2006-10-06

expulso da cidade: o caso de Baltasar Estaço

Depois de sete anos de encarceramento, entre 1614 e 1621, Baltasar Estaco, que se tentou enforcar em 1616, foi finalmente libertado, assim permanecendo desde que não mais entrasse em Viseu ou no seu bispado.
Estaço, nascido em Évora, em 1570, estudou Latim, Artes, Teologia e Filosofia, nas Universidades eborense e de Coimbra, afirmando-se ainda como poeta e homem clerical - foi, lembre-se, cónego penitenciário na Sé de Viseu. Não espanta, pois, que, quando entrou na prisão da Inquisição de Coimbra, em 28 de Julho de 1614, já o seu nome fosse estimado nas letras portuguesas, tanto mais que dez anos antes publicara, na cidade universitária, “Sonetos, Canções, Éclogas e Outras Rimas”, livro saído dos prelos do impressor da Universidade Diogo Gomes Loureiro.
Ora o que se passou então com Baltazar Estaço na nossa cidade? D. João Manuel, bispo de Viseu, depois de colocado ao corrente de que o cónego Estaço, segundo denúncias, tendo nos braços as confessadas cuida ter Nossa Senhora e que todos os ósculos e “tocamentos” havidos, mesmo que na cama, não mais facultavam do que uma “comunicação santa”, resolve aconselhar-se com a Inquisição de Coimbra. Na inquirição efectuada, depuseram dez testemunhas, tendo a sexta delas, Ana Duarte, referido que o cónego, quando beijava ou abraçava, dizia: “- Bons medronhos são estes!”.
Já no início de 1615, António Feio da Horta emite um parecer sobre o caso, avançando ser voz corrente que os criados do Senhor Bispo instruíam as testemunhas no Fontelo, sugerindo-lhes o que haveriam de dizer. Reagindo ao parecer, o Bispo Inquisidor Geral resolve transferir o cónego-poeta para Lisboa, aonde chegou em 5 de Março de 1617. Aos 16 dias do mês, declarou Estaço sofrer da enfermidade de frieza que só se desvanecia com a aproximação da carne feminina. Protegido e talvez compreendido, Baltasar Estaço não é dado como negativo ou condenado à fogueira, tendo, no entanto, ficado privado “perpetuamente de suas ordens” e impossibilitado de entrar em Viseu.
Banido da cidade, resta uma obra invulgar que importa conhecer. Existem mesmo alguns manuscritos datados de Viseu e assinados pelo punho do Poeta. Quanto à eventual fragilidade humana, pouco importa dizer. Antes interessa, por exemplo, relembrar o final do fulgurante soneto “A certa donzela que se metia freira”, que é ainda um eterno louvor aos actos de fé de uma “bella Joana”, que “desprezando toda a causa humana, / Assy levantaes vossa humanidade, / Que sendo humana sobe a ser divina.”

(Publicado hoje, no Jornal do Centro )

2006-10-05

5 de Outubro





















Em 5 de outubro de 1143
Guido de Vico assiste ao ritual
da paz
entre Afonso o VI de Leão
e o nosso primeiro Rei Português.
Foi em Zamora Outubro 5
que a Pátria aprendeu o dia de hoje...

2006-10-04

viva a poesia! viva António Ramos Rosa!



ave-azul, revista de arte e crítica de Viseu, felicita António Ramos Rosa, pelo “Prémio de Poesia do Pen Clube Português”, ontem atribuído ao Poeta. O livro Génese (2005) foi a escolha do júri formado por Carlos Mendes de Sousa, Fernando Pinto Amaral e Maria João Reynaud. Alargam-se ainda as felicitações a Pedro Eiras, Fiama Hasse Pais Brandão, Helder Macedo, Ana Cristina Oliveira, José Bento e Miguel Serras Pereira, galardoados, respectivamente, nas modalidades de ensaio, ficção, primeira obra e tradução.
Baralhando para dar de novo, volta ave-azul a Ramos Rosa, inscrevendo nesta homenagem um poema seu, fulgurantíssimo, de 1987, retirado de No Calcanhar do Vento:





A Casa


Um sossegado alento na penumbra de madeira.
A casa adormeceu e está viva numa tranquila pulsação.
Oiço um leve martelar de teclas de sombra.
Um prato de cobre brilha verticalmente na obscuridade.
A mesa é redonda e limpa como um círculo de harmonia.
Numa parede flutuam arabescos cintilantes.
O tempo segrega sílabas de argila e espuma.

(António Ramos Rosa)

Vergílio Ferreira ou a asserção do sistema ptolomaico vergiliano como sedução




A Luís Miguel Nava, poeta estilhaçado
Mikhail Bakhtine, na paradigmática e cultuada Esthétique et Théorie du Roman, fala-nos da linguagem lírica como fazendo parte de um mundo ptolomaico atravessado por dilacerações e intensamente marcado pela originalidade e pelo valor de cada palavra. Para os conhecedores medianos da obra de Vergílio Ferreira, lida a primeira frase, logo se torna evidente o objectivo desta curta reflexão; para o leitor avulso, menos atento às minudências literárias, só haverá espanto e incredulidade, uma vez que o autor em apreço é conhecido por romancista - quiçá o maior do século XX, mas também dos poucos e mais fecundos ensaístas e pensadores da cultura portuguesa - não se percebendo, em consequência, a presença da lírica. O problema não é despiciendo - recorde-se, a propósito, a obra de Rosa Maria Goulart Romance Lírico. O romance de Vergílio Ferreira, que, tratando-se de uma dissertação de doutoramento, recoloca a questão em termos de pertinência, a olharmos tão só para o título - e por isso, cumprido este intróito, avançaremos ter por pretensão provar através de um objecto particular do mundo vergiliano - a música - o poder sedutor que dele se evola, fazendo-nos, à boa maneira da lição barthiana de Le Plaisir du Texte, levantar a cabeça em sinal de transporte para outros locais.
Assim, de forma sucinta, procuraremos exemplificar a presença da música na obra de Vergílio Ferreira e, na esteira de Hegel, apreender a forma "segundo a qual a alma, com os seus juízos subjectivos, as suas alegrias, as suas admirações, as suas dores e as suas sensações, toma consciência de si própria". E aqui seguimos um tanto ao arrepio de Aguiar e Silva, pois perfilamos, para o caso vergiliano, a asserção de Kate Hamburguer que postula uma relação de identificação entre o eu do autor textual e o eu do autor empírico no modo lírico, como, aliás, veremos. Diga-se ainda que é visível no nosso escritor, nomeadamente nos romances, uma defluente interpenetração modal, havendo elementos líricos no modo narrativo e vice versa.
Avancemos, pois, no nosso intento e permita-se-nos ainda uma breve contextualização a respeito da situacao particular que nos ocupa. Segundo a mitologia grega, a música tinha origem divina e operava milagres. E em breve se verá - e é esse o cerne deste excurso - como ela servirá de viático para os arroubos líricos vergilianos. Mas a música é de tal forma emocional que ninguém permaneceu indemne aos homéricos bardos que deliciavam os convivas nos banquetes ou ao bíblico episódio, no qual David faz eclipsar a loucura de Saul ao som da harpa ou ao obscuro mito de Orfeu da descida aos Infernos e do encantamento aí produzido por acção da lira. Em Vergílio, a música abala-nos por dentro e faz da sua obra o mais especioso universo ficcional de encantamento.
Peguemos, ao acaso, em Na Tua Face (1993), e aduza-se desde já que a musicalidade aparece sugerida no chamamento "-Bárbara!", incipit primigénio do referido romance, que provocou, como acima aludimos, o tal levantar de cabeça transportador. Como se prova, existe na tessi­tura textual de Vergílio Ferreira um urdimento que avança e para, consoante o ritmo, esse jogo de suspensões e vozes ("... e ela estacou instantânea, a entender. Depois rodou sobre si para donde ouvira o chamamento. Mas ficou ainda imóvel, não te movas.") que nos faz cair na "armadilha" da adesão. Também desta música implícita fazem parte aqueles rumores, quase sempre presentes, que promanam da natureza (relembre-se de novo a mitologia gre­ga e a crença na música como taumaturga no reino natural): "E imediatamente virou costas e o mar afogou-a no seu rumor. Subia alto agora o rumor da tempestade e em breve a iria submergir." Ou, então, aprecie-se essa cumeada da beleza frásica, plena de emoção rítmica, onde o eixo da selecção se projecta ritmadamente sobre o da combinação: "E na carruagem quase vazia sonolenta, o estrépito morno das ferragens no cansaço da tarde quente, houve um guincho de travões a entrada da Estação Nova e segurei com forca a mão de Ângela e ela nem me olhou e deixou estar." Mas serão os passos seguintes, na nudez explícita da "verdade", que nos conduzirão às origens gregas da lira e do aulo, como se entrássemos no domínio religioso e suspensivo. Veja-se que tiradas como a que iremos transcrever facilmente serão modificadas, com ligeiro labor versificatório, em poemas de valor inquestionável, onde não faltarão o ritmo, o paralelismo, o carácter original ou o despojamento do plurilinguismo e da plurivocalidade: "Estávamos todos à volta da sala, estávamos em silêncio e de súbito um acorde de guitarra abriu pelo espaço da nossa memória perdida. Qualquer coisa se perdera nela também mas não sabíamos o quê. Sinal invisível de nada, estranha perda do que nos protegia, um aceno a essa parte de nós sem protecção. E quando tudo acabou, o Carvalhosa apagou discretamente nos olhos o rasto da música que passara."
Virtuosismo recente(?), perguntar-se-ão os amáveis leitores. Nem por isso. Tomemos mão do renegado O Caminho Pica Longe (1943) - localizado, como o anterior, em Coimbra - e vejamos que a música é uma memória original da obra vergiliana que nunca se perdeu em mais de cinco décadas de escrita. Abro o romance, quase devagar. Ouço-te a música da página passageira. E lá está, na primeira página. Mas aqui sou eu a ceder à emoção que deverá ser sentimento banido de um texto desta tipologia. Mas eu, como Vergílio, acredito no ensaio-emoção e por isso aí vos deixo o exemplo que prova a compresença de travejamentos sedutores na obra de Vergílio Ferreira, os quais sao indutores da valência lírica: "Eléctricos gemiam na arrancada da subida, fendendo o torpor que enlanguescia o ar. Música recolhida ondeava pelo céu."
Se a intencao deste texto tiver sido minimamente atingida, declarar-nos-emos satisfeito. E que o ensaio, para parafrasearmos Sílvio Lima e o seu Ensaio sobre a essência do ensaio, representa uma autodisciplina do intelecto que busca organizar-se, estruturar-se e definir-se como razão. Como tal, contentar-nos-emos se a nossa tentativa se vier a definir como razão.
(Texto publicado, com ligeiríssimas alterações, em Glossário dos Tempos e Plátano. Revista de arte e crítica de portalegre, nº 1, Primavera de 2005)

2006-10-03

à voz do mar

cada onda uma estrela
e um estrondo de algas
e sargaço. olho de novo
é este o lugar
onde o sussurro do mar
diz a liberdade que não existe.
que é da voz e da razão
dos que ao país amam
e o sentem sem senão?
não voz não razão não liberdade
fora deste espaço confinado
ao meu sangue e à íntima vibração.

agora no Porto




Quem não é cavalo de corrida, nesta vida apressada?

Mr. Groove...

2006-10-01

ut pictura poesis

mgs. panasonic dmc-fz20-k
Tomar nas minhas mãos o sopro suave
Que aflora à tua boca.
Levá-lo aos meus lábios e beijá-lo
Como quem, timidamente,
Se debruça e escuta
O fluir do orvalho
Sobre as flores da aurora.
(RUY CINATTI, Anoitecendo, a vida recomeça, 1942)


senhora

"Ana". Luís Castro Lopo.
o olhar da areia se suspende
em vós senhora mergulhado
cor impoluta e distante
alheia à tragédia dos mortais
vinde secretária instante
dessa pedra tão longínqua
aquecer a nossa hora
cheia de sangue de dor
abandonado corpo esperando um olhar.

2006-09-30

um dia...

se o caos de novo não vier
nem nos tempos próximos
o mais ínfimo lugar

dificilmente na pátria
outro modo e outro mar
abertos por breve sulco

contra os demagogos do momento
levanta-te que minam o tempo
afundando-te na escuridão
e na inércia do desalento

não sei se é hora ou ano
ou sonho adiado
sei que vai chegar ainda

assim o país resista.

2006-09-29

o país dentro da mentira: o caso do atestado médico

O Vítor Monteiro enviou-me, por mail , uma curiosa e verdadeira imagem do país que somos. Agradeço a peça e presto a mais do que justa homenagem ao professor de Filosofia (José Ricardo Costa) que permite a fiel inscrição do diagnóstico.


Imagine o meu caro que é professor, que é dia de exame do 12º ano e vai ter de fazer uma vigilância.
Continue a imaginar. O despertador avariou durante a noite. Ou fica preso no elevador. Ou o seu filho, já à porta do infantário, vomitou o quente, pastoso, húmido e fétido pequeno-almoço em cima da sua imaculada camisa.
Teve, portanto, de faltar à vigilância. Tem falta.
Ora esta coisa de um professor ficar com faltas injustificadas é complicada, por isso convém justificá-la. A questão agora é: como justificá-la?
Passemos então à parte divertida. A única justificação para o facto de ficar preso no elevador, do despertador avariar ou de não poder irpara uma sala do exame com a camisa vomitada, ababalhada e malcheirosa, é um atestado médico.
Qualquer pessoa com um pouco de bom senso percebe que quem precisa aqui do atestado médico será o despertador ou o elevador. Mas não. Só uma doença poderá justificar sua ausência na sala do exame. Vai ao médico. E, a partir este momento, a situação deixa de ser divertida para passar a ser hilariante.
Chega-se ao médico com o ar mais saudável deste mundo. Enfim, com o sorriso de Jorge Gabriel misturado com o ar rosado do Gabriel Alves e a felicidade do padre Melícias. A partir deste momento mágico, gera-se um fenómeno que só pode ser explicado através de noções básicas da psicopatologia da vida quotidiana. Os mesmos que explicam uma hipnose colectiva em Felgueiras, o holocausto nazi ou o sucesso da TVI.
O professor sabe que não está doente. O médico sabe que ele não está doente. O presidente do executivo sabe que ele não está doente. Odirector regional sabe que ele não está doente. O Ministério da Educação sabe que ele não está doente. O próprio legislador, que mandaa um professor que fica preso no elevador apresentar um atestado médico, também sabe que o professor não está doente.
Ora, num país em que isto acontece, para além do despertador que não toca, do elevador parado e da camisa vomitada, é o próprio país que está doente.
Um país assim, onde a mentira é legislada, só pode mesmo ser um país doente.
Vamos lá ver, a mentira em si não é patológica. Até pode ser racional, útil e eficaz em certas ocasiões. O que já será patológico é o desejo que temos de sermos enganados ou a capacidade para fingirmos que a mentira é verdade.
Lá nesse aspecto somos um bom exemplo do que dizia Goebbels: uma mentira várias vezes repetida transforma-se numa verdade. Já Aristóteles percebia uma coisa muito engraçada: quando vamos aoteatro, vamos com o desejo e uma predisposição para sermos enganados. Mas isso é normal. Sabemos bem, depois de termos chorado baba e ranho a ver o "ET", que este é um boneco e que temos de poupar a baba e o ranho para outras ocasiões. O problema é que em Portugal a ficção se confunde com a realidade. Portugal é ele próprio uma produção fictícia, provavelmente mesmo desde D.Afonso Henriques, que Deus me perdoe. A começar pela política. Os nossos políticos são descaradamente mentirosos. Só que ninguém leva a mal porque já estamoshabituados. Aliás, em Portugal é-se penalizado por falar verdade, mesmo que seja por boas razões, o que significa que em Portugal não há boas razões para falar verdade. Se eu, num ambiente formal, disser a uma pessoa que tem uma nódoa na camisa, ela irá levar a mal. Fica ofendida se eu digo isso é para a ajudar, para que possa disfarçar a nódoa e não fazer má figura. Mas ela fica zangada comigo só porque eu vi a nódoa, sabe que eu sei que tem a nódoa e porque assumi perante ela que sei que tem a nódoa e que sei que ela sabe que eu sei. Nós, portugueses, adoramos viver enganados, iludidos e achamos normal que assim seja. Por exemplo, lemos revistas sociais e ficamos derretidos (não falo do cérebro, mas de um plano emocional) ao vermos casais felicíssimos e com vidas de sonho.
Pronto, sabemos que aquilo é tudo mentira, que muitos deles divorciam-se ao fim de três meses e que outros vivem um alcoolismo disfarçado. Mas adoramos fingir que aquilo é tudo verdade.
Somos pobres, mas vivemos como os alemães e os franceses. Somos ignorantes e culturalmente miseráveis, mas somos doutores e engenheiros. Fazemos malabarismos e contorcionismos financeiros, mas vamos passar férias a Fortaleza. Fazemos estádios caríssimos para dois ou três jogos em 15 dias, temos auto-estradas modernas e europeias, mas para ver passar, a seu lado, entulho, lixo, mato por limpar, eucaliptos, floresta queimada, barracões com chapas de zinco, casas horríveis e fábricas desactivadas.
Portugal mente compulsivamente. Mente perante si próprio e mente perante o mundo.
Claro que não é um professor que falta à vigilância de um exame por ficar preso no elevador que precisa de um atestado médico. É Portugal que precisa, antes que comece a vomitar sobre si próprio.

2006-09-28

O amor em Oliva Guerra

De romantismo e sentimento quanto baste, OLIVA GUERRA (1898-1982), como poetisa, faz publicar Espirituais (1922), Encantamento (1926) e Ritmos (Conferências-1928), contribuindo assim decisivamente para a ebulição intelectual da agitada década de vinte e para a afirmação da mulher-criadora. Se olharmos para o livro de 1926, depois do soneto de abertura "Encantamento" ("Mas nesse anceio d' ir mais longe, a vida / É mais bela aos meus olhos, à medida / Que a vejo à luz do meu encantamento."[1]), seguem-se poemas dentro de três grandes títulos: "Exaltação", "Três datas" e "Portugal". Sob a primeira divisão titular, quase sempre em soneto, aparecem-nos temas relacionados com o carácter inefável do sentimento amoroso ("E, murmurando apenas sons banais, / Nós sentimos que é sempre muito mais / Aquilo que nos fica por dizer.", "Aspiração", p. 14), com o desamor da rotina que "num esperar contínuo se resume" ("Sempre", p. 22) ou com a saudade ("Encontro"), no meio de tantas outras possibilidades. Ainda assim, com subsistência de alguns poucos e raros momentos de espanto literário, a toada não deixa de ser banal.

[1] Oliva Guerra, Encantamento, Lisboa, Tip. da "Portugalia", 3ª edição, 1926, p. 7. As tiragens de cada edição eram reduzidas, o que explica, desde logo, o aparente grande êxito de alguns dos livros publicados na década de vinte. Esta obra de Oliva Guerra, que possuo, é a terceira edição, não obstante a primeira ser do mesmo ano. E por aí se ficou até 1975, ano que Oliva Guerra publicou À Esquina do Tempo (Versos: 1922-1974), Lisboa, Edição da Autora, 1975. Ritmos conhece no mesmo ano de 1928 a 2a edição (Lisboa, Sassetti & C.a, Editores).

um dia

que fazer
que fazer hei
que fazer hei-de
que hei-de fazer um dia?

2006-09-27

o caminho

sabes, a vida
e a morte
sabes, a vida
sem norte
sabes, a vida
e o desnorte
e só então o caminho…

2006-09-26

"O Acaso Objectivo"

Corvos na noite prestígio do Speakeasy!


A Espanta Espíritos e os Corvos convidam todos a vir assistir à actuação especial da banda Corvos na noite prestígio do Speakeasy !

Vai ser no próximo dia 26 pelas 23.30 e a entrada é gratuita.

Contamos com a vossa presença !

Aproveitamos para comunicar que devido ao mau tempo o concerto de dia 23, Sábado passado em Oeiras, foi adiado para o dia 4 de Outubro no mesmo local.

2006-09-25

a mais loura de lisboa (conto lírico de Isabel Mendes Ferreira)


"é tudo um sonho vago de luar."
Teixeira de Pascoaes

uma estrada longa. povoada de fantasmas. sebes altas como a memória dos ingloriosos dias de fome e encantamentos. uma vontade de ser mais que um estivador do trigo ressequido. uma sede de letras e sílabas. o medo do quarto escuro onde o pão era luz escassa e lunar, as algibeiras cheias de recados de água. cartas de recomendação para a cidade. para um balcão de perfumes e vernizes.

o Diogo lá ia. pés apressados rumo a sorte vencida no entanto mais verde que um carro de bois a ilharga. longa e suavemente despedia-se da montanha. da neve e das papoilas. um olhar de musgo incendiava as pedras que agora Ihe apeteciam mais que nunca. mas tinha de ir.
condenado ao futuro vestira o melhor. o primeiro. o único fato. como se a ironia da vida fosse um corte de fazenda grosseira e cinzenta. parda como a alma dos que sonham com a lua.

aproximava-se da estação como um bandido do pri­meiro assalto. a mãe era uma saia escura ao canto da cozinha. os irmãos mondavam a esperança de terem a sorte do Diogo. e entretanto iam jogando à cabra-cega com as ovelhas magras e melancólicas. o pai era uma sombra na esquina e um trago de aguardente na taberna do tio palmito.

ah aquele filho ia longe. era mesmo a carne da sua carne. e se não fosse doutor havia de casar com a loura mais loura de lisboa. sim que lá na capital as mulheres eram todas louras e perfumadas e tinham pernas brancas como a neve da serra.
ah aquele seu filho era mesmo igual a ele ditoso pai de quem parte para a cidade. e enquanto estes sonhos se bebiam na taberna do tio palmito o Diogo bebia o último cálice da terra à procura duma razão qualquer para ir mugir as vacas tristes e estéreis. de súbito para acabar com o desespero que só os escravos conhecem. um apito diabólico encheu o ar de desafio e como um touro selvagem o comboio irrompeu no silêncio das ervas.

o Diogo espantado e cansado de tanto medo e simultâneo desejo tomou de galope a terceira classe daquele monstro a arder Como um vulcão prestes a inundar a aldeia. não espreitou sequer o verde nem o alto das escarpas. Não disse adeus às camélias e esqueceu as rugas que envelheciam o rosto torturado da mãe. sentou-se ao contrário. no sentido inverso de lisboa num repentino receio de todas as mulheres louras e perfumadas. não chorou sequer. os Diogos não choram quando têm de fingir de vencedores.
e o comboio corria. voava. dir-se-ia comandado pelo de­sejo do pai que na taberna do tio palmito pedia mais um copo pela viagem triunfal do filho igual a ele.

Diogo chega a lisboa. gente. tanta gente. não sabia que o mundo e aquilo era com certeza o mundo. era tão cheio de gente. de carros que não eram de bois. de rapazes elegantes, de malas. muitas malas. seriam tesouros. cebolas ou cadeados? e sobretudo mu­lheres. mulheres de olhos verdes. lá na aldeia todas tinham olhos de sofrimento e por isso castanhos ou negros de desencanto.
parado como um polícia de sentinela Diogo duvidava do que lhe parecia ser o céu descido à terra, mar. era o mar. ninguém lhe tinha falado do mar. nem a tia Amélia que era tão sua amiga e sabia coisas insuspeitadas na terra da neve e das azedas em flor.

lisboa tinha o mar mesmo ali. soberbo e submisso em ondas de volúpia. em carradas de peixes luminosos e traineiras brancas e azuis com nomes em letras grandes e vermelhas. lembrou-se da fogueira dos ciganos. do mistério rubro que andava à solta pelas noites de agosto.

Diogo estava apaixonado. siderado. em êxtase. o mar era a sua primeira mulher. loura e perfumada. entregue sem reservas como um corpo sobre a erva. a erva que ele trazia guardada nos rins em noites de adolescente ansioso.
lenta e muito seguramente dirige-se ao cais. embriagado de limos e tainhas. o peito solto nas mãos apelativas. o corpo djlacerado de desejo chega devagar à boca das ondas. às ancas do céu. toca-lhes. atinge os lábios da água sôfrego e altivo. mancebo de veludo e cítaras. Diogo sente que dentro dele o vulcão vai explodir e lembra o comboio invadindo a estação. sabe que aquela mulher e a única mulher da sua vida. acesa. livre. pouca demais para tanto desejo. comove-se com a ternura que ela derrama no seu corpo. ternura de mulher primeira que se lhe oferece exigindo apenas o corpo que ele arde por lhe oferecer.
e Diogo nao aguentando mais aquele ardor na pele eriçada de antecipação do prazer. abate-se másculo e gigante sobre aquela mulher loura. perfumada. mulher de pernas brancas e cabelos de corais e con­chas e seixos e diamantes e carpas.

uma semana depois o pai de Diogo bebe na taberna do tio palmito pela alma daquele filho tão igual a ele. assim que chegou a lisboa casou-se com a mu­lher mais linda que lisboa inteira namorava. mas tinha sido o seu Diogo que a tinha cativado.

e a mãe ao canto da cozinha bordava lençóis de linho que pelo entardecer adentro ia depositar na arca inundada de limos e búzios de todas as cores.
(a mais loura de lisboa, Lisboa, Difel, 1984. O código óptico-grafemático foi alterado.)

história quase universal (tábua X): depois da noite


2006-09-24

história quase universal (tábua IX): apocalipse

apocalipse
nem o príncipe ou a chama
só um súbito arame
irrompe dentro dos ossos
violando os tímpanos

nem sol branco
nem calor dentro da pele
só as pombas e a cal
dentro da água

uma última vez
vibra o olhar na praça
magenta e a esplanada
fendendo a terra

chega ainda um corpo
depressa morrendo
sob caneta romba.

história quase universal (tábua VIII): poética antipoética

poética antipoética

fonética
poética
poiética
a fita métrica
encostada à pele
medindo a fronte
e o verso catético
poesia
ou escrito geométrico?