
As bibliotecas (escolares):
animação e boletim (in)formativo
-- notas breves sobre um caso concreto
por ANTÓNIO RODRIGUES GOMES
O presente texto assume-se como despretensiosa reflexão
[sobre uma vertente do trabalho desenvolvido pelo seu autor no Centro de Documentação e Informação (CDI) da Escola Secundária de Emídio Navarro (ESEN), em Viseu]
subordinada ao tema
“a (importância da) imprensa escolar colocada ao serviço da animação das bibliotecas escolares/mediatecas”.
Tem como pano de fundo os boletins Contexto publicados no âmbito do referido trabalho.
1. A animação é, actuaalmente, uma nota característica de todas as bibliotecas em geral e, com mais razão, das escolares. Num sentido muito amplo, é mesmo essa nota que permite distinguir as bibliotecas de outras “realidades” afins; os próprios documentos reunidos numa biblioteca são, por natureza, “dinâmicos” — mais do que, por exemplo, aqueles que constituem um arquivo
(cujo objectivo principal é criar um conjunto documental que reflicta a actividade e a vida de algum(s) organismo(s)/instituição(s) — seja exemplo o dos Arquivos Distritais — portanto, com vocação muito menor para a “circulação”, se comparado com o acervo documental de uma biblioteca).
Esta distinção, já se vê, tem como referente um tipo ideal de biblioteca — não aqueles espaços caracterizáveis como “armazéns de livros”, que eram modelo há ainda poucos anos mas, felizmente, são espécies em vias de extinção. E se, nas listas bibliográficas dedicadas à área biblioteconómica, a percentagem de documentos versando a organização documental é significativa — não é menos verdade que mesmo esta organização é focalizada amiúde no sentido da circulação dos documentos, sendo este o objectivo de qualquer tratamento documental: garantir aos potenciais utilizadores o acesso
(consulta/utilização),
em condições adequadas, dos recursos existentes
(livros e outros materiais).
2. Num sentido mais restrito, e mais vulgar, a animação compreende as actividades paralelas às que concernem à vida “normal” de uma biblioteca
(designadamente, a gestão dos documentos: o planeamento da sua aquisição, o tratamento técnico — catalogação, classificação, indexação, etc. —, empréstimos...).
A caracterização dessas actividades como “paralelas”
(às tarefas “habituais”)
só em parte é correcta. Na verdade, o seu desenvolvimento não apenas pode potenciar a utilização dos recursos existentes
(seja o exemplo dos espaços do conto, existentes num número cada vez maior de bibliotecas, instrumento óptimo para motivação à leitura),
como supõe uma outra “filosofia de base” das bibliotecas
(sumariamente: a passagem do restrito universo dos recursos escritos para o dos audio-scripto-visuais/multimédia)
e, consequentemente, exige a reformulação dos espaços. As mudanças operadas de há uns anos a esta parte foram tão significativas que se tornou necessário traduzi-las numa nova designação: desde o início, mediateca foi o termo com que se indicou uma biblioteca que, decididamente, optou pela causa dos novos materiais e das novas tecnologias — e pela multiplicação e melhoria dos serviços ao utilizador que elas possibilitam. Os equipamentos informáticos e a Internet não só alteraram muitos processos, tornando-os mais dinâmicos/interactivos
(cabe lembrar a substituição dos catálogos manuais, a possibilidade de acesso imediato, desde os pontos mais diversos e longínquos, à informação bibliográfica e textual/imagética/sonora: a quantidade de livros digitalizados e outros documentos de bibliotecas do mundo inteiro que encontramos, para descarga ou consulta, à distância de um clique!...),
como apoiaram a transformação, acima referida, dos espaços, revitalizando-os com um dinamismo antes desconhecido
(seja exemplo o contraste entre uma biblioteca-lugar-de-consulta e a biblioteca-lugar-de-consulta-e-produção-documental. Esta segunda “imagem” é, sem dúvida, a mais adequada a uma biblioteca escolar, por definição vocacionada para o apoio ao ensino e à aprendizagem — à educação).
Em síntese: não causa qualquer estranheza a presença, no plano de actividades de uma biblioteca, de concursos, comemorações de “o dia de...”, conversas com escritores, acções de formação nos domínios da fotografia ou da utilização de equipamento informático — menos estranheza ainda, as feiras do livro ou as sessões de poesia. O que estranha, cada vez mais, é a sua ausência.
3. Nos diversos números do atrás referido boletim, o Contexto,
(que só pela evidente falta de espaço, aqui, se não anexam)
é fácil detectar o reflexo da transformação que o autor deste texto propôs
(ao Conselho Pedagógico)
e cuja execução coordenou durante três anos lectivos.
A Biblioteca da ESEN era, em 1997/98
(e por razões, algumas, comuns a muitas outras portuguesas, e outras, específicas — não sendo este o local para as analisar),
um espaço... sem vida. O projecto “Por uma biblioteca viva integrada na prática pedagógica; por uma optimização dos recursos educativos” propôs-se (re)vitalizá-lo. O processo
(que, é justo ainda que pouco modesto dizer-se, viria a atingir os seus grandes objectivos de “revitalização”)
desenvolveu-se em várias fases
(mais lógicas do que temporais, já que por vezes coexistiram)
e pelo recurso a algumas estratégias bem definidas:
a. prévia reorganização sumária dos recursos então existentes, essencialmente livros, segundo critérios de organização mais actuais
(ao tempo o critério eram as disciplinas ou grupos disciplinares existentes)
e a sua divulgação / formação-dos-utilizadores
(no Contexto n.º 1, por exemplo, publicou-se um texto sobre a CDU – Classificação Decimal Universal, o sistema hoje mais generalizado de classificação de documentos, e um outro sobre A cotação dos documentos);
b. concretização de estratégias de atracção dos potenciais
(mas não efectivos)
utilizadores: diversificação de recursos e equipamentos de acordo com os interesses (sobretudo) dos alunos
[aquisição de equipamento informático com ligação à Internet, de publicações periódicas (incluindo jornais desportivos e revistas de informática acompanhadas por cd-rom com programas), de equipamento audiovisual (tv, vídeo, aparelhagem sonora), etc.],
“conquista” de novos espaços
(para diversificação/melhoria de serviços: por ex., criando lugares de leitura/presença informal),
dotação dos espaços de novo equipamento
(sirvam apenas de exemplo, então inteiramente inovador, os sofás num “espaço de estar” onde uma máquina passou a disponibilizar bebidas diversas — a fim de tornar os locais agradáveis: o Contexto n.º 5 inclui o texto Uma biblioteca à medida do Homem, onde se propõe para as bibliotecas um espaço… humanizado)
lançamento de concursos
(como foi o caso de Ao sabor das letras, in Contexto n.º 1).
O impacto desta “estratégia” exemplificou-se em A partir do 3º período, no Contexto n.º 4;
c. consolidação do processo: início da informatização do catálogo, divulgação da informação
(criação de um site dedicado),
criação de instrumentos de apoio à aprendizagem
(por ex.: o Centro de Estudos — divulgado em Centro de Estudos, no Contexto n.º5 —, com a constituição de dossiês disciplinares contendo textos de apoio, fichas de trabalho, etc.; ou a progressiva colocação na Internet dos catálogos em constituição, enquanto se aguardava a disponibilização da respectiva base de dados).
A avaliação do processo foi ficando escrita em relatórios feitos periodicamente
(e apresentados aos órgãos da Escola)
e um balanço global foi publicado no Contexto n.º 9
(no Editorial Conclusão na 1ª pessoa do singular, nos textos Sumário: trabalho, ócio e partilha e Divagações sobre o Centro de Estudos).
De qualquer modo, as mudanças foram tão notórias que se julgou justificada a alteração da designação — de Biblioteca para Centro de Documentação e Informação. A nova designação, proposta pelo autor destas linhas e aprovada em reunião do Conselho Pedagógico
(refere-se-lhe o editorial Era tempo disso do Contexto n.º 5),
não está isenta de reparos mas pareceu-nos a mais exacta: acentuou-se deste modo o seu carácter coordenador de actividades em áreas diversas
(a biblioteconomia, os audiovisuais, a ligação à Internet, etc.)
e a pretensão de constituir um sítio que centralize e disponibilize aquela informação difícil de localizar em determinados momentos
(pensávamos sobretudo nos alunos: os horários dos transportes seriam um exemplo significativo, porque “transgressor” da ideia tradicional de Biblioteca).
4. O boletim de uma biblioteca/mediateca escolar cumpre as funções supostas nos parágrafos anteriores: documentar as suas actividades, publicitando-as. Mas não se esgotam aí as suas potencialidades de animação — dir-se-ia que nem são aquelas as funções principais. Estruturou-se a ideia de um boletim
(de um Contexto)
em torno das seguintes linhas orientadoras:
a. espaço de divulgação da (e incentivo à) “produção literária” da população escolar
(encontram-se nele múltiplos textos, alguns poéticos, de alunos e professores);
b. instrumento de motivação à leitura
(insistiu-se nos poemas, na primeira página do Contexto)
e à utilização das novas tecnologias
(publicaram-se artigos sobre a Internet)
e de divulgação do livro
(designadamente, através de recensões);
c. instrumento de motivação
(o texto A Alice e a Matemática, no Contexto n.º 6, perspectiva Alice no País das Maravilhas a partir da Matemática)
e apoio à aprendizagem
(nomeadamente, através de artigos sobre a feitura de trabalhos escolares ou sobre métodos de estudo ou técnicas de leitura)
e à promoção do que costuma chamar-se de “cultura geral”
(por exemplo, através de artigos sobre as comemorações de datas/acontecimentos, personalidades, etc. — ou de números temáticos, como foi o caso do n.º 7, com dominância do tema Liberdade, a propósito do 25 de Abril);
d. veículo transmissor da fundamentação das transformações operadas/a operar
(no Contexto n.º 4 em Reflexão sobre uma decisão polémica, a tomar, mais dia menos dia propõe-se uma reflexão sobre o livre acesso aos documentos, então ainda em prateleiras fechadas à chave),
desconstruindo algumas “ideias feitas”
[Leitura silenciosa/em voz alta, no Contexto n.º 5, põe em questão a tese de que a leitura/estudo requer silêncio (absoluto); O Direito de não ler, no n.º 6, dá a conhecer os direitos do leitor, na visão de D. Pennac, e questiona a obrigatoriedade de ler];
e. testemunha do quotidiano escolar
(no caso específico, sobretudo devido à inexistência, então, de um jornal de escola).
5. Há questões interessantes/importantes para um boletim de uma biblioteca que aqui escaparão à análise por falta de experiência concreta: a sua relação com o jornal escolar
(insisto: inexistente então, na ESEN),
por ex.. Outras foram só muito levemente tocadas
(não se avançou mais para não correr o risco de desfocagem do tema desta reflexão);
exemplifica-se com a pergunta: que diferenças, em termos de animação
(cultural),
implicam as diferenças entre um arquivo, um centro de documentação e uma biblioteca/mediateca? ou esta: sendo desejável uma ligação forte de todos os (da maior parte dos) serviços da biblioteca à Internet e tendo apostado nessa ligação em outros domínios
(o da colocação de catálogos ou de ajuda aos estudantes na pesquisa documental, por ex. — a que eram dedicadas algumas páginas do site do CDI),
seria desejável
(haveria vantagens em)
ter investido esforços na continuação do trabalho de colocação, iniciada, do boletim no referido site?
De qualquer modo, pensamos que ficou demonstrada a importância, para uma biblioteca, de um boletim
(com carácter meramente informativo ou, acreditamos que de preferência, formativo).
6. Como nota final, são de notar duas pequenas alterações: os 2 últimos números sofreram alteração no aspecto gráfico e a designação do boletim foi… evoluindo
[da inicial boletim informativo da Biblioteca da Escola Secundária de Emídio Navarro passou para boletim da Biblioteca da Escola Secundária de Emídio Navarro (n.º 7) e fixou-se (a partir do n.º 10) em boletim do c.d.i. da Escola Secundária de Emídio Navarro].
Não parecem descabidos comentários a esses... pormenores. Na verdade, as reacções desfavoráveis em relação à apresentação gráfica estimulam esforços no sentido de, dentro das limitações inevitáveis
(orçamentais, por exemplo),
entregar a profissionais o que aos profissionais compete
(o tratamento gráfico dos primeiros 9 números foi trabalho de um gabinete profissional).
Deve igualmente cuidar-se de que os nomes dos projectos signifiquem, na própria terminologia utilizada, aquilo que pretendem ser, com as funções que pretendem cumprir
(procurou-se que isso acontecesse no próprio título do boletim — Contexto).