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José Krohn da Silva e Miguel Maria Telles Moniz Côrte-Real, nomes bem conhecidos da investigação genealógica em Portugal, publicam agora em conjunto "Titulares do Liberalismo do Algarve". Trata-se da genealogia dos vinte e nove algarvios agraciados com títulos nobiliárquicos na vigência da Monarquia Constitucional.Esta obra resgata para a História a identidade de algarvios que contribuíram para o país com a sua posição de destaque, nos conturbados tempos do século XIX. É dado destaque à biografia pessoal de cada um, revelando também uma rica componente iconográfica. Além da origem social de cada titular, nos casos em que estes foram casados, as biografias de suas mulheres, também são desenvolvidas nesta obra.Ao longo de 440 páginas, desenvolvem-se neste estudo as linhas ascendentes e descendentes e algumas linhas colaterais dos biografados e de suas mulheres, alargando um leque de ligações com grande interesse para as genealogias da região do Algarve.O preço é de 43 euros - já incluídos os custos de expedição - e a obra estará disponível a partir do próximo dia 19 de Junho, data do seu lançamento na Sociedade Histórica da Independência de Portugal, Largo de São Domingos, Lisboa, podendo ser encomendada em livrarias seleccionadas. 
Um poeta como Rodrigo Emílio transporta consigo uma linhagem que o tempo não ousa denegar. Filho do poeta e crítico Rodrigo de Mello, bisneto de Thomaz Ribeiro e familiar directo de um conjunto de escritores e artistas (Branca de Gonta Colaço, Thomaz Ribeiro Colaço, Jorge Colaço…), há nas palavras deslembradas de Rodrigo Emílio uma força poética que interessa reavaliar, agora já depois do tempo da morte, infelizmente depressa chegado.
Não cessa, no entanto, a forja do Poeta. E em boa hora vem a lume, na quadra indicada, este “Pequeno presépio de poemas de Natal”, editado pela Antília Editora do Porto. Abrindo com uma completíssima “Tábua bibliográfica” e um interessante “Elóquio” de António Manuel Couto Viana, a que se somam diversas dedicatórias e um ensaio do Autor sobre o tema da Natividade na poesia portuguesa, a colectânea emiliana
convoca, desde o início, os arcanos do dizer lírico: é de desesperança, silêncio e solidão que se faz um trilho multímodo – celebrativo e fluidescente, saudoso e indagador, monárquico e admirativo, unitivo e exemplar, fiel e testemunhal, ultramarino e nacional, beirão e português, sebástico e humano.
Cumprindo uma rota poética natalícia iniciada em 1959 e interrompida em 2004, Rodrigo Emílio é um caso de persistência temática e de ligação à matriz beiroa. Também por aí deve o Poeta ser revisitado, até porque a simbólica da constância da Natividade é sempre um especial encontro com a sua querida Parada de Gonta, aqui tão da nossa circunstância.
Do interessante florilégio de Natal, que é convite directo à compra e à prenda, escolho para exemplo o mais antigo, do Natal de 1959, que afirma, aliás, que o mistério, vindo de longe, está bem perto:
REMINISCÊNCIA DE NATAL
Coaxaram rãs no charco velho…
Ramalhou o sinceiral…
- Que noite é esta noite, aos pés da qual me
ajoelho,
Senão a nítida Noite de Natal,
que destaca da distância
todo o coral
d’ uma infância?
[também no Jornal do Centro, de finais de 2005, e em www.rodrigoemilio.com]
Há uma carta de Teixeira de Pascoaes a Anrique Paço d’ Arcos que é deveras importante para a história de uma amizade exemplar entre dois grandes poetas e que, simultaneamente, comprova que o encontro do vate da saudade com a nossa cidade é tudo menos despiciendo. Trata-se de um texto epistolar, datado de 30 de Agosto de 1927, escrito em Amarante, e desvelador das relações do Autor de Marânus com figuras culturais viseenses, de nascimento ou de circunstância.
imagem retirada de www.bananaetc.blogbrasil.com

“Namorados” , que reúne quarenta e cinco sonetos, é um livro que se inscreve no gosto da mulher burguesa da época, de suave jogo amoroso, tocata e fuga que se logo se esboroa contra a paixão que cedo fenece. Nada de novo, para os nossos dias. Um passo em frente, no entanto, nessa década de sensibilidade feminina ainda debutante. E, por isso, este livrinho, que seguirei na minha 3ª edição de 1921, não pode deixar de ser um espelho no qual as mulheres de então se reconheciam, não faltando, obviamente, como motivo central a tópica amorosa. Assim, temas e motivos como o desencontro e o amor fugaz que conduz à tristeza ("Quando te vi", "Os teus olhos", "Ventura", "À janela", "Meia noite"), a dificuldade da delimitação conceptual do amor ("Amor", "Não sei"), a esperança incrustada num passado desesperançoso ("Alleluia"), o excesso amoroso e as loucuras da paixão ("Revelação"), a alegria e o reverso triste ("Alegria", "Dia 13", "Cinzas"), o requestamento de amor, que encobre e não diz ("Interrogação"), a inconstância ("Os cravos", "Incerteza"), a solidão e as saudades ("Longe", "Excerpto d' uma carta") ou a fluidescência da vida ("Velhice") farão das primícias literárias de Virgínia Vitorino um irrefragável êxito, não mensurável pelo falacioso número de edições. É que, a par desse livro que se nos afigura banal - muitas das vezes, até, desinspirado -, levanta-se a exigência de um canal para um emissor feminino ( pensemos nas vezes que a poetisa fala de cartas e telefone), que sabe que está a corresponder a um público, decerto pouco exigente, que espera ouvir-lhe a voz. E essa voz, emitida e ouvida, afirma uma identidade feminil que se aperfeiçoa ainda sob a capa do permitido e do convencional. Mas que, de qualquer forma, afirma a autoria e a recepção de uma mulher-poeta, que, como veremos pelo exemplo seguinte, com grafia epocal, só podia cair no goto da convivialidade feminina:
Vitorino retoma os vectores do neo-romantismo lusitanista, convocando desde o título a pregnância do sentimento amoroso, da saudade envolta pela serenidade do rouxinol ("Sósinha"), da tradição portuguesa ("Carta": "E eu quando á tarde vou, pelos carreiros, / opponho ao frio um chaile... á portugueza.") e do cosmopolitismo de hábitos ("Fumas, finda a ceia, / os teus cigarros certamente inglezes..."), do renovo do teísmo cristão ("Manhã": "-Oh! como eu sinto agora renovada / a minha fé tranquila de christã!"), do ruralismo omnipresente ou da necessidade evasiva ("Impossivel": "E como eu doidamente apetecia / voltar de novo ao tempo que não volta!"), conseguindo um conjunto de poemas nada desinteressantes, de que destaco o poema "Veneza" e o perturbador soneto "Salomé", que assim finaliza: "Deusa do Rhythmo, Salomé, fluctua, / e ri, n'um grande riso, e dansa... dansa...".
Aguda, a palavra cai do peito do escritor. Sem felicidade, qualquer regresso vale um perlincafuz. E, no entanto, é dessa tibieza que podemos aprender a misteriosa vida da casa cordial.
rbada a iniciação de Régio, que se viu envolto em polémica, começando a ganhar notoriedade através da colaboração numa revista demasiadamente presa ao passado, enquanto a autora de Decadência, Judith Teixeira, começa a conquistar visibilidade na publicação que era o “canto do cisne” do 1º Modernismo.Nem da culpa conservada, nem da recusa mais bárbara vive o Poeta. Do silêncio do círculo, também arco de sal, o logómano lembra o início já dentro do texto.
Abandona-se o texto à partição, dizendo execração, maldição, imprecação, repulsão. Vindo da porosidade dos dias, as palavras e os versos que fazem cada poema dividem-se em “dizer”, “diz” e “disse”, que são formulários criativos tão antigos como o Mundo. Nesse dizer primigénio suspende-se o tempo, sendo presente e passado.
Um primeiro livro de um Poeta como hélio T. não é mera aparição primicial ou festiva. Antes transporta o peso, ainda contido, de um recorrente labor poético disseminado por revistas, antologias e publicações mais ou menos clandestinas. Lembro, a propósito, as mostrações na “plágio”.
Começo, então, junto ao início. A colectânea poemática atribui-se titularmente a modalidade da execração e não deixa, dependencialmente, de o “afirmar”, seja no paratexto epigráfico e catafórico (o Poeta desvela a vida que já não é), seja no corpo textual ou no deslizar dos versos ocorrentes.
Nada dizendo aos dias, funde-se o Poeta com a usura da vã quotidianidade, execrando a rotina da biografia comum. Assinalando esse lugar evitável e, no entanto, assinaladamente pregnante, depressa se cava um “locus solitarius” que haverá de salvar o Poeta. Afinal, a ‘vida com sabor a saibro’, povoada de vozes poéticas (Rilke, Ruy Belo, Sophia, Eugénio, Petrarca, Pessoa, Bernardim, Burroughs, Yeats, Camões, Alba e Pound) e literárias (Camilo, Camus, Beckett), é uma contaminada luta contra a insónia e uma ostensiva entrega a um pouco mais da morte.
Repetem-se as palavras contra os dias, delas sobrando o que deixa de contar – e, assim, surge o renovo do sopro vergiliano ( o de “Aparição”, sim) que desde há tanto simboliza a falência e a vanidade da repetição. E, no entanto, como não notar neste “dizer” uma arte poética que objurga a circunscrição e a vulgar organização do sentido.
O dito que é o “dizer” é sempre morte e luta perdida contra o vazio do tempo libertado: “sempre que dizemos / é de morte que falamos // sempre que dizemos / já somos mais a morte”.
Também a estética do desafogo se liberta do dístico inicial de “diz” (“caminhei. não vi o lago. / agora, afogado, escrevo.”), perpassando na roda dos dias subtis aproximações sentimentais ( lembro o poderoso “aproveitamento temporal do espaço”) e sórdidas paródias pelos territórios do execrável (“amores, os meus”).
O tempo póstumo do “disse” (“o papel da terra consiste em / trucidar a matéria dos vivos”) e também do desapegamento entre a alma e o corpo sugere roçagantes imagens oblíquas do sujeito poético (“auto-retrato” contém um indefinível halo pessoano e o’neilliano) que, preso à acédia, arrasta consigo uma melancolia produtiva (“esta é a poética missiva da eterna / melancolia que nos move e ao mundo.”) e constantes admonições a respeito do sobrevivente tempo da morte (“o mundo roda na roda que o morrerá”) transmutada na possível eternidade das palavras (“Deixa o testemunho pelo que valeu a pena ser / que depois de ti só poderão ficar palavras”) que esvaziarão bem menos do que a vida.
Ínsitos na colecção “Política dos Autores” da Angelus Novus estes “textos de execração” de hélio T. são já um original começo. Há-de o ruinoso tempo romper as penumbras do porvir e acertar com o Poeta talvez um outro lugar. Contra o tempo, todo o Poeta escreve. Contra o gelo dos ossos.