2006-05-22

Régio e Judith Teixeira: um encontro & uma "brasa ardente"




00. Conduzindo às chamas, as letras dizem, no sentido de Deleuze, não haver lugar para o medo nem para a esperança. A confusão instaurada desde cedo na cidade dos homens, com os jogos mediáticos e a sede de centralidade, fazem dos objectos impressos rostos sem face que conjugam o esquecimento com a “desmemória”. Ilude-se o escriba contra o fascínio ainda aurático dos dizeres que já não dizem. O arco hermenêutico dos dias sobreviventes trazem só o sal da morte e o sussurro burocrático. Ao fim da escuta, muitos dos melhores actos poéticos são ágrafos e brancos, sem borrão de tinta escurecida. No entanto, encontros e desencontros existem que cortam a algaravia citadina e são matéria legível. Ao encontro, pois, do espaço cego e do negativo-produtivo da desintegração.

0. Judith Teixeira nasceu em 1880, Régio em 1901 (1). Este lapso temporal de duas décadas, no entanto, nada significa em termos de actividade literária, até porque essa aparente décalage, no que aos dois poetas respeita, se estreita um tanto, se pensarmos nas primícias literárias de ambos.

1. Em primeiro lugar, ocupemo-nos de Judith Teixeira. Não conhecendo quaisquer textos seus anteriores a 1918, não custa acreditar nas palavras judithianas que afirmam que desde muito nova ela se sentiu vocacionada para a escrita, tendo, na sua juventude, exercitado essa “urgência de dizer” em composições ainda incipientes. Sabe-se hoje que o seu primeiro (?) texto publicado aparece pelo Jornal da Tarde nesse ano de 1918, com o título “Almas simples (Fé)” (2), um texto praticamente desconhecido mas perfeito exemplar do neo-romantismo lusitanista. Segue-se-lhe, no mesmo periódico, já no ano seguinte, uma outra narrativa breve de título “Lali...”(3), texto sugestivo da predominân- cia decadentista judithiana. Mas não se fica por aí a esquecida e interessante poetisa, colaborando em 1922, com o sonetilho “Fim”, no segundo número da revista Con-temporânea, publicação que se dizia “para novos”, a ela voltando nesse mesmo ano e em 1926, para já não falar do gorado último número em que a poetisa colaboraria com o soneto “Vaticínio” (4). Lembro, de passagem, que esta revista assinalava o fim do dito Primeiro Modernismo, não obstante as diferenças face a “Orpheu” que um Pessoa de imediato tipificou na consabida e valorativa exclamação “que diferença!” (5).
O ano de 1922 foi para Judith Teixeira um período de tirocínio e de preparação para o embate de 1923. E, de facto, tal ano, que é o da publicação do livro de poemas Decadência, não poderá ser dissociado da polémica da “literatura de Sodoma” que invadiu o palco lisboeta. O fundamentalismo conservador e moralista, personificado por um conjunto de jovens integristas chefiados por Pedro Teotónio Pereira, avança e acirra as autoridades no sentido da reacção àquilo a que eles chamavam “literatura dissolvente”. Nessa onda de incompreensão embarcam os responsáveis políticos e militares, que, sem pestanejar, ateiam a fogueira, recriando, nessa patologia ígnea, os velhos autos-de-fé de tão ingrata memória. Sodoma Divinizada de Raul Leal, Canções de António Botto e Decadência de Judith Teixeira são arrestados das livrarias e queimados publicamente junto ao Governo Civil.
Pessoa defende Botto e Leal (6), mas nada diz sobre Judith. Aquilino Ribeiro não só defende a poetisa, como a diz “uma poetisa de valor” (7). Posição semelhante, no jornal A Capital, adopta um António de Monsanto, o qual, para lá de ver na apreensão do livro judithiano um “excesso de zelo”, exalta o “belo espírito de artista” da poetisa e o renovador aspecto gráfico do livro de poemas (8). De resto, só um silêncio comprometido e um número não desprezível de vozes coléricas, que não de leitores.
E, no entanto, esse livro debutante, se titularmente parece preso ao epigonismo de-cadentista – e lembro que, como o diz Calinescu (9), o Decadentismo é uma das faces da modernidade -, contém em si virtuosismos que permitem aproximá-lo do Modernismo, seja pelo vezo sáfico, seja ainda pelo dialogismo com as artes plásticas, não sendo despi- cienda ainda a sugestão surrealista que perpassa em alguns desses poemas. Lembro, por exemplo, o poema “A Estátua”, para que se não perca esta prova de ineditismo erótico e de ousadia expressional judithiana na década de vinte. Diz o texto:

O teu corpo branco e esguio
prendeu todo o meu sentido...
Sonho que pela noite, altas horas,
aqueces o mármore frio
do alvo peito entumecido...

E quantas vezes pela escuridão,
a arder na febre dum delírio,
os olhos roxos como um lírio,
venho espreitar os gestos que eu sonhei...
..................................................................
- Sinto os rumores duma convulsão,
a confessar tudo que eu cismei!
.................................................................
Ó Vénus sensual!
Pecado mortal
do meu pensamento!
Tens nos seios de bicos acerados,
num tormento,
a singular razão dos meus cuidados!
Fevereiro – Noite Luarenta
1922 (10)

De facto, esta estesia perante o corpo feminino que o sujeito poético manifesta, se, por um lado, convoca as mulheres esculturais de um Klimt ( e lembro obras suas como “O Teatro de Taormina” (1886-1888), “A Escultura” (1896), “Nuda Veritas” (1899), “Judith I” (1901), “Judith II” (1909), ...) e o conexo deslumbramento pelo narcisismo lésbico, universo a que o mesmo Klimt (1862-1918) também aderiu (uerbi gratia, com “Serpentes de Água-II” (1904-1907)), não deixa ainda de ser verdade que nessa obsidência se tipifica uma indenegável e modernista estratégia da ruptura. Aliás, a interactividade da obra literária judithiana com as artes plásticas, no bom sentido dos melhores modernistas, será uma constância ( poemas “Por Quê?” e “Liberta”, ambos de Decadência, são exemplo suficiente), tendo a própria poetisa sido retratada por Carlos Porfírio (1922 ou 1923) e por Guilherme Filipe (1926), dois pintores de manifesta actualidade epocal.
Tal vertente homoerótica, projectada ou vivenciada pela poetisa, é, na sua constância sem exclusivismo, uma característica não despicienda à época – e relembro que falamos de 1923 –, transformando-se, nesse indefectível arrojo contra as vozes da turba escandalizada, em condição de originalidade poética sem sujeição. E é assim, de novo no rasto de Klimt, cuja obra Judith Teixeira parece ter conhecido e interiorizado, que encontramos no poema “Perfis Decadentes” uma intensa cena de deflagração lésbica do amor que a poetisa poderia perfeitamente ter ido “beber” à já mencionada “Serpentes de Água II” do pintor austríaco, obra que retrata, segundo Gilles Néret, “um mundo narcisista povoado de lésbicas que se enrolam em espirais nas correntes, feito de sonhos aquáticos”. Diz assim o poema:
Através dos vitrais
ia a luz espreguiçar-se
em listas faiscantes,
sobre as sedas orientais
de cores luxuriantes!

Sons ritmados dolentes,
num sensualismo intenso,
vibram misticismos decadentes
por entre nuvens de incenso...

Longos, esguios, estáticos,
entre as ondas vermelhas do cetim,
dois corpos esculpidos em marfim
soergueram-se nostálgicos,
sonâmbulos e enigmáticos...

Os seus perfis esfíngicos
e cálidos
estremeceram
na ânsia duma beleza pressentida,
dolorosamente pálidos!

Fitaram-se as bocas sensuais!
Os corpos subtilizados,
femininos,
entre mil cintilações
irreais,
enlaçaram-se
nos braços longos e finos!
..................................................................
E morderam-se as bocas abrasadas,
Em contorções de fúria, ensanguentadas! (11)
(...)
Se, do ponto de vista temático, as semelhanças são iniludíveis, não deixa ainda de ser verdade que estilematicamente há traços afins que permitem afirmar haver relações de intertextualidade entre os dois autores e as duas obras citadas: os vitrais judithianos serão, afinal, a linfa klimtiana; as algas multicolores e coruscantes do pintor são transfor-madas por Judith “em listas faiscantes, / sobre as sedas orientais / de cores luxuriantes”; as rotas aquáticas em espiral da obra plástica são agora “nuvens de incenso” (e olhe-se o desafio!) e “as ondas vermelhas do cetim”; os corpos oblongos e estilizados do pintor Gustav são em Judith longos, “esguios, estáticos, /...corpos esculpidos em marfim”; os klimtianos rostos de mulher, misto de frigidez e efervescência, são pares dos judithianos “perfis esfíngicos, / e cálidos” que estremecem “na ânsia duma beleza pressentida, / dolorosamente pálidos!”; os compridos braços de dedos longilíneos das mulheres narcísicas do artista de Baumgarten (Viena) estão também presentes “nos braços longos e finos” das criações da mulher-poeta viseense; o halo irreal ou surreal que recobre o conjunto plástico de tonalidade onírica é equipolente da atmosfera de sonho que conquista o centro do poema através daqueles “corpos subtilizados, / femininos, / entre mil cintilações / irreais”; e, por fim, uma mesma dimensão de tragédia e de revolta decadentista-modernista na deflagração amorosa, citando eu o exuberante exemplo “E morderam-se as bocas abrasadas, / em contorções de fúria, ensanguentadas!”.
Tragédia decadentista e coragem modernista, eis o que se colhe desta interacção textual. Judith Teixeira, influenciada pelas artes em geral e pelas artes plásticas em particular, desde o seu primeiro livro de poesia, de que citei exemplos evocativos, prova obedecer ao preceito de Georges Bataille segundo o qual a arte autêntica é forçosamente prometeica. A transgressão e o voo livre pelos interditos faziam de Judith Teixeira, desde 1923, um caso raro de afirmação de um lugar poético original e sem sujeição. Mas, como sempre acontece, estar com os tempos modernos era ainda demasiadamente cedo para que a sua inscrição literária se viesse a fazer em época de fundamentalismo misógino e de gradual fechamento político. E, como o diria um Gil de Carvalho (12), já no último lustro de Novecentos, ela era um misto de Florbela Espanca e de Irene Lisboa, sendo, por isso, de lamentar tão grande silêncio dos escoliastas literários. Mas não de todos, como veremos à frente...
Não se fica pelo referido o virtuosismo literário de Judith Teixeira. De facto, uma outra voz coeva, que a poetisa portuguesa com toda a certeza desconhecia – e falo de Delmira Agustini (1886-1914), a cultuada pitonisa uruguaia do modernismo hispânico (13) -, manifesta afinidades electivas, poéticas e biográficas, com Judith. Aliás, essa convergência de articulação poética já foi notada por um René Garay (14), que defende que a subversão das imagens consagradas é comum em ambas: o cisne de Delmira nada deve à simbologia do modernismo hispânico glosada pelo seguidores de Ruben Darío, antes se subtilizando em desejo irreprimível no poema “El cisne” do livro Los cálices vacíos (1913), o que, afinal, também acontece com Judith Teixeira nos poemas “Ao Espelho” (“e eu vou pensando, / no cisne branco e mudo / que no espelhante lago adormeceu”) de Decadência ou na composição poética “Ilusão” de Nua. Poemas de Bizâncio (1926), que é, sem dúvida, uma fulgurante exemplificação da capacidade estranhizante das imagens judithianas, com a sua pregnância onírica animada por uma belíssima criatura “esculpida em neve” que tem sobre a nudez jovem do corpo “dois cisnes erectos”. Mas esta atinência é muito mais completa, passando não só pela coincidência biográfica (apodo de sáficas, recurso ao divórcio, colaboração em revistas, rebeldia e insubmissão, silenciamento...), como principalmente por uma “technê” criadora plena de sensualidade e de inferências decadentistas, modernistas e vanguardistas (“Os meus versos não têm escola – são Meus!”, gritará Judith Teixeira, em 1926, na importantíssima conferência De Mim), criando-se no processo estádios eróticos diversos mas interligados entre si pela lei do desejo que é sempre mais imaginação, mais transgressão e mais fantasia.
Nesse mesmo ano de 1923, Judith Teixeira escreveu Castelo de Sombras, livro menos arrojado, de tom vincadamente cinéreo e dessorado, de imediata atracção pela correlação com Castillo Interior ou Tratado de las Moradas (1577) de Santa Teresa de Ávila, não havendo, como poderia parecer, qualquer estratégia de submissão às vozes críticas, até porque as datas dos poemas são coevas das de Decadência. Em 1925, a poetisa dirige a cosmopolita revista Europa, de que se conhecem três números nesse mesmo ano, nela tendo colaborado nomes literários como os de Américo Durão, Aquilino Ribeiro, Carolina Homem Christo, Ferreira de Castro, Florbela Espanca ou Reinaldo Ferreira, sendo ainda de realçar o destaque dado à ilustração, à fotografia e às artes plásticas, com reprodução de obras de Almada Negreiros, Amadeo, Eduardo Viana, Mário Eloy... No ano seguinte, em 1926, publica-se Nua. Poemas de Bizâncio, livro que António Manuel Couto Viana exalta como a melhor e mais moderna criação judithiana. Instala-se de novo a polémica e ARIEL, pseudónimo de Álvaro Maia, sempre ele, refere-se a “versalhadas ignóbeis à Judith Teixeira”. Ainda no calor da refrega, faz publicar a poetisa uma brilhante conferência intitulada De Mim, importante texto para o aclaramento da indenegável inteligência e modernidade da escritora, só espantando que um paratexto literário deste nível permaneça desconhecido de boa parte dos amantes da literatura. Segue-se, já no início de 1927, um livro de novelas intitulado Satânia, e até por aí, pela sugestão titular, é indesmentível a aproximação, fortuita embora, com Delmira Agustini. O rasto de Judith começa a perder-se, farta certamente da restrição isegórica (15) a que tinha sido sujeita e de todos os ecos escandalosos de um jornalismo lateral e de uma crítica literária adepta do mito do “eterno feminino”. Conhecem-se ainda, por finais da década de 30, dois textos de opinião judithianos, um sobre a família, outro sobre o desemprego do espírito, ambos subsumidos já ao conservadorismo, ambos manifestantes de uma límpida e ática escrita.
Mas... quem conhece Judith Teixeira? Encostada a uma época de tradição e de mudança, a notável poetisa vive uma empenhada actividade marginal de transgressão do establishment, sabendo que esse carácter prometeico lhe valeria um longo e comprometido silêncio. Contra essa sanção simbólica, valeu bem a pena uma tão intensa e tão curta vida literária. Assim aconteceu com a uruguaia Delmira Agustini, com a chilena Teresa Wilms Montt (1893-1921) e com a argentina Alfonsina Storni (1892-1938), almas próximas do arrojo judithiano.

2. Mas peguemos em Régio, que desde há tanto espera por nós. José Régio é uma figura referencial da cultura contemporânea e uma das figuras literárias mais importantes do nosso novecentismo, todos o sabem. Avanço quatro nomes maiores e ele lá está: Pessoa, Régio, Vergílio e Eugénio, ainda no activo.
Mas nem sempre assim foi. Régio cumpriu um difícil e atribulado processo formativo. Iniciando-se sob o pseudónimo José Régio com a “Toada de Natal”, de 1921, no semanário A República de Vila do Conde, avançou o poeta com colaborações coimbrãs em 1923 e 1924, em publicações como A Revolta e Bizâncio. Para trás ficavam já os precoces tentames poéticos (Violetas, com doze ou treze anos) e prosásticos da adolescência, bem como a anterior pseudonímia de que é exemplo a subscrição Vénus, no poema “Amor” vindo a lume no jornal O Democrático de Vila do Conde, pelo ano de 1915. Ficavam ainda para trás as já mais maduras colaborações na publicação quinzenal Alma Nova de Espinho e nas portuenses A Crisálida e A Nossa Revista .
Este regiano conspecto debutante tem parelo, como vimos, com a primeira fase de Judith Teixeira, também ela imersa desde a adolescência em tentames literários e em colaborações por jornais e revistas. Voltemos, no entanto, ao tempo de Coimbra, época em que, como o sabemos pelas Páginas do Diário Íntimo, Régio procurava uma fórmula que resumisse o fim da sua Arte e que, até novas ordens, seria aquela que ele plasmou no seu diário com data de 22 de Fevereiro de 1923: “Revelar, numa forma toda criada em relevos ou em sugestões, quanto há em mim de simultaneamente mais humano e mais íntimo.” (16)
José Régio colabora na revista Bizâncio desde o primeiro número. Corre o ano de 1923 e o mês de Março, e eis que a nova revista coimbrã sai a lume com aquela nota programática de abertura da responsabilidade de Alexandre de Aragão: “Bysancio não significa de nenhum modo a sistemática exclusão da paisagem natural e formas nacionais pelo mármore dos cenários recompostos e nostalgias de poentes demorados e doentios. É mais um símbolo estético da união do que é uma resultante comum.” No entanto, e não obstante as palavras iniciais, replasma ainda a publicação coimbrã uma pesada influência simbolista e decadentista. Nela publica Régio o poema “Soneto dos Vencidos”, logo se seguindo, na revista nº 2, a “Canção do Regresso” e, no exemplar nº4, o poema “Humorismo a 40º de febre”. As vozes críticas logo se fazem ouvir, avultando, nessa reacção, os nomes de Álvaro Maia (17), sempre ele ( que por Maio, referindo-se ao segundo número da revista, não se contém que não diga: “O sr. José Régio colabora duplamente: em prosa e em verso. A Canção do Regresso, maus versos: a Ultima pagina, réles prosa cheia de blasfêmia. Cebo para estes bysantinos! Para estas misérias do sr. José Régio não valia a pena estar a incomodar do somno poeirento a derrocada de Bysancio!”), e de um “amigo” de Régio, de apelido Cotta (?) (que diz, no terceiro trimestre de 1923: “Aquilo que V. compõe são bizarros retalhos de coisas que a mim, pelo menos, passam desapercebidas; o que V. ainda mais torna impalpáveis, filtrando-os pela sua imaginação ou mórbida ou exótica. Auguro-lhe que a sua compleição poética nunca se fará conhecer pelas suas composições.”) (18).
É conturbada a iniciação de Régio, que, como Judith, se viu envolto em polémica e com o mesmo Álvaro Maia, e que, ao contrário da poetisa, começa a ganhar notoriedade através da colaboração numa revista demasiadamente presa ao passado, enquanto a autora de Decadência começa a conquistar visibilidade na publicação que era o “canto do cisne” do 1º Modernismo. Ainda assim, evidentes atinências, em época do mais que certo contacto da poesia de Judith Teixeira com o leitor privilegiado que era já José Régio, não obstante a falta de provas documentais ou textuais.
Em 1926, publica Régio os Poemas de Deus e do Diabo , tendo o poeta defendido, no ano anterior, a corajosa e renovadora dissertação para licenciatura na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra intitulada As Correntes e as Individualidades na Moderna Poesia Portuguesa e subscrita pelo seu nome civil José Maria dos Reis Pereira. Entretanto, Judith Teixeira dá o melhor de si na direcção da revista Europa.
Enquanto se imprime Satânia, vem à tona viva do mundo o primeiro número da revista Presença, trabalho intensamente vivido naquela pequena casa coimbrã da Rua das Flores. E é nesse exemplar inaugural, com destaque de abertura, que se dá o primeiro encontro público de José Régio com Judith Teixeira, precisamente no derradeiro parágrafo do celebrado texto “Literatura Viva”:
“Eis como tudo isto se reduz a pouco: Literatura viva é aquela em que o artista insuflou a sua própria vida, e que por isso mesmo passa a viver de vida própria. Sendo êsse artista um homem superior pela sensibilidade, pela inteligência e pela imaginação, a literatura viva que êle produza será superior; inacessível, portanto, às condições do tempo e do espaço. E é apenas por isto que os autos de Gil Vicente são espantosamente vivos, e as comédias de Sá de Miranda irremediavelmente mortas; que todos os livros de Judith Teixeira não valem uma canção escolhida de António Bôtto; que os Sonetos de Camões são maravilhosos, e os de António Ferreira massadores; que um pequeno prefácio de Fernando Pessoa diz mais que um grande artigo de Fidelino de Figueiredo; que há mais fôrça íntima em catorze versos de Antero que num poemeto de Junqueiro; e que é mais belo um adágio popular do que uma bela frase de literato.” (19)
Esta tirada, que Judith poderá ter entendido como negativa para si, é, a meu ver, o primeiro texto crítico que afirma a presença irrefragável da poetisa na nossa memória literária, aí figurando a mulher-poeta ao lado dos não desprezíveis Sá de Miranda, Botto, António Ferreira, Fidelino e Junqueiro, prova, afinal, da convalidação de José Régio. Aliás, pouco depois do postulado regiano, é um Armando Vasconcelos de Carvalho que a diz, em páginas do Diário de Lisboa, “a melhor poetisa portuguesa da moderna geração”, com “poesias em que a sua autora recorta emoções de seu espírito, dos seus sentidos, de seus desejos.” (20) Nesta senda judicativa seja entendida ainda a opinião de João Gaspar Simões, que, dez anos volvidos, não deixa, no mesmo DL, de louvar a audácia da mulher-poeta (21).
Judith Teixeira é uma mulher de casos e descasos, de encontros e desencontros. Em sua casa consigo se encontraram, em Agosto de 1923, António Botto e Rafael Lasso de la Vega. Todos, incluindo Judith, vieram a encontrar-se com a morte naquele estranho ano de 1959: Judith morre em Lisboa, só e abandonada; Botto é estupidamente atropelado no Brasil; o ultraísta Lasso de la Veja é fulminado, por um ataque cardíaco, na porta giratória do Ateneu de Sevilha.
Não deixa ainda de ser espantoso que este indicioso ano de 2001, ano em que jubilosamente celebramos Régio e a sua acção literária com o pretexto da data do seu nascimento, tenha sido o ano da convalidação académica, aqui em Aveiro, em Outubro último, de uma primeira dissertação nacional e mundial sobre Judith Teixeira, vulto que, aliás, fora, meses antes, capa da revista Faces de Eva da Universidade Nova de Lisboa. Por fabulosa coincidência, que é mais um incindível encontro, a dissertação académica foi orientada pelo Professor Eugénio Lisboa, o mais resistente e estruturado regianista.
Régio e Judith Teixeira: eis um encontro entre uma voz nodal e uma “brasa ardente” que o esquecimento não logrou sepultar. Boa-tarde, Régio. Boa-tarde, Eugénio Lisboa.


* Este texto reproduz, com alterações, uma comunicação apresentada na Universidade de Aveiro (8º Encontro de Estudos Portugueses, 22 de Novembro de 2001) e posteriormente publicada em Presenças de Régio (Universidade de Aveiro, 2002).
(1) Sobre a data de nascimento de Judith Teixeira, nem sempre as informações têm sido as mais correctas. Face à escassez documental, não espanta o equívoco. A edição de Poemas (Lisboa, &etc, 1996), da responsabilidade de Maria Jorge e Luís Manuel Gaspar, prova a naturalidade viseense da escritora e transcreve a prova irrefutável do assento de baptismo - que eu também compulsei -, que fixa, em definitivo, o ano de 1880 como data de nascimento da artista, afastando assim a tradição nascente que referia a data de 1873. Menos justificável é, no entanto, aquela imperdoável falha da Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira , combatida até à exaustão por Eugénio Lisboa, que “certifica” ter Régio nascido em 1899. E, assim, de falhanços flagrantes se vai construindo uma história que, muitas vezes, é glosa do erro e eco enternecido disso.
(2) Cf. Jornal da Tarde de 21 de Outubro de 1918, p. 1. Trata-se provavelmente do primeiro texto judithiano impresso.
(3) Cf. Jornal da Tarde de 10 de Janeiro de 1919.
(4) Judith Teixeira colabora em Contemporânea com os poemas “Fim” (nº 2, Junho de 1922, p. 59), “O meu chinês” (nº 6, Natal de 1922, p. 128), “A cor dos sons” (3ª Série, nº1, 1926, p. 41) e “Vaticínio” (este nunca passando das provas de prelo para a revista nº 14, a publicar por 1929, e que nunca conheceu a luz do dia).
(5) Em carta dirigida a Cortes-Rodrigues, Fernando Pessoa deixa cair os celebérrimos “que diferença! que diferença!”.
(6) Pense-se no ensaio pessoano “António Botto e o Ideal Estético em Portugal” (Contemporânea, nº 3, 1922) ou no reactivo texto, também de Fernando Pessoa, de título “Sobre um Manifesto de Estudantes”, bem como no intenso “Aviso por causa da Moral” de Álvaro de Campos.
(7) Disse-o Aquilino Ribeiro, em entrevista ao Diário de Lisboa de 20 de Julho de 1923.
(8) Cf. A Capital de 22 de Março de 1923.
(9) Matei Calinescu, As Cinco Faces da Modernidade (Modernismo, Vanguarda, Decadência, Kitsch, Pós-Modernismo), Lisboa, Veja, 1999.
(10) Judith Teixeira, Decadência.Poemas, Lisboa, Imprensa Libânio da Silva, 1923, pp. 15-16.
(11) Id., ibid., pp. 31-32.
(12) Cf. a recensão de Gil de Carvalho à edição de Poemas de Judith Teixeira, da responsabilidade de Maria Jorge e Luís Manuel Gaspar, no Independente de 8 de Novembro de 1996.
(13) Há uma evidente correlação estilemática entre Judith Teixeira e Delmira Agustini, como o comprovará uma qualquer espreitadela à obra judithiana e a Los Cálices Vacíos, por exemplo, da escritora uruguaia.
(14) Cf. René Garay, “Sexus sequor: Judith Teixeira e o discurso modernista português”, in Faces de Eva. Estudos sobre a Mulher , nº 5, 2001, pp. 53-74.
(15) Sobre o conceito de isegoria, veja-se Telmo Verdelho, “DA ISEGORIA. Breve reflexão sobre o espaço verbal e o direito à palavra”, in Revista da Universidade de Aveiro/Letras, nº 3, 1986, pp. 139-156.
(16) José Régio, Páginas do Diário Íntimo, Lisboa, Círculo de Leitores, 1994, p. 8. Introdução de Eugénio Lisboa e Notas de José Alberto Reis Pereira.
(17) Cf. Álvaro Maia, “Revista das revistas: ‘Bysancio’ – revista coimbrã – nºs 1 e 2”, in Revista Portuguesa de 12 de Maio de 1923, p. 29.
(18) Será esta pessoa de apelido Cotta pai ou familiar de António Rebelo Cotta, que apresentou à Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, em finais da década de quarenta, a dissertação para Licenciatura em Ciências Históricas e Filosóficas de título Fundamentos de uma Gnoseologia Pura (Coimbra, 1947)?
(19) Presença, nº 1, 10 de Março de 1927, p. 2.
(20) Diário de Lisboa de 15 de Agosto de 1927.
(21) João Gaspar Simões, no “Suplemento Literário” do Diário de Lisboa, nº 86, de 29 de Janeiro de 1937, p. 4, ao proceder à recensão de obras de autoria feminina, relembra o arrojo judithiano.

WWWEVROPA.BLOGSPOT.COM - O SÍTIO JUDITHIANO







2006-05-20

deambulações fáceis

Klimt

"Deambulações fáceis, por entre tantas colunas, com um passo quase elástico, sobre esses tapetes espessos feitos de ganchos de cabelos vegetais. Labirinto fácil.
Passeemo-nos à vontade por entre as colunas, essas árvores libertas de ramos caducos!"
(Francis Ponge, O caderno do pinhal)

2006-05-19

O lume e o chão (romance a duas mãos)



AUTORIA: MATA HARI
CAPÍTULO 2º

MARTA CRIA OUVíDiO

Marta parecia-me sempre igual, apesar de, com o tempo, ter também ela ficado para lá dos lugares que agora conheço, numa espécie de névoa, com alguma angústia à mistura. Por vezes fazia-me chá e eu acariciava-lhe as costas. Adormecíamos os dois sem tempo para mais nada. A sociedade dos homens, tinha, há muito, começado a enganá-los, os dois procuravam, agora, partilhar um novo sentido para as coisas.

- Fala-me de ti, no passado. Das coisas que gostavas e que agora já não. Das coisas que te faziam rir e chorar como ainda agora ris e choras. E o contrário disso.
- Procuras-me sempre nos mesmos lugares!
- Eu sei, é me mais fácil encontrar-te, é-me mais fácil encontrar-me. É sempre uma forma eficaz de encontrar o que se quer, com o mínimo de esforço. E eu esforço-me pouco, muito pouco para me encontrar.
- Sabes, às vezes fico a pensar e duvido. Duvido de Helena, da forma e do modo como ela ainda vive em mim. Sabia sempre o que eu não queria. Raramente sabia o que queria.
- Os homens são criaturas cheias de dúvidas. Interrogam-se com as evidências e tu não deixas de ser uma excepção.
- Helena era uma excepção. Uma excepção na minha vida. Procurei sempre encontrar nela um pouco da minha parte que está vazia. A minha parte, talvez meia parte, ainda vazia.
- Como conheceste Helena?
- Já quase não me lembro. Na verdade, acho que nós só nos lembramos daquilo que realmente queremos é quase que uma atitude inconsciente de lembrar e deixar de lembrar. As imagens, os sons e os aromas ainda cá estão dentro, parece que ainda os sinto, mas estão amontoados em mim. A minha tem sido vivida um pouco assim, amontoada, aos bocados, às partes. Os anos aproximam-se silenciosamente e eu vivo para além de mim.

Por vezes e às vezes falávamos de nós. Das coisas que os outros falavam de nós e de tudo que estava em volta disso. Ela tinha dias que não me via, eu também não a via. Vivíamos e partilhávamos o mesmo espaço mas o nosso tempo era marcado de uma forma desigual.

- A vida é estranha, começamos sempre por desejar o que nos escapa e acabamos a detestar o que está ao nosso alcance.
- Helena apareceu-me um dia à tarde, era Outono. Havia folhas no chão pássaros já não e depois ela apareceu. Estivemos junto até hoje. As coisas mais inesperadas acontecem quando menos esperamos que elas aconteçam e nesse dia e nos que se lhe seguiram talvez tenha sido um pouco assim. Não sei de onde é que ela apareceu ou sequer de onde veio. Também nunca lhe perguntei, talvez porque nunca tenha realmente tido necessidade disso, talvez por que dessa forma não teria nunca de me iludir com nada, inclusive com aquilo que me estava a acontecer.

Naqueles dias trocávamos angústias e pequenos medos enrolados em lindos embrulhos, papel de rebuçado, laços cor de rosa, por vezes vermelhos. Mastigávamos os mesmos sabores, partilhávamos as mesmas cores que serviam de aperitivo na beleza de um mundo que queríamos muito ir recreando, aos poucos, às partes, aos bocados.

- Solta-me o vestido! Sim aí esse pequeno nó tenta deslaçá-lo. Nó cego.
- Sabes Marta, não consigo perceber o que me persegue. Se será realmente Helena, ou a parte dela que ainda existe em mim. Por vezes fico a pensar se os segredos que ainda guardo comigo e que ambos partilhávamos me podem servir de alguma forma para criar algo de novo. Talvez para me ir alimentando deles, em pequenos momentos que a memória vai deixando lembrar. O filho que ambos vimos crescer continua a ser a recordação mais forte que ainda tenho dela, ainda assim foge-me uma parte, que não consigo explicar, está a tornar-se invisível. Céu azul limpo sem nuvens.

Marta sabia sempre ocupar o seu lugar. Mesmo quando não havia lugar para ela. A sua presença marcava todo o espaço, por muito grande ou pequeno, sentia-a como ninguém mais. Demais.

- Arrepiam-me esses lugares.
- De que falas?
- Sítios de lugar nenhum. Lugares de exílio talvez. São sempre assim, aí procuramos alguma coisa sem percebermos muito bem o quê, nem sequer sabendo se existem. Eu também não sabia da tua existência.
- Descreve-me Helena ao contrário. Como que do mesmo lado, mas ao inverso. Reverso.
- Helena por vezes gelava-me com os seus beijos. Os olhos dela procuravam sempre encontrar algo de novo à sua volta.

Para Helena o mundo fechava-se. Por vezes partia em função de nada, e à procura de nada. Ouvíamos o barulho do mar, passar por detrás e depois ela fazia sempre aquele sorriso de como e quando a conheci. Às vezes ela ia e voltava, sem saber ou perceber porque ia e voltava e tudo ficava igual ao que sempre tinha sido. As vezes perguntava-lhe de quanto tempo mais precisava para chegar a esse lugar. Sabia que fugia de mim, mas também dela e do mundo que tinha deixado ficar para trás. Sabia que fugia do medo, da morte das coisas que sentia trazer agarradas a si. Coladas.

Naquele ano as coisas tinham começado mal. Entre eles as discussões agravaram-se e as coisas sempre estiveram por um fio e nem um nem outro queriam segurar o que ambos assumiam como perdido. Por vezes punha-me a pensar procurando perceber por que é que as coisas se tinham passado daquela forma. Angustiava-me pensar tudo aquilo que iríamos perder para sempre. O presente.

- Sabes Helena, às vezes penso que teria sido melhor para ambos se não nos tivéssemos conhecido. As coisas acontecem, na maior parte das vezes e durante muito tempo não encontramos justificação para elas. Não encontramos justificação para que eles ocorram daquela maneira e um dia paramos e pomo-nos a pensar um pouco sobre tudo o que se passou antes, como se passou e perguntamos será que valeu a pena?
- Um dia o mundo cai-nos em cima e depois começamos por que é que isso aconteceu. Porquê nós?

Helena tinha os cabelos louros, por vezes dourados pelo sol, olhos verdes cor de cereja e vestia-se sempre em tons de azul. Oceano. Ao fim do dia caminhava pelo campo em volta da casa que o seu pai lhe tinha deixado em herança. A sua mãe tinha desaparecido, era ela muito pequena, tão pequena que já não se lembrava. Do seu pai também não, a não ser por fotografias que guardava na sala num armário ao fundo e que por vezes procurava encontrar. Amar. Caminhava pelo campo em busca da sua alma, ou de uma coisa qualquer que pudesse substituí-la, talvez mesmo esse sentido. Pesado.

- Quando somos crianças o mundo cabe-nos numa das nossas mãos. Sorrimos e pensamos que lindo é o teu sorriso, quando sorris. Para mim estás sempre a sorrir.
- Gosto muito de ti ao contrário. Beija-me.
Perguntava-lhe sempre o que é que isso poderia significar, mas ela nunca me deu o significado. Codificado.

Às vezes caminhávamos juntos pelo campo, procurávamos ver e ouvir os pássaros que fugiam por cima das nossas cabeças. Tocava-mos com as mãos, por vezes suadas. Tínhamos sempre tempo para nos beijar. Kiss me dear.
- Sabes Marta, não sei explicar as coisas que me acontecem. O sentido que os outros têm delas, nunca é o mesmo que eu lhe procurei dar. Há sempre uma coisa que não liga com a outra e por mais que eu queira não consigo encontrar esse ponto que as liga. Electricidade.
- Beija-me com a tua boca. Desejas-me?
- Não se deseja aquilo que não conhecemos.

Marta lembrava a arte de amar e pensava que a beleza não bastava para se ser amado. Eu disse-lhe que a amava ela disse-me que não. Esse não poderia significar muita coisa, ou talvez até nada, bastava que para isso pudesse lembrar-me de tudo que já tínhamos passado juntos. Talvez um dia o amor chegasse, quando menos esperássemos. Olá.

- Lambe-me os pés. Depois o rosto.
- Sabes como me chamo?
- Que o amor penetre sobre o nome da amizade. Persistência.

2006-05-18

Vergílio Ferreira e Viseu







"O equívoco da relação do real com o imaginário sobre ele construído, nasce da obstinada ideia de que um está contido no outro, de que o imaginário é um real composto - e nunca a ideia de que o imagi nário é uma realização de si própria que (re)inventa o real do qual partiu. O real é um monturo sem significação legível e é necessário que a arte o (re)invente para ele começar de facto a existir. O que se reencontra no real não está lá, porque de facto o que lá está, depois de estar alguma coisa, foi o imaginário do artista que o lá pôs. O real em bruto não é nada, antes de o artista o transcender a uma significação que é a da arte."
(Vergílio Ferreira, Conta-Corrente (Nova-Série)-I , Venda Nova, Bertrand Editora, 1993, p. 98.)


0. A palavra literária que continua a dimanar da lava vergiliana, actividade magmática por sobre o fogo e as cinzas dos círculos dantescos onde os artistas e as obras de todos os tempos e lugares se telescopam num locus angelicus aos melhores reservado, sempre nos conduziu a espaços vergilianamente ditos "lugares do seu espírito". Esta aptidão da obra de Vergílio Ferreira tem paralelo com muitos autores, grande parte dos quais canonizados no incontornável The Western Canon. The Books and School of the Ages., do já celebérrimo Professor de Humanidades da Universidade de Yale Harold Bloom.
Assim, torna-se impossível - já antes o dissera Garrett - entender Shakespeare e esquecer Stratford-upon-Avon, ler Dante sem lembrar Florença ou Bolonha ou Verona, apreciar Chaucer sem assomar Londres, falar de Joyce e não aparecer Dublin, pensar em Sebastião da Gama e não surgir a Arrábida, degustar Eça e não sentir Lisboa... Defendemos, há um anos atrás, na primeira parte do artigo "Do mundo à aldeia do mundo: Melo na obra de Vergílio Ferreira" (Navio-Farol, nº 10, 28 de Janeiro de 1996), que o cursus vergiliano se constrói - com mítica alusão a Eneias de Virgílio, se bem que em diferente valência, já que a personagem do poeta de Mântua vê a sua Tróia destruída e dela se afasta em definitivo; ou ao Virgílio de Hermann Broch que, em estertor, guarda em si forças para chegar à antiga Brundisium ; ou, por último, a Leopold Bloom de James Joyce que regressa a casa depois de um longo dia - com a fundante presença do espaço da aldeia birthplace. É agora nossa intenção defender a asserção segundo a qual a cidade de Viseu, em transmigração ficcional ou em adstringência real, é um espaço vergiliano de eleição.

1. Ainda não iam longe as primícias de Vergílio Ferreira, quando pela primeira vez assoma na sua obra nascente o topónimo Viseu. Tal acontece no seu primeiro romance publicado, O Caminho Fica Longe (1943), o qual, pertencendo ao por nós chamado ciclo do banimento (em virtude de a partir daí se ter mantido impublicado, com Onde Tudo Foi Morrendo, por vontade do Autor), tem sido aproximado do presencismo por alguma crítica universitária.(1) São exemplares dessa recorrência os dois casos,únicos neste obra de ficção,que de imediato citamos:

I. “Viera logo nessa noite uma tia de Viseu. Uma tia expurgada de carnes, que tinha a espinha em arco. Amélia iria viver na cidade com a tia solteirona, que recebia hóspedes. Estudaria no Liceu (ainda ia a tempo, apesar dos 13 anos)” (p. 34).
II. “Lia-a no bâton, nos sapatos, na saia justa. Lia-a no namôro que ela tivera em Viseu e lia-a sobretudo nas relações com o rapaz da livraria” (p. 60) 2.

2. Em Mudança (1949), e para seguirmos as palavras patriarcais que Eduardo Lourenço lhe antepôs a partir da 3ª edição de 1969, temos um "livro que abre caminho através da sua própria construção, caminho que é ruptura ou, em todo o caso, desconfiança em relação à luz excessivamente clara que banhava então o nosso universo romanesco." E também aqui o vezo viseense se afirma com duas presenças contadas como a seguir se exemplifica:

I. “Toda a vila de Castanheira se alvoroçava com a inteligência do Raul. O Hermínios cantara-lha de alto. De Viseu, onde o rapaz estudava, vinham reforços de opinião (p. 76).
II. “Toda a serra era agora um braseiro enorme, e, a meio, uma claridade metálica começava, enfim, a abrir a promessa vermelha do Oriente. Um facho direito desfibrava as sombras desde a primeira brecha aberta para os lados de Viseu, varrendo a encosta como um farol” (p. 126)3.

3. Em Conta-Corrente (1977-1979)-II (1981), deparam-se-nos três utilizações diferenciadas da palavra ou da alusão que perseguimos, sendo o último caso, como veremos, do foro onomástico. Pela importância da presença do cão na obra de Vergílio Ferreira, pedimos uma natural atenção para o primeiro exemplo, que, a nosso ver, é um dos passos mais enternecedores da nossa literatura. Assim, temos:

I. “Sexta-feira fomos à Torre para o Lúcio escorregar na neve. Ontem fomos ao Porto com a mana e o Zé. No regresso, parámos no Restaurante do Caçador, um pouco adiante de Viseu, para se comprarem frangos assados. Chovia. Lúcio então reparou que na berma da estrada estava um cão a ganir. "Está a morrer", disse-me. O cão estava deitado de lado, as patas trementes no ar. E gania em súplica. Fui ver. Ganiu mais baixo, apelando para mim. Decerto um carro tinha-lhe passado por cima ou embatido contra ele, arremessando-o para a berma. Decerto tinha a espinha partida. Tentava pôr-se de pé, não conseguia. Eu estava junto dele, ele pedia-me ajuda. Tentava de novo erguer-se, as pernas trémulas no ar. Chovia-lhe em cima. erguia o focinho para mim. Gania sempre” (p. 28).

II. “Pelo que me diz respeito, o problema tem que ver sobretudo com o uso do "adjectivo". Ou o emprego e corro o risco de uma comida enjoativa, ou não o emprego e corro o risco de uma comida sem sal. A solução parece simples: usá-lo com conta e medida, como a religião segundo o bispo de Viseu”(p. 142).

III. “E o noticiário? Por exemplo, do Diário de Notícias no seu 1o número (quinta-feira, 29 de Dezembro de 1864), p. 3, 2a coluna... Ou idem, p. 2, 3a coluna: Nunca é tarde para uma triste nova. António de Almeida Viseu, correio da repartição central do Ministério das Obras Públicas, foi encontrado morto em sua própria casa.


4. No volume seguinte do consagrado diário (1983), Vergílio Ferreira fala-nos de uma viagem que fez de Melo a Viseu a fim de comprar uma casa pré-fabricada. Para os espíritos mais curiosos deixamos a informação de que a transacção não se efectuou. Tal se passa no trecho que à frente transcrevemos:

“Ora, na repartição houve um naco de terra que se me pôs como pertença a haver. E imediatamente se me levantou a velha hipótese de armar nele uma tenda. Era o apelo obstinado de uma voz de infância que eu julgava soterrado pela poeira dos anos. Falava ainda. E eu ouvia-a. Ora, a forma mais exequível de lhe dar ouvidos era o recurso desse processo moderno e evoluído que é uma casa "prefabricada". Fomos a Viseu, que é onde há disso aqui perto”(p. 89)5.

5. Em Conta-Corrente (1984-1985)-V (1987), num interessante momento de dissertação sobre o carácter aleatório dos prémios, aparece-nos o topónimo Viseu num título de uma obra de Henrique Lopes Mendonça:

<
6. Ainda num volume do seu diário, e referimo-nos a Conta-Corrente (nova série)-IV (1994), o nome da nossa cidade volta a aparecer quando o Autor se queixa do imenso trabalho para que é convocado. Nesse pedaço, Vergílio Ferreira alude ao contacto por nós efectuado, enquanto membro e criador do jornal Navio-Farol 7, no sentido de uma colaboração que muito nos honraria e adianta as razões que o impossibilitavam sequer de dar resposta:

“É inacreditável a quantidade de trabalho que nos pedem. E raramente a pagar pela razão óbvia de que termos o nome no jornal para nossa pavonice, é prenda que não tem preço. De momento tenho aqui um pedido do jornal L'Humanité sobre os 500 anos dos Descobrimentos, da revista Nova Renascença sobre a morte do comunismo, do Arnaldo Saraiva sobre a minha relação de intelectual com o desporto; mais uma conferência em Coimbra sobre a importância do livro e da leitura; mais uma colaboração, por amor, para um jornal de uma escola de Viseu; mais um colóquio em Braga, com o reforço de uma cunha do meu amigo Prof. Santos Alves. Fantástico, não é assim? (...) Mas de toda esta chumbaria, vou ver se a do Arnaldo Saraiva me fere de asa.” (p. 24)(8)

6. Sabe-se ainda que os livros de Vergílio Ferreira - alguns deles... - estão indissoluvelmente ligados à tipografia mais conhecida de Viseu. Falamos, obviamente da Tipografia Guerra, que se situa, como se saberá, na Avenida Alberto Sampaio. A importância do livro e da sua aparência final muito devem a esse trabalho mágico de fabricação de "forças vitais na modelação do pensamento dos povos."9 Nessa gráfica foram impressos, com as naturais omissões que os livros que possuímos em casa permitem em conjunto com a natural distracção, títulos como Uma Esplanada sobre o Mar (1986), Até ao Fim (1987) ou A Estrela (1987) (10).

7. Pelo fogo redentor das conversas com interesse, é do nosso conhecimento - que sobre o por nós desconhecido outros falarão...- que, e tal fica para a história das relações de Vergílio Ferreira com a cidade de Viseu:

a) houve trocas epistolares dos Professores de Literatura Portuguesa e Linguística da Escola Superior de Educação com o Escritor, no sentido de ele estar presente num congresso por eles organizado, vindo a ter resposta, infelizmente negativa, datada de 26.11.91.;
b) o Dr. Fernando Paulo Baptista, após a publicação do artigo "Para a compreensão do que é e para que serve a ''língua materna''" em Navio-Farol (1994), recebeu de Vergílio Ferreira uma elogiosa missiva (Dezembro de 1994);
c) e, com a modéstia sempre imodesta que este desvelamento consente, nós mesmo recebemos, a propósito de textos vergilianos publicados, notícias encorajadoras do grande Mestre (31.01.95., 03.07.95. e 09.02.96.), a última das quais, por preceder em três semanas a sua morte, nos deixa sempre comovido.

8. Mas, se alguma dúvida restasse sobre o pendor, não sempre explícito, desse vez o vergiliano, pense-se que o seu corpus textual, sem dúvida um dos mais valiosos da literatura portuguesa, iniciado naquele incipit ”Antes de mais, convém esclarecer que nos não propomos (ai de nós! ) resolver o dícil problema de saber se Camões teria ou não lido Platão”(11) e culminado no doloroso e muito belo explicit “Pudesse ao menos na minha memória doente recuperar o que tant.........”(12), à cidade de Viseu veio pagar o seu tributo na memorável jornada de 27 de Janeiro de 1996.

De facto, a homenagem organizada pela Universidade Católica de Viseu, ao unir na nossa cidade a família vergiliana, com a presença da maioria dos mais reputados estudiosos da sua obra ( por ordem de comunicação, Maria Alzira Seixo, Carlos Reis, Gavilanes Laso, Rosa Goulart, Fernanda Irene Fonseca, José Carlos Seabra Pereira, Helder Godinho e Maria Joaquina Nobre Júlio) e com a ausência presente de Eduardo Lourenço, tornou eternos os laços que sustentam a tangência que atrás procurámos provar. A par disso, os oitenta anos assim celebrados, um romance prestes a sair e a todos anunciado ou a morte insuspeitada que espreitava naquele discurso engenhoso e vibrátil, tudo disse definitivamente, porque fomos os últimos a tê-lo para nós - e que o diga a juventude que o cercava...-, numa girândola de autógrafos e de festa, que Viseu, se já era parte de si, nele se incorporou para sempre. O soubemos até quando lemos em Cartas a Sandra , obra que o Autor já não viu nas bancas, que da sua aldeia, do lugar da sua origem e da sua morte, se vêem “as terras longínquas, pontuadas de branco, e mais longe, esfumadas num tom violeta, a serra do Caramulo.” (p. 153). Encaixada entre a Estrela e o Caramulo, no horizonte vergiliano, não deveria a cidade de Viseu, sem quaisquer polémicas, atribuir uma rua (avenida, largo, praça...) a este ícone literário e cultural que, em órgãos regionais e nacionais, tanta visibilidade deu ao nosso burgo,em 1996, nesse início do fim? Ou estaremos, como o pretende Eduardo Lourenco, perante um cavaleiro apocalíptico de um mundo deserto, voz sem voz porque sobre a voz? Poderão as inacções privadas, vício do por-fazer, ocultar alguma vez o "alto conceito que Vergílio Ferreira tem do homem" e, "contraditoriamente com outras afirmações do seu discurso, tem de Deus" (13)? Terrível palavra é um não, anunciou-o um dia Pe António Vieira. E nós, acaso seremos homens sem vontade?

Notas:

1 Veja-se, a propósito, o fundamental artigo de Aniceta Mendonça "Breve notícia do primeiro romance de Vergílio Ferreira", ínsito nos Anais do VII Encontro Nacional de Professores Universitários Brasileiros de Literatura Portuguesa (Belo Horizonte, Centro de Estudos Portugueses da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais, 1979). Sobre O Caminho Fica Longe diz-nos a estudiosa brasileira que ele é "peça importante no panorama romancístico dos anos 40 em Portugal" (p. 154), porque "explica e exemplifica o estado do romance antes do advento do Neo-Realismo" (p. 155), porque "é um romance presencista" (ibid.) e porque antes dele "só três romances presencistas haviam sido publicados: Elói ou Romance numa Cabeça (1932) e Amigos Sinceros (1941), de João Gaspar Simões; Jogo da Cabra Cega (1934), de José Régio." (ibid.) E mais à frente conclui Aniceta Mendonça que lermos este romance "é lermos, de um só golpe, o romance português dos anos 40." (p. 156) Razões de sobra, portanto, para a convocação desta nota...
2 Vergílio Ferreira, O Caminho Fica Longe, Lisboa, Inquérito, 1943. Em dedicatória a seu cunhado, o Professor José Augusto Rodrigues, Vergílio Ferreira refere-se a este título como o "início da sua aventura".
3 Id., Mudança, 3a ed., Lisboa, Portugália Editora, 1969.
4 Id., Conta-Corrente (1977-1979), 2a ed., Amadora, Livraria Bertand, 1981.
5Id., Conta-Corrente (1980-1981) ,Amadora, Livraria Bertrand, 1983.
6 Id. , op. cit. , Bertrand Editora,
7 O jornal Navio-Farol , que é propriedade da Escola EB 2,3 Infante D. Henrique, foi fundado em 1991 e é, sem sombra de dúvida, o jornal local que, não obstante os escassos seis anos de vida, maior destaque tem dado à obra de Vergílio Ferreira. Nas suas páginas, se esquecermos as recensões e os textos de jovens alunos, foram publicados, por ordem diacrónica, os seguintes artigos de temática vergiliana: "Vergílio Ferreira: escrita sempre (e)terna" (MGS: 1992), "Para a compreensão do que é e para que serve a ''língua materna'' (FPB: 1994), "A expansio do título em Vergílio Ferreira ou uma questão de coerência titular" (MGS: 1995), "O tempo do romance vergiliano: as estações do ano; as horas do dia" (RMG: 1995), "Do mundo à aldeia do mundo: Melo na obra de Vergílio Ferreira (I)" (MGS: 1996),"Do mundo à aldeia do mundo: Melo na obra de Vergílio Ferreira(II)" (MGS: 1996), "O literário como real absoluto" (JCSP: 1996), "A e W " (MCNM: 1996), "Do mundo à aldeia do mundo: Melo na obra ficcional de Vergílio Ferreira(III)" (MGS: 1996), "Vagão "J" e a celebração do signo-I" (MGS: 1996), "Nótula sobre Vergílio Ferreira num espaço de sedução" (FAL: 1997) e "Vagão "J" e a celebração a o signo-II" (MGS: 1997). A chave que permite decodificar as siglas pospostas aos artigos é a subsequente: FAL= Fernando Alexandre Lopes; FPB= Fernando Paulo Baptista; JCSP= José Carlos Seabra Pereira; MCNM= Mário Casa Nova Martins; MGS= Martim de Gouveia e Sousa; e RMG= Rosa Maria Goulart. Fora do vezo vergiliano, passaram por Navio-Farol , com textos seus, para lá dos atrás citados, nomes como os de Alexandre Alves, António Francisco Caldas, António Manuel Ferreira, António Manuel Ribeiro, António Soares Marques, Dalila Rodrigues, Duarte Barrilaro Ruas, Eduardo Lourenço, Fernando de Gouveia e Sousa, Georgino Rebelo Marques, Henrique Barrilaro Ruas, Humberto Liz, João Gil, Luís Calheiros, Luís Miguel Nava, Olavo Lobão, Pedro Albuquerque, Pedro Sobral ou Rui Silvares.
8 Vergílio Ferreira, Conta-Corrente (nova série)-IV, Venda Nova, Bertrand Editora, 1994.
9 Douglas C. McMurtrie, O Livro. Impressão e Fabrico., 2a ed., Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1982, p. 617. Esta obra é fundamental para o conhecimento histórico do trajecto que o livro cumpriu e cumpre desde a lucubração até às montras das livrarias.
10 Trata-se da magnífica edição desta short-story, anteriormente publicada em Apenas Homens (1972) e Contos (1976), agora em edição numerada de 1 a 200, ilustrada por Júlio Resende e assinada por Vergílio Ferreira, em papel Conqueror (Lisboa, Quetzal Editores, 1987).
11 Vergílio Ferreira, Teria Camões lido Platão? (Notas sôbre alguns elementos platónicos da lírica camoniana) , Separata de Biblos, vol. XVIII, tomo I, Coimbra, 1942, p. 1.
12 Id. , Cartas a Sandra, Venda Nova, Bertrand Editora, 1996, p. 155.
13 Maria Joaquina Nobre Júlio, O Discurso de Vergílio Ferreira como Questionação de Deus (Ensaio Interdisciplinar), Lisboa, Edições Colibri, 1996, p. 32.

2006-05-17

morta

c. portinari

Como a flôr delicada, ou nuvem côr de rosa

Que um temporal desmancha e o vento dissipou,

Assim ella tambem, fina flôr luminosa,

Branca nuvem, no azul se desfez e passou.

(Alexandre da Conceição, Outomnaes , 1892)

_________________________

Foi mantida a grafia epocal.


2006-05-16

da montanha o mel


vem o degelo e a criptografia desde a montanha. da urze ao monte um campo de flores brame. escrevo o que, leitor, quiseres. ao estilo de todos sabido o olhar multímodo acresce. quantos dias assim pacíficos e azuis. dos passos na terra uma gota de mel na tua boca.

2006-05-15

Singularidades: Tomaz de Figueiredo & o rigor das palavras




Tomaz de Figueiredo pertence a uma linhagem de autores que se impõe ao primeiro contacto empenhado, restando, desse encontro muitas vezes fortuito, um sentimento de desconforto face à glória das letras. Afinal, nesse mundo madraço e subterrâneo, muito êxito não vai além do estrépito e muitos escritores de qualidade ficam longe da memória.
Vem esta reflexão a propósito de um escritor fulgurante que pouco se lê e com quem muito se pode aprender. Deslembrado do leitor comum, há nele um exemplo ético e artístico que é modelar. Por exemplo, um não mais lembrado José Osório de Oliveira, filho da mangualdense Ana de Castro Osório, em livro de opinião de título “O Sonho Inútil” (1957), reconhece o carácter do escritor em apreço, referindo-se-lhe do seguinte modo: “Deus seja louvado, ainda existe, neste país de gente envilecida pela mesquinhez da vida, um homem de Letras com a nobreza necessária para proclamar a sua gratidão para com um confrade sem editor, sem público, sem tribuna na Imprensa – um franco-atirador inofensivo, que não dispõe de armas”. São actos desta dimensão, coonestados assim por vozes de escrita, que provam que vale sempre a pena o trabalho literário, contra todos os desgostos e desilusões. José Osório de Oliveira, autor de mais de cinquenta títulos, não se poderia ter enganado.
Contra a urgência do dizer, ritmo apressado a que muitos “escritores” se sujeitam, ergue-se súbita a figura e a estatura de um Tomaz de Figueiredo (1902-1970), que, pela sua inquestionável qualidade, merece novas leituras neste ano pós-celebrativo. É a hora? Nunca é a hora para uma leitura já atrasada. Sirva o desejo para que se festeje sempre uma figura grada da literatura portuguesa e um dos mais exímios cultores da língua portuguesa, a par de Vieira, de um Camilo ou de um Aquilino. Vigilante como muito poucos ao decantamento dos signos, as palavras tomazinas erguem-se lentas e lustrais, sujeitas a um oficinal rigor de despioramento textual que conforma uma sintaxe irrepreensível que tem origem em Padre António Vieira. E também por aí, como em poucos, o dizer literário de Tomaz de Figueiredo ganha um sortilégio sugestivo e análogo ao de artistas como Guimarães Rosa ou Luandino Vieira, para citar apenas dois dos mais poderosos logotetas da literatura de expressão portuguesa. E, depois, há toda uma pregnância de estilemas e temas que o aproximam de um Raul Brandão ou de um Vergílio Ferreira.
Não sendo o dito panorama de pouca monta, diga-se que Tomaz Xavier de Azevedo Cardoso de Figueiredo nasceu em Julho de 1902, em Braga, vindo a falecer, em Lisboa, aos 68 anos, legando à posteridade cerca de duas dezenas de obras. Escritor tradicionalista no que de mais positivo tal palavra encerra, mantém laços perenes com Arcos de Valdevez, terra do seu coração e do seu pensar-sentir.
Julgado por muitos um auctor unius libri, devido à justa fama do romance A Toca do Lobo (1947) que um David Mourão-Ferreira coloca entre as obras-primas do nosso século XX, muito resta para aprender com o escritor minhoto. Mas comecemos pelo início da cultuada Toca, que encerra as particularidades de todo o primeiro parágrafo desta “fábula” e que é o mais conseguido “romance estático” da literatura portuguesa, um misto de alarme brandoniano e de problematização vergiliana. Não cessam por aí as virtudes da obra, avançando por delírios emotivo-verbais próprios do surrealismo, num espaço concentrado que é a velha casa e os seus silêncios, encostados ambos à memória por onde perpassam os afectos e desafectos de uma vida.
“Rio da memória em carne viva”, A Toca do Lobo é a expressão plena do rigor criativo que nos conta a história de uma velha casa habitada por uma família tradicional de que resta um último representante, D. Diogo Coutinho, que se entrega ao “mundo esmagador das recordações”. Obra intimista de monólogo interior, nela avulta ainda um halo fantasmático de vozes da sombra ou de um ladrar fugitivo. Atento ao misterioso de tudo, este romance diferente e estático nada esquece, tudo lembra, até o metal íntimo das vozes redivivas. Nuno de Sampayo diz que esta criação tomazina é o romance da “voz ‘reouvida’”. Assim é. E é desse eco fundo e original, dessa pureza linguística e artística densa de ressonâncias lustrais e fundadoras, que se constrói uma das mais arrebatadoras obras da literatura portuguesa e se afirma uma voz original que afecta a recepção de quaisquer obras posteriores. A partir da publicação do primeiro romance de Tomaz de Figueiredo, a “coisa literária” não mais seria a mesma, agitada por essa íntima convulsão provocada por uma voz que obrigava a um encaixe próximo do centro canónico. E, no entanto, quanto descaso e desconhecimento...
Se o início assim prometia, a obra seguinte, Nó Cego (1950), transborda de qualidades simples e intimistas, ao jeito presencista, que, aliás, serão evocados no próprio romance de que participa ainda o autor subsumido no nome de Francisco de Sá. Diverso do anterior, este roman à clef abandona a contingência localista e recria a atmosfera coimbrã estudantil da década de vinte do século passado. À semelhança do que acontece em romances de autores como José Régio, Branquinho da Fonseca ou Vergílio Ferreira, a obra de Tomaz de Figueiredo dedica muito de si à intensa luta dos estudantes da mais velha academia universitária contra os exageros anedóticos dos lentes, espelhando ainda, com minúcia, as vivências dos jovens intelectuais imersos em projectos, invejas e disputas amorosas.
Em Nó Cego, João Bravo de Noronha, limitado desde sempre pelo rigor familiar da mãe e do tio “protector”, consegue sonhar com a libertação nessa cidade mítica. Porém, o aperto de dinheiro, que lhe chegava doseadíssimo, mal chegando para as primeiras necessidades, bem como o dissentimento amoroso sentido visceralmente pelo jovem que, por defeito educacional, pouco ousava, tudo, em conjunto com as desilusões literárias num mundo, então o sabia, invejoso e e sinuoso, contribuía para a emergência de um nó cego só ultrapassável pelo voluntarismo da morte. Livre à clef, repito, pela distinção clara de gente famosa, nomeadamente de elementos da revista presença e de si próprio, Autor, é este exemplar tomazino um fulgurante caso de Bildungsroman que que desenvolve o trajecto de uma criança que cresce e aprende uma lição trágica de desfuturo.
Não avanço mais pela obra de Tomaz de Figueiredo. Cada leitor haverá de completar o seu desconhecimento com a força da pulsão interior. Não falo, é certo, do leitor à força, que pouco lê e menos diz. Falo mais para o leitor genético, sedento de fender as páginas esquecidas, omnívoro de casas de escritas diferentes e iguais, certo de pouco saber e ávido de conhecer mais do que títulos e entrechos ridiculamente recitados por boquinhas apertadas.
Baralho e dou de novo. Mostro a minha carta: A Toca do Lobo. Volto a jogar contigo, atento leitor. Trata-se de um surpreendente romance de qualidade indesmentível, mais ainda meandroso e infindável, labiríntico mesmo, junto às coisas simples do vivente, universo desmesurado adentro do monólogo interior, oficina do artefacto verbal que ousa e avança com a segurança das forjas maiores, convite directo ao conhecimento competente das virtualidades da nossa língua. Abundam por lá novos matizes semânticos vocabulares e outras revitalizações merecedoras de outros olhares, de um novo olhar, sobre uma estória mágica e poética, rente ao encanto da força das palavras e próxima do alarme metafísico através do abismo da memória.
Eis a última frase desta Toca: “Amarelava laranja por laranja e o fumo da casa subia.” É o tempo do regresso a casa, como o diria um Rainer Maria Rilke, a esta “velha toca” tomazina e degustar as palavras vivas nas veredas memoriais de Diogo Coutinho, voz percutida no nosso cérebro, voz em nós vinda do centro do íntimo.
António Manuel Couto Viana, em homenagem sentida que só os poetas sabem fazer, fala de Tomaz de Figueiredo como uma voz directa ao coração, imensa, de um escritor como “gostaria de ser, se tivesse qualidades de ficcionista.”
São estas as palavras de dentro da arte que ouço, que devemos ouvir, desencartadas e convidativas a que ouçamos o verdadeiro sopro do que interessa, contra a vulgaridade de modas e de famas quotidianas que sempre se dissolvem na areia de cada praia...







2006-05-13

sabes em manchester


sabes, em manchester a pedra beija a pedra
e o corpo escorre para dentro da areia
nem rasgado no vento agora contra os rios
as veias e as folhas húmidas no esplendor do estio.


sabes, nem poeta contra o gume do tempo
ou capricho teu me afastarão do lugar da pedra.


sabes, a manhã abraça o solo.

2006-05-12

homenagem das 5000 páginas: António de Sousa de Macedo (1606-1682) - "a tudo se estende e nada lhe repugna"



“A tudo se estende e nada lhe repugna”, eis a feliz divisa que Hernâni Cidade encontrou, com o pretexto da obra de juventude Flores de España, Excelências de Portugal (1631), para António de Sousa de Macedo. Nesse dito me revejo, alargando-o como estímulo para toda uma multímoda obra singular, que deriva também do seu modo teorético.
Quando António Franco Alexandre, no seu recente Aracne (2004), alude, por via do sábio coração de um aranhiço, à necessidade de um cânone só seu, isto é, de uma singularidade expressiva, esquecia talvez, em gesta poética que só pode ser esquecimento, que esse é o desejo de cada escrevente. Dispersas, as palavras despegam-se da memória. E, como desde há muito se sabe ( pelo menos desde o tempo de Teuth e de Tamo), a escrita é o ramo do conhecimento que é também remédio da sabedoria e da recordação.
Posto isto, entendo que todo o texto referencial e referenciável, de quaisquer épocas, deva ser exposto à luz e à dinâmica do sentido. Acredito ainda que os mais felizes achados filológicos derivam do grato vício do escanhoamento paratextual, que permite, no sentido de Schleiermacher, a movimentação do leitor-investigador até junto do autor e o do texto original. Já aí, resplendente, o texto mostra-se e faz esquecer, deve obrigatoriamente fazer esquecer toda a acumulação de comentários e de ruídos em volta. Com o ruído em volta, deve o leitor tomar o texto, por ele ser tomado, e esquecer e ouvir o dizer originário, pois ele é memória contra o esquecimento.
Ora, quiseram o bom espírito conselheiro do Professor Doutor Telmo Verdelho e uma bem sucedida perquirição alfarrabística que até mim viesse uma obra de António de Sousa de Macedo, de título Eva, E Ave, ou Maria Triunfante. Theatro da Erudiçam, e Filosofia Christã, saída dos prelos de António Pedrozo Galram, em 1734. Foi esse o início do caminho regressivo: havia que chegar a 1676 e aos textos em vida do Autor, para assim descobrir, na contemplação intraorganísmica, as rugas e fendas de um corpo textual privilegiado, cruzado por luzes e sombras, por “labirintos e fascínios” que só um exemplar da densidade epocal poderia transmitir. Aí está, pois, uma razão indiscutível para que me aproximasse da superfície do texto e o ferisse e eventualmente o venha a esfolar. Manipular o curso desta fonte para um Tesouro da Língua Portuguesa será, se não o é já, um indeclinável prazer. Baralhe-se agora este prazer com a asserção, de novo de Hernâni Cidade, segundo a qual a curiosidade de António de Sousa de Macedo é de “voracidade pantagruélica” e alimentada por “erudição sôfrega”.
Dito isto, direi que a obra que trabalho é um texto sem possibilidade de negação e verdadeiramente positivo. Como, aliás, acontece com o autor António de Sousa de Macedo (1606-1682), que é, em conjunto com uns tantos que não vale a pena citar, um dos actores maiores de outro século de ouro da cultura portuguesa.
Existem diversos testemunhos que permitem afirmar que António de Sousa de Macedo, para além de político e diplomata, era um escritor e intelectual reputado, com parcimoniosa recepção literária e generalizada admiração epocal. Tal estado de graça é comprovado com os actos judicativos que, em diferente tom, se verteram em variadas publicações de então.
Fr. Nuno da Rocha, na censura à segunda edição da Armonia Política (1737), alude ao equilíbrio da construção textual de António de Sousa de Macedo, que permite classificar de harmónica toda a sua obra. D. Francisco Manuel de Melo, nas Obras Métricas , apresenta o nosso Autor como um homem justo e modesto, com valimento superlativo nas Artes Políticas. Ainda então, o celebérrimo Fr. Francisco de Santo Agostinho de Macedo elogia-lhe o carácter de escritor. Mais tarde, um Alexandre Herculano, no século XIX, refere-se a António de Sousa de Macedo como um grande escritor, salientando-lhe ainda a habilidade política. José Simões Dias, estruturado historiador da nossa literatura, acentua a polivalência e o esclarecimento de António de Sousa de Macedo.
Relativamente a Eva, e Ave, destaco o depoimento de um insuspeito Aquilino Ribeiro, que, referindo-se à valia da obra de Macedo, diz ter sido ela a primeira obra a descerrar no seu espírito “os largos horizontes do saber e da madureza humana.” Tal pregnância cultural, que é um modo que percorre toda a criação macedina, encontramo-la expressa desde o início do curso intelectual do escritor seiscentista.
Eva, e Ave é, de facto, um caso invulgar de memória cultural no e do Seiscentismo português. Quando Frei João de Deus expende, na primeira edição de Eva, e Ave (1676), aquele acto judicativo sobre o domínio que o autor revela no conhecimento das lições dos Santos Padres e Doutores, sabia já que essas palavras seriam as primeiras que convalidariam, no particular, o admirável carácter poliédrico do saber de António de Sousa de Macedo. Tal magnanimidade cultural é corroborada coevamente pelo Doutor Frei João da Silveira, que exalça, com indenegável seriedade, a abrangência da estrutura intelectual do escritor. Ferreira Deusdado virá a afirmar que esta obra mística de Macedo “dá ao autor o direito de ser considerado escritor clássico da nossa língua.” Não espanta, por isso, que a obra venha a ser vertida em castelhano (Madrid, 1731), por Diogo Soarez de Figueiroa, e reeditada por acção de Miguel Tornel y Olmos (Múrcia, 1882).
Eva e Ave é, sem dúvida, uma fonte privilegiada para um Tesouro da Língua Portuguesa. De facto, o repositório lexical nele plasmado, com dilatado espaço de leitura (e lembro que houve, no nosso país, edições em 1676 (2), 1700, 1711, 1716, 1720, 1734, 1766), foi um lugar amplamente frequentado e repercutido por privilegiados falantes, que terão, também por essa via, modelizado o discurso colectivo. A obra em apreço, original e lexicalmente rica, mostra a amplíssima “enciclopédia de referência”, que abrange um vasto universo do saber possível de então. Acresce ainda, com acuidade indiscutível, que a obra revela sempre um escritor dotado de elevada competência linguística e metalinguística, bem como de uma consistente competência cultural, apoiada sempre por específica e, por vezes, copiosa bibliografia. Avulta também que os exemplares observados, de edições diversas, reflectem traços de manuseio, alguns mesmo com anotações de diferentes épocas – eis, pois, outro claro sinal da influência de Eva, e Ave na modelização do discurso colectivo.
O corpus textual em análise, que contém mais de trinta mil formas e mais de duzentas e sessenta mil ocorrências, permite algumas breves conclusões, que passam por Eva, e Ave ser:
a) um indenegável “teatro da erudição”;
b) um privilegiado objecto cultural conformador da língua portuguesa;
c) um relevante espaço de fixação de uma sociedade dramática e gesticulante, de acordo com o diagnóstico de Maravall ao tempo barroco (veja-se, em Macedo, a abundante utilização do advérbio ‘não’ ou de palavras ligadas aos temas da fortuna ou da mudança);
d) um exemplificativo caso de como a pragmática do tempo agia sobre o escritor e promovia o fim moral da literatura (basta olhar para o índice de frequências);
e) um caso ecdótico complexo, não tanto pela ilegibilidade textual ou abundância de variantes (os problemas têm que ver com saltos, saltos de palavras ou manchas e algumas correcções), mas mais pelos problemas de colação que um texto em fólio deste tamanho sempre comporta, tanto mais que as notas são inúmeras e quase sempre bem informadas;
f) por último, e sem exaustão, é Eva, e Ave uma obra que, depois da morte do autor, veio a ser publicada, a partir de 1716, em conjunto com o Domínio sobre a Fortuna, e Tribunal da resão, passando a “Peroração” para o final dos dois títulos – tal facto, da responsabilidade, penso, do editor Paschoal da Silva, levanta um problema de acrescentamento que talvez colida com o desejo do Autor. E assim, é importante tentar saber se nalgum documento essa fusão fora prevista por António de Sousa de Macedo ou se se trata, como parece, de acto clandestino não coonestado por vontade autoral.
Em suma, como o diria um Klaas Huizing (O Bebedor de Livros), influenciado por Derrida, a “ciência só ganhou em continuidade e constância com o apogeu da arte da leitura correcta, isto é, da filologia.” Aceito, também, confiadamente essa “verdade”. Parecerá pouco o que convosco aqui partilhei.
Friso: Eva, e Ave de António de Sousa de Macedo é uma obra frequentada e repercutida por falantes privilegiados, cuja riqueza lexical deriva também da enciclopédia de saber que comporta, não espantando por isso a sua ampla difusão e as edições frequentes durante um século. Lida e vivenciada por um vasto público, Eva, e Ave é ainda o espelho da mentalidade seiscentista e das suas particularidades inibidoras e arrebatadoras.
Sem pressa, alguma da informação fornecida por Ana Haterly em Biblos tem vindo a ser alargada e complementada. Por dentro, é bom que em breve comece a falar o miolo do texto. Até lá, concluo dizendo:
“A filologia é essa venerável arte que em primeiro lugar reclama do seu adorador que a acompanhe, que dê tempo ao tempo, que esteja tranquilo, que seja vagaroso – como uma ourivesaria da palavra, de onde tem de sair o trabalho mais puro e cuidadoso, mas de onde não sai nada que não seja feito devagar. Ela própria não o acaba nunca; ensina a ler: ou seja, devagar, profundamente, cuidadosamente, com outros pensamentos, portas que se deixam abertas, dedos suaves e olhos amorosos. Filólogo é aquele que ensina a ler devagar.”

Bibliografia activa:
Solemnia Parnasi Philippo IV. Hispaniarum Regi pro recuperata salute soteria, Madrid, 1624; Flores de España, Excelencias de Portugal: en que brevemente se trata lo mejor de sus historias, y de todas las del mundo, desde su principio hasta nuestros tiempos, y se descubren muchas cosas nuevas de provecho, y curiosidad: primera parte..., En Lisboa: impressas por Jorge Rodriguez, 1631 [2ª ed.: Coimbra, por Antonio Simoens Ferreira, 1737, com a Armonia Politica]; Ulyssippo. Poema heroico, Em Lisboa, por Antonio Alvarez, 1640 [2ª ed.: Lisboa, Typographia Rollandiana, 1848]; Carta que escrivio a un señor de la corte de Inglaterra escrivió el Doctor Antonio de Sousa de Macedo sobre el manifiesto, que por parte del Rey de Castilla publicó su chronista D. Joseph Pellizer, Em Eisboa, na officina de Lourenço de Anveres: a custa de Lourenço de Queirò, 1641 [2ª ed.: Lisboa, por Antonio Alvares,1641]; Juan Caramuel Lobkovvitz, religioso de la orden de Cister, Abad de Melrosa, etc. Convencido en su libro intitulado, Philippus Prudens Caroli V. Imperatoris filius Lusitaniae legitimus Rex demonstratus, impresso en el ano de 1639, y en su repuesta al manifiesto del Reyno de Portugal impresso neste ano de 1642... por el Dotor Antonio de Sousa de Macedo, En Londres, impr. por Ric. Herne, 1642; Publico sentimento da injustiça de Alemanha a El-rei de Hungria, Lisboa, 1642 (Londres, 1644); Sanctissimo Domino nostro Papa Urbano VIII in Ecclesia Dei Praesidi Planctus Catholicus juris gentium pro Legatione Serenissimi, ac potentissimi Principis Joannis IV. Regis Lusitaniae contra Castellanorum calumnias [Doctor Antonius de Sousa de Macedo], Londini, ex officinâ Guillielmi Bristoliae, 1643; Genealogia regum Lusitaniae: Serenissimo Principi Theodosio principi lusitaniae, & C.: Serenissimi ac potentissimi Regis Ioannis IV, primogenito. D./ per Antonium de Sousa de Macedo, Londini, ex officina Richardi Hearn, 1643; Perfectus doctor, in quacumque scientia maxime in jure Canonico et Civili Summorum Auctorum circinis, lineis, coloribus, et penicillis figuratus per Antonium de Sousa de Macedo, Londini: ex officina Richardi Hearn, 1643; Antonii de Sousa de Macedo… Repetitiones ad Leg. Corrupt. penult. Cod. de usu fructu, & habitatione. Et ad Leg. Centurio 15. ff. de vulgari e& pupillari Substitutione, Londini, ex officinâ Richardi Hernei, 1643 ; Caramuel ridiculus Caramueli convicto / per Petrum Garciam...- [Londini ?: s.n.], 1643; Publico sentimento da injustiça de Alemanha a El-rei de Hungria, Londres, 1644; Lusitania liberata ab injusto Castellanorum dominio, Restituta Legitimo Principi Serenissimo Joanni IV. Lusitaniae Algarbiorum, Africae, Arabiae, Persiae, Indiae, Brasiliae, etc.. Regi potentissimo, Summo Pontifici, Imperio, Regibus, Rebuspublicis, Caeterisque Orbis Christiani Principibus Demonstrata per D. Antonium de Sousa de Macedo... Opus., Londini, in officinâ Richardi Heron, 1645; Caramuel ridiculus Caramueli convicto, Londres, 1645 (sob pseudónimo: Pedro Garcia); Panegyrico sobre o milagroso sucesso, com que Deos livrou a el Rey nosso senhor, da sacrilega treição dos castelhanos... / por Antonio de Sousa de Macedo.- Em Lisboa: por Paulo Craesbeeck, 1647; Soneto e Decima com titulo de Epitafio a D. Maria de Attayde nas Memorias Funebres de D. Maria de Attayde, Lisboa, Oficina Craesbeeckiana, 1650; Discurso e Pratica que fez aos Estados Geraes das Provincias unidas estando todos juntos em Cortes por morte do Principe de Orange sobre a Paz com Portugal por cuja negociação era Embaxador a 6 de Maio de 1651, Haia, 1651; Armonia política dos documentos divinos com as conveniencias d'Estado: exemplar de principes no governo dos gloriosissimos reys de Portugal ao serenissimo principe Dom Theodosio / por Antonio de Sousa de Macedo.- Na Haga do Conde: na officina de Samuel Broun impressor ingrez, 1651 [2ª ed.: Coimbra, por Antonio Simoens, 1737, com as Flores de Espanha]; Discours, fait par Monsieur de Sousa de Macedo... prez Messieurs les Estats Generaux, dans leur Assembleé Generale le 6. Mars 1651. Traduit du latin en françois.- [S.l.: s.n.], 1651; Propositions presentées par Monsieur De Souza de Macedo... lesquelles Messieurs les Estats n'ont pas voulu recevoir, n'y mesme lire.- Imprimé a Leyden: [s.n.], 1651; Propositions cathegoriques, et derniere resolution, de Monsieur De Sousa de Macedo... touchant les differens du Bresil.- [S.l.: s.n.], 1651; Reposta [sic] a huma pessoa que pedia se escrevese a vida do santo Principe D. Theodosio, Em Lisboa, na Oficina Craesbeeckiana, 1653 (sem o seu nome); Falla que fez o Doutor Antonio de Sousa de Macedo... no Juramento de Rey do muito alto, e muito poderoso Dom Affonso VI, nosso senhor. Em quarta feira 15. de Novembro 1656, Em Lisboa: na Officina Craesbeeckiana, 1656 [2ª ed.: Lisboa, por Henrique Valente de Oliveira, 1658]; Razon de la guerra entre Portugal y las Provincias Unidas de los Paizes Baxos, con las noticias de la causa de que ha procedido. Translacion del papel que en lengua portugueza se imprimiô en Lisboa este año de 1657.- [S. l.: s.n., 1657?]; Razam da guerra entre Portugal e as Provincias Unidas dos Paizes Baxos, com as noticias da causa de que procedeo, Em Lisboa: empresso por João Alvarez de Leão, 1657 (sem o seu nome). [S. l.: s.n., 1657?]. Impr. eventualmente em Lisboa (capital inicial semelhante à impr. orig. de Lisboa por João Alvarez de Leão, 1657); Een schoon Harangue aen de konincklicke majesteyt Portugael Dom Alphonso den VI. op den Dagh van Syne Krooninge gepronunchieert: door den Heer Antonio De Souza Macedo... in den naem vande drie Staten des Portugaelschen Rijckx. Uyt't Porrugees [sic] vertaelt.- In s'Graven-Hage: by Christianus Calaminus, 1657; Falla que fez o Doutor Antonio de Sousa de Macedo... no Juramento de Rey do muito alto, e muito poderoso Dom Affonso VI, nosso senhor. Em quarta feira 15. de Novembro 1656, Lisboa, por Henrique Valente de Oliveira, 1658; Decisiones Supremi Senatus Justitiae Lusitaniae, et Supremi Consilij Fisci, ac patrimonij Regis. Cum gravissimis Collegis decretae, ac in lucem editae. Per D. Antonium de Sousa de Macedo... Cum triplice indice, Ulissippone, ex praelo Henrici Valente de Oliveira, 1660 [2ª ed.: Lisboa, por João da Costa, 1677, com a obra Apologeticum juridicum pro Conceptione Immaculata Virginis in primo instanti; 3ª ed.: Lisboa, por Bernardo da Costa de Mello, 1699; 4ª ed.: Lisboa, por Bernardo da Costa Carvalho]; Relacion de las Fiestas que se hiezeran en Lisboa, con la nueva del Casamiento de la Serenissima Infanta de Portugal Dona Catalina (ya Reyna de la Gran Bretaña,) con el Serenissimo Rey dela gran Bretaña Carlos Segundo deste nombre. Y todo lo que sucedió hasta embarcase para Inglatierra, Lisboa, en la officina de Henrique Valente de Oliveira, 1662; Proposta, que sendo Secretario de Estado Antonio de Sousa de Macedo fez vocalmente por mandado de Sua Magestade à Junta dos Ecclesiasticos, Cathedraticos, e outras pessoas doutas, eMministros dos Tribunaes no Convento de Saõ Francisco de Lisboa em 8 de Março à tarde de 1663, Lisboa, Of. Henrique Valente de Oliveira, 1663 (com edição em latim pelo mesmo impressor); Relação Summaria do que tinhaõ passado sobre a pertençaõ de se confirmarem por Sua Sactidade os Bispos de Portugal, e suas Conquistas, nomeadas por ElRey, Lisboa, por Henrique Valente de Oliveira, 1663 (com edição em latim pelo mesmo impressor); Mercurio Portuguez, ou Relaçoens dos Sucessos militares entre Portugal, e Castella resumidos a cada mez desde o principio do ano de 1663 até ao fim do ano de 1666, Lisboa, Na Officina de Henrique Valente de Oliveira, 1663-1667; Manuscritos: Direcção politica ao bom governo com documentos Católicos; Exercitacion critica en las Rimas de los Lupercios (prosa e verso); Tractatus analythicus de seruitiis vassallorum remunerandis a Principe et actione pro eis competente[Manuscrito] / D. Antonij de Sousa de Macedo.- [16--]; Diversos Titulos de Familias do Reyno sendo a principal a dos Macedos donde descendia por varonia; Epitome Panegyrico dela vida admirable, y muerte gloriosa de Santa Rosa Maria Virgen Dominicana, En Lisboa, en la officina de Antonio Craesbeeck de Mello, 1670; Eva, e Ave ou Maria triumphante. Theatro da erudiçam, e da philosophia chrystam. Em que se representam os dous estados do mundo: cahido em Eva, e levantado em Ave... Escrevia Antonio de Sousa de Macedo. Primeira, e Segunda parte, Lisboa, na officina de Miguel Deslandes, 1676 [2ª ed.: Lisboa, por Antonio Craesbeeck de Mello, 1676; 3ª ed.: Lisboa: na officina de Miguel Deslandes: a custa de Antonio Leite Pereira, mercador de livros, 1700; 4ª ed.: Lisboa, Officina Deslandesiana, 1711; 5ª ed.: Lisboa, por Paschoal da Sylva, 1716; Lisboa Occidental, Na Officina de Antonio Pedrozo Galram, 1734; Decima impressam, à custa de Joseph Leite Pereira: Lisboa: na Officina de Francisco Borges de Sousa, 1766 ]; Eva, e Ave ou Maria triumphante. Theatro da erudiçam, e da philosophia chrystam. Em que se representam os dous estados do mundo: cahido em Eva, e levantado em Ave... Escrevia Antonio de Sousa de Macedo. Primeira, e Segunda parte. Impresso em Lisboa: á despesa de Antonio Craesbeeck de Mello, impressor da Casa Real, 1676; V. Cl. D. Antonii de Sousa de Macedo... Decisiones Supremi Senatus Justitiae Lusitaniae, & supremi Consilij Fisci, ac patrimonij Regij, cum gravissimis Collegis decretae: triplici indice locupletatae, editio secunda, Ulyssipone, typis, & sumptibus Joannis a Costa, 1677; Dominio sobre a fortuna, e tribunal da razaõ: em que se examinam as felicidades, & se beatifica a vida no patrocinio da Virgem mãy da graça, horoscopo da constellaçaõ melhor afortunada / escrivia Antonio de Sousa de Macedo &c. Lisboa: na officina de Miguel Deslandes: a custa de Antonio Leite Pereira, 1682 [2ª ed.: Lisboa, Paschoal da Silva, 1716, com Eva e Ave]; V. Cl. D. Antonii de Sousa de Macedo... Decisiones Supremi Senatus Justitiae Lusitaniae, & supremi Consilij Fisci, ac patrimonij Regij, cum gravissimis Collegis decretae, triplici indice locupletatae, editio tertia, Ulyssipone, typis Bernardi a Costa de Carvalho, 1699; Eva, e Ave, ou Maria Triumphante. Theatro da erudiçam, e da philosophia christã, Em que se representão os dous estados do mundo: cahido em Eva, e levantado em Ave. No patrocinio da Magestade Augustissima da Rainha dos Ceos. Escrevia Antonio de Sousa de Macedo. Primeira, e segunda parte.- Lisboa: na officina de Miguel Deslandes, Impressor de S. Magestade: a custa de Antonio Leite Pereira, Mercador de Livros, 1700; Eva, e Ave, ou Maria Triunphante: theatro da ervdicam & filosofia chistaa, em que se representäo os dous estados do mundo: cahido em Eva, e levantado em Ave, No patrocinio da Magestade Augustissima da Rainha dos Ceos / escrevia Antonio de Sousa de Macedo, primeyra, e segunda parte.- Lisboa: na Officina Real Deslandesiana, á custa de Carlos do Valle Carneyro, 1711; Eva, e Ave ou Maria Triunfante: Theatro da erudiçam & filosofia christãa, em que se representão os dous estados do mundo : cahido em Eva e levantado em Ave.- Lisboa: na officina de Pascoal da Sylva, 1716, com Dominio sobre a fortuna; Dominio sobre a fortuna, e tribunal da razaõ: em que se examinam as felicidades, & se beatifica a vida no patrocinio da Virgem mãy da graça, horoscopo da constellaçaõ melhor afortunada / escrivia Antonio de Sousa de Macedo &c, Lisboa, Paschoal da Silva, 1716, com Eva e Ave; Eva, e Ave ou Maria Triunfante. Theatro da Erudiçam & Filosofia Christãa, Em que se representão os dous estados do mundo : Cahido em Eva. E levantado em Ave. Primeyra, e segunda parte, offerecida ao Eminentissimo Senhor Nuno da Cunha de Attaide, Presbytero Cardeal da Santa Igreja de Roma, Bispo Inquisidor Gèral, Capellaõ mòr de S. Magestade, do seu Conselho de Estado, & do seu Despacho, &c. Escrevia Antonio de Sousa de Macedo acrescentado nesta quinta impressaõ com o dominio sobre a Fortuna, Lisboa Occidental: na Officina de Antonio Pedrozo Galram, 1720; Eva, y Ave, o, Maria triunfante: theatro de la erudicion, y philosofía christiana en que se representan los dos estados de el mundo : caido en Eva, y levantado en Ave: primera, y segunda parte / escribia Antonio de Sousa de Mazedo ponese tambien el tratado del Dominios sobre la fortuna, del mismo autor; traducela en lengua castellana el doctor don Diego Suarez de Figueroa, Madrid, en la imprenta de la Viuda de Francisco del Hierro, 1731 [2ª ed. castelh.: Murcia, Librería de Miguel Tornel y Olmos, 1882]; Decisiones Supremi Senatus Justitiae Lusitaniae, et Supremi Consilij Fisci, ac Patrimonij Regij, cum gravissimis collegis decretae, V. Cl. D. Antonij de Sousa de Macedo... triplici indice locupletatae, editio quarta, huic editioni accedunt additiones, quae singulas decisiones exornant, & augent / auctore D. Francisco Antonio Xaverio de Almeyda, Conimbricae, apud Ludovicum Seco Ferreyra: a custa de Luis Seco Ferreyra mercador de livros, 1734; Ave. Eva, e Ave ou Maria Triunfante. Theatro da Erudiçam & Filosofia Christãa, Em que se representão os dous estados do mundo : Cahido em Eva. E levantado em Ave. Primeyra, e segunda parte, offerecida ao Eminentissimo Senhor Nuno da Cunha de Attaide, Presbytero Cardeal da Santa Igreja de Roma, Bispo Inquisidor Gèral, Capellaõ mòr de S. Magestade, do seu Conselho de Estado, & do seu Despacho, &c. Escrevia Antonio de Sousa de Macedo acrescentado nesta quinta impressaõ com o dominio sobre a Fortuna, - Lisboa Occidental, Na Officina de Antonio Pedrozo Galram, A’ custa de Miguel de Almeyda de Vasconcellos, Livreyro das Tres Ordens Militares, 1734; Flores de España, Excelencias de Portugal. En que brevemente se trata lo mejor de sus historias, y de todas las del mundo, desde su principio hasta nuestros tiempos, y se descubren muchas cosas nuevas de provecho, y curiosidad: primera parte..., Coimbra, por Antonio Simoens Ferreira, 1737, com a Armonia Politica; Armonia política dos documentos divinos com as conveniencias d'Estado: exemplar de principes no governo dos gloriosissimos reys de Portugal ao serenissimo principe Dom Theodosio / por António de Sousa de Macedo.- Coimbra: Na Off. António Simoens Ferreyra, 1737; Eva, e Ave ou Maria Triunfante: Theatro da erudiçam & filosofia christãa, em que se representão os dous estados do mundo : cahido em Eva e levantado em Ave.- Decima impressam, à custa de Joseph Leite Pereira: Lisboa: na Officina de Francisco Borges de Sousa, 1766; Eva y Ave ó María Triunfante: Teatro de la erudicion y filosofía christiana, en que se representan los dos estados del mundo : caido em Eva y levantado en Ave, escrita en portugués por Antonio de Sousa de Macedo y traducida al castellano por el Dr. Diego Suarez de Figueroa.- Murcia: Librería de Miguel Tornel y Olmos, 1882; Duas cartas escritas de Inglaterra a el-rei D. Joäo IV / [por] António de Sousa de Macedo, publicadas por Edgar Prestage.- Lisboa: Academia das Sciencias de Lisboa, 1916; Flores de España Excelencias de Portugal, Lisboa, Alcalá, 2003. Edição Fac Símile. “IMPERITURA. ANTIQUORUM AUCTORUM OPERA SELECTA”- I. Prefácio de Pedro da Costa de Sousa de Macedo (Villa Franca).



ANTÓNIO DE SOUSA DE MACEDO (1606-1682)- Escritor e homem público nascido no Porto. Doutorado em Direito Civil pela Universidade de Coimbra. Desembargador da Casa da Suplicação, secretário da embaixada a Londres no tempo de D. João IV, embaixador na Holanda e secretário de Estado de D. Afonso VI. Faleceu em Lisboa.

Eva, e Ave de António de Sousa de Macedo é uma obra frequentada e repercutida por falantes privilegiados, cuja riqueza lexical deriva também da enciclopédia de saber que comporta, não espantando por isso a sua ampla difusão e as edições frequentes durante um século. Lida e vivenciada por um vasto público, Eva, e Ave é ainda o espelho da mentalidade seiscentista e das suas particularidades inibidoras e arrebatadoras.

PRINCIPAL BIBLIOGRAFIA: Flores de España (1631), Ulyssipo (1640), Eva, e Ave (1676), Dominio sobre a Fortuna (1682).





2006-05-09

esboços traços formas


esboços traços formas conversas silenciosas
espessuras em doca seca ventos de transeuntes
anónimos que ficam a boiar-me na pedra deste momento.
um momento branco raiado de tempestades
calmas. calmantes. gestos e dedos que só eu
detenho na sombra animada das tardes de
inverno. para que tudo na tua face faça sentido.

(Isabel Mendes Ferreira, Erato )

2006-05-08

"Matando a sede nas fontes de Fátima": outro póstumo de Rodrigo Emílio




Escritor que o é não morre nunca, mesmo que a arca, já enxuta, seque ao vento. Escritores há, como Rodrigo Emílio, que de tão visceralmente poetas não cessam nunca de nos alarmar. Assim acontece com a natural misteriologia religiosa que se desprende deste altar poético de título Matando a sede nas fontes de Fátima (2006).
Deslargando a constante querela, quase dissídio opositivo, entre escritor católico e católico escritor, temática, aliás, fulgurantemente demarcada e debatida por Álvaro Ribeiro e José Carlos Seabra Pereira, avanço dizendo que a colectânea poética que apresento se inscreve no “cursus” mariano inscrito na matriz mais perene da literatura portuguesa, para logo romper, em sutura, com o modo celebrativo comum, arriscando todas as potencialidades de uma língua que é tradição e superação. A arte de Rodrigo Emílio assim se mostra, transmissiva e vigilante.
Estes “Poemas de Fé” abrem com uma informada “Tábua Bibliográfica” do Autor, seguindo-se-lhe um importante “Elóquio” de António Manuel Couto Viana que, não desdizendo do vezo religiosista da obra, antes exalça o valor poético da arte emiliana. Referindo-se às loas à Virgem, Couto Viana, em passo final, conclui: “Qualquer que as leia dispensa a intervenção do divino prodígio para se arrebatar.”
Poesia com família, isto é, integrantemente transmissora de ideologia e valores, é à família mais íntima que as “Dedicatórias” se destinam, antepostas que estão ao início dos “Poemas de Fé”. Aqui então o início do deslumbrado caminho fideísta depós um mistério de alumbração que é efusão lírica, admonição conselheira (“Se já / ninguém, aqui, / te seca / a lágrima, / pega / - pega / em ti / e vai a Fátima!”), fulgurante reaparição, sentida litania e nomeação (“Fátima: alto-mar / e altar-mor!”).
De “Outras Misteriologias” promanam momentos poéticos singulares. Respigo, como exemplo, o poema “Último Reduto” (p. 105), que não deixou ainda de ressoar em mim uma força inefável: “Fixei morada / dentro de mim: / residência vigiada / da saída à entrada, da sacada ao jardim… // Torre blindada. // Torre de marfim!”.
Com “Posfácio” de Silva Resende, este novo livro de Rodrigo Emílio é mais uma pegada importante de um escritor nodal. Quem ficará, pois, indiferente a este valioso “reduto” poético?

2006-05-07

4 quadros para Degas


I
RETRATO DO ARTISTA
O rosto e o espelho
o génio e a chama
dos olhos caem, entrecortados.
Das mãos o voo
entrelaçadas nos pincéis.
Nas costas
o vazio do sonho
o labirinto da criação.
II
MENDIGA ROMANA
O pão está deitado,
abandonado;
a tigela jaz partida,
estendida.
Em Roma, na rua,
sentada no limiar da porta,
a mendiga, metal no chão,
olha,
à espera da alegria, que triste esconde.
III
SEMIRAMIS CONSTRUINDO BABILÓNIA
Semiramis, rodeada,
de alma ateada,
desfere um olhar
e faz nascer da morte.
Assim a arte permanece,
viva,
antes que alguém a mate.
IV.
JOVENS ESPARTANOS
Elas convidam-nos.
Nus, eles, olham-nas,
tomados de espanto.

2006-05-05

O chão e o lume (romance)


CAPÍTULO I

Martim de Gouveia e Sousa

Se calhar o sono invade o comboio e fende a noite. Dentro, uma amálgama de corpos balança na linha do Vouga dormindo descansadamente. O abandono cinzento de tudo convida à leitura. Nada comigo trouxe, apenas a disponibilidade para tudo sorver, sem perguntas. No chão da carruagem, quase roto, o cabeçalho do jornal “O Tópico” dá-se à curiosidade. Sem alternativa, tomo-o nas mãos e distraio os olhos, cansados já do torpor em volta. Passo a primeira página cheia de bulício académico – “Semana da Ciência e Tecnologia para a Juventude em Viseu – Foi um sucesso só e apenas!” – e rejubilo com a página seguinte. Um arrebatador poema fala de “200 anos / de um jogo de prazer”. Quase estranhamente, o texto seguinte recua os mesmos anos. E leio:

MARIMORTE


«Marimorte, a mais doce de todas as mortes conhecidas do homem".
(James Joyce, Ulisses)


15 de Outubro de 1808 -
Preciso preservar a minha identidade. Abomino o dever de devorar catarpácios. Sempre que a obrigação me assalta, fico assolado por um langor que me anestesia a vontade. Há um tédio em volta que aterroriza. Não sei se as sombras que me povoam os sonhos prenunciam algo. Tudo tem sido pensado e repensado, e só encontro refrigério no bom Lucrécio, esse visionário da letargia. Admiro-o quando, como eu, se deu conta de que a felicidade emana da Natureza; admiro-o por acreditar, ao contrário de mim, que tudo evolui para melhor. Eu confio mais nas involuções. Menti há pouco ao dizer que só o autor do De rerum natura me dava ânimo. É verdade, sem dúvida, que o romance que trago em mãos me tem dado momentos inesquecíveis. No entanto, esse gozo é passageiro. Há em mim uma profunda insatisfação - desejo dizer a novidade, e nunca dela pareço aproximar-me. Afinal, sou como as águas que desenfreadamente correm e nunca encontram o seu pousio.
As águas vão e vêm, puros influxos também de sangue.

9 de Dezembro de 1811 –
Quando pensei que iria escrever um diário, ainda não pensava que lhe haveria de chamar anuário. As ideias têm-se-me amontoado e prometi-me lançá-las ao papel só depois de sedimentadas. Não é fácil escrever-se o que se pensa. Escrever é penoso - às vezes há um enorme bloco lítico que necessita ser polido gradualmente. Mas acredito no génio criador, com os seus defeitos. Irritam-me aqueles cuja forma de afirmação é a força. Eu e o meu amigo T.... fomos vítimas de expulsão ideológica, por um panfleto. A universidade não é exemplo, é força, é castigo... Reparo de novo que passaram três anos. O que não se passou entretanto!... Escrevi, casei-me e conheci G..... .G..... ensinou-se a agir, enquanto o amor ia desaparecendo. O quantum sentimental esboroou-se e passei-me a corresponder com E……
Em casa, quando olho para H….. (é certo o nome da minha mulher), vejo a solidão a instalar-se. Pensei abandoná-la, mas nos seus olhos há sempre um lago que me repreende. E eu estaco no desígnio, porque a água me atrai.

15 de Janeiro de 1812 -
Quando H..... me olha, deixo de ser eu. Como dizer-lhe que na vida tudo passa, até os afectos? Revejo aquele olhar sibilino que me mira pausadamente, à espera de uma palavra. Nesses momentos, abandono o corpo e esqueço que existo. Um dia deixarei de me preocupar com o que H..... pensa. Por que raio me inspirará ela um misto de terror e culpa?
Deixei de me corresponder com E….. D. Descobri que a velhice me acabrunha e ela tinha mais dez anos do que eu. Angustia-me a descoberta de uma ruga, bem como a rápida sucessão dos dias. Junto dela, descobri-me em processo e abandonei-a sem um aviso, para sempre. Foi por essa altura que cumpri um desejo que há muito tinha em mim: pegar nos meus poemas e lançá-los pelos ares e pelos mares. Que felicidade ver os balões subir e as garrafas sulcando as águas! Tenho dado comigo a pensar no paradeiro das mensagens e apenas descortino um poço sem fundo. A água atrai.

19 de Julho de 1813 –
Como a vida é fingimento! H.... deu-me um filho. Quero-o tanto quanto a não quero a ela. E como esse tanto é muito!... Revejo-me no rosto da criança, ao mesmo tempo que procuro abandonar H.... . Por que será que a chuva não cessa de cair?

16 de Novembro de 1813-
Sinto-me livre. As grilhetas desapareceram. Agora posso de novo olhar o céu, as nuvens, o vento ou a chuva. H.... e eu separámo-nos, amigavelmente, in aeternum. Não há em mim uma réstia de saudade, e pensar nisso põe-me feliz. A minha felicidade, porém, é transitória. É que não pode haver felicidade sem liberdade. Um sentimento, renovado, vai-se apossando de mim.
Ontem vi M...., hoje sinto-a em mim. Como Anacreonte, também eu, ébrio de amor, me lanço do rochedo da Leucádia e penetro as cinzentas águas do mar.

2 de Fevereiro de 1816 –
Sinto-me culpado H....suicidou-se. Lembro claramente a forma amistosa como decidimos a separação. Ela até sorrira e pela primeira vez me parecera bela. Não houve um choro, um reparo ou uma agressão - tudo foi transparente. Onde estará. pois, esta culpa que me cerca e acusa? Que terei eu a ver com esse acto extremo, fruto certamente de uma situação limite?
Nunca o saberei, eu sei. E por isso mesmo esta permanente incerteza que me invade e impede contemplar o mundo com esperança. A morte não é esquecimento - a de H.... traz-me a memória do desencontro, onda solitária contra o molhe. A culpa atrai o castigo. Estou pronto. A ti voltarei na dor.

13 de Maio de 1818 –
O meu filho morreu. O destino foi implacável na atribuição da culpa. Culpado duplamente: das mortes dela e dele - caladas águas do destino.
15 de Setembro de 1821 -
Enquanto ouço o trabalhar do relógio, penso no que tenho feito e concluo devagar: que o buscado é inatingível; que a vida é uma armadilha; que o amor é um sonorífero; que a dor sobrepuja a felicidade; que eu já não existo. Existir é sentir o ser e eu sinto-me ausente. Por mim passaram mulheres às miríades, e eu sempre só. Procurar não é encontrar. Quando a pena me dita o poema a mão já não obedece. Memoro, sequioso, o tempo de tudo em flor - o riso azul da manhã, a sinfonia dos pássaros, o bulício das pressas dos outros, a calma da noite que chega. Aos 28 anos, sinto a embarcação insegura e sem rumo.

22 de Janeiro de 1821-
Sinto que lentamente vou perdendo os contornos da memória. Sobre mim sustento um mundo de dúvidas. leio Catulo e adoro as suas nugae. Impressiona-me a sua sinceridade: nele se documenta a oposição sentimental do homem; nele se aprecia o eterno calcorreio entre o fogo e as cinzas, entre a felicidade e a tristeza profunda, entre o ódio e o amor mais delicado.

19 de Dezembro de 1821-
Contemplo o rio que avisto da janela do meu quarto e desejo explodir. As águas correm e quem passa sou eu. E não sei o que fazer. Remotamente me apercebo que refugi ao propósito de escrever as ideias já decantadas. A corrente seguindo o destino; eu, sua vítima, relembrando as memórias do passado, aqui, por sobre as águas que vão. Água é passagem, é travessia, eternidade não consentida, é pureza essenciadora dos caracteres: a água é vida, porque a vida é morte. Dou-me conta que detesto a beleza, ou melhor, que ela me oferta. em baixela de prata cravejada de rara pedraria, a fórmula de caducidade. E eu não sei o que pensar. Quantas vezes, chegada a manhã, sinto o calor da noite, a sua languidez, a sua dança lenta, enquanto em mim perpassa o desencanto?!... A noite afoga os pensamentos num enleio acridoce, e tudo se torna nebuloso e distante. Mas, estranho sortilégio, como o charco oferece ao colhedor risonhos nenúfares, assim a noite oferta àqueles que a desfrutam uma maravilhosa recompensa - o dia-luz. Luz, trevas, pulsão para o poço infinito.

5 de Março de 1822 –
O ópio inebria-me as forças, mas proporciona-me jorros de luz. Este perfume que se levanta incensa-me a alma. Mal distingo o passado do presente. Tudo me parece igual e definitivo. Não tenho subido ao convés. A viagem tem decorrido sem pausas, inexorável. Os momentos são intensos, porque são finais. Uma inominável força prende-me ao quarto, último berço, e aponta-me o destino. Apercebo-me do balancear das ondas e do fascínio a que não poderei resistir. O ruído das vozes dos marinheiros e das gaivotas debicando o peixe na proa chama-me ao mundo e eu respondo ausente. Águas, ágatas, joalharia, espelho final, para todos o meu adeus...

Chamo-me V.... e recolhi estas impressões de uma pequena caixa engastada de pérolas que encontrei nas areias da praia fronteira à minha casa. A custo consegui abri-la e decifrar as puídas letras.
O resultado aqui fica, com um único comentário - quão ternas se tornam as vozes amarguradas!

L...., 25 de Fevereiro de 1823
Paulo Pontes


Absorto ainda, os freios do comboio irrompem da página, anunciando a chegada à estação de Viseu. Pressuroso, levanto-me, deixando o jornal por cima do banco.











2006-05-03

MEMÓRIA


Na morte de René Garay

Adelto Gonçalves (*)

Com a morte do professor René Pedro Garay (1949-2006), em Nova York, dia 29 de abril, as literaturas portuguesa e brasileira perderam um grande amigo e divulgador. Nascido em Havana, Garay, professor do City College-Graduate School/City University of New York (Cuny), escreveu, entre outros trabalhos, Judith Teixeira: o Modernismo Sáfico Português (Lisboa, Universitária Editora, 2002), em que estudou a obra de uma das maiores poetisas portuguesas do século XX, retirando-a do limbo a que havia sido relegada não só pelo preconceito de seus contemporâneos como pela indiferença de seus pósteros.
Sobre o assunto, Garay já havia escrito o ensaio "Sexus Sequor: Judite Teixeira e o discurso modernista português", publicado em Faces de Eva - Revista de Estudos sobre a Mulher, nº 5, 2001, da Universidade Nova de Lisboa, que trouxe na capa o rosto de Judith Teixeira (1880-1959), e outro que saiu em Artes & Artes, jornal literário da Universitária Editora, de Lisboa, além de ter pronunciado palestras em universidades portuguesas e norte-americanas.
O livro de Garay encontra-se nas bibliotecas da Universidade de Oxford, da Universidade de Chicago e da Universidade do Texas, em Austin, e faz parte de uma lista de leituras para um curso sobre o fascismo na literatura portuguesa na Universidade de Cambridge.
Na Cuny, dirigia desde 1992 o Programa de Literaturas Hispano-americana e Luso-Brasileira, que oferece aulas sobre o Modernismo português e brasileiro, Camões, a lírica medieval galaico-portuguesa, o Século de Ouro espanhol e o teatro ibérico. Publicou ainda Gil Vicente and the Development of the Comedia (University of North Carolina Press, 1989) e The Play of Rubena (Nova York, National Hispanic Foundation for the Humanities, 1993), em co-autoria com José Suárez, edição em inglês da Comédia de Rubena, de Gil Vicente.
Escreveu “First Encounters: Epic, Gender and the Portuguese Overseas Venture”, sétimo capítulo do livro Global Impact of the Portuguese Language (New Brunswick and London, Transaction Publishers, 2001) e, mais recentemente, cuidou da publicação de uma edição comemorativa do Monólogo do Vaqueiro, de Gil Vicente.
Publicou numerosos artigos e ensaios acadêmicos sobre literatura luso-brasileira e hispano-americana em Portugal, México, Brasil e Estados Unidos. Entre os autores brasileiros que estudou, estão Machado de Assis, Murilo Rubião, Moacyr Scliar, Graciliano Ramos, Dalton Trevisan e João Ubaldo Ribeiro.
No ano passado, passou alguns meses em Portugal, hospedado em Sesimbra, de onde, diariamente, viajava para Lisboa para fazer pesquisas na Biblioteca Nacional. Foi lá que começou a sentir os primeiros sintomas da doença que o levou. Retornou a Nova York já sabendo que não lhe restava muito tempo de vida.
Uma das maiores satisfações que teve, nos últimos tempos, como me contou por mensagem eletrônica, foi receber o exemplar que lhe enviei da bem cuidada Revista do Centro de Estudos Portugueses, da Universidade Federal de Minas Gerais, nº 34, v. 25, de janeiro-dezembro de 2005, que traz na abertura o ensaio que escreveu em parceria com Raúl Romero, “Epifanía y poema en prosa: el Livro do Desasssossego de Fernando Pessoa/Bernardo Soares”. Esse trabalho havia sido desenvolvido especialmente para a revista Forma Breve, da Universidade de Aveiro, nº 2, 2004.
Garay escreveu ainda ensaios sobre Luís de Camões, Camilo Pessanha, Almada Negreiros, Almeida Faria e Mário Máximo. Para desenvolver muitos de seus trabalhos, recebeu bolsas da Fundação Fulbright, dos Estados Unidos, e da Fundação Calouste Gulbenkian e da Fundação Luso-Americana, de Portugal. Era membro do conselho editorial da revista Signótica, da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Goiás, e da revista The Literature of Travel and Exploration (Londres, Fitzroy Dearborn Publishers).
Nos últimos tempos, orientou a professora brasileira Regina Chaudhry em monografia sobre o mito de Inês de Castro e sua influência na produção poética brasileira do século XX, no âmbito de estudos de doutoramento na Cuny, ainda inédita. Garay concluiu mestrado em Literatura Espanhola na University of South Florida, em 1974, e em Literatura Portuguesa na Vanderbilt University, em 1979, onde obteve o seu doutorado em Literaturas Espanhola e Portuguesa em 1984.
Ensinou na Vanderbilt University, University of South Florida, The University of the South e no Presbyterian College. Foi também professor convidado da Universidade Nova de Lisboa, Universidade Aberta e Universidade Autônoma de Lisboa, da University of Puerto Rico, da Yale University, do New College, da Flórida, Rutgers University, de Newark, e da Universidade de Salamanca, Espanha.

_____________________

(*) Adelto Gonçalves, doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo, é autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage - o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail: adelto@unisanta.br

2006-05-02

adeus, René...

RENÉ PEDRO GARAY (1949-2006)

Sem palavras, a morte chegou. Nada digo. Só este silêncio em nós. E um sorriso impotente, celebrativo de um modo honestamente exemplar, na ciência e na partilha. Lusófilo criterioso e empenhado, sempre lhe admirei a capacidade inusual de dar o seu a seu dono, rara qualidade, aliás, no mundo investigativo. Admirador de Judith Teixeira, esse sonho nos continuará unindo. Tarde a noite a chegar de novo a um vínculo que de Viseu sorri nas estrelas de Nova Iorque.


2006-05-01

a minha carne dentro da pedra

Graça Martins, 1982.

a minha carne dentro da pedra
torna-se líquen e cristal
de sabedoria.


agora é o tempo da iniciação.

noite após noite o medo


noite após noite o medo
como se da noite
viesse o silêncio que te habita.


mesmo os últimos ficaremos.