2007-01-22

Curso Livre de Introdução ao Latim


A língua latina na música sacra

Curso Livre de Introdução ao Latim

Docente: Mestre Pedro Falcão

Pretende-se com este curso dotar os seus participantes de noções elementares acerca da língua latina, tendo como base textos do vasto repertório da música sacra, que se estende ao longo de toda a História da Música. Procura-se igualmente dar a conhecer em audição comentada um pouco deste espólio imprescindível para o conhecimento da origem e evolução da música ocidental.

Para aprofundar estas questões o CCLPH propõe um curso livre de língua latina na música sacra em 10 sessões.

Horário: das 20h00 às 22h00

Datas das Sessões: 19/2, 26/2, 5/3, 12/3, 19/3, 26/3, 2/4, 9/4, 16/4, 23/4 de 2007

Local: Palácio da Independência, L. S. Domingos, 11 ao Rossio (entre o Teatro D. Maria e a Igreja de São Domingos).

Datas de fim de inscrição: terminam a 17 de Fevereiro de 2007 ou atingindo o número limite de participantes.

As inscrições são aceites por ordem de chegada até um limite máximo de 40 participantes. Podem ser feitas para o e-mail do CCLPH, por fax ou por carta. Até à recepção do pagamento, considera-se uma pré-inscrição. Logo que o número total de participantes inscritos seja atingido, as pré-inscrições ficam sem efeito. Os sócios com quotas em atraso não auferem do preço de sócio, a menos que regularizem a situação até ao acto de inscrição. Os cheques devem ser enviados para CCLPH, Rua Cascais 17-1º Esq 1300-120 Lisboa. O pagamento também pode ser feito por transferência bancária para o NIB 0033 0000 45217510010 05.

Taxa de Inscrição: (inclui fotocópias distribuídas durante o curso e certificado de frequência).


Os participantes que se queiram fazer sócios do CCLPH auferem da oferta da jóia,
pagando apenas a quota anual.

Contactos: Centro Cultural de Lisboa Pedro Hispano (T. 213647473 ou 917250725 e Fax. 213647473) ou e-mail: c.cultural.lx.ph@mail.telepac.pt

Ficha de Inscrição

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2007-01-21

"A água íntima dos lábios"

"Letras Aquilinianas": em prol de Mestre Aquilino

Penitenciando-se "Ave-Azul" pelo atraso nesta divulgação (e mais aborrecido deve estar o amigo Jerónimo Costa...), aqui se plasma, em esboço, a mais do que louvável ideia da Confraria Aquiliniana de promover a edição de uma publicação, de feição pedagógico-didáctica, que divulgue e perenize a obra do Mestre da Nave.
Estando prevista para breve a vinda a lume do primeiro número, diga-se ainda que o exemplar que apresentamos contém textos de Júlio Cruz, excertos de obras de Aquilino Ribeiro e dois textos não assinados, da responsabilidade da Confraria.
Até breve, pois, com as "Letras Aquilinianas".

2007-01-20

ardo

a febre escorre pelos corredores do corpo
e eu naufrago refém da escuridão das veias
não encontrando o ouro das portas nem alçapão.

eclipso-me noite dentro fritilários dados cobrindo
a ardente fogueira homérica e as miragens ígneas.

olho a rua emparedado neste cárcere de chamas
e dos ombros só um véu de sombra sobre os olhos.

2007-01-18

epigrafia

nas mãos cai a noite
o riso opalino branco
o rosto breve punho
em flor nos lábios.

e o dia acontece
como se a memória
não estivesse aqui.

nos dedos o deus sentado
morre na aura das mãos
renascendo pétreo
no tempo epigráfico.

criação

depois do verso talvez o silêncio
cubra a parte íntima do breve fogo
e refresque a explosão das espadas
fundas bem dentro das vísceras.

o olhar então repousará no fim do cansaço
escavando com arpões a pele rugosa.

e nas mãos há agora um pequeno deus.

do vinho


[agradecimentos a VÍTOR MONTEIRO]

2007-01-17

tresleitura

na janela alta da bela adormecida
jaz um botão de rosa abandonado.

no vidro um vulto esquivo foge
esperando sempre o voo breve
e a silhueta do sal o tempo azul.

2007-01-16

exercício límpido

de repente também um salto no tempo
e um corvo mudo olhando as roupas
libertadas e os corpos sangrando na areia.

súbita uma folha que o vento trouxe morre
no mar no sal que diz a tua vida como no
texto de wilde - feixe húmido de sentido.

em arco a groselha e o dia brilham em ti.

encostada à amurada ao aroma do café
narro-te a minha vida e tu compreendes.

2007-01-15

"O seu a seu poema" de José Valle de Figueiredo

Este é um grande livro. Talvez um dos maiores do ano que findou. Aprecie-se silenciosamente, por exemplo, o fulgurante "Requiem por Jan Palach" das páginas 145-146.

2007-01-14

pequeno amor

outra coisa ainda talvez o rumor
íntimo o reverso corpo quente
e um lago inundando a língua
o marfim branco dos ossos
correndo depois venalmente
contra o sangue explodindo
explodindo sempre, meu amor.

2007-01-13

azul

é azul a língua como o homem de richter
e nem a geometria da pele é contraponto.

2007-01-10

Por esta porta e nesta casa: o escritor António de Albuquerque


0. Codiciosamente, Monique Plaza defende que o leitor assegura os êxitos ou precipita as derrotas. Assim é. No lugar geodésico da luz, dirá pois o leitor do interesse desta reanimação. Colateralmente, o lugar que António de Albuquerque aqui assume é o de quem entra por esta porta, nesta casa sua e, pasme-se!, nossa. Escutam-se ainda os ecos do banquete aqui servido no palacete do Arco, em 25 de Março de 1866, após o seu baptismo. “Não ficou à esquerda dos que são oferecidos a príncipes”, assim reza um periódico viseense da época.

1. O romance O Marquês da Bacalhoa, finalizado em 6 de Setembro de 1907 e publicado no início de 1908, antecipa o regicídio. Havia, de facto, um pressentimento no ar: quando em Junho de 1903 foi assassinada a família real sérvia, os jornais portugueses rejubilaram de estranho êxtase. Ficou arquifamoso mesmo a exclamação de José Alpoim: «Foi uma limpeza!». E, depois, para que a tragédia se cumprisse, houve ainda o autoritarismo franquista que evoluiu para ditadura, os adiantamentos à Casa Real, o facciosismo ideológico e aquela fatídica entrevista de Sua Majestade, o Senhor D. Carlos, a Galtier, do jornal parisiense Le Temps.
Em Janeiro de 1908, não obstante os 800 reis que faziam de 0 Marquês da Bacalhoa um livro caro, haviam-se vendido por volta de 6000 exemplares. A este respeito, Raul Brandão critica a inabilidade do poder vigente face à necessidade de impedir a proliferação do livro, defendendo que a proibição do romance só lhe dourava a fama. Ouçamos, pois, as palavras brandonianas, citando, como consta, as palavras de urn livreiro: «- Fizeram mal em proibir o Marquês da Bacalhoa. Já há quem tenha dado por um exemplar três mil reis, e o preço corrente é agora de dez a quinze tostões... Se o queriam inutilizar apreendessem-no, tanto mais que toda a gente sabia onde era impresso.». Rocha Martins diz que o "editor do livro injurioso" foi o republicano e maçon Gomes de Carvalho e adianta que a «obra andava em alta de prego, às escondidas, apenas pela guloseima da protérvia.» Na propalada e requestada obra contam-se "as tropelias de um ministro «Nunes» durante o reinado do «marquês da Bacalhoa», não sendo muito difícil descortinar a que personagens reais correspondiam os nomes postos no livro pelo autor, António de Albuquerque", diz Mattoso. Tal exercício da referencialidade efectuou-o Vasco Pulido Valente no início de 1998, ao referir que as personagens são " o marquês (D. Carlos, na realidade, proprietário da Quinta da Bacalhoa), a marquesa (D. Amélia); o conselheiro João Nunes dos Santos (João Franco); D. Álvaro de Luna (Mouzinho de Albuquer­que); Maria de Silves (a condessa de Sabugosa); e a condessa da Freixosa (a condessa de Figueiró, a famigerada Pepa Sandoval, amiga da rainha)." A par desse êxito irrefragável do referencial político, concorria a atracção do tabu e da transgressão no âmbito da esfera privada e dos costumes. Efectivamente, como muito bem sustenta Cecília Barreira, em tal ro­mance clandestino e de grande voga, que «em Lisboa se vendia a sorrelfa» e «onde se abocanhava a dignidade da rainha» (ver Rego), alude-se « aos amores sáficos da rainha D. Amélia, por quem Mouzinho de Albuquerque nutriu uma paixão, e cujos amores contrariados, se teriam traduzido pelo suicídio». Raul Brandão, nas suas Memórias , em apreciações datadas de Ja­neiro de 1908, deixa-nos um relato muito vivo do acontecimento, que nos permite avaliar devidamente o impacte da obra, bem como pormenores sobre o perfil do seu Autor: «Grande escândalo com o livro do Albuquerque - 0 Marquês da Bacalhoa . Este Albuquerque, conhecido pelo Lêndea, e o último descendente, pelo pai, do gran­de Afonso de Albuquerque, e, pela mãe, do grave, do douto João de Barros. Ainda aqui há anos, quando o rei visitou uma terra de província e se hospedou na casa dele, saíram das lojas caixotes de loiça da Índia, que nunca tinham sido abertos. Ele tem tido uma vida de aventuras; bateu-se em duelo em Madrid, caçou no Cabo com lordes, tocou guitarra em Trouville e teve uma loja de instalações eléctricas na Itália. Agora é jornalista, escritor, poeta, e publica este livro de escândalos, em que a rainha, senhora na mais alta acepção da palavra, é posta de rasto... Mas faça-se-lhe justiça: tudo aquilo - e pior - anda por aí de boca em boca há muito tempo. E não vem debaixo - vem de cima...».
Sendo um roman à clef ou um livre à clef, Carvalho Homem prefere apodar a obra de Albuquerque de romance-panfleto e sobre o Autor, António de Albuquerque de Meneses e Lencastre, adianta tratar-se de «um plumitivo de baixo nível cul­tural e moral». Similar posição tomam Júlio de Sousa e Costa e Rocha Martins. Longe destas verrinosas tiradas, Maria Filomena Mónica, em postura mais objectiva, defende que O Marquês da Bacalhoa «constitui um excelente resumo da mitologia que rodeava os costumes do paço.»
O escândalo, a falácia e o implosivo marcaram para sempre a imagem de António de Albuquerque e para tal não foi despicienda a publicação desse estigmatizante romance O Marquês da Bacalhoa.

2. Mas, afinal, quem foi e o que fez António de Albuquerque, para que valha a pena conhecê-lo?
D. António de Albuquerque do Alardo de Amaral Cardoso e Barba de Meneses e Lencastre ou D. Antonio de Albuquerque do Amaral Cardoso de Vilhegas e Guzman Barba Alardo de Lencastre e Barros de Menezes Pina e Lemos, fidalguíssimo, nasceu em Viseu, na casa do Arco, em 11 de Marco de 1866. Era filho de D. António de Albuquerque do Amaral Cardoso e de D. Emília Augusta Barba de Lencastre ou D. Emília Augusta Barba Alardo de Lencastre Barros (descendente dos Viscondes do Amparo, de Leiria), tendo casado pela primeira vez com a senhora D. Luiza Mousinho de Albuquerque ou D. Maria Luiza de Pinho, de quern teve dois filhos, Rodrigo e Maria de Lurdes, ambos com geração.
Os primeiros tempos da sua vida passou-os Miquéque, assim seria conhecido em Viseu, sem que que nada de invulgar se passasse. A juventude esgotou-se-lhe viajando e absorveu nessa fase uma educacao e uma instrução tipicamente parisienses, tendo vivido diversos anos em Paris. A influência da literatura francesa e do republicanismo facilmente o penetraram. Em Portugal, a sua maneira mundana e convivial, nomeadamente no contacto com as mulheres, era censurada e incompreen-dida. Sedento de brilho, que o seu valor parecia merecer, deixou-se instigar pela moda republicana e pelo estrépito do papel principal. Por trás manobrariam, sem que António de Albuquerque muito bem entendesse, aqueles que o queriam assim, eco de ideias não amadurecidas. Parecia gostar de ser adulado e o seu reconhecido talento era explorado. Era conhecido como o Lêndea, parece que pela cor da tez, pelo cabelo de pendor citrónico e pelo apegamento às damas.
Sobre o seu carácter de homem, Rocha Martins adianta um conjunto de designativos ("degenerado em que concorriam singulares predicados e taras", "mostrava-se valente, mas quási sempre cobarde", "tinha certos rasgos, ao escrever, mas não ia além de meia dúzia de páginas toleráveis") que Cezar dos San­tos, o "biógrafo" de António de Albuquerque, confuta veementemente.
Segundo testemunhos de vários autores, era principalmente no Café do Gelo, no Rossio da capital, que o escritor viseense tinha a sua banca contestatária e de tertúlia. Em Lisboa, teve casa em Campolide, na rua Leandro Braga; teve ainda o sintrense chalé Guiomar, na Estefânia.
A obra de António de Albuquerque não é abundante. Dentro do modo lírico, publicou Arco-Íris e o poemeto Maria Teles; na ficção, sempre em romance, Escândalo! (1904), 0 Marquês da Bacalhoa (1908), A Execução do Rei Carlos (1909) e O Solar das Fontainhas (1910); prefaciou o livro de Gomes de Carvalho Morte Civil (1914); e, por último, legou o volume de investigação histórica Sidónio na Lenda (1922).
Sem vulgar elogio, acho que António de Albuquerque, até por ser um escritor nascido em Viseu e um daqueles que, no seu tempo, polemizou como poucos, merece uma visita atenta e interessada.
Se a obra lírica nada traz de particular, fundando-se numa incaracterística toada debutante, a tradução de Les Civilisés (1906) de Claude Farrère (1876-1957) trouxe-lhe a aprendizagem para a fase romanesca que se iniciara com Escândalo!. Tal romance, com o subtítulo Cenas da Vida de Província, ancora-se na tradição balzaquia-na e queirosiana oitocentista. Júlio de Sousa e Costa integra este romance no propósito demolidor de António de Albuquerque, que não se inibe de atacar uma sua parente muito chegada, o que era "profundamente lamentável!”.
Segue-se-lhe o polémico O Marquês da Bacalhoa (1908), título insinuado, ao que parece, por Gualdino Gomes, e que substituiu o inicialmente previsto Enseada Azul. Abandonando a discussão a respeito da viabilidade desta tipologia de romance, resulta evidente estarmos perante um roman a clef , com ligações placentárias ao referencial, e, simultaneamente, diante de un roman à thèse. Saído sob chancela da Imprimerie Liberté de Bruxelas, que a tal obrigava o gravoso da matéria, defende Rocha Martins que o "editor do livro injurioso" foi Gomes de Carvalho.
Panfletário e herdeiro do intervencionismo neo-romântico de proveniência natu-ralista, enformado no mecanicismo e no jacobinismo, 0 Marquês da Bacalhoa não oferece relevo técnico-compositivo ou estilístico, dele ressaltando um iniludível teor doutrinário e uma coragem indisfarçável. Afinal, o valor desta obra assenta no seu carácter heteróclito e polemizante, características que o fazem importante paradocumento epocal.
Na mesma linha referencial, sai, em 1909, A Execução do Rei Car­los, obra que prima por uma força contestatária multímoda e arrevesada, contra as monarquias, o catolicismo, a família, o jornalismo luso, a política portuguesa e, como se colhe no prefácio e na epígrafe bakuniniana, contra o patriotismo, bem como pela difusão de exotismo de sabor romântico e de um erotismo romanesco de invulgar recorrência. A par disso, exalça-se com perenidade mitificante os regicidas, nomeadamente Buiça e o propagandismo social.
No ano seguinte, em 1910, com dedicatória a Teófilo Braga, publica António de Albuquerque o romance O Solar das Fontainhas, com o subtítulo Cenas do Porto, o que nos permite intuir um regresso a um criticismo social semelhante ao de Escândalo , com a gravitação de todos os alvos assinalados e com a presença de artistas militantes imbuídos de acrasia e de sede de justiça. Interessante se torna sublinhar que Gusmão, o alter-ego do escritor, declara ser autor de romances injustiçados...
Como se disse, António de Albuquerque prefaciou Morte Civil (1914) de Gomes de Carvalho, o que desvela uma adesão ideológico-sentimental.
No ano de 1922, vem a lume Sidónio na Lenda (Estudo critico), "um interessante estudo sobre a trajectória de Sidónio”, segundo João Medina, que inclui ainda um texto de Bourbon e Meneses sobre José Júlio da Costa.
Era o tempo do fim. Pelas quatro horas da manha do dia 2 de Julho de 1923, na sua casa de Sintra, António de Albuquerque, "penitenciado e ungido", depois de uma vida cheia, entregou-se a Deus num abraço ostensivo.

3. Fundindo em si influências heteróclitas, António de Albuquerque e a sua obra transportam tipologias naturalistas, decadentistas e neo-românticas. E se a técnica artística nem sempre é a mais iluminada, o carácter paradocumental dos seus livros torna-os urgentes.
Tendo privado com Gomes Leal, Metzner, Fialho de Almeida, Eugénio de Castro, Rocha Martins, Abel Botelho, D. João da Câmara, Marques de Soveral, Anatole France, Paul Brulat, Rodrigo Soriano, Carmen de Burgos, Blasco Ibañez e muitos outros, o es­critor viseense foi vítima da sua alma vibrante de poeta e do seu génio poético. Arrebata-do republicano, implantado o regime que defendera e que, de certa forma, propiciara, vê-se perseguido e marginalizado pelos seus pares que passa a abominar. Pleno de remorsos pelo mal que o seu ser vibrátil semeara, recusa as doutrinações em que se enformara e deseja ardentemente encontrar-se consigo e com os outros, num abraço retemperador.
António de Albuquerque, nobre revolucionário arrependido, cosmopolita e viajado (viveu em África, em várias cidades da Europa e no Brasil), com romances vertidos em castelhano e em francês, convalida na sua obra perfunctória uma tradição sémico-formal que se esvazia e replasma no referencial e no dissídio vivencial que, em fase culminar, se torna excruciante e apelativo. De facto, qual Pe­nélope desenganada que sabe que Ulisses não aportara a Ìtaca, num alor lírico e espiritual desrealizante, o escritor viseense, nesse tempo de verdade, já quase morte, em atitude fungível e requintada, catoliciza-se, lamenta as aduções regicidas ("-Oh! El-rei! Nunca lhe entendi a grandiosidade da sua alma e nunca lha entendi porque El-rei era mais artista do que eu. Hoje!", terá dito) e procura o perdão de S.M., a Senhora D. Amélia, através de carta escrita no dia 14 de Maio de 1923 e nesse mesmo dia reconhecida no notário lisboeta A.G. Videira, vindo-o a obter. Tal missiva, reproduzida em fac-símile na obra de Cezar dos Santos, tem ainda a curiosidade de desvelar que, por baixo da assinatura, António de Albuquerque aduz Visconde do Amparo, assumindo assim uma autoadmonição indiciadora de que vivera como uma fictio personae.
António de Albuquerque reconheceu os pretéritos e exautorados actos. Sempre só, depreciado e solitário, percorreu caminho penoso e difícil, como se a catarse fosse a via do arrependimento.
[Publicado no último jornal viaesen]

2007-01-09

caçada

vamos arder agora na cave do sangue
romper o linho a pele polida e gasta
e completamente nus entrar então
nas carótidas dentro da aorta fundo.

breve muito breve estaco olho
o silêncio espera e a palavra desfibra
a pedra fria o raro vocábulo suando.

expio agora o tempo seco a espera.

2007-01-08

"Cântico Negro"

José Régio


Cântico Negro

Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe


Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...


Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que guiam , mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
- Sei que não vou por aí!

[poema enviado por JACINTO FIGUEIREDO]

uma história de amizade

A história desta amizade não acaba aqui. E, no entanto, cada acrescentamento é um dito sobre o tempo e os seus labirintos. Lembro de então um poeta nascente, acompanhado por pares, Gil e Arede, por exemplo, e por que não, por mim, em ritmo dual então escrito depois de zut! e outras incisões.
Depois, veio a separação e a velha fronteira do liceu “contra” a universidade. E nem por isso a transmutação, a tensão separativa ou a sobranceria académica. Apenas um caminho fazendo-se entre o trajecto contra-estatuário, dilucidando Pessoa e as máscaras escarnecendo no espúrio academismo.
Um dia o poeta falou de barca d’ alva e a Viseu voltou , regressando à condição beirã, à velha pele. Crescendo na boca, também aquele vinho sabendo a urze, antes das Laceiras e do rito fonsequiano, lembras?
O exercício intelectual veio sendo coonestado pelos melhores nomes, na ciência fazendo-se em central energética: quem assim na forma breve, nas derivas significantes e nas pedras angulares da cultura, mesmo que marginadas ou mal conhecidas?
Um dia os dias felizes serão assim, directos, dádivas sem fronteiras, libertando-se. E mais não digo sobre esta “lâmpada de arco” que não acaba de nos iluminar.

2007-01-07

Cravo & Ferradura no "DN" de ontem


A quem interessa quem não pense?

Reposições-1: "Plátano"

Índice
03 Apresentação
Homenagem
07 Alexandre de Carvalho Costa - A dois anos do Centenário do seu nascimento
Mário Freire
Ensaio
21 A Cidade do Escrevível como Espaço de Evasão - em A NOITE E O RISO de Nuno Bragança
Carlos Manuel Serra
Estudos
31 A Telepizza e a Sociedade de Informação
Filipa Romãozinho Costa
35 O Órgão da Igreja Matriz de Nisa - Notável peça de valor artístico e histórico
João Francisco Lopes
39 Coisas que a gente sente - diferentes modos de vida
Joaquim Mourato Fernandes
41 Um sonho nunca realizado
Luís Filipe Meira
43 Nos 80 anos do 1.º 'Sport Club Estrela - Grupo Desportivo Portalegrense'
Mário Casa Nova Martins
Memória
61 PORTALEGRE JAZZFEST - Um Festival com Memória
Luís Pargana
73 Fornecimento de lanifícios para fardamento do exército
Larcher & Cunhados
Escritas
83 Fernanda de Castro em Marvão
Mário Casa
Nova Martins
91
O Homem que era um “Santo”
Martim de Gouveia e Sousa
Arte
95 Poesias
Fernando Salgueiro de Sousa
101 Sempre…
Manuel Velez Tavares
102 A ira do deus panteísta
Rui Real
Preferência
Música
103 Jacinta – ‘Day Dream’
Yann Tiersen – ‘Les Retrouvailles’

Luís Filipe Meira
Livros
107 de, António Martinó
109 de, Fernando Carita
111 de, Isilda Garraio
Narrativa
113 Metade de Mim
Fernando Salgueiro de Sousa

http://www.platanorevista.blogspot.com

2007-01-05

ideia

as águas fendem a calçada
inundando o rosto a chama.

2007-01-04

"Cabaret Molotov" e a livraria Poetria

O Teatro de Marionetas do Porto repete o seu espectáculo “Cabaret Molotov” nos próximos dias 3 a 10 de Janeiro/2007 (excepto dia 8) a preços reduzidos para os clientes da Poetria.

Em caso de interesse agradecemos nos contactem por esta via ou pelo telefone 222000436 a fim de efectuarmos a respectiva reserva.

ESPECTÁCULO A NÃO PERDER!

POETRIA

Nuno Rebocho: mais agradecimentos & retribuições

COM DESEJOS DE BOAS FESTAS, BOM NATAL E BOM ANO

O JEITO DA ESTÓRIA

a água molda o leito do tempo
onde o gesto encava o útero que nos dispara.
e o mar nos une e o magma nos separa:
este o curso da gesta discorrida
que as palavras adormecem. mas quando
o vento sopra sobre o pó na esteira percorrida
o som desperta e desajeita o mando.
é a vida inchando conhecimento:
- é a vida. é o homem. é o tempo.
Nuno Rebocho

2007-01-03

lugares de fogo

nem sombra silenciosa sobre a mesa.

o odor do chá arruma na toalha azul
a primeira ausência as fundas raízes
e afasta as mágoas os gumes fundos.

um corpo evola-se então contra o rosto
amanhando a tábua da mesa profundo
e sem cansaço os remos avançam dentro
rompendo sem freio a fonte e a fraga
dando-se inflamados à saliva ao fogo.

como animal baleado os músculos cedem
mar tocando os céus dentro da boca.

2006-12-31

por último

dia após dia volto às palavras
esgotando o ano as águas
sabendo que a cidade branca
a memória hão-de silenciar-me.

resisto séculos passados
e contra o silêncio escrevo
não temendo a defecção
ou os lugares desabitados.

antes das chuvas sinto a pele
abrindo estiolando na carne
as vinhas desordenadas
apodrecidas já dentro do corpo.

voltarei a lisboa ao poema litoral
cortando a noite o desejo breve
e nada direi da solidão do vento
nem do mar afundado na terra.

do ano que finda anoitece a lua
o fogo das ravinas o abismo cego
dos nomes dezembrinos rindo
esmagados pela violência do betão.

eu ainda não conheço as palavras
e menos sei do rumor emparedado.

2006-12-27

Poema para Rodrigo Emílio

Dos altos lugares sonhados,
lembro-me da noite longa
devorando o rio e a água,
dos instantes breves
rodeando o passado,
os bancos dos jardins.

Vejo-Te aí plantado,
no sítio da velha casa
nos fungos dentro,
matizando o pão nu.

Sei agora neste Dezembro
silenciosamente vivo
que este canto seco
é um punhal ardendo.

Eis-me aqui depós a noite
no princípio do amor
debruçado no emiliano vento
esperando uma resposta quente.

O Inverno não finda ainda.
Eis-me aqui ardendo,
encostado ao frio da noite,
sozinho esperando apenas.

Após a litania o verbo não responde.

2006-12-24

votos de um Santo Natal

VIGÍLIA NAVIDEÑA

Meu Deus, aqui estou. E no mais não repares,
por ser esta noite a Noite que é!

Em versos Te rezo. E no mais não repares,
por ser esta noite a Noite mais calma!

- Conduz-me aos mais altos lugares
da minha fé!

- Conduz-me aos mais altos lugares
da minha alma!

[Rodrigo Emílio, Pequeno Presépio de Poemas de Natal]

2006-12-23

a dita cuja

[fotografia de Carlos Rodrigues Monteiro]
Ao Carlos Monteiro, espectador privilegiado
a dita da cidade é a desesperança
agora que a festa está na água
na torrente cuja lama é pântano
na serpentina dentro da boca
afagando o marfim a lâmina.
um dia os fautores e a corja
banidos da ágora aí mergulharão
na piscina pobres palhaços
sem orquestra diluvianos.
esta é a estrada do nada
estranha via cansada rouca
cópula bamba na corda mole.
na máquina e no vidro quem
de tão frios os dedos as mãos
vem dar pousio à dor à bizarra
azáfama sem verdade?
do sol uma lâmina pende
como morta a obra está
agora que jaz perdida
decepada do mistério.
um pio derradeiro de coruja
incontroverso intestinal
um dejecto cai na dita cuja.

2006-12-21

cassiopeia

que queres agora se o dia rompe
oblíquo sobre o quarto rindo
espalhando a luz pelas frinchas?

do corpo do lume quase brando
convulsionado eis que a nuvem
explode no punho dentro da fenda.

um rosto espreita junto a pound
obscurecido pelo bailado do jongleur
pela espessura das trevas pelo olhar.

do tecto dúctil a flauta alonga o canto
caindo firme dentro do poço estelar
irisada cassiopeia sobre o manto.

2006-12-20

previsão

[fotografia de whiplasher, vocalista dos deathstars, por martim de gouveia e sousa. hard-club de gaia]

uma luz azul rompe
cerce a pele o dia
e o suor da morte
nem de ressequida cor
lembra o caminho frente.

aspira-se a noite
o rumor brando
no espelho diurno
olhos abertos
perplexos na água.

os animais na fonte
as sombras verdes
fúlgidas já ardendo
no pescoço arrepiado.

e então a casa longe
aberta a porta lá
a maternal presença
escorrendo pelo lenço.

chove o amor vindo
declinante prazer
esquecido leito de pedra.

ao longe isto foi previsto.

2006-12-19

Bênção das Grávidas


[Enviada por Pedro Aguiar Pinto]

Conto de Natal

João César das Neves
Professor universitário


Zacarias quase deslocou o ombro, empurrado pelas escadas do Templo no meio do tumulto. Além de arruinado, quando todas as suas pombas voaram para longe, fora espezinhado. Tudo isto por causa da fúria daquele estranho Nazareno, que espantara animais, derrubara mesas e espalhara o dinheiro. O vendedor de pombas até simpatizava com Ele, mas agora ficou furioso. Estava mesmo farto desta mania dos Messias! Costumava dizer que essas conversas eram boas para o negócio, mas com a destruição dessa tarde mudara de ideias. À medida que os anos avançavam, até as profecias iam ficando mais violentas... Que tempos estes! Ele conhecia como ninguém a influência dessa tradição. Lembrava-se bem de a presenciar logo nos primeiros dias do seu negócio no Templo, quando ainda era um rapazola inexperiente. Dessa vez fora por causa de um bebé apresentado aos sacerdotes. O velho Simeão, que todos por ali conheciam bem, fizera um enorme barulho, dizendo que o Messias tinha chegado. Na altura Zacarias, na sua juventude ingénua, ainda acreditara que alguma coisa iria suceder. Mas claro que nada aconteceu.Depois durante uns anos as profecias acerca do Messias estiveram calmas. Ouvia-se falar de revoltas, mas longe do Templo. Ele só se lembrava da comoção à volta de um estranho rapazinho e das suas perguntas aos doutores da Lei. Nunca ninguém soube quem era, mas falou-se disso durante anos. Agora, quando já toda a gente quase se esquecera das profecias, vinha este nortenho criar problemas. Será que Zacarias acreditava realmente que o Messias um dia viria? Muitas vezes fizera a si mesmo esta pergunta. Estava convencido que sim, que acreditava. O seu melhor amigo, o cambista José, costumava dizer que havia mais incrédulos entre os sacerdotes que entre os mercadores. Mas a questão decisiva, a que não conseguia dar resposta, era se teria coragem, quando Ele chegasse, para deixar tudo e segui-Lo. Para um rico era muito difícil fazer essas coisas. Ao menos, pensou meditativo, esse obstáculo fora eliminado: ele agora era pobre. Zacarias, esfregando o ombro, ia coxeando por ali, avaliando os estragos e ouvindo as conversas indignadas. Então viu João. Apesar de ser também nazareno e discípulo do profeta, pertencia a famílias influentes em Jerusalém e até era conhecido do Sumo Sacerdote. Zacarias, que nada tinha a perder, decidiu pedir-lhe explicações. João respondeu citando um salmo: "O zelo da Tua casa devora-me" (Sl 69,10). Então Zacarias repetiu a justificação que tantas vezes ensaiara para si mesmo. Os mercadores exerciam uma tarefa necessária e útil. Sem eles como haveria culto e sacrifícios no Templo? Estes visionários arruaceiros, com os seus sonhos e irritações, não percebiam nada da verdadeira religião! João limitou-se a murmurar o que todos tinham ouvido durante o tumulto: "Está escrito: a minha casa há-de chamar-se casa de oração (Is 56, 7), mas vós fazeis dela um covil de ladrões." Ficaram ambos em silêncio alguns segundos. Então João disse: "Sabias que hoje é o dia do Seu aniversário? Não é curioso que tenha feito uma coisa destas na sua celebração natalícia?" Zacarias não respondeu. João continuou: "Provavelmente antevê o que os mercadores farão, um dia, da festa do seu nascimento, como hoje fazem de todas as festas. Vocês transformam em negócio as coisas mais sagradas!" Depois acrescentou: "Que mais saberá Ele acerca da celebração futura do seu aniversário?"Nesse momento passou por ali um grupinho de crianças, que se divertiam a correr atrás dos animais fugidos. Eles gritavam: "Hossana ao Filho de David." Então os Sumo Sacerdotes e os doutores da Lei ficaram indignados e disseram: "Ouves o que eles dizem?" Respondeu-lhes Jesus: "Sim. Nunca lestes: 'Da boca dos pequeninos e das crianças de peito fizeste sair o louvor perfeito?' (Sl 8, 3)."Ao ouvir estas palavras, Zacarias teve um sobressalto. Lembrou-se da frase que sempre mais o perturbara, o último versículo do livro do profeta Zacarias: "Naquele dia, já não haverá mais comerciantes no templo do Senhor do universo" (Zc 14, 21). Há muito que esta antevisão do seu homónimo o tinha incomodado na sua profissão. José, sabendo desta perturbação, costumava assegurar-lhe a rir que tirar os mercadores do Templo era impossível. Mas agora a profecia do dia do Senhor estava bem à vista. O Messias chegara! "Então aproximaram-se d'Ele, no Templo, cegos e coxos, e Ele curou-os." (Mt 21, 14). Era Natal.

2006-12-17

diaporama

não sei se o anel do tempo
a chuva ácida ou o fluir
do azeite nas articulações
levarão ao remoto início.

posiciono-me como se
não houvesse objectos
como se o néon dentro de ti
fosse uma jarra no coração.

conheço agora o teu outono
o rito breve e o inverno
declinado por ti dentro.

no silêncio do incontacto
nua pensas no que somos
vidro quebrado verde
e opaco que passa rói
ferindo a pele a carne.

talvez nada passe fora
e tudo dentro sangrando
nos frios guindastes
da cidade explodida.

2006-12-16

variadas entradas, com discrição





"A primeira forma é ainda
elástica; as outras endurecem
no ar, mais angulosas".
(CARLOS DE OLIVEIRA)

2006-12-15

nos olhos

a cidade dorme no dorso da luz
esquecida dos ruídos da vida
e baila para ti possuindo-te
enquanto o inverno rói os ossos.

na noite uma luz branca acena
ilusão cega sobre a pálpebra.

2006-12-14

a mão

noite e dia as mãos vazias
fundas calam a morte
a aurora e o lume.

os lábios o brando mel
fluem do orvalho quentes
como a boca e o sopro.

uma pétala cai na mão
enchendo a concha o velho mar.

2006-12-12

Trechos do prefácio do livro de Joseph Ratzinger, «Jesus de Nazaré»


CIDADE DO VATICANO, quinta-feira, 23 de novembro de 2006 (ZENIT.org).- Publicamos alguns trechos do prefácio do primeiro volume do livro «Jesus de Nazaré», que Joseph Ratzinger -- Bento XVI -- publicará na próxima primavera. As passagens foram facilitadas por Rizzoli, editor a quem foram concedidos os direitos internacionais.


Prefácio

Cheguei ao livro sobre Jesus, do qual apresento agora a primeira parte, após um longo caminho interior. Nos tempos de minha juventude -- anos trinta e quarenta -- publicou-se uma série de livros apaixonantes sobre Jesus. Recordo o nome de alguns autores: Karl Adam, Romano Guardini, Franz Michel Willam, Giovanni Papini, Jean Daniel-Rops. Em todos estes livros, a imagem de Jesus Cristo delineava-se a partir dos evangelhos: como viveu sobre a Terra e como, apesar de ser plenamente homem, levou ao mesmo tempo os homens a Deus, com o qual, como Filho, era uma coisa só. Assim, através do homem Jesus, Deus tornou-se visível, e a partir de Deus pôde ver-se a imagem do homem justo.
A partir dos anos cinquenta, a situação mudou. A sepração entre o «Jesus histórico» e o «Cristo da fé» tornou-se cada vez maior: afastaram-se um do outro rapidamente. Mas que significado pode ter a fé em Jesus Cristo, em Jesus Filho do Deus vivo, se depois o homem Jesus era tão diferente de como o apresentavam os evangelistas e de como o anuncia a Igreja a partir dos Evangelhos?
Os progressos da pesquisa histórico-crítica levaram a distinções cada vez mais subtis entre os diversos extractos da tradição. Por trás deles, a figura de Jesus, sobre a qual se apoia a fé, fez-se cada vez mais incerta, assumiu características cada vez menos definidas.
Ao mesmo tempo, as reconstruções sobre este Jesus, que devia ser procurado a partir das tradições dos evangelistas e suas fontes, tornaram-se cada vez mais contraditórias: desde o revolucionário inimigo dos romanos que se opunha ao poder constituído e naturalmente fracassa, ao manso moralista que tudo permite e inexplicavelmente acaba por causar a sua própria ruína.
Quem ler várias destas reconstruções pode constatar rapidamente que são mais fotografias dos autores e dos seus ideais que a verdadeira interrogação sobre uma imagem que se tornou confusa. Enquanto isso, ia crescendo a desconfiança para com estas imagens de Jesus, e a própria figura de Jesus se ia afastando cada vez mais de nós.
Todos estas tentativas deixaram, como denominador comum, a impressão de que sabemos muito pouco sobre Jesus, e que só mais tarde a fé na sua divindade plasmou a sua imagem. Enquanto isso, esta imagem foi penetrando profundamente na consciência comum da cristandade. Semelhante situação é dramática para a fé, porque torna incerto seu autêntico ponto de referência: a amizade íntima com Jesus, de quem tudo depende, debate-se e corre o risco de cair no vazio. [...]
Senti a necessidade de dar aos leitores estas indicações de carácter metodológico para que determinem o caminho de minha interpretação da figura de Jesus no Novo Testamento. Pelo que se refere à minha apresentação de Jesus, isto significa antes de tudo que eu tenho confiança nos Evangelhos. Naturalmente, dou por descontado quanto o Concílio e a moderna exegese dizem sobre os géneros literários, sobre a intencionalidade de suas afirmações, sobre o contexto comunitário dos Evangelhos e suas palavras neste contexto vivo. Aceitando tudo isto na medida em que me era possível, quis tentar apresentar o Jesus dos Evangelhos como o verdadeiro Jesus, como o «Jesus histórico» no verdadeiro sentido da expressão.
Estou certo de que -- e espero que o leitor possa perceber também -- esta figura é muito mais lógica e, do ponto de vista histórico, também mais compreensível que as reconstruções que pudemos encontrar nas últimas décadas.
Eu creio que precisamente este Jesus -- o dos Evangelhos -- é uma figura historicamente sensata e convincente. Só se aconteceu algo extraordinário, só se a figura e as palavras de Jesus superavam radicalmente todas as esperanças e as expectativas da época, só assim se explica a Crucifixação e sua eficácia.
Aproximadamente vinte anos depois da morte de Jesus, encontramos já plenamente desdobrada no grande hino a Cristo que é a Carta aos Filipenses (2, 6-8) uma cristologia, na qual se diz de Jesus que era igual a Deus mas que se desnudou a si mesmo, se fez homem, se humilhou até a morte na cruz e que a ele incumbe a homenagem da criação, a adoração que no profeta Isaías (45, 23) Deus proclamou que só a Ele se devia.

A investigação crítica faz com bom critério a pergunta: o que aconteceu nestes vinte anos desde a Crucifixão de Jesus? Como se chegou a esta Cristologia?
A acção de formações comunitárias anónimas, de quem se tenta encontrar expoentes, na realidade não explica nada. Como é possível que grupos de desconhecidos pudessem ser tão criativos, ser tão convincentes até chegar a imporem-se deste modo? Não é mais lógico, também do ponto de vista histórico, que a grandeza se encontre na origem e que a figura de Jesus rompesse todas as categorias disponíveis e assim poder ser compreendida só a partir do mistério de Deus?
Naturalmente, crer que ainda sendo homem Ele «fosse» Deus e dar a conhecer isto envolvendo-o em parábolas e ainda de um modo cada vez mais claro, vai muito além das possibilidades do método histórico. Ao contrário, se a partir desta convicção de fé se lêem os textos com o método histórico e a abertura se torna maior, estes abrem-se para mostrar um caminho e uma figura que são dignos de fé. Declara-se, então, também a luta em noutros âmbitos presentes nos escritos do Novo Testamento em torno da figura de Jesus e, apesar de todas as diversidades, chega-se ao profundo acordo com estes escritos.
Está claro que com esta visão da figura de Jesus vou muito além do que o que diz, por exemplo, Schnackenburg em representação de uma boa parte da exegese contemporânea. Espero, pelo contrário, que o leitor compreenda que este livro não foi escrito contra a exegese moderna, mas com grande reconhecimento pelo muito que ela continua a contribuir.
Fez-nos conhecer uma grande quantidade de fontes e de concepções através das quais a figura de Jesus pode fazer-se presente com uma vivacidade e uma profundidade que há poucas décadas não podíamos nem sequer imaginar. Eu tentei ir além da mera interpretação histórico-crítica, aplicando novos critérios metodológicos, que nos permitem uma interpretação propriamente teológica da Bíblia e que naturalmente requerem fé, sem que por isso eu queira renunciar à seriedade histórica. Creio que não é necessário dizer expressamente que este livro não é em absoluto um acto magisterial, mas a expressão de minha busca pessoal do «rosto do Senhor» (salmo 27, 8). Portanto, cada um tem liberdade para me contradizer. Só peço às leitoras e aos leitores uma antecipação de simpatia, sem a qual não existe compreensão possível.
Como já disse no começo deste prefácio, o caminho interior até este livro foi longo. Pude começar a trabalhar nele durante as férias de 2003. Em Agosto de 2004, tomaram forma os capítulos 1 a 4. Após minha eleição à sede apostólica de Roma, utilizei todos os momentos livres que tive para levá-lo adiante. Dado que não sei quanto tempo e quantas forças me serão concedidas ainda, decidi publicar agora como primeira parte do livro os primeiros dez capítulos que vão desde o baptismo no Jordão até a confissão de Pedro e à Transfiguração.


[Texto enviado por Pedro Aguiar Pinto]

2006-12-10

as palavras

poderia a palavra cair no lago fundo
a pique sobre o bosque sublimado
ou o lume raro esventrar o corpo
silenciando o momento a velha usura.

nem nunca uma palavra tanto disse
dizendo diferente com ipseidade.

rara palavra buril sem buril caindo
dentro da noite outra palavra sendo.

palavra dizendo a palavra minha
que recolho no corpo teu.

"Dom Duarte e a Democracia" de Mendo Castro Henriques

2006-12-08

se calhar um dia


"assim viseu". mgs.
Se calhar um dia
o mar agreste
vai entrar em ti
sem que o notes
e a vida aérea
não mais será
que rio turvo.

Mesmo que
súbitos céus
iluminem a mão
um dedo queimado
entrará em ti
vibrante.

Também depois
do outono do ritmo
das estações o tempo
há-de extinguir-se.

Como a inseparada
morte estação perdida
em carris de flores.

2006-12-07

Prestar contas

Interessa-me em especial o sistema educativo. Como tudo na sociedade e na vida, também este deveria prestar contas. Com uma razão suplementar: trata-se da maior organização (só comparável, apesar das diferenças, ao serviço de saúde), do maior sistema integrado que existe em Portugal e que não presta contas
Para todos os efeitos, o Orçamento do Estado encontra-se aprovado. Terminada a maratona das comissões e dos diferentes sectores, da qual, como é hábito quando existe maioria, nada de visível resultou, a aprovação na generalidade é um simples ritual. O que mais espanta neste momento único do ano político é a ausência de avaliação, de exame do que foi feito e de discussão sobre os resultados. Os governos garantem que estão a fazer as melhores escolhas e as poupanças necessárias, enquanto as oposições declararam que seria necessário gastar mais aqui ou ali, conforme as simpatias e as preferências políticas. Fazer as contas ao passado, analisar o que foi gasto, saber se o ano anterior (que ainda não acabou...) deu bons ou maus resultados: eis preocupações ausentes. E mesmo que haja quem se interesse por tal observação pode perder a esperança: não há dados nem factos que o permitam. Na verdade, a discussão do Orçamento serve apenas para aprovar o que se vai gastar, não serve para prestar contas, muito menos para avaliar a bondade das despesas futuras. Poder-se-á pensar que existe também o procedimento da aprovação da Conta Geral do Estado. Mas esse gesto é totalmente inútil: ocorre fora do tempo, já não permite retirar conclusões e a sua aprovação é um pró-forma.Interessa-me em especial o sistema educativo. Como tudo na sociedade e na vida, também este deveria prestar contas. Com uma razão suplementar: trata-se da maior organização (só comparável, apesar das diferenças, ao serviço de saúde), do maior sistema integrado que existe em Portugal e que não presta contas. Isto, partindo do princípio que prestar contas significa que tal se faça a alguém ou alguma entidade que não seja a mesma que a entidade obrigada. Ora, mais do que outros sectores da vida pública, os organismos da educação prestam contas a si próprios. As universidades prestam contas às universidades. As escolas prestam contas às escolas. Os professores prestam contas aos professores. E todos prestam contas, vagamente, ao ministério que é responsável por todos. Pensar que o ministério presta contas ao conselho de ministros e este ao Parlamento é, como se sabe, uma figura de retórica. A confiança parlamentar pode ser considerada uma maneira de prestação de contas, mas sabemos que esta operação se situa num plano político global e abstracto que não resolve o problema de que aqui se trata. Um governo pode merecer apoio partidário e parlamentar, mas o que está em causa não são entidades concretas, nem organismos reais, muito menos acções específicas.Eventualmente, pode aceitar-se a excepção do Tribunal de Contas. Este órgão ainda consegue analisar as contas do Estado e de alguns serviços. De vez em quando, aliás, os seus relatórios e as suas sentenças são de excepcional valor. Mas sabemos que as competências deste tribunal superior são deliberadamente limitadas. Mesmo se, recentemente, o TC conseguiu alguns notáveis melhoramentos, que lhe permitem melhor desempenhar as suas funções. O Tribunal de Contas está proibido de avaliar os resultados e de analisar os fundamentos das escolhas e dos objectivos.Prestar contas não é apenas mostrar as despesas e as receitas, assim como a respectiva honestidade ou falta dela. É também mostrar o que se faz e o que se não faz. Se se fez bem ou mal. Se se fez tudo o que deveria ser feito ou não. Se os resultados são os previstos ou perversos. Se, da acção de um organismo público, resulta melhoria para a população e o país, ou se, pelo contrário, nada de bom acontece ou as situações pioram. Prestar contas equivale a ser avaliado em todos os aspectos da acção e da gestão. Tem de se mostrar o que se gastou, onde, como, porquê e quanto.Nas universidades, não se presta contas ao país, nem aos órgãos democráticos legítimos. Como também não se presta contas às empresas, às sociedades profissionais ou às comunidades locais. Os dirigentes universitários prestam contas ao ministro, que deles tem a tutela, isto é, que por eles também é responsável. O que quer dizer que se trata de um processo em circuito fechado. Além disso, os dirigentes prestam contas a si próprios, aos seus colegas professores e, para serem eleitos periodicamente, aos funcionários e aos estudantes. Nas escolas básicas e secundárias, o panorama é o mesmo. Uma escola, cada escola, não presta contas aos pais dos alunos, muito menos às comunidades a que pertencem. Não presta contas às autarquias, nem a qualquer outra entidade social ou profissional. Uma escola responde perante o ministério que sobre ela tem autoridade. Os erros e os êxitos de uma escola são os erros e o êxito do ministério. Ninguém tem o direito ou a possibilidade de intervir, observar e avaliar. O circuito fechado é a regra na educação, este pequeno mundo composto de milhares de escolas, de centenas de faculdades, de milhões de alunos e estudantes, de centenas de milhares de professores e de milhões de pais, mas que ninguém avalia a não ser o ministério que por ele é responsável. Em teoria, o ministério presta contas ao Parlamento, mas esse processo é absolutamente inútil. Não só porque ali apenas conta a confiança partidária, mas também porque prestar contas, por atacado, por milhares de escolas, é um procedimento inconsequente.E não se diga que as escolas prestam contas aos alunos. Não é verdade. As leis actuais, que permitem aos alunos de 12 anos de idade criar associações para debater com os professores e as direcções a qualidade do ensino e a gestão das escolas, são leis imbecis e demagógicas que, literalmente, só uma opereta permitira. Quanto aos níveis superiores de ensino, aquilo de que se trata é simplesmente uma regra política essencial: os professores que querem ser eleitos dão aos estudantes o que eles querem. Além, evidentemente, de criticar o ministério.Nada muda só por motivos interiores. Não há melhoramento sem intervenção exterior. Ninguém se reforma se a isso não for obrigado por entidades sem interesse directo na conservação. Quem presta contas a si próprio está no caminho da corrupção ou do desperdício. Quem governa, ministro, reitor, director ou professor não pode ser juiz em causa própria, muito menos fiscal. Eis regras básicas que tornariam bem mais saudável a vida pública nacional, mas que são absolutamente ignoradas no nosso país. Ora, enquanto as escolas não prestarem contas a entidades autárquicas, às comunidades e aos pais; e enquanto as universidades não prestarem contas a entidades civis, profissionais, científicas e culturais; podemos ter a certeza de que os orçamentos são mal gastos, que a irresponsabilidade reina e que a impunidade é a regra. E podemos estar seguros de que o desperdício de recursos é colossal. E que os esforços de reforma são inúteis.A verdade, todavia, é que parece ser isso o que os portugueses querem. Muitos, pelo menos.

[António Barreto, Público, 19 de Novembro de 2006]

Leitura de Bacharéis - Índice dos Processos




Leitura de Bacharéis - Índices dos Processos

O núcleo da Torre do Tombo denominado Leitura de Bacharéis é essencialmente constituído por processos de habilitação para servir os Lugares de Letras. Os candidatos aos lugares da magistratura tinham de prestar provas no Desembargo do Paço, antes das quais era instaurada uma inquirição à vida do candidato bem como à sua ascendência. As inquirições, dirigidas pelo Corregedor da Comarca, continham um questionário tipificado que as testemunhas deveriam responder. Os candidatos eram na sua maioria recém-formados pela Universidade de Coimbra que pretendiam seguir a carreira da magistratura. A habilitação era também obrigatória para tabeliães e escrivães.Estes processos de habilitação – tal como os destinados a servir o Santo Ofício ou para admissão nas Ordens Militares – ricos em informação genealógica, são importantes documentos para a História Social do País e para a História do Direito Português. O núcleo é constituído por 11.491 processos inventariados que se encontram organizados por ordem alfabética e distribuídos por 289 maços, com datas compreendidas entre 1640 e 1833.Em “Leitura de Bacharéis - Índices dos Processos” que agora apresentam, Lourenço Correia de Matos e Luís Amaral coligiram em livro os índices - por primeiro nome e pelo último apelido, o que multiplica consideravelmente as possibilidades de pesquisa - actualizaram e uniformizaram a grafia dos nomes e apelidos. Os autores consultaram todos os processos que nos índices originais continham abreviaturas, de forma a conseguir identificá-los e bem assim, todos aqueles cujos apelidos, por menos comuns ou mais estranhos, suscitaram dúvidas de interpretação. Enriquecido com um prefácio do Professor Doutor Marcelo Rebelo de Sousa, a publicação deste trabalho – prevista para a segunda quinzena de Dezembro – é da responsabilidade das Edições do Guarda-Mor.Ao acolher e apoiar o projecto e a publicação deste livro, a Associação dos Amigos da Torre do Tombo – que contou com o patrocínio da Sociedade de Advogados Franco Caiado Guerreiro & Associados – contribui mais uma vez para a divulgação e valorização dos fundos do Arquivo Nacional, apresentando um instrumento de trabalho útil a todos os investigadores.

Em formato A4, capa dura e 314 páginas, “Leitura de Bacharéis - Índices dos Processos”, de Lourenço Correia de Matos e Luís Amaral, pode ser aqui encomendada, beneficiando do preço de lançamento 25 euros até ao dia 5 de Dezembro. Depois do lançamento, a obra será disponibilizada ao preço de 35 euros.

assinatura

2006-12-05

5 de dezembro

uma lâmpada no arco morre agora
enquanto neve cai na pauta intensa.

adagio alla breve cobre a pedra
abraçando as vozes a morte vindo.

filatelicamente o denteado
da pele o acetinado da noite.

com febre digital a ilha dos pavões
contempla o sonho a velha galera.

do fundo tempo um corcunda anão
atira ao tímpano um grito longo
do umbigo então a cidade morta.

uma força ainda no espelho dos olhos
curta agora a sombra cai em saint-marx
abalando o mundo e os seus vestígios.

Real Panteão dos Bragança: arte e memória - Paulo Dias



REAL PANTEÃO DOS BRAGANÇAS – ARTE E MEMÓRIA - Paulo Dias -
Da autoria do Dr. Paulo Dias, licenciado em História pela Universidade de Lisboa, este Desenvolvimento da dissertação de Mestrado apresentada em 2003 na Faculdade de Letras, na Universidade de Lisboa, sob orientação da Prof. Dra. Maria João Neto e do Prof. Dr. Vítor Serrão. Álbum de 288 páginas profusamente ilustradas em formato 24x30 com carta de S.A.R., Dom Duarte Pio, Duque de Bragança, e prefácio do Prof. Dr. António Filipe Pimentel, docente de prestígio e autor de uma vasta obra documental de carácter histórico-científico.
O autor expõe com grande riqueza de pormenores as circunstâncias históricas, políticas, sociais e morais que determinaram a importância das exéquias e pompas fúnebres dos Príncipes e Infantes da Casa de Bragança e certas atitudes perante a morte, os cultos prestados às pessoas reais e, de uma maneira geral, as incidências ideológicas e iconográficas marcaram a importância dos sepultamentos régios da Dinastia de Bragança, as campanhas de obras do Panteão, etc.
Põe de manifesto o conjunto de fenómenos dos tempos e circunstâncias que envolveram e condicionaram essa importância dos sepultamentos régios na Dinastia de Bragança, considera os diversos projectos de asserção do poder régio, interpela as campanhas de obras, as suas permanências e mutações ideológicas e iconográficas, faz ressaltar certas evidências e coloca questões novas de algum modo intrigantes.
Os limites cronológicos – 1656-1951 – assinalam respectivamente os anos da morte de D. João IV, iniciador da Dinastia brigantina, e de D. Amélia de Orleans e Bragança, ultimo membro da Família Real recebido no Panteão.
Apresenta ainda numerosas perspectivas de enquadramento político e artístico das diversas fases da criação de um Panteão para a Dinastia de Bragança e dos seus representantes, incluindo as continuidades, descontinuidades e roturas estéticas e ideológicas que os tempos, os homens e as opções políticas não deixariam de impor e una história que integra e explica os circunstancialismos que molduraram a imagem e definiram o conceito de Panteão Real, circunstancialismos que foram determinantes na produção artística (ou na sua ausência) em torno da figura dos monarcas. A compulsão de fontes documentais não exploradas até agora permitiu ao autor trazer a lume questões novas sobre o tema, o que justifica a inclusão na parte final da obra de um criterioso corpus documental.
Além do Panteão de S. Vicente de Fora e da sua notoriedade no conjunto que aborda, inclui um capítulo inicial que permite apreender ao nível da tumulária as memórias respeitantes ao sepultamento dos Monarcas, as intenções ideológicas materializadas nos cenóbios escolhidos e as atitudes perante a contingência da vida humana. A importância que atribui ao Panteão Real de Santa Maria de Belém deve-se a factores diversos, mas principalmente porque inaugura no campo da tumulária um modelo eficiente e duradouro ai nível dos valores políticos, religiosos e metafísicos.

Saída: Novembro 2006
Tiragem: 1.000 exemplares
Páginas: 288Preço: 58,50€
ISBN: 972-99612-9-8

Antília Editora Lda.
Rua 15 de Novembro, 43 - 2.º
4100-421 Porto

Mulher & Aborto - Norma McCorvey

2006-12-04

indecisão

as cinzas purificam o chão
e o braço pende pacificado.

longe um sino traz a paz
voando pelos ares etéreo.

dentro da casa as madeiras
respiram junto do tempo.

a toalha de linho no rosto
goteja a pele o breve sal.

então a chama e a floresta do gelo.

2006-12-03

em sorrento

nem o humano em sorrento ouve
nem a pele repousa neste inverno
sem o fogo do espírito monológico
que fende o gelo vinda a clara neve.

abre-se também voltaire em nietzsche
e a suspeita mais que a verdade o tempo
que corre no propósito nesta estrada
de coragem e ousadia nos teus pés.

ouço-te na terra dentro do deserto.

2006-12-02

A esquerda e o aborto

jacintolucaspires@gmail.com
Jacinto Lucas Pires


Já se sabe que a questão do aborto é "complexa", "transversal" e que as habituais cartilhas políticas não bastam para indicar respostas. Ainda assim, devo dizer que estranho muito não haver, à esquerda, mais defensores do "não" no referendo. De facto, e tirando talvez alguns dos chamados católicos progressistas, não se vê ninguém. Estranho-o porque, se há ainda algo capaz de distinguir a esquerda da direita, isso devia ser a vontade de uma real transformação da sociedade e do mundo - contra os realismos-pessimismos que, no fundamental, se satisfazem com o estado de coisas vigente. Ora, tal implica, antes de mais, não capitular perante a "tragédia do facto consumado".
Por outro lado, é óbvio que esse "sonho concreto" da esquerda tem de assentar em princípios básicos de humanidade e justiça - e estes não podem deixar de começar pela protecção da vida humana.Ao invés, as esquerdas (por uma vez, todas juntas, dos centros às margens...) cedem ao facilitismo do sim-porque-sim. Paradoxalmente, erguem o aborto a "causa" pós-ideológica, enquanto se rendem à lógica utilitarista (e direitista) que tende a ver o direito como mera regulação técnica de realidades existentes e o mundo como um palco onde são possíveis breves oscilações mas jamais verdadeiras mudanças.
Leia-se Pasolini: "(...) A propósito do aborto, é o primeiro, e único, caso em que os radicais e todos os abortistas democráticos mais puros e rigorosos fazem apelo à realpolitik, e assim recorrem à prevaricação 'cínica' dos factos consumados e do bom senso. (...) Reduzem-no a um caso de pura praticidade, a encarar exactamente com espírito prático. Mas isto (como eles bem sabem) é sempre condenável."
No Portugal de 2006 é claro que deve ser encontrada uma solução melhor do que a actual, e que nenhuma mulher deve ser humilhada em tribunal por uma decisão terrível e íntima de que só ela conhecerá as circunstâncias exactas - mas cair neste extremo da liberalização total não será um erro maior? E, para a esquerda, não equivalerá o "sim" à aceitação tácita de um sistema de injustiça e desigualdade de oportunidades?Não será assim que a esquerda desiste definitivamente de si própria e aceita, afinal, ser só mais uma peça no jogo do conformismo, do pessimismo, do "politicamente correcto"? [DN, 1 de Dezembro de 2006]

A ditadura dos inspectores

O nosso tempo é desconfiado. Um dos traços de carácter mais influentes e ocultos da nossa era é a suspeita latente dos cidadãos. Ao mesmo tempo, porém, a nossa sociedade céptica tem uma fé ingénua na lei. O resultado desta insólita combinação é que a vida hoje é regida, estatuída e restringida de uma forma que não tem paralelo em qualquer outro tempo e lugar.Existem regulamentos, decretos, portarias para todos os temas e assuntos. De vez em quando os jornais denunciam indignadamente a falta de regulamentação de uma qualquer actividade, manifestando assim esta patética exigência: os detalhes mais ínfimos da nossa vida têm de estar sujeitos ao minucioso controlo da legislação.Para que essas cláusulas sejam cumpridas existe um enorme exército de fiscais, inspectores e vigilantes que, em variados sectores, se dedicam a acompanhar, denunciar e punir a violação dos tais regulamentos.Tudo isto é feito, obviamente, em nome de princípios elevados: a saúde pública, qualidade alimentar, educação responsável, segurança nas estradas, combate ao crime, eliminação da corrupção, defesa do ambiente e mil outros objectivos louváveis.Mas o Estado democrático suporta aí um poder mais totalitário e minucioso que as piores ditaduras.O problema é que a lei é um instrumento grosseiro e brutal. Ela não consegue, de facto, substituir a adesão livre, a cooperação social, a honorabilidade pessoal. Assim, as leis têm muita dificuldade em promover os objectivos proclamados nos seus articulados.Quando chega um inspector a uma escola, não lhe interessa se os alunos são bem ensinados ou se aquela é uma comunidade educativa saudável e funcional. Ele tem é de medir as janelas, contar as sanitas, calcular os metros quadrados por criança. Se algum dos miríades de indicadores prescritos estiver fora do nível fixado pela lei da Nação, a escola é multada, obrigada a obras incomportáveis ou até fechada. Que os principais prejudicados por isso sejam os alunos é absolutamente irrelevante para os fiscais.Uma visita de inspecção a um restaurante ou loja alimentar não se ocupa da qualidade da comida ou da satisfação dos clientes. Tem é de registar os prazos nominais dos alimentos, observar as condições de exaustão de fumos, exterminar galheteiros, colheres de pau e outros instrumentos nocivos. Normalmente, a presença da Inspecção implica a destruição de toneladas de comida em excelentes condições, cometendo os fiscais um desperdício muito mais criminoso do que os que tentam evitar. Entretanto, os comerciantes são multados ou até presos, não por venderem produtos avariados, mas por terem nas instalações "condições de embalagem e refrigeração desadequadas".Naturalmente que os casos de sucesso atraem mais as fiscalizações. Uma empresa lucrativa, uma escola procurada, um festival gastronómico são presas apetecidas. E há sempre algum parágrafo por cumprir, o que alegra o estéril fiscal, satisfeito por revelar a fútil aparência do tal sucesso. Toda a criatividade, inovação, originalidade é contra os regulamentos. Só a mediocridade apática passa na inspecção.Já a Antiguidade dizia que a lei tem de ser aplicada com equidade. Esta virtude resume o bom senso do juiz na análise das circunstâncias concretas do caso. Quem viole a letra da lei com razões poderosas, justificáveis e até legítimas, deve ser absolvido. Mas como se pode exigir esta elevação a uma multidão de inspectores, em múltiplas visitas diárias? Aliás, mesmo que um fiscal seja sensato e compreenda as razões do incumprimento, o mais provável é que venha a ser denunciado como negligente ou corrupto por um colega zeloso. Os regulamentos são sagrados. A severidade, mesmo injusta e destruidora, é o sinal que consola a sociedade nos seus propósitos elevados.Devido à obsessão moderna pela saúde, educação, ambiente e outras abstracções, e sobretudo à enorme desconfiança em que vivemos, os inspectores têm uma autoridade que nenhuma outra classe possui. Eles são, ao mesmo tempo, detectives, acusadores, juízes e executores. Quanto mais elevado é o valor em causa, mais graves os efeitos. Hoje é concedido a funcionários o poder supremo de tirar filhos a seus pais.Os poderes regulamentar e inspectivo são muito mais eficazes que os poderes legislativo e judicial. Exagerados, ficam asfixiantes. A sociedade que substitui a confiança nos cidadãos pela letra da lei acaba na ditadura, por mais elevados que sejam os seus propósitos.
João César das Neves, DN de 20/11/06. [crónica enviada por Pedro Aguiar Pinto]

Eduardo Prado Coelho e o desmando educativo


"O umbigo da Ministra da Educação deve ser tão GRANDE que não a deixa ver/ouvir opiniões diferentes da sua. Há qualquer coisa que não está a funcionar bem no Ministério da Educação. Existe uma determinação em abstracto do que se deve fazer, mas compreensão muito escassa da realidade concreta. O que se passa com o ensino do Português e a aprendizagem dos textos literário é escandaloso. Onde deveria haver sensibilidade, finura e inteligência na compreensão da literatura, há apenas testes de resposta múltipla completamente absurdos. Assim não há literatura que resista. Há tempos, dei o exemplo da regulamentação por minutos e distâncias de determinadas provas.O ministério respondeu-me que se baseavam na mais actualizada bibliografia e que tinham tido reacções entusiásticas perante tão inovadoras medidas. Não me convenceram minimamente. Trata-se de dispositivos ridículos e hilariantes, que provocam o mais elementar bom senso.O problema reside em considerar os professores como meros funcionários públicos e colocá-los na escola em sumária situação de bombeiros prontos para ocorrer à sineta de alarme. Mas a multiplicação de reuniões sobretudo e mais alguma coisa não permite que o professor prossiga na sua formação científica. Quando poderá ler, quando poderá trabalhar, quando poderá actualizar-se? Não é certamente nas escolas que existem condições para isso. Embora na faculdade eu tivesse um gabinete, sempre partilhado com mais quatro ou cinco pessoas, nunca consegui ler mais do que uma página seguida. Não existem condições de concentração. Pelo caminho que as coisas estão a tomar, assistiremos a uma barbarização dos professores cada vez mais desmotivados, cuja única obssessão passa a ser defenderem-se dos insultos e dos inqualificáveis palavrões que ouvem à sua volta. A escola transforma-se num espaço de batalha campal, com o apoio da demagogia dos paizinhos, que acham sempre que os seus filhos são angelicais cabeças louras. E com a cumplicidade dos pedagogos do ministério. Quando precisaríamos como de pão para a boca de um ensino sólido, estamos acriar uma escola tonta e insensata. Neste benemérita tarefa tem-se destacado o secretário de Estado Valter Lemos. É certo que a personagem se diz e desdiz, avança e volta atrás, a maior das facilidades. Mas o caminho para onde parece querer avançar é o de uma hostilização e incompreensão sistemática da classe dos professores. Com isto prejudica o país, e prejudica o Governo, com um primeiro-ministro determinado e competente, mas que não pode estar atento a todos os pormenores. E prejudica o PS, mas não sei se isto preocupa. Vem agora dizer que o professor deve avisar previamente que vai faltar, o que no limite significa que eu prevejo com alguns dias antecedência a dor de dentes ou a crise de fígado que vou ter. E que deve dar o plano da aula que poria em prática caso estivesse em condições. Donde, as matérias são totalmente independentes de quem as ensina, basta pegar no manual, e ala que se faz tarde. Começa a tornar-se urgente uma remodelação do Governo, mas isso é tema delicado a que voltarei mais tarde."
Eduardo Prado Coelho (Professor universitário)