena, seu Art.º 105.º.«Les Puissances, reconnaissant la justice des réclamations formées par S. A. R. le prince régent de Portugal e du Brésil, sur la ville d'Olivenza et les autres territoires cédés à Espagne par le traité de Badajoz de 1801, et envisageant la restitution de ces objets, comme une des mesures propres à assurer entre les deux royaumes de la péninsule, cette bonne harmonie complète et stable dont la conservation dans toutes les parties de l'Europea été le but constant de leurs arrangements, s'engagent formellement à employer dans les voies de conciliation leurs efforts les plus efficaces, afin que la rétrocession desdits territoires en faveur du Portugal soieffectuée; et les puissances reconnaissent, autant qu'il dépend de chacuned'elles, que cet arrangement doit avoir lieu au plus tôt». Como melhor saberá Vossa Excelência, em 7 de Maio de 1817, há 189 anos, Espanha assinou o Tratado de Viena e reconheceu sem reservas os direitos de Portugal. Decorridos dois séculos sobre a desonrosa ocupação de Olivença, o Estado que Vossa Excelência representa jamais respeitou o compromisso assumido perante a Comunidade Internacional. Do carácter honrado, altivo e nobre queEspanha diz ser o seu, não houve manifestação e, ao contrário, actuando com ostensivo desprezo pelo Direito e pela palavra dada, Espanha cobriu-se como labéu da vilania. Eis, singela, a «Questão de Olivença»: uma parcela de Portugal foi usurpada militarmente pelo Estado espanhol, há 205 anos, extorsão não reconhecida e ilegítima face ao Direito Internacional. Não obedecendo ao Direito nem respeitando os seus compromissos, é Espanha, de que Vossa Excelência é Embaixador, que se desonra. Quanto à ofensa que a ocupação de Olivença constitui para Portugal, compete aos Portugueses apreciá-la e julgá-la. Da ofensa feita à Justiça e ao Direito, bem como da desonra trazida pela quebra da palavra dada, pertence a Espanha e a Vossa Excelência conhecer do seu significado.

Atentamente,

A Direcção do Grupo dos Amigos de Olivença

Lisboa, 20 de Maio de 2006.

2006-06-15

uma história de família: a minha prima Teresa Veiga















Este é um objecto principal na literatura portuguesa e uma voz nodal do nosso conto. Digo-o e mostro. Assim.
Nem memória, nem saudade, nem infância, nesta prenda que muito esconde. Que vinda da literatura, do seu centro, pouco se mostra, longe do falatar inchado dos “Doutores”, que não lêem, nem sabem ou são. O desconforto dos encartados e dos apaniguados é normal, como corrente é a dor dos que amam a literatura: encalço do não-sabido, desdouração dos mitos, corrida perdida e ganha no deslumbramento das páginas por saber, impotência fecunda pelo abarcamento do muito que interessa, lucidez selectiva para cheirar e logo fugir, sagacidade rápida e rente ao olfacto...
A devastação da pós-modernidade afecta o gosto e o “tempo e o modo” do dizer. Digo pós, logo pós-pós-modernidade e sinto, contra as muitas armadilhas “literárias” que infectam as superfícies comerciais ditas grandes (do jogador que escreve, do jovem concursante que literata, da modista que confecciona a epopeia da agulha...), sinto, repito, o sopro da biblioteca de Alexandria, a modulação de Petrarca, a centralidade de Shakesperare, a ironia de António Franco Alexandre e o misticismo de Daniel Faria. Simplifico, caro leitor: em literatura, há o fora e há o dentro.
Teresa Veiga é um nome nodal na literatura portuguesa e habita o lado de dentro da “coisa literária”. Sem festa ou convivialidade estéril, no domínio de uma “marginalidade” desejada que só aos eleitos assiste. Esse apagamento é um risco que muitas vezes colide com a canonização literária. Insisto, Teresa Veiga é um dos grandes nomes do conto português e a narrativa breve não prescinde da sua forma original de o dizer.
Há escassos meses, num conceituado suplemento literário da nossa praça, nada se dizia sobre os dados biográficos da escritora e não se acertava sequer com a bibliografia completa da notável contista. Afectado como Fernão Lopes pelo complexo do véu (sigo João Mendes, S.J., no asserto lopiano), complemento e alargo as informações vulgares.
Teresa Veiga é o nome literário de Maria Teresa Lobo Vilela de Gouveia e Sousa, que nasceu na capital, em 1945. Licenciada em Direito, viveu por pouco tempo no Alentejo e no Algarve, logo regressando a Lisboa, onde reside. Até ao momento, publicou, em: livro “Jacobo e Outras Histórias” (1981), obra recomendada pelo júri do prémio literário “Círculo de Leitores”; “O Último Amante. Novelas.” (1990); “História da Bela Fria” (1992), que foi “Grande Prémio de Conto”; “A Paz Doméstica. Romance.” (1999); e “As enganadas. Contos.” (2003), que considero um dos melhores livros da literatura portuguesa do ano transacto, pese embora o silêncio de boa parte da crítica. Acrescento ainda que a autora publica na Cotovia e que esta indicação está de acordo com o preceito que defende que a literatura se lê e não propriamente se ensina.
As histórias de Teresa Veiga, como acontece muito com os melhores autores, obedecem a um preconceito: o de que a educação feminina, quase sempre esta, se deforma por uma educação cínica e doméstica. E, assim, tiranias e brutalidades, frustrações e aborrecimentos, abalos e abjecções ganham o centro da narrativa e expandem tentacularmente as suas forças. Os oponentes masculinos, recorrentemente presentes, encontram a morte de muitos modos ou de ictus apoplético. Mas não só. Há desde o primeiro livro uma deflagração irónica que é de assinalar. Corrosivo e fortíssimo, o complexo da ironia transmuta-se em sarcasmo, como o divisamos no conto “Culinária 3” (de Jacobo) e nos seus “Conselhos às jovens que querem abortar” que se concluem epimiticamente com o desejo de que as jovens grávidas possam “extrair alguns conhecimentos úteis para a eventualidade de um dia, a contragosto, se encontrarem de barriga cheia.”
Mal saí da primeira palavra, do livro primicial. Vou para “As enganadas”, de 2003. Releio. E de novo o declínio das vidas e a glória da literatura. Que é a vida e não é a vida, como o avisa o narrador do último conto “Confidência Barreirense” em admonição final. Não ter lido este conto é grave, porque o riso amarelo da melancolia fere. Avance, caro leitor, até à felicidade das coisas...

2006-06-14

Titulares do Liberalismo do Algarve

José Krohn da Silva e Miguel Maria Telles Moniz Côrte-Real, nomes bem conhecidos da investigação genealógica em Portugal, publicam agora em conjunto "Titulares do Liberalismo do Algarve". Trata-se da genealogia dos vinte e nove algarvios agraciados com títulos nobiliárquicos na vigência da Monarquia Constitucional.Esta obra resgata para a História a identidade de algarvios que contribuíram para o país com a sua posição de destaque, nos conturbados tempos do século XIX. É dado destaque à biografia pessoal de cada um, revelando também uma rica componente iconográfica. Além da origem social de cada titular, nos casos em que estes foram casados, as biografias de suas mulheres, também são desenvolvidas nesta obra.Ao longo de 440 páginas, desenvolvem-se neste estudo as linhas ascendentes e descendentes e algumas linhas colaterais dos biografados e de suas mulheres, alargando um leque de ligações com grande interesse para as genealogias da região do Algarve.O preço é de 43 euros - já incluídos os custos de expedição - e a obra estará disponível a partir do próximo dia 19 de Junho, data do seu lançamento na Sociedade Histórica da Independência de Portugal, Largo de São Domingos, Lisboa, podendo ser encomendada em livrarias seleccionadas.

depois de um ano um dia



ainda a eugénio de andrade / desenhos de manuel ribeiro de pavia
depois de um ano um dia
em que sentado humilhado
de novo corrente gasta
na rotina entras sem pensar...
agita estremece luta lembra
que uma coisa vaga e terna
tens na palma da mão:
a vontade de dizer não!
na pureza do gesto
e no calor do encontro
recolherás então o calor
que te anda desavindo.

2006-06-12

faz um ano que a morte

faz um ano que a morte
e nem por isso o homem
se aproximou da pureza.
indistinto nem sonho cobre
o vinagre da burocracia.
cego o funcionário funciona
podre da alegria do embalo.
em volta os senhores e os decretos
escrevem com voz cinzenta
e os chefes da mesma carne
aplicam ciosos o receituário,
com adendas e tudo.
no ritual mudo funcionário
um canário ri da prontidão.
nunca assim estendidos no chão
serão como os corpos de eugénio.

Grande Prémio APE

2006-06-11

Rodrigo Emílio (1944-2004) hoje: "Pequeno presépio de poemas de Natal"



Um poeta como Rodrigo Emílio transporta consigo uma linhagem que o tempo não ousa denegar. Filho do poeta e crítico Rodrigo de Mello, bisneto de Thomaz Ribeiro e familiar directo de um conjunto de escritores e artistas (Branca de Gonta Colaço, Thomaz Ribeiro Colaço, Jorge Colaço…), há nas palavras deslembradas de Rodrigo Emílio uma força poética que interessa reavaliar, agora já depois do tempo da morte, infelizmente depressa chegado.
Não cessa, no entanto, a forja do Poeta. E em boa hora vem a lume, na quadra indicada, este “Pequeno presépio de poemas de Natal”, editado pela Antília Editora do Porto. Abrindo com uma completíssima “Tábua bibliográfica” e um interessante “Elóquio” de António Manuel Couto Viana, a que se somam diversas dedicatórias e um ensaio do Autor sobre o tema da Natividade na poesia portuguesa, a colectânea emiliana
convoca, desde o início, os arcanos do dizer lírico: é de desesperança, silêncio e solidão que se faz um trilho multímodo – celebrativo e fluidescente, saudoso e indagador, monárquico e admirativo, unitivo e exemplar, fiel e testemunhal, ultramarino e nacional, beirão e português, sebástico e humano.
Cumprindo uma rota poética natalícia iniciada em 1959 e interrompida em 2004, Rodrigo Emílio é um caso de persistência temática e de ligação à matriz beiroa. Também por aí deve o Poeta ser revisitado, até porque a simbólica da constância da Natividade é sempre um especial encontro com a sua querida Parada de Gonta, aqui tão da nossa circunstância.
Do interessante florilégio de Natal, que é convite directo à compra e à prenda, escolho para exemplo o mais antigo, do Natal de 1959, que afirma, aliás, que o mistério, vindo de longe, está bem perto:

REMINISCÊNCIA DE NATAL

Coaxaram rãs no charco velho…
Ramalhou o sinceiral…
- Que noite é esta noite, aos pés da qual me
ajoelho,

Senão a nítida Noite de Natal,
que destaca da distância
todo o coral
d’ uma infância?

[também no Jornal do Centro, de finais de 2005, e em www.rodrigoemilio.com]

wwwevropa.blogspot.com


mais Judith Teixeira,

em wwwevropa.blogspot.com

2006-06-09

prazeres

deveres

possibilidades

Teixeira de Pascoaes em Viseu ou escrito sobre as aparências

Há uma carta de Teixeira de Pascoaes a Anrique Paço d’ Arcos que é deveras importante para a história de uma amizade exemplar entre dois grandes poetas e que, simultaneamente, comprova que o encontro do vate da saudade com a nossa cidade é tudo menos despiciendo. Trata-se de um texto epistolar, datado de 30 de Agosto de 1927, escrito em Amarante, e desvelador das relações do Autor de Marânus com figuras culturais viseenses, de nascimento ou de circunstância.
Mas não cessa aí o encanto desta missiva. Há outras alusões, à nossa região e não só, bem como uma encantadora deflagração do princípio irónico que permite concluir, neste caso, da actualidade e da presciência poética.
Vejamos como tudo se passa. Em busca de si e das suas sombras, consciente de que o homem não existe e é mera aparência, Pascoaes contempla Coimbra e ironiza sobre a fragilidade dos homens e a cegueira cultural. E tal reflexão a respeito da cidade dos doutores e dos estudantes é tanto mais interessante quanto se sabe das festividades culturais que por lá correm, alheias, no entanto, à límpida visão de um Poeta invulgar. Qual carta ao futuro vinda de 1927, eis o teor da ironia: “Assim meditei tristemente, em frente da Sé Velha e do Convento de Santa Clara, onde as mulas da artilharia substituíram as freiras do D. Miguel e do Camilo! Que tragicomédia! É da gente rir até incendiar Coimbra (passe a espanholada) e da gente chorar até fazer um dilúvio que inunde toda a cidade! E aquela cervejaria, na igreja de Santa Cruz? Oh manes de Henriques e Sancho! Hoje, não passais de pobres criados de café! Chama-se a isto democracia. Perfeitamente.” De então até hoje nada se alterou. Visitei recentemente os nossos primeiros reis em Santa Cruz e, como Pascoaes, não deixei de me interrogar sobre a persistência de tão grave atentado contra a memória cultural e a identidade de todo um povo.
Sigo para Viseu com o Poeta, que para a nossa cidade se desloca desesperançado já de se encontrar com Anrique Paço d’Arcos. Esperavam-no em Viseu Albano Guedes de Almeida, José Luís e um Ford. Albano Guedes era amigo íntimo de Pascoaes, ainda pintor e director do Museu Grão Vasco. Deste novo encontro com Viseu guarda o poeta uma vivíssima memória assim inscrita na carta mencionada: “Percorremos o berço de Viriato que faz pendant com o berço da monarquia, lá em cima, no Minho.” Ontem como hoje o mito do soldado bravo ocupa a história e inscreve-se, como sombra e como nada, no nosso local. E esse nada é tudo, porque não pode mais ser denegado por quaisquer cientismos que, no dizer de Amiel, são sempre inferiores à voz da poesia. Continuemos a ouvir o Poeta que diz da ligeira desilusão com este novo encontro com o Grão Vasco, do relacionamento com o poeta viseense Alves Martins (“Encontrei o Alves Martins que me agradou: mais carne e melhor cor.”) e do estranho sentimento face à existência de admiradores da sua poesia (“Num café de Viseu, apresentaram-me um admirador dos meus livros. Eu não acredito que haja alguém que os admire; e fico-me sempre espantado diante destes estranhos personagens que se dizem admiradores!”).
E há depois toda uma festividade em torno da chegada a Lafões, a Ansemil, que nos faz pensar no descanso do guerreiro e em dias iluminados de magia: “Passei dois encantadores em Ansemil. Comi de tudo e nada me fez mal. Nem o caldo verde, nem o bacalhau à espanhola, nem legumes com vinagre! Há terras onde mudo de estômago.” Esta atenção gastronómica, próxima mesmo da pregnância queirosiana, avança por S. Pedro do Sul, de ar minhoto, até Castro Daire, que “tem uma cor romana, mesmo virgiliana, carregando-se-lhe no rústico alpestre.” Aí o prazer da mesa passa a ser irreprimível: “Almoçámos de graça, num hotel, trutas, vitela de Lafões afamadíssima e mais dois ou três pratos deliciosos por nove escudos cada pessoa, incluindo vinho de garrafa e café!”
Abala para Lamego o Poeta, deslumbrado com o planalto de Montemuro e com as belíssimas aparições feminis. Em breve, beberá na “Raposeira” um “champanhe delicioso”. Siga Pascoaes a sua viagem debaixo do ‘reino trágico dos céus’...

2006-06-08

da década de 20: do êxito ao (des)caso poético de Virgínia Vitorino

imagem retirada de www.bananaetc.blogbrasil.com



Do céu ao inferno, pouco mais do que um flébil cabelo da década “folle”. Do estrondo e do fulgor corre, intestino, o silêncio que sempre rói. Em volta, só o espanto do tempo ri, tudo acertando, nem sempre acertando. Quantos passos em volta, aturdidos, esquecidos, só da época, nem da época? A poesia não tem idade, nem defesa, pese Cícero e o seu Árquias. Eis um caso de êxito, sem sucesso no devir. Nem oito, nem oitenta, no rigor hodierno que é sempre justiça.
Nesse agitado período, em termos de adesão epocal, a mais conhecida mulher-poeta é Virgínia Vitorino (1898-1969), ideia que facilmente se aceita face às doze ou catorze edições sucessivas do livro de poemas “Namorados” (1920). Tal posição, que exalta mais o sucesso que a qualidade, é seguida por Cláudia Pazos Alonso e por outros reputados estudiosos da literatura. Olhemos, no entanto, para o livro referido, que sucedeu ao soneto "Incerteza" publicado em 1917 n' “O Século” , e ajuizemos a respeito dessa obra que "obtém espectaculoso êxito" e permite a Vitorino uma "grande popularidade" na década que se abre à participação da mulher no sucesso literário, para usarmos as consabidas palavras, entre aspas, de Gaspar Simões. Sob o signo da epígrafe da Condessa de Noailles, "Amour, allez-vous en pour qu'on puisse mourir", “Namorados” , que reúne quarenta e cinco sonetos, é um livro que se inscreve no gosto da mulher burguesa da época, de suave jogo amoroso, tocata e fuga que se logo se esboroa contra a paixão que cedo fenece. Nada de novo, para os nossos dias. Um passo em frente, no entanto, nessa década de sensibilidade feminina ainda debutante. E, por isso, este livrinho, que seguirei na minha 3ª edição de 1921, não pode deixar de ser um espelho no qual as mulheres de então se reconheciam, não faltando, obviamente, como motivo central a tópica amorosa. Assim, temas e motivos como o desencontro e o amor fugaz que conduz à tristeza ("Quando te vi", "Os teus olhos", "Ventura", "À janela", "Meia noite"), a dificuldade da delimitação conceptual do amor ("Amor", "Não sei"), a esperança incrustada num passado desesperançoso ("Alleluia"), o excesso amoroso e as loucuras da paixão ("Revelação"), a alegria e o reverso triste ("Alegria", "Dia 13", "Cinzas"), o requestamento de amor, que encobre e não diz ("Interrogação"), a inconstância ("Os cravos", "Incerteza"), a solidão e as saudades ("Longe", "Excerpto d' uma carta") ou a fluidescência da vida ("Velhice") farão das primícias literárias de Virgínia Vitorino um irrefragável êxito, não mensurável pelo falacioso número de edições. É que, a par desse livro que se nos afigura banal - muitas das vezes, até, desinspirado -, levanta-se a exigência de um canal para um emissor feminino ( pensemos nas vezes que a poetisa fala de cartas e telefone), que sabe que está a corresponder a um público, decerto pouco exigente, que espera ouvir-lhe a voz. E essa voz, emitida e ouvida, afirma uma identidade feminil que se aperfeiçoa ainda sob a capa do permitido e do convencional. Mas que, de qualquer forma, afirma a autoria e a recepção de uma mulher-poeta, que, como veremos pelo exemplo seguinte, com grafia epocal, só podia cair no goto da convivialidade feminina:

Meu amôr
Nem eu sei porque choro ao pé de ti
agora que o meu pranto aborreceste.
Choro, talvez, o amôr que me tiveste,
choro o teu coração, que já perdi.

O teu rosto era triste; agora ri,
contente d'este mal que me fizeste.
O que fui para ti, tudo esqueceste;
só eu, tudo o que foste, não esqueci.

Porque te quero ainda, meu amôr,
se tu não comprehendes este horror?
Porque me prende tanto essa altivez?

Olha-me bem: se as lagrimas cahidas
ao pé de ti, são poucas, são mentidas,
Crê ao menos n' aquellas que não vês.

Em 1923, publica Virgínia Vitorino um novo livro de título “Apaixonadamente” , que contará, em 1925, com cinco edições. Prosseguindo na predominância sonetista, que transcrevo com as suas peculiaridades, Vitorino retoma os vectores do neo-romantismo lusitanista, convocando desde o título a pregnância do sentimento amoroso, da saudade envolta pela serenidade do rouxinol ("Sósinha"), da tradição portuguesa ("Carta": "E eu quando á tarde vou, pelos carreiros, / opponho ao frio um chaile... á portugueza.") e do cosmopolitismo de hábitos ("Fumas, finda a ceia, / os teus cigarros certamente inglezes..."), do renovo do teísmo cristão ("Manhã": "-Oh! como eu sinto agora renovada / a minha fé tranquila de christã!"), do ruralismo omnipresente ou da necessidade evasiva ("Impossivel": "E como eu doidamente apetecia / voltar de novo ao tempo que não volta!"), conseguindo um conjunto de poemas nada desinteressantes, de que destaco o poema "Veneza" e o perturbador soneto "Salomé", que assim finaliza: "Deusa do Rhythmo, Salomé, fluctua, / e ri, n'um grande riso, e dansa... dansa...".
Seguiu-se ainda, em 1926, o livro de poemas “ Renúncia” , que em nada fugia aos motivemas que o primeiro livro anunciara com a conexa efusão laudatória de Júlio Dantas. A poetisa é um caso nítido de sucesso editorial na década de vinte, tendo conhecido os três livros de poesia referidos, em conjunto, mais de vinte edições, em pouco mais de uma década. Quem mais conhecido, no seu tempo, afinal? O silêncio que rompo repõe um modo laborioso e feminino de escrever poesia. Também um arrojo pontual e judithiano. Penso. Como desejar mais?

2006-06-06

poema livre

Arthegarn

nem sempre as ondas ou a liberdade ou este livro
que a inquietação me traz ao corpo. sonho ainda.
soube agora nunca mais nesse lugar este meu sopro
tudo deixará de ser assim imagem de mim espelhada
sempre parada contra o tempo retalhado partido
imemória de sangue paixão ou esperança. sabes.
risos muitos corpo de criança verso antigo que passa
que canta o novo encontro e a livre dança de palavras
aguço o ouvido e os labirintos. acme por dentro.
úlcera de mim abismo dito mar interior búzio atento
eco vindo do mar e deste azul que sempre fito.
sabes. ferida do peito que dói. tempo parado no paul.
preso. e a pele ferida pelo aço dos pregos rindo.
e a pele presa ao plástico e aos cartuchos imundos.
e o lugar? cercado de homens de interesses de vontades.
desalmados e burocratas de lábios cortantes invejosos,
e a liberdade? como o filósofo de tocha na mão, sabes.

2006-06-05

José Régio: escombros & coração

Aguda, a palavra cai do peito do escritor. Sem felicidade, qualquer regresso vale um perlincafuz. E, no entanto, é dessa tibieza que podemos aprender a misteriosa vida da casa cordial.
José Régio é uma figura referencial da cultura contemporânea e uma das figuras literárias mais importantes do nosso novecentismo, todos o sabem.
Mas nem sempre assim foi. Régio cumpriu um difícil e atribulado processo formativo. Iniciando-se sob o pseudónimo José Régio com a “Toada de Natal”, de 1921, no semanário A República de Vila do Conde, avançou o poeta com colaborações coimbrãs em 1923 e 1924, em publicações como A Revolta e Bizâncio. Para trás ficavam já os precoces tentames poéticos (Violetas, com doze ou treze anos) e prosásticos da adolescência, bem como a anterior pseudonímia de que é exemplo a subscrição Vénus, no poema “Amor” vindo a lume no jornal O Democrático de Vila do Conde, pelo ano de 1915. Ficavam ainda para trás as já mais maduras colaborações na publicação quinzenal Alma Nova de Espinho e nas portuenses A Crisálida e A Nossa Revista .
Voltemos ao tempo de Coimbra, época em que, como o sabemos pelas Íntimo, Régio procurava uma fórmula que resumisse o fim da sua Arte e que, até novas ordens, seria aquela que ele plasmou no seu diário Páginas do Diário Íntimo, com data de 22 de Fevereiro de 1923: “Revelar, numa forma toda criada em relevos ou em sugestões, quanto há em mim de simultaneamente mais humano e mais íntimo.”
José Régio colabora na revista Bizâncio desde o primeiro número. Corre o ano de 1923 e o mês de Março, e eis que a nova revista coimbrã sai a lume com aquela nota programática de abertura da responsabilidade de Alexandre de Aragão: “Bysancio não significa de nenhum modo a sistemática exclusão da paisagem natural e formas nacionais pelo mármore dos cenários recompostos e nostalgias de poentes demorados e doentios. É mais um símbolo estético da união do que é uma resultante comum.” No entanto, e não obstante as palavras iniciais, replasma ainda a publicação coimbrã uma pesada influência simbolista e decadentista. Nela publica Régio o poema “Soneto dos Vencidos”, logo se seguindo, na revista nº 2, a “Canção do Regresso” e, no exemplar nº4, o poema “Humorismo a 40º de febre”. As vozes críticas logo se fazem ouvir, avultando, nessa reacção, os nomes de Álvaro Maia (que por Maio, referindo-se ao segundo número da revista, não se contém que não diga: “O sr. José Régio colabora duplamente: em prosa e em verso. A Canção do Regresso, maus versos: a Ultima pagina, réles prosa cheia de blasfêmia. Cebo para estes bysantinos! Para estas misérias do sr. José Régio não valia a pena estar a incomodar do somno poeirento a derrocada de Bysancio!”), e de um “amigo” de Régio, de apelido Cotta (?) (que diz, no terceiro trimestre de 1923: “Aquilo que V. compõe são bizarros retalhos de coisas que a mim, pelo menos, passam desapercebidas; o que V. ainda mais torna impalpáveis, filtrando-os pela sua imaginação ou mórbida ou exótica. Auguro-lhe que a sua compleição poética nunca se fará conhecer pelas suas composições.”)
É conturbada a iniciação de Régio, que se viu envolto em polémica, começando a ganhar notoriedade através da colaboração numa revista demasiadamente presa ao passado, enquanto a autora de Decadência, Judith Teixeira, começa a conquistar visibilidade na publicação que era o “canto do cisne” do 1º Modernismo.
Em 1926, publica Régio os Poemas de Deus e do Diabo, tendo o poeta defendido, no ano anterior, a corajosa e renovadora dissertação para licenciatura na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, intitulada As Correntes e as Individualidades na Moderna Poesia Portuguesa e subscrita pelo seu nome civil, José Maria dos Reis Pereira.
A presença estava já plantada no meio de caminho. Em breve, seria o tempo de Lelito e do respirar fulgurante da velha casa. Vale a pena começar de novo e colher de cada início difícil o sopro de um verso de Píndaro que atenue o ruir da cada muro.


2006-06-04

do círculo do silêncio: os "textos de execração" de hélio t.

para quem não conhece ainda

Nem da culpa conservada, nem da recusa mais bárbara vive o Poeta. Do silêncio do círculo, também arco de sal, o logómano lembra o início já dentro do texto.
Abandona-se o texto à partição, dizendo execração, maldição, imprecação, repulsão. Vindo da porosidade dos dias, as palavras e os versos que fazem cada poema dividem-se em “dizer”, “diz” e “disse”, que são formulários criativos tão antigos como o Mundo. Nesse dizer primigénio suspende-se o tempo, sendo presente e passado.
Um primeiro livro de um Poeta como hélio T. não é mera aparição primicial ou festiva. Antes transporta o peso, ainda contido, de um recorrente labor poético disseminado por revistas, antologias e publicações mais ou menos clandestinas. Lembro, a propósito, as mostrações na “plágio”.
Começo, então, junto ao início. A colectânea poemática atribui-se titularmente a modalidade da execração e não deixa, dependencialmente, de o “afirmar”, seja no paratexto epigráfico e catafórico (o Poeta desvela a vida que já não é), seja no corpo textual ou no deslizar dos versos ocorrentes.
Nada dizendo aos dias, funde-se o Poeta com a usura da vã quotidianidade, execrando a rotina da biografia comum. Assinalando esse lugar evitável e, no entanto, assinaladamente pregnante, depressa se cava um “locus solitarius” que haverá de salvar o Poeta. Afinal, a ‘vida com sabor a saibro’, povoada de vozes poéticas (Rilke, Ruy Belo, Sophia, Eugénio, Petrarca, Pessoa, Bernardim, Burroughs, Yeats, Camões, Alba e Pound) e literárias (Camilo, Camus, Beckett), é uma contaminada luta contra a insónia e uma ostensiva entrega a um pouco mais da morte.
Repetem-se as palavras contra os dias, delas sobrando o que deixa de contar – e, assim, surge o renovo do sopro vergiliano ( o de “Aparição”, sim) que desde há tanto simboliza a falência e a vanidade da repetição. E, no entanto, como não notar neste “dizer” uma arte poética que objurga a circunscrição e a vulgar organização do sentido.
O dito que é o “dizer” é sempre morte e luta perdida contra o vazio do tempo libertado: “sempre que dizemos / é de morte que falamos // sempre que dizemos / já somos mais a morte”.
Também a estética do desafogo se liberta do dístico inicial de “diz” (“caminhei. não vi o lago. / agora, afogado, escrevo.”), perpassando na roda dos dias subtis aproximações sentimentais ( lembro o poderoso “aproveitamento temporal do espaço”) e sórdidas paródias pelos territórios do execrável (“amores, os meus”).
O tempo póstumo do “disse” (“o papel da terra consiste em / trucidar a matéria dos vivos”) e também do desapegamento entre a alma e o corpo sugere roçagantes imagens oblíquas do sujeito poético (“auto-retrato” contém um indefinível halo pessoano e o’neilliano) que, preso à acédia, arrasta consigo uma melancolia produtiva (“esta é a poética missiva da eterna / melancolia que nos move e ao mundo.”) e constantes admonições a respeito do sobrevivente tempo da morte (“o mundo roda na roda que o morrerá”) transmutada na possível eternidade das palavras (“Deixa o testemunho pelo que valeu a pena ser / que depois de ti só poderão ficar palavras”) que esvaziarão bem menos do que a vida.
Ínsitos na colecção “Política dos Autores” da Angelus Novus estes “textos de execração” de hélio T. são já um original começo. Há-de o ruinoso tempo romper as penumbras do porvir e acertar com o Poeta talvez um outro lugar. Contra o tempo, todo o Poeta escreve. Contra o gelo dos ossos.