2007-01-03

lugares de fogo

nem sombra silenciosa sobre a mesa.

o odor do chá arruma na toalha azul
a primeira ausência as fundas raízes
e afasta as mágoas os gumes fundos.

um corpo evola-se então contra o rosto
amanhando a tábua da mesa profundo
e sem cansaço os remos avançam dentro
rompendo sem freio a fonte e a fraga
dando-se inflamados à saliva ao fogo.

como animal baleado os músculos cedem
mar tocando os céus dentro da boca.

2006-12-31

por último

dia após dia volto às palavras
esgotando o ano as águas
sabendo que a cidade branca
a memória hão-de silenciar-me.

resisto séculos passados
e contra o silêncio escrevo
não temendo a defecção
ou os lugares desabitados.

antes das chuvas sinto a pele
abrindo estiolando na carne
as vinhas desordenadas
apodrecidas já dentro do corpo.

voltarei a lisboa ao poema litoral
cortando a noite o desejo breve
e nada direi da solidão do vento
nem do mar afundado na terra.

do ano que finda anoitece a lua
o fogo das ravinas o abismo cego
dos nomes dezembrinos rindo
esmagados pela violência do betão.

eu ainda não conheço as palavras
e menos sei do rumor emparedado.

2006-12-27

Poema para Rodrigo Emílio

Dos altos lugares sonhados,
lembro-me da noite longa
devorando o rio e a água,
dos instantes breves
rodeando o passado,
os bancos dos jardins.

Vejo-Te aí plantado,
no sítio da velha casa
nos fungos dentro,
matizando o pão nu.

Sei agora neste Dezembro
silenciosamente vivo
que este canto seco
é um punhal ardendo.

Eis-me aqui depós a noite
no princípio do amor
debruçado no emiliano vento
esperando uma resposta quente.

O Inverno não finda ainda.
Eis-me aqui ardendo,
encostado ao frio da noite,
sozinho esperando apenas.

Após a litania o verbo não responde.

2006-12-24

votos de um Santo Natal

VIGÍLIA NAVIDEÑA

Meu Deus, aqui estou. E no mais não repares,
por ser esta noite a Noite que é!

Em versos Te rezo. E no mais não repares,
por ser esta noite a Noite mais calma!

- Conduz-me aos mais altos lugares
da minha fé!

- Conduz-me aos mais altos lugares
da minha alma!

[Rodrigo Emílio, Pequeno Presépio de Poemas de Natal]

2006-12-23

a dita cuja

[fotografia de Carlos Rodrigues Monteiro]
Ao Carlos Monteiro, espectador privilegiado
a dita da cidade é a desesperança
agora que a festa está na água
na torrente cuja lama é pântano
na serpentina dentro da boca
afagando o marfim a lâmina.
um dia os fautores e a corja
banidos da ágora aí mergulharão
na piscina pobres palhaços
sem orquestra diluvianos.
esta é a estrada do nada
estranha via cansada rouca
cópula bamba na corda mole.
na máquina e no vidro quem
de tão frios os dedos as mãos
vem dar pousio à dor à bizarra
azáfama sem verdade?
do sol uma lâmina pende
como morta a obra está
agora que jaz perdida
decepada do mistério.
um pio derradeiro de coruja
incontroverso intestinal
um dejecto cai na dita cuja.

2006-12-21

cassiopeia

que queres agora se o dia rompe
oblíquo sobre o quarto rindo
espalhando a luz pelas frinchas?

do corpo do lume quase brando
convulsionado eis que a nuvem
explode no punho dentro da fenda.

um rosto espreita junto a pound
obscurecido pelo bailado do jongleur
pela espessura das trevas pelo olhar.

do tecto dúctil a flauta alonga o canto
caindo firme dentro do poço estelar
irisada cassiopeia sobre o manto.

2006-12-20

previsão

[fotografia de whiplasher, vocalista dos deathstars, por martim de gouveia e sousa. hard-club de gaia]

uma luz azul rompe
cerce a pele o dia
e o suor da morte
nem de ressequida cor
lembra o caminho frente.

aspira-se a noite
o rumor brando
no espelho diurno
olhos abertos
perplexos na água.

os animais na fonte
as sombras verdes
fúlgidas já ardendo
no pescoço arrepiado.

e então a casa longe
aberta a porta lá
a maternal presença
escorrendo pelo lenço.

chove o amor vindo
declinante prazer
esquecido leito de pedra.

ao longe isto foi previsto.

2006-12-19

Bênção das Grávidas


[Enviada por Pedro Aguiar Pinto]

Conto de Natal

João César das Neves
Professor universitário


Zacarias quase deslocou o ombro, empurrado pelas escadas do Templo no meio do tumulto. Além de arruinado, quando todas as suas pombas voaram para longe, fora espezinhado. Tudo isto por causa da fúria daquele estranho Nazareno, que espantara animais, derrubara mesas e espalhara o dinheiro. O vendedor de pombas até simpatizava com Ele, mas agora ficou furioso. Estava mesmo farto desta mania dos Messias! Costumava dizer que essas conversas eram boas para o negócio, mas com a destruição dessa tarde mudara de ideias. À medida que os anos avançavam, até as profecias iam ficando mais violentas... Que tempos estes! Ele conhecia como ninguém a influência dessa tradição. Lembrava-se bem de a presenciar logo nos primeiros dias do seu negócio no Templo, quando ainda era um rapazola inexperiente. Dessa vez fora por causa de um bebé apresentado aos sacerdotes. O velho Simeão, que todos por ali conheciam bem, fizera um enorme barulho, dizendo que o Messias tinha chegado. Na altura Zacarias, na sua juventude ingénua, ainda acreditara que alguma coisa iria suceder. Mas claro que nada aconteceu.Depois durante uns anos as profecias acerca do Messias estiveram calmas. Ouvia-se falar de revoltas, mas longe do Templo. Ele só se lembrava da comoção à volta de um estranho rapazinho e das suas perguntas aos doutores da Lei. Nunca ninguém soube quem era, mas falou-se disso durante anos. Agora, quando já toda a gente quase se esquecera das profecias, vinha este nortenho criar problemas. Será que Zacarias acreditava realmente que o Messias um dia viria? Muitas vezes fizera a si mesmo esta pergunta. Estava convencido que sim, que acreditava. O seu melhor amigo, o cambista José, costumava dizer que havia mais incrédulos entre os sacerdotes que entre os mercadores. Mas a questão decisiva, a que não conseguia dar resposta, era se teria coragem, quando Ele chegasse, para deixar tudo e segui-Lo. Para um rico era muito difícil fazer essas coisas. Ao menos, pensou meditativo, esse obstáculo fora eliminado: ele agora era pobre. Zacarias, esfregando o ombro, ia coxeando por ali, avaliando os estragos e ouvindo as conversas indignadas. Então viu João. Apesar de ser também nazareno e discípulo do profeta, pertencia a famílias influentes em Jerusalém e até era conhecido do Sumo Sacerdote. Zacarias, que nada tinha a perder, decidiu pedir-lhe explicações. João respondeu citando um salmo: "O zelo da Tua casa devora-me" (Sl 69,10). Então Zacarias repetiu a justificação que tantas vezes ensaiara para si mesmo. Os mercadores exerciam uma tarefa necessária e útil. Sem eles como haveria culto e sacrifícios no Templo? Estes visionários arruaceiros, com os seus sonhos e irritações, não percebiam nada da verdadeira religião! João limitou-se a murmurar o que todos tinham ouvido durante o tumulto: "Está escrito: a minha casa há-de chamar-se casa de oração (Is 56, 7), mas vós fazeis dela um covil de ladrões." Ficaram ambos em silêncio alguns segundos. Então João disse: "Sabias que hoje é o dia do Seu aniversário? Não é curioso que tenha feito uma coisa destas na sua celebração natalícia?" Zacarias não respondeu. João continuou: "Provavelmente antevê o que os mercadores farão, um dia, da festa do seu nascimento, como hoje fazem de todas as festas. Vocês transformam em negócio as coisas mais sagradas!" Depois acrescentou: "Que mais saberá Ele acerca da celebração futura do seu aniversário?"Nesse momento passou por ali um grupinho de crianças, que se divertiam a correr atrás dos animais fugidos. Eles gritavam: "Hossana ao Filho de David." Então os Sumo Sacerdotes e os doutores da Lei ficaram indignados e disseram: "Ouves o que eles dizem?" Respondeu-lhes Jesus: "Sim. Nunca lestes: 'Da boca dos pequeninos e das crianças de peito fizeste sair o louvor perfeito?' (Sl 8, 3)."Ao ouvir estas palavras, Zacarias teve um sobressalto. Lembrou-se da frase que sempre mais o perturbara, o último versículo do livro do profeta Zacarias: "Naquele dia, já não haverá mais comerciantes no templo do Senhor do universo" (Zc 14, 21). Há muito que esta antevisão do seu homónimo o tinha incomodado na sua profissão. José, sabendo desta perturbação, costumava assegurar-lhe a rir que tirar os mercadores do Templo era impossível. Mas agora a profecia do dia do Senhor estava bem à vista. O Messias chegara! "Então aproximaram-se d'Ele, no Templo, cegos e coxos, e Ele curou-os." (Mt 21, 14). Era Natal.

2006-12-17

diaporama

não sei se o anel do tempo
a chuva ácida ou o fluir
do azeite nas articulações
levarão ao remoto início.

posiciono-me como se
não houvesse objectos
como se o néon dentro de ti
fosse uma jarra no coração.

conheço agora o teu outono
o rito breve e o inverno
declinado por ti dentro.

no silêncio do incontacto
nua pensas no que somos
vidro quebrado verde
e opaco que passa rói
ferindo a pele a carne.

talvez nada passe fora
e tudo dentro sangrando
nos frios guindastes
da cidade explodida.

2006-12-16

variadas entradas, com discrição





"A primeira forma é ainda
elástica; as outras endurecem
no ar, mais angulosas".
(CARLOS DE OLIVEIRA)

2006-12-15

nos olhos

a cidade dorme no dorso da luz
esquecida dos ruídos da vida
e baila para ti possuindo-te
enquanto o inverno rói os ossos.

na noite uma luz branca acena
ilusão cega sobre a pálpebra.

2006-12-14

a mão

noite e dia as mãos vazias
fundas calam a morte
a aurora e o lume.

os lábios o brando mel
fluem do orvalho quentes
como a boca e o sopro.

uma pétala cai na mão
enchendo a concha o velho mar.

2006-12-12

Trechos do prefácio do livro de Joseph Ratzinger, «Jesus de Nazaré»


CIDADE DO VATICANO, quinta-feira, 23 de novembro de 2006 (ZENIT.org).- Publicamos alguns trechos do prefácio do primeiro volume do livro «Jesus de Nazaré», que Joseph Ratzinger -- Bento XVI -- publicará na próxima primavera. As passagens foram facilitadas por Rizzoli, editor a quem foram concedidos os direitos internacionais.


Prefácio

Cheguei ao livro sobre Jesus, do qual apresento agora a primeira parte, após um longo caminho interior. Nos tempos de minha juventude -- anos trinta e quarenta -- publicou-se uma série de livros apaixonantes sobre Jesus. Recordo o nome de alguns autores: Karl Adam, Romano Guardini, Franz Michel Willam, Giovanni Papini, Jean Daniel-Rops. Em todos estes livros, a imagem de Jesus Cristo delineava-se a partir dos evangelhos: como viveu sobre a Terra e como, apesar de ser plenamente homem, levou ao mesmo tempo os homens a Deus, com o qual, como Filho, era uma coisa só. Assim, através do homem Jesus, Deus tornou-se visível, e a partir de Deus pôde ver-se a imagem do homem justo.
A partir dos anos cinquenta, a situação mudou. A sepração entre o «Jesus histórico» e o «Cristo da fé» tornou-se cada vez maior: afastaram-se um do outro rapidamente. Mas que significado pode ter a fé em Jesus Cristo, em Jesus Filho do Deus vivo, se depois o homem Jesus era tão diferente de como o apresentavam os evangelistas e de como o anuncia a Igreja a partir dos Evangelhos?
Os progressos da pesquisa histórico-crítica levaram a distinções cada vez mais subtis entre os diversos extractos da tradição. Por trás deles, a figura de Jesus, sobre a qual se apoia a fé, fez-se cada vez mais incerta, assumiu características cada vez menos definidas.
Ao mesmo tempo, as reconstruções sobre este Jesus, que devia ser procurado a partir das tradições dos evangelistas e suas fontes, tornaram-se cada vez mais contraditórias: desde o revolucionário inimigo dos romanos que se opunha ao poder constituído e naturalmente fracassa, ao manso moralista que tudo permite e inexplicavelmente acaba por causar a sua própria ruína.
Quem ler várias destas reconstruções pode constatar rapidamente que são mais fotografias dos autores e dos seus ideais que a verdadeira interrogação sobre uma imagem que se tornou confusa. Enquanto isso, ia crescendo a desconfiança para com estas imagens de Jesus, e a própria figura de Jesus se ia afastando cada vez mais de nós.
Todos estas tentativas deixaram, como denominador comum, a impressão de que sabemos muito pouco sobre Jesus, e que só mais tarde a fé na sua divindade plasmou a sua imagem. Enquanto isso, esta imagem foi penetrando profundamente na consciência comum da cristandade. Semelhante situação é dramática para a fé, porque torna incerto seu autêntico ponto de referência: a amizade íntima com Jesus, de quem tudo depende, debate-se e corre o risco de cair no vazio. [...]
Senti a necessidade de dar aos leitores estas indicações de carácter metodológico para que determinem o caminho de minha interpretação da figura de Jesus no Novo Testamento. Pelo que se refere à minha apresentação de Jesus, isto significa antes de tudo que eu tenho confiança nos Evangelhos. Naturalmente, dou por descontado quanto o Concílio e a moderna exegese dizem sobre os géneros literários, sobre a intencionalidade de suas afirmações, sobre o contexto comunitário dos Evangelhos e suas palavras neste contexto vivo. Aceitando tudo isto na medida em que me era possível, quis tentar apresentar o Jesus dos Evangelhos como o verdadeiro Jesus, como o «Jesus histórico» no verdadeiro sentido da expressão.
Estou certo de que -- e espero que o leitor possa perceber também -- esta figura é muito mais lógica e, do ponto de vista histórico, também mais compreensível que as reconstruções que pudemos encontrar nas últimas décadas.
Eu creio que precisamente este Jesus -- o dos Evangelhos -- é uma figura historicamente sensata e convincente. Só se aconteceu algo extraordinário, só se a figura e as palavras de Jesus superavam radicalmente todas as esperanças e as expectativas da época, só assim se explica a Crucifixação e sua eficácia.
Aproximadamente vinte anos depois da morte de Jesus, encontramos já plenamente desdobrada no grande hino a Cristo que é a Carta aos Filipenses (2, 6-8) uma cristologia, na qual se diz de Jesus que era igual a Deus mas que se desnudou a si mesmo, se fez homem, se humilhou até a morte na cruz e que a ele incumbe a homenagem da criação, a adoração que no profeta Isaías (45, 23) Deus proclamou que só a Ele se devia.

A investigação crítica faz com bom critério a pergunta: o que aconteceu nestes vinte anos desde a Crucifixão de Jesus? Como se chegou a esta Cristologia?
A acção de formações comunitárias anónimas, de quem se tenta encontrar expoentes, na realidade não explica nada. Como é possível que grupos de desconhecidos pudessem ser tão criativos, ser tão convincentes até chegar a imporem-se deste modo? Não é mais lógico, também do ponto de vista histórico, que a grandeza se encontre na origem e que a figura de Jesus rompesse todas as categorias disponíveis e assim poder ser compreendida só a partir do mistério de Deus?
Naturalmente, crer que ainda sendo homem Ele «fosse» Deus e dar a conhecer isto envolvendo-o em parábolas e ainda de um modo cada vez mais claro, vai muito além das possibilidades do método histórico. Ao contrário, se a partir desta convicção de fé se lêem os textos com o método histórico e a abertura se torna maior, estes abrem-se para mostrar um caminho e uma figura que são dignos de fé. Declara-se, então, também a luta em noutros âmbitos presentes nos escritos do Novo Testamento em torno da figura de Jesus e, apesar de todas as diversidades, chega-se ao profundo acordo com estes escritos.
Está claro que com esta visão da figura de Jesus vou muito além do que o que diz, por exemplo, Schnackenburg em representação de uma boa parte da exegese contemporânea. Espero, pelo contrário, que o leitor compreenda que este livro não foi escrito contra a exegese moderna, mas com grande reconhecimento pelo muito que ela continua a contribuir.
Fez-nos conhecer uma grande quantidade de fontes e de concepções através das quais a figura de Jesus pode fazer-se presente com uma vivacidade e uma profundidade que há poucas décadas não podíamos nem sequer imaginar. Eu tentei ir além da mera interpretação histórico-crítica, aplicando novos critérios metodológicos, que nos permitem uma interpretação propriamente teológica da Bíblia e que naturalmente requerem fé, sem que por isso eu queira renunciar à seriedade histórica. Creio que não é necessário dizer expressamente que este livro não é em absoluto um acto magisterial, mas a expressão de minha busca pessoal do «rosto do Senhor» (salmo 27, 8). Portanto, cada um tem liberdade para me contradizer. Só peço às leitoras e aos leitores uma antecipação de simpatia, sem a qual não existe compreensão possível.
Como já disse no começo deste prefácio, o caminho interior até este livro foi longo. Pude começar a trabalhar nele durante as férias de 2003. Em Agosto de 2004, tomaram forma os capítulos 1 a 4. Após minha eleição à sede apostólica de Roma, utilizei todos os momentos livres que tive para levá-lo adiante. Dado que não sei quanto tempo e quantas forças me serão concedidas ainda, decidi publicar agora como primeira parte do livro os primeiros dez capítulos que vão desde o baptismo no Jordão até a confissão de Pedro e à Transfiguração.


[Texto enviado por Pedro Aguiar Pinto]

2006-12-10

as palavras

poderia a palavra cair no lago fundo
a pique sobre o bosque sublimado
ou o lume raro esventrar o corpo
silenciando o momento a velha usura.

nem nunca uma palavra tanto disse
dizendo diferente com ipseidade.

rara palavra buril sem buril caindo
dentro da noite outra palavra sendo.

palavra dizendo a palavra minha
que recolho no corpo teu.

"Dom Duarte e a Democracia" de Mendo Castro Henriques